Como vivem os imigrantes brasileiros que trabalham no Japão?

Foto: Bertel Schmitt via Wikimedia Commons

Por Juliana Sayuri

Dekassegui pode ser traduzido como “sair de casa para trabalhar”. Decasségui, a versão aportuguesada, entrou nos nossos dicionários na década de 2000, quando se consolidava o fenômeno de nipo-brasileiros que atravessaram meio-mundo para trabalhar em fábricas do Japão. Atualmente, cerca de 211 mil brasileiros vivem no arquipélago, muitos deles nessas condições.

Neste livro, Mariana Shinohara Roncato investiga o assunto sob as lentes de classe, gênero, raça e etnia. A socióloga voltou a Toyota, onde passou parte da infância até a juventude, para ouvir dos imigrantes como são as condições de trabalho na “cidade-fábrica” que abriga a sede da montadora Toyota Motors. Mais especificamente, voltou ao Homidanchi, um conjunto habitacional conhecido como Little Brazil por abrigar mais de mil famílias brasileiras.

Roncato revela como certas condições de trabalho seguem sendo reproduzidas na indústria japonesa.
Seu pai trabalhou por muito tempo como operário na década de 1990, submetido a jornadas semelhantes às dos relatos colhidos ao longo da investigação de campo que a autora fez entre 2016 e 2017: contratos de trabalho terceirizados, mediados por empreiteiras, com pagamentos por hora trabalhada e remunerações distintas conforme a nacionalidade e o gênero. Mulheres recebem menos e têm outras jornadas de trabalho dentro de casa. Mães solo ficam isoladas e vulneráveis. E, segundo relatos, não é incomum uma operária chinesa receber menos que uma brasileira, que ganha menos que uma japonesa. É “óbvio” que as condições são diferentes, diz um dos entrevistados, ao descrever com naturalidade as discriminações salariais entre japoneses e imigrantes, e dos imigrantes entre si.

Roncato narra um episódio em que um grupo nacionalista escancarou essa diferenciação: um ônibus rondou o “Homi”, o conjunto habitacional, propagando discursos de ódio contra imigrantes num megafone. Muitos brasileiros não imaginavam que passariam por situações assim quando embarcaram rumo ao Japão. Na verdade, a maioria tinha expectativa de “sair de casa para trabalhar”, guardar um bom dinheiro e voltar ao Brasil. Não foi o que aconteceu com muitos deles, que foram ficando, ficando, ficando, como que “para sempre temporários”, à margem de uma série de direitos, inclusive políticos.

A autora revela como a imigração, embora embalada com a perspectiva de um futuro melhor, é impactada por desigualdades socioeconômicas, discriminações étnico-raciais e opressões de gênero. Poderia ser diferente num mundo capitalista?

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Juliana Sayuri é jornalista, historiadora e autora de Viúvas Ilustres (2021), Paris – Palestina (2020), Paris – Buenos Aires (2018) e Diplô: Paris – Porto Alegre (2016), finalista do Prêmio Jabuti. Fez doutorado na Universidade de São Paulo, com estágio doutoral via École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina e foi visiting scholar na Columbia University (Nova York). Trabalhou na Editora Abril, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Nexo. É editora-assistente do TAB Uol.


Os trabalhadores imigrantes no Japão são conhecidos como decasséguis, que significa algo como “sair para trabalhar”. A comunidade brasileira que vive no arquipélago nessas condições contabiliza mais de 200 mil pessoas, em 30 anos de fluxo migratório.

Em Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social, nova obra da coleção Mundo do Trabalho, Marina Shinohara Roncato investiga o fenômeno migratório sob as lentes de classe, gênero, raça e etnia, entrelaçados à teoria da reprodução social.

A autora, que viveu dez anos como imigrante no Japão, retorna à cidade de Toyota para uma pesquisa in loco sobre as condições de trabalho dos brasileiros que trabalham nas fábricas da montadora de mesmo nome e em outros empreendimentos.

A carência da força de trabalho japonesa, somada à questão econômica, conflitos étnicos e de gênero, gera contradições visíveis que se manifestam no país por meio da exploração e opressão.

“Em média, um decasségui trabalha seis dias por semana, com uma jornada diária de trabalho de dez, doze horas, podendo chegar a mais horas dependendo da produção.

Diferentemente de trabalhadores com contratos por tempo indeterminado – os japoneses –, o decasségui recebe por hora, por isso a necessidade de cumprir horas extras para assegurar sua subsistência e, se possível, constituir uma poupança”.

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