Fronteiras do trabalho: da vida cotidiana para a teoria
Leia o prefácio de Ricardo Antunes a "Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social", novo título da coleção Mundo do Trabalho que chega em primeira mão aos assinantes do Armas da Crítica de julho de 2026.
Imagem: WikiCommons
Por Ricardo Antunes
Mariana Shinohara Roncato conheceu, na vida real, uma estranha dialética que caracteriza a classe trabalhadora imigrante e, em particular, o ser decasségui. Nascida no Brasil, tendo mãe descendente de japoneses e pai filho de italiano e lituana, aos 9 anos de idade foi com a família para o Japão, viver na cidade de Toyota, conhecida pela fábrica automotiva com forte presença masculina, que reservava às mulheres e aos imigrantes o espaço fora da fábrica-mãe, no qual visceja o mundo da terceirização e da precarização.
Desde logo, mesmo antes de pensar em estudar e refletir sobre sua experiência, Mariana vivenciava uma realidade que macula, ainda hoje, a dignidade de ser imigrante, estampada na forte diferenciação entre nativo e forâneo.
Na terra do sol nascente, onde viveu muitos anos, a jovem imigrante não se via acolhida e reconhecida como nipônica. Anos depois, ao retornar ao seu país de origem, o país dos trópicos, era reconhecida mais pelo seu biotipo de mulher japonesa, do que como brasileira. E foi percorrendo os caminhos entre vida, estudo e trabalho que, pouco a pouco, floresceu a ideia de mergulhar para melhor compreender o modo de ser decasségui.
Foi o que a levou a seguir pelas múltiplas trilhas da vida laborativa: nikkeis no Japão (Burajirujin); Homidanchi e a vida imigrante; Kafuchōsei e o patriarcado japonês; o working poor e as lutas das imigrantes.
Foi seguindo esse rico percurso, entre a vida cotidiana decasségui e a reflexão sobre essa realidade, que a autora agora nos brinda com seu belíssimo livro, resultado de sua tese de doutorado realizada no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, o mesmo espaço intelectual em que fez sua excelente dissertação de mestrado. E, em ambos os casos, digo com enorme felicidade, pude ser seu orientador.
Assim, mergulhada na efetiva concretude e na dura realidade, Mariana Shinohara Roncato, ancorada na teoria da reprodução social, articulou criativamente o nó górdio que enfeixa as complexas e imbricadas dimensões entre classe, gênero, etnia e raça, desvendando enigmas presentes no modo de ser decasségui. São novos caminhos para uma melhor intelecção dos dilemas e contradições que caracterizam o polo mais universal da classe trabalhadora, aquele que compreende o trabalho imigrante.
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Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do tabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil I, II, III e IV, Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual, Uberização, trabalho digital e indústria 4.0 e Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais, todos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Os sentidos do trabalho (também publicado nos EUA, Inglaterra/Holanda, Itália, Portugal, Índia e Argentina), O caracol e sua concha, O continente do labor, O privilégio da servidão e Capitalismo pandêmico.
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Os trabalhadores imigrantes no Japão são conhecidos como decasséguis, que significa algo como “sair para trabalhar”. A comunidade brasileira que vive no arquipélago nessas condições contabiliza mais de 200 mil pessoas, em 30 anos de fluxo migratório.
Em Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social, nova obra da coleção Mundo do Trabalho, Marina Shinohara Roncato investiga o fenômeno migratório sob as lentes de classe, gênero, raça e etnia, entrelaçados à teoria da reprodução social.

A autora, que viveu dez anos como imigrante no Japão, retorna à cidade de Toyota para uma pesquisa in loco sobre as condições de trabalho dos brasileiros que trabalham nas fábricas da montadora de mesmo nome e em outros empreendimentos.
A carência da força de trabalho japonesa, somada à questão econômica, conflitos étnicos e de gênero, gera contradições visíveis que se manifestam no país por meio da exploração e opressão.
“Em média, um decasségui trabalha seis dias por semana, com uma jornada diária de trabalho de dez, doze horas, podendo chegar a mais horas dependendo da produção.
Diferentemente de trabalhadores com contratos por tempo indeterminado – os japoneses –, o decasségui recebe por hora, por isso a necessidade de cumprir horas extras para assegurar sua subsistência e, se possível, constituir uma poupança”.

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