A revolução é impossível (palavras de um morto irresponsável)

Imagem: WikiCommons
Por Mauro Luis Iasi
“Não, nossa ciência não pode ser uma ilusão. Ilusão seria imaginar que podemos conseguir em outro lugar, o que a ciência nos pode dar.”
— Sigmund Freud, Futuro de uma Ilusão
E se a revolução for impossível? Como disse amargamente Bertold Brecht um dia, será que “somos o que restou, lançados para fora da corrente viva… ficando para trás, por ninguém compreendidos e a ninguém compreendendo”?
Diante de todas as possibilidades históricas abertas no devir, essa é uma delas e não devemos contorná-la pelo incômodo que nos causa com bravatas e meras afirmações de fé. Em uma instigante provocação feita aqui no Blog da Boitempo, com o título “A irresponsabilidade da esquerda radical e revolucionária no Brasil: um manifesto“, meu colega da UFRJ, Ronaldo Tadeu de Souza, afirma que depois da morte de um esquerda social-liberal institucional, “estamos a presenciar também o fenecimento da esquerda radical e revolucionária (quiçá, marxista)”.
Segundo ele, a irresponsabilidade da esquerda radical em processo de fenecimento se expressaria ao não apresentar um projeto alternativo à esquerda institucional da ordem, formando uma “muralha unitária” contra o lulismo e optando pelo “espaço da não-existência”.
Vamos assumir por um momento tal premissa, em si mesma correta, ainda que possamos discordar de um ou outro aspecto dos argumentos ou conclusões do autor. Estamos mortos, ou moribundos, e a classe se divide entre alternativas que não são as suas, como disse em texto recente, entre o que tínhamos no pesadelo bolsonarista e o que temos nos limites do lulismo.
Não que a esquerda revolucionária não tenha projeto, mas podemos assumir o fato de que ninguém se digna a conhecê-lo para criticá-lo e fica invisível diante do consenso da pequena política e suas armadilhas. No entanto, devemos nos perguntar o que resulta desse impasse.
Entretanto, preliminarmente, pensemos um pouco sobre as determinações que tornariam a revolução brasileira impossível. Devemos colocar de imediato um fator localizado nas chamados condições subjetivas, tal como Lênin as define em seu texto sobre a Situação Revolucionária (“A falência da II Internacional”, de 1915). Para nosso querido revolucionário russo, já morto, nem toda situação revolucionária torna-se uma revolução caso não se some às condições objetivas (agravamento da miséria e angústia das massas, crise nas cúpulas e ação independente das massas) um fator subjetivo, a saber, a capacidade da classe revolucionária empreender ações revolucionárias de massa que derrubem o regime vigente.
Essa capacidade, como sabemos, se expressa na elaboração de formulações estratégicas e táticas e dos meios organizativos para implementá-las, assim como, fator decisivo, a organicidade junto a classe que pode fazer desta intenção subjetiva uma efetiva ação revolucionária de massas.
Nossa primeira conclusão, portanto, é que se nós não estivermos por lá nesse momento, por morte ou irresponsabilidade, não ocorrerá uma revolução socialista, mas existem muitos tipos de revolução, isto é, as situações revolucionárias, por serem objetivas, continuariam se apresentando mesmo sem a nossa presença, de forma a serem capturadas por outras intencionalidades históricas que não a nossa.
Uma outra determinação propalada para compreender a impossibilidade da revolução seria a morte não da esquerda, mas da classe, tal como se apresentou na maior ofensiva ideológica da ordem nas décadas finais do século passado. Autores como André Gorz, de Adeus ao proletariado, e todas as facetas dos que afirmaram uma sociedade pós-industrial, como Alain Touraine, Daniel Bell, Ralf Dahrendorf e mesmo – infelizmente – Jacob Gorender, afirmam, de diferentes modos e com argumentos distintos, o fim da centralidade das classes, ancorado em mudanças substanciais no modo de produção.
A pioneira nessa trilha foi, sem dúvida, Hannah Arendt em seu A condição humana, de 1958, que vincula a superação do trabalho pelo desenvolvimento da tecnologia, no que é seguida por Habermas, em seu excerto sobre o fim da sociedade do trabalho em O discurso filosófico da modernidade, de 1985.
Já tratamos muito desse tema nos livros O dilema de Hamlet (2002), Metamorfoses da consciência de classe (2006), Estado, política e ideologia (2017), Consciência e ideologia (2022) e outros. Nesta coluna, devemos resgatar somente que as profundas mudanças nos padrões de acumulação, a tecnologia e o crescente parasitismo, segundo nossa análise, não alteram o fato que ainda estamos sob a égide do modo de produção capitalista fundado numa sociedade de classes e na exploração do trabalho. As alterações significativas no capitalismo contemporâneo, alteraram, certamente, a morfologia da classe trabalhadora, como afirma Ricardo Antunes, mas não o fato de que a atual sociedade é uma sociedade de classes e, muito menos, que a dinâmica central de suas contradições se apresenta como luta de classes, como foi obrigado a reconhecer, tardiamente, o pós-moderno Boaventura de Sousa Santos – que, dizem, está vivo mas não passa muito bem.
Nossa segunda conclusão deriva daí. A classe existe em sua nova configuração, pulverizada, serializada e, do ponto de vista político, sofreu uma derrota histórica sem precedentes. Isso significa que a chamada esquerda só pode ser entendida como expressão política da classe trabalhadora – e se ela se apresenta, morta ou moribunda, fragmentada, não se deve apenas à sua trágica tendência a se dividir e se recolher às catacumbas dos debates fratricidas intermináveis. Mas, esta é nossa hipótese, a crise da esquerda revolucionária é uma expressão da derrota dos trabalhadores na arena da luta de classes, assim como, da mesma forma, a “esquerda institucional da ordem” (ou como queiram chamar sua degeneração) é igualmente expressão e sujeito dessa derrota.
Seja como for, um momento histórico de derrota dos trabalhadores e de crise dos segmentos que poderiam se tornar uma vanguarda na perspectiva da revolução pode de fato tornar impossível a revolução, ainda que não possa ser causa que faça desaparecer situações e crises revolucionárias.
Então, voltemos a nossa pergunta: o que pode resultar da impossibilidade da revolução?
Devemos começar pelo óbvio. Se uma ruptura revolucionária se apresenta inviável, o resultado imediato é a permanência da ordem que podia ser superada, isto é, do modo de produção capitalista e da ordem burguesa monopolista e imperialista. Aqui se apresenta um mito sempre revivido e, igualmente, sempre negado pela história em seu real devir, isto é, o capitalismo se apresenta como uma forma histórica progressista que se aperfeiçoa quando mais se expande e mercantiliza a vida, levando com esse progresso ao aperfeiçoamento da democracia e da liberdade. Bom, não precisamos de muito esforço argumentativo para chegarmos à conclusão de que o mundo atual não é prova disto, pelo contrário: o capitalismo já se apresenta em seu pleno desenvolvimento como uma força que pode colocar em risco a existência humana em todos os sentidos, econômico, social, político, cultural, ecológico e tudo mais que a esta lista se possa agregar.
Então, devemos ponderar que a morte da esquerda revolucionária (ou sua irresponsabilidade) não é nosso principal problema, pois estamos diante da possibilidade real da barbárie e da inviabilização da vida humana.
Nesse ponto se inscreve um outro mito, aquele segundo o qual é possível disciplinar essa força destruidora e dirigir o desenvolvimento capitalista para outra direção que não a catástrofe. Esse é o sonho dos senhores que hegemonizaram a direção da classe trabalhadora no último período em nosso país, mas não só, assumindo forma de caminho oficial de algumas grandes repúblicas democráticas do Oriente, que seduzem os mais desavisados com sua bandeira vermelha e estrelas reluzentes.
Caso estejamos corretos em nossas hipóteses, isto é, que se trata de uma sociedade capitalista monopolista e imperialista, fundada em uma sociedade de classes cuja contradição se expressa numa luta de classes, a morte da esquerda revolucionária não é capaz de eliminar as contradições que brotam da particularidade inevitável desta forma social. Isso implica que o sonho gradualista esbarra sempre em crises e rupturas, por vezes, em situações revolucionárias.
Os gradualistas odeiam crises e abdicaram totalmente das rupturas, não sabem o que fazer diante delas e não podem ser sujeitos de grandes transformações pelo fato de que a base de sua estratégia gradualista é a própria economia capitalista, segundo sua crença, domesticada segundo seus interesses.
O que a história tem nos demonstrado, tanto a passada como a recente, é que a crise sob o comando da ilusão reformista – seja ela social-democrata ou nem isso, como no caso brasileiro –, abre espaço para a reação de extrema direita e as diversas expressões do fascismo. Ao contrário do que a consciência ingênua de nossa época supõe, o fascismo, na sua forma atual, não é um anacronismo, pelo contrário, ele é uma expressão correspondente ao caráter destrutivo, parasitário e decadente do modo de produção capitalista no máximo de seu desenvolvimento.
Nossa terceira conclusão, portanto, é que a morte da esquerda revolucionária não deveria ser saudada pela centro-esquerda reformista, que trata inimigos de classe como amigos e aliados como adversários. A morte da esquerda revolucionária apenas anuncia a sobrevivência do capitalismo que atropelará os profetas da conciliação sem dó nem piedade.
Por último, resta um mito. Não devemos chorar pela morte da esquerda revolucionária uma vez que ela é apenas uma força que ocupa o lugar dos verdadeiro sujeitos da revolução: as massas. Essa percepção tem crescido, pois se apoia em uma manifestação inquestionável do real: as grandes rebeliões de massa que marcam nosso período. São exemplos desse fenômeno os Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street, as rebeliões indígenas no Equador e de jovens no Chile, os levantes na Bolívia e tantos outros, como inclusive cita meu colega Ronaldo.
Muitos pensadores, de distintos matizes, procuraram e procuram teorizar sobre esse fenômeno, chegando a conclusões diferentes, desde Freud em Psicologia de grupo e análise do Ego, de 1921, e a Rebelião das massas, de Ortega y Gasset, em 1926, passando por John Holloway, que quer mudar o mundo sem tomar o poder, ou Toni Negri e suas multidões, até as ricas e mais sérias contribuições de Marildo Menegat e Paulo Arantes.
Não cabe aqui uma digressão profunda nesse campo. Pontuemos apenas um grande ponto de partida em comum: o papel decisivo das massas para qualquer um que pense em ruptura, como sempre defendeu Rosa Luxemburgo e, como vimos, sabia Lênin. Coloquemos as coisas da seguinte maneira: se os sujeitos históricos são as classes, e as vanguardas têm, necessariamente, que ser um ente orgânico com a classe, em algum momento essa intencionalidade de classe tem que ser o coração e a mente de toda a sociedade que se levanta contra uma negatividade universal, como afirmava Marx em 1843 em sua introdução à Crítica da filosofia do direito de Hegel. Não por outro motivo, Lênin no texto anteriormente citado, nos fala em ações revolucionárias de massa.
Mas voltemos à nossa premissa: a esquerda está morta, expressão de uma classe derrotada politicamente e de volta a um estágio de serialidade, como definiu Sartre. Essa dramática condição não impede, como vimos, que as contradições objetivas produzam situações revolucionárias e, com elas, ações independentes de massa. Temos presenciado muitas dessas manifestações, notadamente em nosso subcontinente. No entanto, uma constatação tão inquietante e incômoda quanto o atestado de óbito da esquerda revolucionária se impõe. Nenhuma dessas experiências, seja a radical luta indígena do Equador ou Bolívia, sejam as ininterruptas rebeliões de massa na Argentina ou as massivas lutas do Black Lives Matter ou Occupy nos Estados Unidos; explosões sociais na Espanha e França ou as Jornadas de Junho no Brasil, nenhuma dessas belíssimas e vigorosas manifestações de rebeldia culminou em transformações anticapitalistas ou que apontassem para algo além da ordem burguesa.
Pelo contrário, temos visto que o pós-rebelião de massa é marcado pela manutenção da ordem capitalista e retrocessos no campo da democracia burguesa, como no Brasil de Bolsonaro, nos Estados Unidos de Trump, no Chile de Kast ou na Argentina de Milei. Diríamos a Holloway, de forma melancólica que não tomamos o poder nem, tampouco, mudamos o mundo.
Não estou entre aqueles que acreditam que o que faltou foi o meu partido, mas somos forçados a constatar que algo faltou. Pensemos um pouco mais a respeito.
O irredutível Daniel Bensaïd nos traz da França, sacudida por rebeliões de rua desde sempre, uma reflexão que me parece pertinente. Diz ele:
“O radicalismo chic dos retóricos da resistência procede de uma tentativa recorrente, em tempos defensivos, de ‘purificar a contradição’ e eliminar toda mediação e representação. Em face de um sistema onipotente, que parece ser capaz de digerir toda a oposição e integrar toda contestação, trata-se de fazer como se não pertencêssemos a esse mundo, como se pudéssemos acampar alhures, em uma exterioridade absoluta ao circulo vicioso da dominação, livres para substituir os protagonistas reais da luta histórica por um teatro de sombras, onde se enfrentam não mais classes, partidos ou movimentos sociais, mas massas dissidentes informes (plebes, multidões, hordas de cabeludos) e um Estado totalitário concebido à imagem de um Gulag gigantesco.”1
Nossa quarta e última conclusão, portanto, é que a morte da esquerda revolucionária e a desconstrução da classe trabalhadora, se verdade for – e essa é uma possibilidade –, não é uma boa notícia para ninguém que não queira jogar sua sorte neste modo de produção em decadência mergulhado na barbárie. É verdade, meu partido não vai muito bem, eu estou velho e doente, e pode ser que aqueles que partilhavam de minhas ideias e sonhos estejam mortos, entretanto, por incrível que possa parecer, não estou nem desanimado, nem desiludido, caminho certo para a pós modernidade.
Minha convicção ainda vive porque não é um dogma de fé, nem foi recortada de um manual. O capitalismo, por enquanto, venceu. Por isso, continua vivo parindo suas inevitáveis contradições e retirando a terra sob os pés de crentes, iludidos, alienados e de todos nós que ainda queremos ser uma humanidade emancipada. Produzirá crises como é de sua natureza e com elas revoltas e rebeliões de onde nascem vanguardas e partidos ou o que quer que seja que encontre o caminho para superar esta merda e inaugurar a verdadeira história da humanidade, sem classes e sem Estado.
Morto me junto a muitos, às legiões dos que se foram. Sobre a terra que agora os encobre, seus sonhos e sua rebeldia. Deixo-os com dois mestres de nossa América que acreditam nos mortos:
Mas de una mano en lo oscuro me conforta
Mas de un paso siento marchar comigo
Pero si no tuviera, no importa
Sei que hay muertos que alumbram
Los caminos.
— Silvio Rodrigues
Y así seguimos andando
Curtidos de soledad
Y en nosotros nuestros muertos
Pa que nadie quede atrás
— Atahualpa Yupanqui
Notas
- BENSAÏD, Daniel. Espetáculo, fetichismo e Ideologia. Fortaleza: Plebeu Gabinete de Leitura, 2013, p. 21-22. ↩︎
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Mauro Iasi professor aposentado da Escola de Serviço Social da UFRJ, professor convidado do programa de pós-graduação em Serviço Social da PUC de São Paulo, educador popular e militante do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.
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O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência, de Mauro Iasi
Mauro Iasi retoma uma das mais complexas e relevantes questões do mundo contemporâneo: a indagação das possibilidades reais de formação de um sentido de pertencimento de classe em um mundo marcado por diversas fragmentações, individualismos, estranhamentos, desencontros.
Dialogando com autores clássicos como Durkheim, Weber e Marx e polemiza com importantes autores contemporâneos. Isso porque o estudo, que aborda a questão da consciência na teoria sociológica, não se atém exclusivamente à análise no interior do campo de reflexão marxista sobre o tema. Sua discussão vai além, se desdobrando para outros campos, como a sociologia compreensiva (por isso incluindo autores como Foucault e Przeworski).
Abordando questões com rigor e coragem, Mauro Iasi supera as falsas polarizações e dicotomias que os estudos sobre consciência de classe converteram-se, principalmente nas ciências sociais e na história. Para o autor, o empreendimento mais complexo reside na busca das engrenagens teóricas capazes de possibilitar a apreensão tanto das formas de manifestação da consciência empírica e cotidiana das classes sociais como também os nexos mais abrangentes e totalizantes da ação coletiva.
Por tudo isso, O dilema de Hamlet é uma instigante contribuição ao estudo da consciência de classe, escrita de forma leve, mas carregando em si um conteúdo denso, original e ousado.
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