A irresponsabilidade da esquerda radical e revolucionária no Brasil: um manifesto

Fotografia da obra “Cabeza de Carlos Marx”, de Antonio Bisquert Pérez. Serie “Genios”. Imagem: Wikimedia Commons
Por Ronaldo Tadeu de Souza
“Renunciando à luta de classes o nosso partido desperdiçou, de um só golpe, a possibilidade de exercer uma influência real sobre a […] guerra [de classes]”
— Rosa Luxemburgo, em A crise da social-democracia
“On s’engage, et puis on voit [Primeiro se age, depois se vê]”
— Guerreiro Ramos, Uma redefinição do problema do negro
“Sem dúvida não é honroso, quando se tem a lidar com inimigos de igual força ou pouco superior em número, só procurar salvação atrás de muralhas inexpugnáveis […] [e] não se pode duvidar, quando se tratar de garantir a defesa, evitar a derrota e repelir a ofensa, de que as muralhas mais fortes sejam a melhor defesa […] e nem se deve esquecer que uma cidade cercada de muralhas pode ou não se servir delas, ao passo que, se absolutamente não as possui, a escolha é impossível”
— Aristóteles, Política
No primeiro semestre de 2024, publiquei aqui no Blog da Boitempo um artigo detalhando o que, na ocasião, nomeei de O debate Safatle (que se estendia, também, para Jones Manoel). O intuito era contribuir com algumas teses – esboços, glosas – para a afirmação de um e outro; ambos sustentavam e, provavelmente, ainda sustentem, que naquele momento a esquerda brasileira (e mundial, embora essa já demonstre sinais rudimentares de reorganização com perspectivas radicais, “socialistas”, sendo forjadas na Inglaterra e nos Estados Unidos) estava morta. Passados quase dois anos, devemos nos perguntar: as forças de esquerda ainda estão existindo no reino dos mortos? O vaticínio aqui tem de ser realista e cáustico: de modo “irresponsável”, a esquerda brasileira continua morta, mas não se trata (apenas) da convencional, institucional, predominante, social-liberal – em uma formulação sem precisão conceitual-analítica, o “campo progressista”. Estamos a presenciar também o fenecimento da esquerda radical e revolucionária (quiçá, marxista). Esta, como aquela, se não está ainda “extinta”, parece em vias de “extinção”. UP, PSTU, PCB, MRT, PCBR, Soberana, alas socialistas do PSOL (e talvez todo ele), movimentos populares (de várias designações) atuando no cotidiano, PCO, marxistas do PDT, CSP-Conlutas, uma variedade de organizações que surgiram como consequência de rupturas e divisões e, absolutamente, todos os seus dirigentes, lideranças, figuras públicas, estrategistas e teóricos – estão “mortos”. E mais: não só estão “mortos”, como assumem, conscientemente ou não, sua abominável “irresponsabilidade” no contexto vigente da luta de classes entre nós. (E não se deve tergiversar acerca de nós mesmos, intelectuais engajados, orgânicos e marxistas, a classe que porta o que Paulo Arantes chamou de ceticismo organizado; também, lamentavelmente, estamos no mesmo barco – consentimos com as “irresponsabilidades” daqueles.) Por que afirmo isso? Com efeito, na medida em que o campo da esquerda radical, revolucionária e marxista não apresenta uma alternativa (renuncia a…, não age… e não constrói uma muralha…) não única, mas unificada nas próximas eleições para o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil, tendo em vista as atuais circunstâncias nacionais (e internacionais) com o governo Lula e do PT (a esquerda institucional da ordem, que atravessa um processo profundo de autoesfacelamento político, social e cultural), e da presença orgânica e predominante da direita intransigente (do bolsonarismo a Tarcísio de Freitas, passando pelo MBL, Nikolas Ferreira, Organizações Globo/família Marinho e Faria Lima), ela se lança, de certo modo irresponsavelmente, no espaço da “não-existência” política e social; se furta a colocar-se para os/as de baixo como possibilidade “real” de outros horizontes imediatos com vistas a resolver os problemas e sofrimentos que os afligem cada vez mais. Proponho a seguir cinco teses que argumentam a respeito da referida morte irrefletida – e deplorável – da esquerda radical. Desde já, importa dizer que são anotações ensaiando contribuir com o debate acerca da reconstrução da esquerda brasileira. Na síntese dialética (o negativo) das teses abaixo, detalho as tendências mórbidas que, infelizmente, acometem também radicais, revolucionários e marxistas.
Primeira Tese
A estrutura política desde 2008 pode ser analisada a partir de múltiplas “sobredeterminações” (Althusser); isso significa dizer que é um equívoco ler o período de quase 20 anos apenas como sendo de ascensão, organização e predominância da direita intransigente. Os conservadores inflexíveis representam, enquanto grupo político-social e ideias-força, portanto, um entre uma variedade de fatores que conformaram o quadro histórico iniciado, com a falência do Lehmann Brothers. A própria desestruturação na ordem do sistema econômico burguês mundial repercuti nos padrões de governo de Trump, Orban, Milei, família Le Pen, Johnson, Meloni, Alice Weidel etc. Assim, o incessante objetivo de recompor as taxas de lucro ao menos nos níveis dos 30 anos gloriosos (Robert Brenner) – objetivo que se viu ainda mais abalado em 2008 –, figura, direta ou indiretamente, no horizonte político daqueles líderes e seus grupos, movimentos e partidos. São eles, no interior das instituições formativas das democracias liberais-representativas, a exercerem duas funções: a de círculo de aço de proteção às eventuais sublevações do “conjunto” dos trabalhadores/ras e as organizações políticas (partidos, movimentos populares, coletivos, intelectuais) que atuam com eles e elas; e de autoconstituírem-se em ponta-de-lança (decisionista) na implementação de modalidades específicas – regimes, pode-se dizer – de acumulação de capital (capitalismo político, capitalismo extrativista, capitalismo militar, capitalismo informacional) na tentativa franca de reconfigurar a contento a lucratividade pré-neoliberalismo (longa duração) e responder à crise estrutural de 2008 (conjuntura, média duração). Contudo, é um erro fatal abordar a estrutura política sobredeterminada da luta de classes exclusivamente tendo na reorganização da direita mundial o elemento mais importante. Irrompendo no contexto imediato da “derrocada” relativa da ordem financeira internacional, forças de esquerda adquiriram protagonismo; aqui é o instante em que a esquerda radical, revolucionária (e, bem entendidas as coisas, de certo modo, marxista), após a derrota histórica com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética e a consolidação da contrarrevolução neoliberal, volta ao protagonismo político e social. Não é preciso, neste escrito, explicar para, acredito eu, pessoas informadas e formadas, as contradições, os recuos, as derrotas pontuais, as fases de estabilização do sistema de dominação vigente, a indecisão, a falta de experiência estratégica, a precária cultura socialista que foi revelando-se no renascimento da esquerda mundial. Os exemplos do Syriza, do Black Lives Matter, de Jeromy Corbyn, da Revolução Mapuche no Chile, do Occupy Wall Street, da França Insubmissa, de Junho de 2013 e dos vários agrupamentos que surgiram a partir daí, da Primavera Árabe, dos Indignados na Espanha, de Bernie Sanders e criação da Jacobin são loquazes por si só. Com efeito, e isto se estabelece na chave argumentativa do irrefutável, a esquerda radical e revolucionária, socialista, se reergueu definitivamente na situação histórica no pós-2008. Contudo, é inadiável que ela continue a trajetória de reconstrução no quadro atual, cujas forças da direita intransigente e o temperamento plácido do progressismo social-liberal “administram” cinicamente as coordenadas às quais estão sendo travadas as lutas e as disputas políticas – trata-se de intervir tendo no horizonte concreto ser, novamente, o dispositivo de combate em toda linha da classe trabalhadora. (Vem ocorrendo isso em alguns cenários nacionais: na Inglaterra, na Colômbia, nos Estados Unidos, na França.)
Segunda Tese
As novas oposições de esquerda – as quais no transcorrer das disputas se revelaram novas sociais-democracias – que emergiram na breve ruptura do equilíbrio instável ou da estabilidade relativa (Gramsci e Trótski) nas circunstâncias urgentes da crise de 2008 (Susan Watkins), mesmo com as ambiguidades que demonstravam nas posturas e práticas que apresentavam no debate político, foram o suficiente para as classes dominantes mundiais promoverem o que o historiador marxista estadunidense Arno Mayer nomeou de contrarrevolução preventiva – precisamente, uma dinâmica intencionada, articulada e “decisionista” de guerra antecipada aos subalternos com potenciais de sublevação e aqueles e aquelas que “falam” por eles. São katechons com antevisão acerca do que vem contra a ordem social e econômica vigente caso não se aja com intrepidez. “Na verdade […] [estão] destinados a afastar alguma coisa”, como disse Perry Anderson – seja essa coisa Trump, Orban, Le Pen, Salvini e Georgia Meloni, Milei, Bolsonaro e seus nomeados (a expressão é de Rodrigo Nunes), Boris Johnson, Ricardo Kast e Weidel. Em outras palavras, “procuram restringir […] os perigos da democracia [de massas]”. Assim, o “enfrentamento” a esse conservadorismo inflexível “tem passado”, de certa maneira, a lugar comum para o conjunto da esquerda: incluindo, obviamente, a radical e revolucionária.
Terceira Tese
Ora, se sobrepormos a tese primeira à tese segunda, temos um cenário mundial contraditório. Qual seja? Os desmedidos de época estão postos pela combinação (por vezes explosivas) da generalizada insatisfação do conjunto da classe trabalhadora com sua vida cada vez mais explorada e oprimida – exploração essa empreendida por modalidades variadas e extensivas de acumulação de capital – com a inoperância de políticos que nada mais fazem a não ser operarem como meros intendentes reacionários do capital e sua sede infindável de autovalorização. Aqui, abre-se um horizonte de possibilidades iniciadas pelas forças de esquerda que surgiram no pós-2008; e vale lembrar o que dissemos, há multiplicidades de dispositivos organizativos, teóricos e teóricas sociais que refletem com autenticidade, figuras públicas em termos de esquerda da nova geração. Porém, as modalidades políticas para a luta de classes radical enquanto instância fundamental antissistêmica são, relativamente, contidas pelo nível mesmo da subjetividade coletiva dos de baixo, de modo que, o que presenciamos são microexplosões populares de diversidade incontável (greves no transporte ou demandas específicas, como o fim da escala 6×1; mobilização em defesa da Palestina; manifestações de rua contra a perseguição de imigrantes pelo ICE de Trump em Minneapolis; resistências na Argentina à reforma trabalhista de Milei etc.). Tais contingências estão, por um lado, sob a égide conservadora e violenta de governos, políticos e grupos de direita que, pelo momento, ainda possuem as rédeas da ofensiva, impondo seu poder político aos trabalhadores; e, por outro, democratas e esquerda mainstream gestando o capitalismo para a classe burguesa mundial via a tática do multiculturalismo: a isso Nancy Fraser nomeou de “neoliberalismo progressista”. Com efeito, este cenário contraditório está assentado, se ergue, sobredeterminadamente, sobre uma economia burguesa com arranjos financeiros frágeis semelhantes ao imediato pré-crise de 2008; e as ambições de recomposição das taxas de lucro no patamar dos trinta anos gloriosos, mesmo com as fragilidades estruturais existindo, são cada vez maiores. É um instante de interregno que pode romper a nosso favor.
Quarta Tese
O tempo histórico do PT, o Partido dos Trabalhadores, necessita ser urgentemente “enfrentado”. De modo que, ao se ter a perspectiva epocal de forjar uma alternativa para os trabalhadores/ras será, em alguma medida, inevitável a disputa em variados âmbitos da sociedade com o partido de Lula. Não se pode ocultar um fato concreto da política brasileira dos últimos 50 anos, a saber: desde sua criação em 1980 no Colégio Sion, o PT é a principal organização da esquerda brasileira. E, assim sendo, é o agente coletivo fundamental dos modos de configuração da política entre nós. Na Constituinte de 1988; nas eleições de 1989, no primeiro escrutínio direto para Presidente da República (depois de 20 anos de ditadura empresarial-civil-militar); no processo de Impeachment de Fernando Collor em 1992; no combate ao Plano Real implantado pelo PSDB; na feição peculiar de estabelecer a oposição ao establishment neoliberal na periferia do capitalismo: o PT não era (e não é), simplesmente, um partido de esquerda (entre outros) que fazia oposição padrão à ordem burguesa nacional. Ele engendrou um denso sistema político-cultural (ou cultura e política…) que concebeu o entendimento e a dinâmica de como efetuar oposição de “esquerda” ao sistema e procedimentos da dominação de classe brasileira. Do arco histórico-social de aplicação (de choque) do plano econômico de FHC até a última eleição de Lula em 2022 – e é, efetivamente, nesse quadro de referência que o PT se torna o maior e mais importante partido e/ou organização da esquerda nacional (quiçá latino-americana…) – presenciamos uma forma-de-ação que combina: atuação nos movimentos sociais; forte militância na burocracia sindical; dispositivos discursivos de defesa via seus intelectuais (e acadêmicos…); inconteste e forte representação nas instituições da nossa democracia burguesa, com todas as particularidades que a configuram (multipartidária, presidencialismo de coalizão, coronelismo, orçamento secreto); construção do mito de Lula; uma linguagem de fatalidade, para a qual ou é o PT, ou as trevas incertas de um profundo caos; adesão de artistas críticos e preocupados com a cultura; apreciação pelos costumes populares; formação de lideranças locais (bairros, comunidades). Por outras palavras, o Partido dos Trabalhadores não só criou uma teia de ferro, de sorte a impedir que outros partidos e organizações de esquerda (por óbvio, com incompetência delas também) se tornassem vozes dos trabalhadores, como dessa teia emanaram fios os mais diversos que enlaçam as múltiplas instâncias da vida social no Brasil. O último capítulo são as redes sociais e os canais governistas no YouTube.
Quinta Tese
Não se trata apenas de uma crise no sistema de governo. O caso do Banco Master de Daniel Vorcaro provocou um momento de disrupção aguda no interior mesmo das estruturas constitutivas do regime democrático-burguês. Às vésperas da próxima eleição, a conjuntura é eminentemente instável; a ordem dominante atravessa circunstâncias em que seus eixos de equilíbrio, sustentação (de classe) e legitimidade estão abalados em seus próprios fundamentos. Com articulações iniciais no governo da Bahia, mais precisamente, com Rui Costa e Jacques Wagner, ambos do PT, Vorcaro adentra o mundo oculto das instituições financeiras do país. Em menos de uma década, ele se torna uma eminência burguesa do setor bancário. Contudo, enquanto isso ocorria, as fraudes de seu banco, com a conivência, anuência e suporte direto de agentes públicos, fincavam raízes por todos os arranjos de poder das classes dominantes brasileiras – ministros do Supremo Tribunal Federal (Dias Toffoli e Alexandre de Moraes), políticos de direita (Nikolas Ferreira, Tarcísio de Freitas, Jair Bolsonaro), homens do parlamento (Ciro Nogueira), chefes de governo no Executivo (Roberto Campos Neto, Gabriel Galípolo, Ricardo Lewandowski), banqueiros bilionários e influentes (André Esteves do BTG-Pactual), classe artística (Alok, Luciano Huck, Monique Alfradique). Assim, defrontamo-nos com o apodrecimento generalizado, de modo que a base orgânico-sistemática das configurações políticas que ordenam e alicerçam a operatividade (funcionalidade) do regime democrático vem sendo solapado dia a dia. O cenário é incerto quanto ao desfecho político e social. Não obstante, podemos ter por certo que todo o limiar de expectativas sobredeterminado pela estrutura de sentimentos e pelo estatuto contingente da subjetividade do proletariado em sentido amplo (dos que vendem força de trabalho…) é um mosaico de tristeza, indignação, ódio (de classe), melancolia, vontade de mudança, desesperança e rebeldia (potencialmente insurrecional). São sinais de uma contradição do nosso tempo histórico, aguardando impacientemente para metamorfosear-se em Acontecimento (Derrida). Quais as implicações imanentes das cinco teses aqui discutidas no âmbito do argumento acerca da “irresponsabilidade da esquerda radical, revolucionária e marxista no Brasil?
A questão está em não apreenderem o momento histórico. E isso em ao menos três níveis: o histórico-político em-si, o histórico-negativo e o histórico-organizativo.
Quanto ao histórico-político, poder-se-ia afirmar que, desde 2008, com a profunda crise da economia capitalista mundial, presenciamos uma era de “reação total”, em toda linha, tanto na esfera de rearranjo das instituições do mercado e da ofensiva contra a classe trabalhadora, quanto no que concerne à política de classe e os grupos que a compõem. No entanto, a própria avalanche de rebeliões antissistêmicas, que tive seu auge social entre 2010-2015, e a continuação localizada (fragmentada, autônomas por vezes) delas demonstram o contrário. Assim, seria sandice avançar a proposição de uma unidade estratégico-tática da esquerda radical-revolucionária no vácuo absoluto – estaríamos à beira da ingenuidade voluntarista fadada ao insucesso. No âmbito da primeira tese aqui discutida, ocorre, justamente, o inverso; pois é não acompanhar, de maneira irrefletida, o espírito político do tempo – persistir em atuarmos, na conjuntura imediata e de médio-prazo, de maneira dispersa, em “partículas” organizativas, fragmentos de “movimentismo”, adquire o sentido em alguma medida de “irresponsabilidade” com os e as de baixo. A forma em que isso se daria ou se dará é um debate, em termos relativos, secundário: por certo de difícil e complexa resolução. (E uma parte da esquerda mundial já compreendeu em qual quadro de referência histórica se encontra: exemplos na Inglaterra, França, Estados Unidos e Colômbia são patentes.) Além disso, no ponto desenvolvido da segunda tese, a direita intransigente no Brasil precisa ser, com temperamento de urgência, enfrentada de conjunto. E isto nos seus próprios termos; vale dizer, a característica distintiva do conservadorismo nacional é sua capacidade de organicidade consciente; de modo que têm um objetivo delimitado – a agenda que conforma o regime de acumulação de capital atual (extrativismo, privatização de bens públicos de sobrevivência, exploração do trabalho altamente racializada, gangsterismo financeiro) – movendo-se incessantemente para realizá-lo em variadas e múltiplas frentes: desde a formação de jovens políticos de direita e conservadores, passando por conflitos formais intragrupo, encontros de Think Tanks e criação de partidos políticos, até as redes sociais mais abjetas como os red pills. Na medida em que não há um contraponto (uma muralha de resistência e flechas retiradas da aljava para a “ofensiva”…), taticamente, organizado, fincado em sólidos arranjos ideológicos de esquerda (conhecimento teórico, cultura socialista, formação marxista, espírito imaginativo, inquieto, à maneira da Teoria Francesa, eloquência, paixão, pensamento crítico), e que tenha a mestria estratégica de vocalizar as demandas mais sensíveis da classe trabalhadora, aquela, a direita intransigente, continuará agindo com alguma predominância. Ora, a força proporcional da esquerda radical e revolucionária hoje, com seu atual estágio de (re)construção poderia (e pode…) muito mais. Além disso, claro está, que o tempo do PT e de Lula foi “ultrapassado” nas circunstâncias presentes do conflito entre os proletários/as e as elites brancas dominantes no Brasil de 2026 – ele não será mais o outro “Estado de exceção” necessário (e permanente) ao qual clamava Walter Benjamin. (“Precisamos construir um conceito de história [e uma organização política] que corresponda a essa verdade”; qual seja, “que a tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é na verdade a regra geral”.)
Todos os agrupamentos na história política e intelectual da esquerda surgiram no negativo, histórico-negativo. O marxismo diante do socialismo utópico e dos neo-hegelianos de esquerda; os espartaquistas de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht na crítica ao Partido Social-Democrata Alemão; a III Internacional frente à II Internacional; Jacobin e os Democratic Socialists of America nos escombros do Partido Democrata; a New Left Review frente à historiografia do Partido Comunista Inglês e E.P. Thompson; os Panteras Negras a partir dos movimentos por Direitos Civis. Há mais exemplos. Entretanto, são exemplos aleatórios colhidos nos arquivos daqueles e daquelas que lutaram por uma vida melhor para os que nada têm – a não ser seus grilhões para perder. Ora, é premente edificarmos outra história da esquerda brasileira. Se não estabelecermos uma hábitos abrangentes de: radicalismo, ousadia, espírito político selvagem (como diz Jean Tible), solidariedade sincera, enfrentamento à ordem vigente, combate inflexível à direita e seu modo de agir, quilombismo heroico (expressão de Raquel Barreto), teorização rebelde e incontida, paixão por futuros outros, negritude sem-identidade-insubmissa (termos de Érico Andrade), marxismo, leninismo e anarquismo, não-identidade sediciosa (para falar com Adorno) – estaremos, agindo com aspectos consideráveis de “irresponsabilidade”, nos mantendo no figurino de espectador noturno ao estilo de Rétif De La Bretonne na França de 1789. Ademais, no âmbito da sabedoria dos costumes populares – tão bem analisada por Câmara Cascudo –, “falar é fácil, fazer é o que é difícil”; e o partido de Lula e Haddad opera (à luz de um certo argumento deste texto, com razão) difundindo à sociedade o habitus de ser ele a autoridade prática exclusiva a determinar a política de esquerda e a “representar” os anseios da classe operária. Afinal, somente eles o dizem, o fazem e o demonstram… (É preciso sempre rememorar Maquiavel: na Florença renascentista, ele escrevia que se o Príncipe “recusa” a lançar sua virtù na arena cruel dos embates políticos, fica, tristemente, submetido às variações da fortuna de qualquer natureza – com o risco de “conduzir” o Estado à derrota histórica.) Novamente, à esquerda radical e revolucionária, bem entendidas as coisas, no nosso preciso cenário político e social de 2026, exige-se que seja um (ou mais, vários até) dos capítulos da história do Brasil. Não podemos ser militantes vaidosos e tolos de “nós mesmos”. Com inúmeras contradições, que não serão sanadas de imediato, temos condições reais, objetivas e subjetivas, para negar esse estatuto problemático.
Seguem-se, então, as considerações acerca da difícil articulação entre a subjetividade dos trabalhadores e trabalhadoras, as exigências materiais e psíquicas da luta de classes (as demandas das classes…) e a questão organizativa. Usando a linguagem da Teoria Crítica (Escola de Frankfurt), o diagnóstico de que os assalariados, os que “vivem” da força de trabalho, tendem ao conservadorismo, de modo que não há espaço político, social e cultural para ações mais incisivas e eloquentes de esquerda, é um erro fatal. Não é o local adequado aqui, concernente à crítica dialética aos modelos de investigação assentados em pressupostos, epistemologia até pode-se sugerir…, “liberais” que orientam alguns entendimentos da conjuntura – os eternos generalismos enfadonhos que opõem populismo versus instituições democráticas; tanto nas ciências sociais e na filosofia política quanto na cultura de esquerda (a própria militância procede a partir daqueles), assume-se tal compreensão “equivocada”. Ocorre que não podemos mais restringir nossa construção teórica, intelectual e estratégico-política nesses termos, de um “liberalismo mental” difuso – nos conduziremos com frequência para o insucesso se permanecermos nele. Semelhante a outros lugares, no Brasil o grau de descontentamento propalado pela classe trabalhadora com o nível material de existência é, substantivamente, elevado. Por nível material de existência entende-se, no âmbito destas considerações: as condições de salário cada vez mais aquém de uma vida minimamente digna; a destruição de direitos basilares de proteção previdenciária; precariedade absoluta com a extinção de normas trabalhistas; aumento exponencial da jornada de trabalho; falta de acesso à saúde de qualidade; esgotamento mental fortemente adoecedor. Mas não só. A violência física exercida pela polícia militar sobre o operariado negro das periferias e das favelas país afora é algo estarrecedor e dramático – no último evento dessa situação inumana, uma mulher foi assassinada na Cidade Tiradentes, Conjunto Habitacional-COHAB localizado na cidade de São Paulo, com um tiro no peito à queima-roupa disparado por uma policial militar sem nenhuma justificativa, deixando cinco filhos órfãos de mãe, a policial até o momento, segue apenas afastada de suas funções –; junte-se a isso, o clamor de mulheres, sobretudo as que pertencem aos setores mais vulnerabilizados, contra o patriarcalismo e/ou machismo que ceifam suas vidas diariamente já se tornou uma demanda política estrutural, uma agenda social urgente. Ora, a falta de um porvir, de uma promessa de felicidade, que os grupos políticos do sistema expressam, em particular os progressistas e os da esquerda do establishment, provoca certa melancolia (que pode ser explosiva…) cotidiana, que cerca o ânimo do povo pobre: esses dispositivos materiais de sentimentos compõem quadros de referência paradoxais (que deveriam ser apreendidos com seriedade coletiva pela esquerda radical e revolucionária, entretanto, essa assiste Roma pegar fogo). Pois há uma dialética negativa, não-identidade, de modo a conformar no movimento contraditório mesmo, disposições de subjetividade que propiciam à batalha e à “ação de massas”. Toda forma de insatisfação popular generalizada, abrangente e com (relativa) perenidade – é um possível impulso para a “rebelião” ou para contestações estruturais à ordem burguesa vigente. Aqui, é preciso estar atento e presciente às movimentações moleculares e aos ritmos da linguagem que atravessam e cruzam o cenário da política brasileira, mas que permanecem ainda invisíveis, latentes, nas instâncias mais finas da luta de classes. Assim, a condição consonante para a emergência, para a explicitação político-social das circunstâncias acima descritas, é a presença de uma organização – na verdade, a organização programática das necessidades imediatas da classe trabalhadora – que sintetize e apresente um conjunto de proposições práticas e iminentes, de tal sorte a urdir dois instantes dialéticos: no primeiro, expor com denodo, alternativa aos trabalhadores e trabalhadoras em geral, impelindo as organizações no mesmo processo a se responsabilizarem pelas propostas apresentadas, ou seja, que imponha propensões de compromisso “mútuo” uma vez que “uma” organização-programa-tática aflore enquanto possibilidade política no pleito eleitoral que se avizinha; no segundo, lançar à sociedade do trabalho um espaço de discussão prático-subjetivo que evoque sistematicamente a potência transformativa dos de baixo e simultaneamente se autofortaleça com eles.
Contudo, a esquerda radical e revolucionária em vias de “extinção” nem sequer aventa a ideia de propor, para aqueles que pretende representar, qualquer vestígio de expectativa de que irá mover esforços para tal, soerguendo uma unidade organizativa e programática de ação no período eleitoral próximo. Desafortunadamente, oferecem o contrário. Em um quadro de referência histórico-político imerso no abismo – pobreza e miséria generalizadas pelas principais metrópoles do país, instituições que se autoflagelam para benefício próprio dos agentes que as compõem, mulheres negras sendo jogadas no camburão de viaturas da polícia militar por reivindicarem seu salário aos patrões, gangsterismo bancário e financeiro levando a fraudes de bilhões de reais, chefes do judiciário acusando confrades de toga de ser alcóolatra, a força do candidato da direita intransigente movendo-se para transformar-nos em colônia do Império do Norte (e um território em liquidação a ser privatizado até a última gosta-de-sangue), com um político progressista pertencente ao sistema (em sentido pejorativo, óbvio) já octogenário e prestes a figurar moribundo como único ator a “enfrentar” tais contratempo profundos (na verdade ele é parte desses) –, demonstram, sem nenhum pudor e/ou senso de proporção, vaidade incomensurável, individualismo imbecil fora-do-lugar, autoconstrução de seus aparatos que faria inveja aos dias deploráveis da lógica organizativo-burocrática da social-democracia alemã tão bem analisada por Robert Michels em Sociologia dos Partidos Políticos, arrogância tola como se estivéssemos na ofensiva contra a reação conservadora em toda linha, pobreza de espírito coletivo, análises conjunturais bem-pensantes apenas para exprimir falsa erudição, rivalidades escolásticas que se comparadas às disputas de teses e textos (alguns desses de Aristóteles) no início das universidades na Europa do medievo essas parecerão estarem às portas de uma grande mudança de era, ausência inexplicável e destrutiva de um átimo de solidariedade entre-si (com vistas a se apresentarem ao povo revelando preocupação sincera diante da existência “desesperançada” que atravessam) e uma cultura derrotista que em termos contraintuitivos termina por legitimar a compreensão, fortemente disseminada, que o PT e Lula são as únicas opções factíveis para os que vendem força de trabalho.
A esquerda radical e revolucionária brasileira age, na aurora do século XXI, com lastimável irresponsabilidade frente à luta de classes nesta conjuntura. Contraditoriamente, a força que em seu conjunto possui hoje não é visualizada e entendida por ela mesma, apresentando à sociedade (e ao debate público), em particular aos que só têm suas correntes, de maneira tática e unificadamente, uma candidatura-propostas-planos de ação-programa-visão de mundo esperançosa-organização na próxima eleição (conflito eleitoral de classe, é disto que se trata). Não se refere a vencer ou não as eleições; não se possui aqui nesta intervenção o mínimo de ingenuidade extemporânea – mas de, a partir do panorama histórico registrado nas teses acima, bem como diante dos eventos atuais, conceber um sujeito coletivo coerente que tenha condições, e tem…, de deslocar as reflexões, percepções e possibilidades de ação sobre o arranjo socioinstitucional “apodrecido” para uma alternativa política radical de esquerda para os subalternos, e que poderá se conformar, politicamente, para futuros embates na dinâmica mesma do processo de enfrentamento entre as classes. O trabalho de reconstrução da esquerda será árduo – e não ocorrerá do dia para a noite. E a cada vez que adiamos dar os primeiros passos efetivos, agravamos nossa “derrota” histórica. Se este texto-manifesto e as teses que defende forem demasiado irrelevantes, ao menos analisem com acuidade necessária as três epígrafes que o abrem e meditem se são ou não “irresponsáveis”.
***
Ronaldo Tadeu de Souza é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ. Realizou pesquisa de pós-doutorado junto ao Departamento de Ciência Política da USP, e é pesquisador do Centro de Estudos em Cultura Contemporânea-Cedec (Círculo de Leituras Florestan Fernandes), do GPDET-UFRJ/CNPq, e do Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Política e Pensamento Crítico do DCP-UFRJ.
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