“A Fúria”: o ato final de uma trilogia da luta

Foto: Divulgação.
Por Diogo Dias
⚠️ ATENÇÃO, SPOILERS NA PISTA! ⚠️
Ícone do cinemanovismo, Ruy Guerra lança A Fúria, filme codirigido com Luciana Mazzotti, que demonstra seu compromisso com a inventividade cinematográfia e a resistência política na tela. O longa marca o encerramento da trilogia iniciada em 1964, com Os Fuzis, passando por A Queda, de 1978 (codirigido com Nelson Xavier), e fecha também um longo ciclo político testemunhado pelas lentes do cineasta. O período transcorrido desde o primeiro filme, clássico do Cinema Novo brasileiro, até este último ato da trilogia abarca o golpe cívico-militar de 1964, a Nova República, a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder, o golpe parlamentar de 2016, a prisão de Lula e a eleição de Jair Bolsonaro. O efeito alucinante provocado em nós pelo enredo da história do Brasil ao longo dessas décadas é incorporado na forma como Ruy Guerra e Luciana Mazzotti escolhem filmar a terceira parte da trilogia.
A instabilidade é a marca central de A Fúria, em que o espectador nunca sabe de que ponto de vista irá partir no próximo quadro. O longa-metragem dialoga tanto com as câmeras e enquadramentos inquietos e deslocados de filmes como Estorvo (2000), dirigido pelo próprio Ruy Guerra, como com os procedimentos de direção de arte e montagem do novíssimo cinema de vanguarda de Adirley Queiróz, por exemplo. Os cenários constituídos por projeções digitais também retomam em chave de atualização algo do expressionismo alemão no cinema silencioso, jogando com luzes e sombras para criar uma ambiência em que tensões psicológicas reprimidas aparecem como formas geométricas distorcidas, e estados de serenidade acompanham fundos mais amenos e harmoniosos. Resumidamente, a experiência do cineasta de 94 anos e o olhar de sua parceira aparecem conjugados a uma atitude destemida, que aposta em soluções pouco convencionais e dá ao filme o caráter vanguardista que sempre marcou a obra de Guerra.

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Os diretores constroem o seu Brasil contemporâneo em um transe que evoca os fantasmas das vítimas da ditadura, que perambulam sem paz, pois ainda não foram redimidas por nenhuma justiça de reparação – ou, na melhor das hipóteses, pela revolução. Seus personagens interagem em um espaço sempre fechado, em que essas projeções fantasmagóricas deixam a sensação de uma virtualidade sufocante, bastante verossímil em comparação com o atual momento histórico, quando fica cada vez mais difícil discernir o real do virtual, a verdade da mentira. Apesar dos raios de luz emitidos pelos projetores e pelas telas que compõem os cenários, o ambiente é sempre obscuro e esconde sob as sombras os gestos escusos, as faces horríveis do ódio, as relações subterrâneas do poder que servem aos interesses destrutivos do capital.
Interesses que Ruy Guerra e Luciana Mazzotti demonstram muito explicitamente ao colocar na trama central a crise ambiental e a luta pela preservação das Terras Indígenas. Tema que lhes permite expor também a continuidade da cooperação entre empresariado e Estado como expressão do poder da classe dominante em uma forma criminosa, até para os parâmetros da larga moral burguesa, desde a ditadura até hoje. Mesmo com as transformações conjunturais desses 60 anos, as relações entre elites econômicas, exército e governos mantêm um equilíbrio escandaloso. Situação que permitiu a ascensão de uma força política de massas de defensores da ditadura e de um aceleracionismo neofascista que aposta na crise total para colocar em marcha seus planos de eliminação do que eles consideram excedente: corpos dissidentes, povos originários e a ralé trabalhadora.
A resposta cinematográfica dos diretores é a vingança imaginária dos mortos. Ao resgatar o espírito de Mário (agora interpretado por Ricardo Blat), retoma-se a tragédia do arquétipo do sobrevivente. Mário é o personagem que costura a trilogia em um arco. Em Os Fuzis, ele assume o papel de soldado que priva o povo sertanejo de alimento, mas tenta se redimir ao abandonar a função e mudar-se para a cidade grande, tornando-se em A Queda um operário que não aceita as opressões e injustiças dos patrões (que buscam abafar a morte em serviço de um de seus companheiros). Porém, Mario é cooptado pelo seu sogro e patrão, Salatiel (Lima Duarte), que lhe oferece uma quantia para esquecer o ocorrido. No entanto, em A Fúria revela-se que Mario foi traído e entregue ao regime militar, que o torturou e assassinou. Dado como desaparecido, ele retorna de maneira fantasmagórica para realizar a sua vendeta contra o projeto perverso de dominação e destruição enraizado ideológica e economicamente na ditadura, no seu espólio, vigente até hoje.
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Para isso, ele recorre à sua filha burguesa (afinal, ela foi criada pelo avô, Salatiel), que constrói uma aliança com a líder de uma gangue urbana, que sonha em viver uma vida digna, e uma deputada, que tenta manter seus valores diante das negociatas do poder institucional. Apesar de representarem o “bem” no maniqueísmo interno do filme, não é sem incômodo que assistimos às suas falas e ações. As personagens de A Fúria perdem nuances que os filmes anteriores desenvolveram com maior riqueza, porém, não deixam de representar a dita polarização chapada que domina hoje o imaginário político.
Diante da surrealidade contemporânea, o filme também não pôde sustentar o realismo dos episódios anteriores da trilogia. Por isso, apela à fábula. Sua moral é o projeto de redenção de um país que perdeu a chance de lidar com seus fantasmas, deixando-os mortos-vivos entre nós, espreitando nossas ações e, principalmente, nossas omissões. Há momentos exagerados, cômicos e explicativos que também diferenciam a terceira parte da série das demais. Contudo, isso mostra que Ruy Guerra se apega muito mais ao diálogo do filme com seu público presente e com o material histórico atual do que com uma suposta assinatura presente em obras pregressas.
Assim como A Fúria faz um balanço da grande derrota histórica – derrota que o filme não deixa de reconhecer na reanimação política do exército, no domínio da política palaciana, na influência mortal do mercado sobre as decisões ambientais etc. –, o filme relembra que é possível lutar e conquistar vitórias, mesmo diante do terror. Há quem possa acusá-lo de ingenuidade, mas é preciso lembrar que a existência dessa trilogia da recusa ao conformismo, que se iniciou sob a ditadura e se encerra sob ameaça de seu retorno, é, a um só tempo, expressão das nossas derrotas históricas e uma evidência forte de que a luta pela memória e pela liberdade política (consequentemente, também a artística) não pode deixar de ser travada.
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Diogo Dias é doutorando de filosofia na Unifesp, onde estuda teoria crítica do cinema no Brasil

Ruy Guerra: paixão escancarada, de Vavy Pacheco Borges
Narrativa multifacetada que revela a vida e a trajetória de um cineasta outsider no Cinema Novo. A autora traz a história pessoal e profissional desse diretor que se destacou no cenário cinematográfico brasileiro, oferecendo uma visão singular sobre um período conturbado da vida do país.
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