Como Nino virou Antonio Gramsci?
A infância de um revolucionário

Nino Gramsci entre seu professor e os colegas de escola, em 1905. Imagem: WikiCommons
por Rita Matos Coitinho
Era uma vez um menino que vivia em uma ilha, chamada Sardenha. Ela ficava no litoral da Itália e era um lugar muito bonito, mas muito pobre, pois alguns poucos donos de terras ficavam com a maior parte do que os trabalhadores produziam nos campos.
Aquele menino se chamava Antonio, mas todos o chamavam de Nino. A família de Nino não era tão pobre, mas também não era rica. O pai dele, Francesco, trabalhava na prefeitura. Um dia, ainda muito pequeno, Nino sofreu um acidente e depois ficou muito, muito doente. Ele era mais fraquinho que as outras crianças por causa dessa doença, que não o deixava crescer bem e o fazia sentir muitas dores quando queria ir brincar. Então ele se distraía com livros. Ele gostava muito de aprender.
Sua família também teve alguns problemas. Pessoas que queriam mal ao seu pai o fizeram ir preso. A mãe de Nino, Peppina, ficou sem dinheiro, e a família precisou se mudar. Nino, que ainda nem era adulto, só tinha 13 anos, parou de estudar para trabalhar em um cartório, porque nessa idade ele já escrevia muito bem.
Mais tarde, Nino foi para uma cidade maior, chamada Cagliari, para frequentar o Liceu – uma escola para meninos maiores. Nino era um estudante muito dedicado e por isso sua família fez muitos esforços para que ele pudesse estudar. Ele admirava muito o seu irmão mais velho, Gennaro, que era operário e lhe enviava jornais, que Nino lia com muita curiosidade.
Quando se tornou um jovem adulto, Nino foi com Gennaro para Turim, uma cidade muito grande e cheia de fábricas no norte da Itália, para poder ir à universidade. Nino era o melhor aluno do seu curso, muito interessado em línguas e em literatura. Mas ele não tinha dinheiro para se manter, havia dias que nem podia jantar. Além disso, sua doença, que nunca foi completamente curada, o incomodava muito e fazia com que perdesse muitos dias de aula. Lá em Turim ele começou a escrever para jornais e largou a universidade. Começou a participar do movimento socialista e fundou um jornal, chamado L’Ordine Nuovo, que em português quer dizer “A nova ordem”.
O pequeno Nino já estava adulto, e seus sonhos, que nunca foram pequenos, foram ficando cada vez maiores. Ele acreditava muito no poder das pessoas que trabalham e dizia que se conseguissem trabalhar todos juntos, poderiam fazer da Itália um lugar muito melhor, sem tanta pobreza e com uma vida boa para todos. Ele sempre pensava em sua ilha, a Sardenha, e refletia que o norte da Itália, que tinha muitas fábricas, era assim tão rico porque as pessoas do sul (como as da sua ilha) eram mantidas numa vida muito simples e de trabalho muito duro. Os frutos desse trabalho eram vendidos por preços muito baixos nas cidades, e isso não mudava porque os ricos e poderosos pensavam que era melhor assim: o sul produzindo coisas baratas no campo para que o norte e os outros países da Europa pudessem comprar sem gastar muito e, assim, terem grandes fábricas de produtos modernos e gerar muitas riquezas, que nunca voltavam para o povo do sul, somente para os poderosos de lá.
Para Nino, todas as pessoas que trabalham são inteligentes e capazes de ter grandes ideias. Por isso ele defendia que essas pessoas, juntas, podem decidir o seu futuro e organizar o país. Ele queria que os trabalhadores das fábricas se unissem, formassem conselhos nas fábricas para cuidar, eles mesmos, da produção. E também queria que os trabalhadores das fábricas cooperassem com as pessoas que trabalham no campo. Assim, todos juntos, poderiam fazer algo parecido com o que os operários e as pessoas do campo fizeram num país distante, a Rússia. Lá, operários, camponeses e soldados se uniram porque não queriam participar da guerra de que o seu Imperador os obrigava a participar, contra outros países da Europa, e porque queriam viver num país onde todos pudessem trabalhar, estudar e participar das decisões. Nino, seu irmão Gennaro e outros socialistas e comunistas da Itália olhavam para a Rússia com grande admiração.
Nino não achava que havia pessoas melhores e mais espertas do que outras: para ele, todos deveriam poder estudar todos os temas, conhecer as ciências, as linguagens e as artes, saber trabalhar e construir coisas e, assim, discutir os temas da vida, da economia, da política e da cultura. Nino foi ficando tão conhecido e tão querido pelos trabalhadores que virou deputado – e nessa época ele já havia se juntado com o pessoal que criou o Partido Comunista da Itália. Nesse partido, ele era muito importante, mesmo não pensando bem igual aos outros integrantes. Nino estava muito encantado com o que estava acontecendo na Rússia, com a revolução que os trabalhadores tinham feito lá. Ele foi algumas vezes para Moscou representando seu partido. Foi na Rússia que o menino Nino, que agora já era o adulto Antonio, conheceu Julia. Com ela Nino se casou e teve dois filhos, Delio e Giuliano.
Mas se na Rússia coisas incríveis estavam acontecendo, na Itália as coisas estavam muito esquisitas. Havia pessoas se unindo para brigar com os trabalhadores nas ruas, para impedi-los de fazerem greves e de lutarem por uma vida melhor. Tinha havido uma guerra, e depois que ela acabou, havia muita pobreza e falta de empregos. As pessoas queriam lutar por uma vida melhor, mas os poderosos não queriam deixar. Muitos operários e camponeses italianos, principalmente os que eram organizados no Partido Comunista, olhavam para o que os seus iguais tinham feito na Rússia e queriam fazer algo parecido, uma revolução de trabalhadores, para que eles pudessem viver como decidissem e não como seus patrões queriam. Então os poderosos criaram grupos muito violentos que não deixavam os trabalhadores protestarem e fazerem greves. Essas pessoas chegaram ao governo da Itália e Nino foi preso, junto com muitos outros companheiros.
Na prisão, Nino escrevia e lia, lia e escrevia. Era assim que ele passava o tempo, esperando pelo dia em que ele sairia e poderia rever sua família e seus companheiros do partido. Ele tinha muitas saudades de sua esposa e de seus filhos e também de seus amigos e camaradas do partido. Nino escreveu muito, e deixou textos importantes que são lidos até hoje. Para seus filhos e sua esposa, Nino escrevia cartas em que falava de coisas importantes que ele queria que os meninos estudassem e aprendessem. E também lhes contava histórias, algumas que ele havia aprendido quando era criança, lá na ilha da Sardenha, e outras que conheceu depois, contadas por outros escritores. Ele colocava essas histórias nas cartas e pedia a Júlia que lesse para seus filhos. O menino Nino, mesmo já sendo o adulto Antonio, nunca deixou de gostar de histórias. Se ele pudesse, contaria muitas outras, leria todos os livros do mundo e contaria o que leu aos seus filhos e às outras crianças de sua terra.
* Texto livremente baseado no livro Gramsci, uma nova biografia, de de Angelo D’Orsi (Expressão Popular, 2022.)
Conheça duas histórias que Gramsci contou para seus filhos em cartas

Julia com Delio e Giuliano. Imagem: WikiCommons
O rato e a montanha, de Antonio Gramsci (ilustrações de Laia Domènech)
Um ratinho tinha fome e, andando em uma casa, derramou o leite que estava em um copo. Mas era o leite do bebê e sua mãe não tinha mais nada para dar a ele… o rato ficou tão chateado que foi pedir ajuda à cabra… Mas a cabra não tinha leite para dar, por que será? E por que o campo não tinha capim? E por que não havia água? E por que a fonte estava quebrada? Como o ratinho poderia levar um pouco de leite para o bebê que chorava? Será que, se todos trabalhassem juntos, as coisas poderiam melhorar?
Um homem no buraco, de Antonio Gramsci (ilustrações de Raysa Fontana)
Nem sempre a gente precisa de ajuda. Às vezes, acreditar em si mesmo e ser forte é mais importante do que ficar chamando pelos outros. Você duvida? Veja só o que aconteceu com esse homem que caiu num buraco. Essa história, do francês Lucien Jean, foi recontada por Nino Gramsci em uma carta endereçada à sua esposa, para que ela lesse para os seus filhos.
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Odeio os indiferentes: escritos de 1917, de Antonio Gramsci
Em 1917, um jovem jornalista italiano lança luz sobre a Revolução Russa e desafia as convenções com sua visão idealista. Nesta coletânea inédita, seu olhar evolui, abrindo caminho para uma compreensão mais realista do socialismo e da vontade coletiva. Um convite à reflexão e à ação.
Homens ou máquinas? escritos de 1916 a 1920, de Antonio Gramsci
Textos inéditos, escritos entre 1916 e 1920, que exploram a perspectiva do autor sobre a luta de classes e a relação entre produção e revolução, em um período dramático que culminou no surgimento do fascismo na Europa. Análise crítica do sindicalismo e do partido socialista, crucial para entender sua visão da emancipação operária.
Os líderes e as massas: escritos de 1921 a 1926, de Antonio Gramsci
Escritos de 1921 a 1926 que revelam as lutas, desafios e reflexões do líder comunista durante um período tumultuado na história do movimento operário. Sua abordagem crítica às hierarquias, líderes e classes subalternas oferece valiosas lições para entender a política e a sociedade.
Vozes da terra: escritos de 1916 a 1926, de Antonio Gramsci
Com dezessete dos artigos publicados pela primeira vez em português, o livro traz um retrato da Itália nos anos pré-fascismo, como a relação entre os operários do Norte e os camponeses do Sul: “Nas cartas e nos cadernos vê-se como a questão meridional persistiu no campo de preocupações de Gramsci e como nesses textos ela ganha amplitude e complexidade”, escreve Marcos del Roio na apresentação. A ebulição da política local, os embates entre os partidos de esquerda italianos da época e o fascínio com a revolução que se avistava na Rússia também são temas que perpassam os textos.
Coleção Nino
O rato e a montanha, de Antonio Gramsci (ilustrações de Laia Domènech)
Em um conto da tradição oral da Sardenha, um rato embarca em uma jornada para compensar seu erro ao beber o leite de uma mãe necessitada. Uma história atemporal, resgatada das cartas que o filósofo marxista enviou da prisão à sua mulher, com o pedido de que ela recontasse aos filhos.
Um homem no buraco, de Antonio Gramsci (ilustrações de Raysa Fontana)
Adaptação ilustrada de um conto de Lucien Jean, lembrado por Antonio Gramsci em uma carta de prisão para sua esposa. Ao cair num buraco, o homem pede ajuda em vão, mas, ao sair sozinho, percebe que não foi tão difícil. Uma alegoria sobre a necessidade de pensar de maneira independente e buscar soluções por conta própria.
Dicionário gramsciano, de Guido Liguori e Pasquale Voza
Em seus últimos dez anos de vida, Antonio Gramsci reflete, na prisão, sobre a derrota do movimento comunista e a falência da revolução no Ocidente. Reelabora as questões de base de sua precedente atividade política, repensa as respostas dadas e as experiências vividas. Formula um verdadeiro léxico para expressar sua teoria política e todo um mundo de conceitos destinados a influenciar os mais diversos campos do saber. É uma linguagem que, com frequência, inventa ou reinventa palavras, enriquecendo-as com novos significados: americanismo e fordismo, hegemonia, filosofia da práxis, molecular, nacional-popular, Oriente-Ocidente, revolução passiva, vontade coletiva e tantas outras. Ao combinar, em seus mais de 600 verbetes, rigor científico e clareza textual, esta obra visa a divulgar com precisão o pensamento de um dos maiores teóricos marxistas da modernidade.



Antonio Gramsci, o homem filósofo, de Gianni Fresu
Profunda exploração do pensamento de Antonio Gramsci que revela uma trajetória intelectual coerente e uma luta constante contra a instrumentalização política das classes subalternas, relevante em tempos de ressurgimento autoritário. Com trechos e notas extras em relação a edição original italiana.
Questões gramscianas, de Gianni Fresu
Um dos maiores pensadores sociais e políticos do século XX, Antonio Gramsci foi traduzido e estudado em diferentes partes do mundo e mantêm, ainda no século XXI, sua reputação de “teórico da hegemonia” dentro e fora da academia. Em Questões gramscianas: da interpretação à transformação do mundo, o professor Gianni Fresu traz Gramsci de volta às suas origens, ao local onde seu pensamento se formou: a Sardenha.
Os prismas de Gramsci, de Marcos del Roio
Uma análise atual da política de frente única de Gramsci e seu valor diante do ressurgimento de forças conservadoras e reacionárias no mundo. Reafirma sua relevância para a resistência em tempos de crise e retrocesso, unindo a esquerda em uma frente única necessária.
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