Por que ler Gramsci hoje? Lições do revolucionário italiano para todas as idades (e dicas imperdíveis de leitura)

Imagem: WikiCommons
por Rita Matos Coitinho
Hegemonia ainda é um conceito central
Hoje, fala-se muito em “transição hegemônica” como um modo de se referir ao enfraquecimento da capacidade dos Estados Unidos de impor sua política de forma unilateral a todos os países do mundo. Para Antonio Gramsci, hegemonia significa exercício de poder, mas ele não falava apenas do poder militar. Em seu pensamento, a força das armas é apenas uma das dimensões da hegemonia. A capacidade de disseminar ideias e apresentá-las como verdadeiras em um determinado espaço e em certo tempo histórico é outro componente fundamental, que também se apresenta como o domínio das regras e das instituições. Pensar hegemonia como Gramsci é entendê-la como a imagem do centauro: de um lado, a força, representada pela metade fera; de outro, as ideias, representadas pela metade humana da figura mítica.
Dicas de leitura: “Operários e camponeses” e “A questão Meridional”, publicados em Vozes da Terra, de Antonio Gramsci, além dos Cadernos do cárcere I, III e X.
Entendendo as raízes do “Sul global”
A divisão entre Norte e Sul da Itália, pensada por Gramsci, é a base teórica para pensarmos, nos dias atuais, a ideia de Norte e Sul global: um “norte” industrializado, cuja riqueza só é possível porque baseada na extração de recursos de um “sul” explorado e menos industrializado. A divisão entre Norte e Sul não é uma questão de posicionamento hemisférico, mas uma ferramenta para analisarmos a posição que os países ocupam na divisão internacional do trabalho.
Dica de leitura: “A questão Meridional”, publicado em Vozes da Terra, de Antonio Gramsci
Combater a desigualdade no plano material e intelectual
O processo produtivo, cada vez mais mecanizado, vai tornar os operários “gorilas amestrados”, como queria Ford? Gramsci refletiu sobre isso e chegou a uma conclusão muito diferente: se a tarefa é repetitiva e quase automática, sobra aos operários mais tempo para pensar. Assim, a padronização da atividade produtiva na indústria, ao invés de ser necessariamente um entrave ao pensamento crítico, poderia ser uma oportunidade para que os operários se organizem e exercitem, juntos, o trabalho intelectual e criativo.
Dicas de leitura: Homens ou máquinas?, de Antonio Gramsci e O homem filósofo, de Gianni Fresu
Só é possível lutar por uma igualdade efetiva destruindo as velhas hierarquias
Do mesmo modo que Gramsci nos ajuda a perceber que qualquer pessoa pode fazer filosofia, ele defende que todo trabalhador é capaz de se tornar um dirigente político. As organizações comunistas não devem reproduzir a estrutura hierárquica das fábricas: em sua atividade política, é preciso que trabalhem para acabar com a divisão entre “dirigentes” e “dirigidos”, e a lógica na qual o trabalho intelectual é valorizado em detrimento das funções instrumentais. No mesmo sentido, dominar todo o processo produtivo é tarefa dos operários organizados. Os comunistas devem lutar pela superação da alienação do trabalho e para transformar cada operário em uma pessoa capaz de gerir o processo produtivo, tornando dispensável a divisão entre “operários” e “gerentes” na fábrica. Para isso, Gramsci aposta na construção de conselhos de fábrica, espaços coletivos de debate político dos operários, mas também de construção coletiva do próprio trabalho.
Dica de leitura: Os líderes e as massas, de Antonio Gramsci
Fazer arte é uma tarefa revolucionária
Os operários devem produzir, eles próprios, obras de arte. A partir da organização coletiva, trabalhadores podem escrever e encenar peças de teatro, criar e executar peças musicais etc. O sindicato e o partido podem e devem estimular essas práticas. As artes e o pensamento não podem ser ocupações de extratos separados, apenas dos intelectuais oriundos das classes dirigentes. Os operários também são intelectuais e artistas.
Dica de leitura: Os líderes e as massas, de Antonio Gramsci
Aprender com o passado para não o repetir
A obra de Gramsci é incontornável para pensar em maneiras de derrotar a extrema direita e o fascismo. Ele refletiu profundamente sobre a ideia de frente ampla, e seus escritos nos ajudam a entender sua importância para o enfrentamento do fascismo italiano no século passado. Essa tática pode ser ainda fundamental em certas situações dos nossos dias, mas não em todas. Gramsci compreendeu, ao longo da década de 1920, que para o enfrentamento do fenômeno do fascismo na Itália e no restante da Europa seria preciso construir uma aliança com setores amplos da sociedade, e que os partidos comunistas europeus não teriam condições de enfrentar essa situação sozinhos. Essa era a estratégia defendida por Gramsci para a Itália em tempos de ascensão do fascismo. Na luta que travou internamente ao Partido Comunista Italiano, opôs-se ao grupo de Tasca, que acreditava que os comunistas não deviam fazer nenhuma aliança com os partidos burgueses. Gramsci seguiu refletindo sobre isso na prisão, nos escritos que ficaram conhecidos como os Cadernos do cárcere. Ele infelizmente não venceu a disputa interna de seu partido em vida, mas a história provou seu acerto poucos anos depois de sua morte na prisão.
Dica de leitura: O homem filósofo, de Gianni Fresu
Somos sujeitos de nossa própria história
Encarcerado pelo regime fascista, Gramsci produziu na prisão não apenas textos teóricos, como histórias infantis que ficaram registradas nas cartas enviadas para seus filhos, Delio e Giuliano. Essas histórias não deixam de expressar suas próprias visões de mundo e concepções políticas, além dos dilemas do presente – seja os enfrentados diretamente por ele, seja pelo movimento comunista italiano. É o que vemos na adaptação de um conto do escritor proletário Lucien Jean: quando um homem cai no buraco e percebe que ninguém vem ao seu socorro, ele se dá conta de que precisará encontrar uma saída com suas próprias forças.
Dica de leitura: Um homem no buraco, de Antonio Gramsci
É preciso unidade para vencer
Outro exemplo disso é a versão que Gramsci dá para um conto popular sardo, que ouvia quando era criança: Qual a relação entre um rato, um neném, um copo de leite e uma cabra? Tão diferentes entre si, eles são conectados por uma rede de eventos que parecem fugir ao seu controle. Sozinhos, nenhum dos personagens pode fazer muita coisa. Juntos, porém, são capazes de grandes feitos que mudam os rumos da história.
Dica de leitura: O rato e a montanha, de Antonio Gramsci
APROFUNDE-SE NO PENSAMENTO DE GRAMSCI
Coleção Escritos Gramscianos




Odeio os indiferentes: escritos de 1917, de Antonio Gramsci
Em 1917, um jovem jornalista italiano lança luz sobre a Revolução Russa e desafia as convenções com sua visão idealista. Nesta coletânea inédita, seu olhar evolui, abrindo caminho para uma compreensão mais realista do socialismo e da vontade coletiva. Um convite à reflexão e à ação.
Homens ou máquinas? escritos de 1916 a 1920, de Antonio Gramsci
Textos inéditos, escritos entre 1916 e 1920, que exploram a perspectiva do autor sobre a luta de classes e a relação entre produção e revolução, em um período dramático que culminou no surgimento do fascismo na Europa. Análise crítica do sindicalismo e do partido socialista, crucial para entender sua visão da emancipação operária.
Os líderes e as massas: escritos de 1921 a 1926, de Antonio Gramsci
Escritos de 1921 a 1926 que revelam as lutas, desafios e reflexões do líder comunista durante um período tumultuado na história do movimento operário. Sua abordagem crítica às hierarquias, líderes e classes subalternas oferece valiosas lições para entender a política e a sociedade.
Vozes da terra: escritos de 1916 a 1926, de Antonio Gramsci
Com dezessete dos artigos publicados pela primeira vez em português, o livro traz um retrato da Itália nos anos pré-fascismo, como a relação entre os operários do Norte e os camponeses do Sul: “Nas cartas e nos cadernos vê-se como a questão meridional persistiu no campo de preocupações de Gramsci e como nesses textos ela ganha amplitude e complexidade”, escreve Marcos del Roio na apresentação. A ebulição da política local, os embates entre os partidos de esquerda italianos da época e o fascínio com a revolução que se avistava na Rússia também são temas que perpassam os textos.
Coleção Nino
O rato e a montanha, de Antonio Gramsci (ilustrações de Laia Domènech)
Em um conto da tradição oral da Sardenha, um rato embarca em uma jornada para compensar seu erro ao beber o leite de uma mãe necessitada. Uma história atemporal, resgatada das cartas que o filósofo marxista enviou da prisão à sua mulher, com o pedido de que ela recontasse aos filhos.
Um homem no buraco, de Antonio Gramsci (ilustrações de Raysa Fontana)
Adaptação ilustrada de um conto de Lucien Jean, lembrado por Antonio Gramsci em uma carta de prisão para sua esposa. Ao cair num buraco, o homem pede ajuda em vão, mas, ao sair sozinho, percebe que não foi tão difícil. Uma alegoria sobre a necessidade de pensar de maneira independente e buscar soluções por conta própria.
Dicionário gramsciano, de Guido Liguori e Pasquale Voza
Em seus últimos dez anos de vida, Antonio Gramsci reflete, na prisão, sobre a derrota do movimento comunista e a falência da revolução no Ocidente. Reelabora as questões de base de sua precedente atividade política, repensa as respostas dadas e as experiências vividas. Formula um verdadeiro léxico para expressar sua teoria política e todo um mundo de conceitos destinados a influenciar os mais diversos campos do saber. É uma linguagem que, com frequência, inventa ou reinventa palavras, enriquecendo-as com novos significados: americanismo e fordismo, hegemonia, filosofia da práxis, molecular, nacional-popular, Oriente-Ocidente, revolução passiva, vontade coletiva e tantas outras. Ao combinar, em seus mais de 600 verbetes, rigor científico e clareza textual, esta obra visa a divulgar com precisão o pensamento de um dos maiores teóricos marxistas da modernidade.



Antonio Gramsci, o homem filósofo, de Gianni Fresu
Profunda exploração do pensamento de Antonio Gramsci que revela uma trajetória intelectual coerente e uma luta constante contra a instrumentalização política das classes subalternas, relevante em tempos de ressurgimento autoritário. Com trechos e notas extras em relação a edição original italiana.
Questões gramscianas, de Gianni Fresu
Um dos maiores pensadores sociais e políticos do século XX, Antonio Gramsci foi traduzido e estudado em diferentes partes do mundo e mantêm, ainda no século XXI, sua reputação de “teórico da hegemonia” dentro e fora da academia. Em Questões gramscianas: da interpretação à transformação do mundo, o professor Gianni Fresu traz Gramsci de volta às suas origens, ao local onde seu pensamento se formou: a Sardenha.
Os prismas de Gramsci, de Marcos del Roio
Uma análise atual da política de frente única de Gramsci e seu valor diante do ressurgimento de forças conservadoras e reacionárias no mundo. Reafirma sua relevância para a resistência em tempos de crise e retrocesso, unindo a esquerda em uma frente única necessária.
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