Opinião pública e política externa: a Venezuela em Lula III

Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Por Marsílea Gombata e Carolina Silva Pedroso
Existe uma relação entre opinião pública e política externa? Se sim, como ela se manifesta no Brasil? Ainda que essa seja uma agenda de pesquisa consolidada há décadas em países como os Estados Unidos, no Brasil tem-se notado que temas como relações bilaterais, internacionalização de empresas brasileiras e financiamento a exportações brasileiras por bancos nacionais passaram recentemente a ocupar posição cativa na lista de preocupações dos brasileiros. Pouco a pouco, tais temas vêm se tornado parte do debate público, influenciando tanto a mídia de forma ampla, incluindo veículos da grande imprensa e canais nas redes sociais, quanto tomadores de decisão e formuladores de política externa.
Diante desse fenômeno relativamente novo para o Brasil, buscamos apresentar reflexões preliminares de uma agenda de pesquisa que busca compreender as relações Brasil-Venezuela durante o governo Lula. Há diferenças importantes entre seu mandato atual e os dois primeiros (2003-2010). Além de um cenário atual mais adverso – seja nas relações Executivo-Legislativo, na economia global e doméstica ou no cenário político regional –, observa-se maior atenção do público quanto às relações bilaterais entre Brasil e Venezuela.
Parte disso se deve à própria condição da Venezuela enquanto vizinho e player internacional, que após uma prolongada crise multifatorial se apresenta como um dos maiores desafios diplomáticos1 à liderança brasileira na região2.
Na campanha eleitoral de 2022, Lula deixou claro o desejo de retomar o ativismo da política externa brasileira e de recolocar o Brasil como um ator de relevância global, liderando a América do Sul e promovendo projetos regionais que promovam a autonomia e o desenvolvimento nacional (Pinheiro; Herz, 2023). A expectativa era que seu retorno à Presidência da República significasse a reconstrução de pontes que haviam sido desmanteladas pelo antecessor Jair Bolsonaro (2019-2022).
Nesse sentido, o petista ressaltou no discurso de posse o objetivo de priorizar a região sul-americana por meio do retorno à União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), bem como a normalização da relação com a Venezuela. Para Maria Regina Soares de Lima (2023), essa reconstrução da política externa brasileira para a região não necessariamente significa uma volta ao passado, mas sim um restabelecimento de formas de agir consolidados na ação diplomática nacional, equilibrando esse ímpeto com a variável interna de ter se constituído enquanto um governo de frente ampla.
Mas o contexto hoje difere muito do que aquele que permitiu o florescimento de uma diplomacia mais pró-ativa, o que demanda atualização dos diagnósticos feitos por formuladores de política externa (Lima, 2023). Por exemplo, hoje o Brasil se vê mergulhado em intensos debates decorrentes de profunda polarização que, além de transbordar da esfera política para a sociedade (Somer et al., 2021), contamina também o debate em torno da política externa.
Tal polarização, por exemplo, permeia a crise do multilateralismo em meio à articulação global da extrema direita, cujos reflexos se veem também no contexto latino-americano de alta fragmentação, baixo engajamento econômico, pouca concertação (Goncalves et al., 2025). Tais características remetem ao chamado “regionalismo líquido”, conceito que trata da fluidez das estruturas institucionais regionais, em especial a partir da segunda década dos anos 2000, o que coincide temporalmente com a transição promovida por Michel Temer após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, atingindo um ápice com o bolsonarismo e a ruptura política que representou (Mariano et al., 2021).
Por conta dos elementos acima expostos, o retorno de uma política externa “ativa e altiva” – que marcou os dois primeiros mandatos de Lula – parece inviável diante de mudança nas condições presentes (Lima, 2023). Nesse quadro, merece destaque a dificuldade representada pela Venezuela no cenário sul e latino-americano.
Primeiramente, as contestadas eleições de 2024 que consagraram o então presidente Nicolás Maduro vencedor, apesar de o órgão eleitoral não ter divulgado dados desagregados por centro de votação. O imbróglio piorou o humor do eleitorado brasileiro em relação à proximidade do Brasil com a Venezuela e se tornou um obstáculo importante à aprovação da opinião pública sobre as relações bilaterais. Somou-se a isso a operação dos Estados Unidos na Venezuela, em janeiro de 2026, que complexificou o desafio brasileiro. Se a crise e a erosão democrática venezuelanas se mostravam um problema para o governo brasileiro, de quem a imprensa e a opinião pública cobravam postura mais firme e condenatória do que a sustentada pelo Brasil, a invasão da Venezuela seguida pela captura de Maduro passaram a pressionar o governo brasileiro novamente na direção de condenar abusos, desta vez contra os Estados Unidos.
O Brasil não foi o primeiro país a se manifestar sobre a invasão e a captura de Maduro, em 3 de janeiro de 2026. Essa demora indicou falta de capacidade de liderança para a coordenação de uma resposta conjunta, em meio a uma cisma regional, na qual líderes sul-americanos se dividiam entre um approach mais duro contra o governo Maduro e a busca por uma transição pela via diplomática.
Assim como ocorre na região, nos últimos anos tem ficado claro o potencial polarizador que temas relacionados à Venezuela carregam também no debate público brasileiro. Além de ter se mostrado um elemento relevante no debate eleitoral interno, a erosão da democracia venezuelana passou a ter impactos importantes também para o incumbente. No caso do presidente Lula, essa relação bilateral se mostrou uma variável relevante para a imagem de seu governo, ainda mais marcadamente do que nos governos de seus antecessores.
Pouco antes da eleição presidencial de 2024 na Venezuela, a diplomacia brasileira se viu compelida a mudar não apenas de posição, como também de estratégia frente ao governo de Maduro, diante da pressão doméstica e internacional. Se antes da campanha eleitoral daquele ano o governo Lula era visto de certa forma condescendente com os abusos do regime de Maduro, as dificuldades para a oposição em conseguir registrar um nome para a disputa levaram a críticas por parte do Itamaraty, evidenciando uma ruptura com a posição prévia, considerada acrítica por parte da opinião pública e membros da oposição (Pedroso; Gombata, 2025).
Tendo em vista a pressão da opinião pública sobre posições de política externa, buscamos uma agenda de pesquisa a fim de elucidar o mecanismo pelo qual a opinião pública sobre a Venezuela influencia a formulação da política externa de Lula III. Esse é um tema que divide a sociedade brasileira e as próprias coalizões do governo que, por ser de frente ampla, é composto por distintos grupos, com visões político-ideológicas acerca de qual deve ser a postura do Brasil frente aos desafios que a Venezuela apresenta. Na nossa avaliação, ambas as variáveis (opinião pública e formuladores de política externa do governo) seriam mutuamente influenciadoras e influenciadas pelo debate midiático.
Na literatura mais consolidada sobre a interação entre opinião pública e política externa, o marco teórico inicial é caracterizado por uma visão elitista, na qual a opinião pública é tratada como mal-informada, inconsistente, volátil e irracional. Por isso, ela tenderia a seguir a liderança da elite política, em um movimento de cima para baixo (top-down) (Nkecht, 2006). Correntes revisionistas posteriores contestaram tal visão e passaram a entender a influência da opinião pública na política externa como estável, sensata, estruturada e racional, podendo ser influenciada não só pela ação e informação advinda da elite política (top-down), mas também de baixo para cima (bottom-up) (Soroka, 2003; Kertzer; Zeitzoff, 2017).
Uma outra vertente ainda busca entender o papel da mídia na formação da opinião pública sobre a política externa, mas sob a perspectiva de definição de agenda (“agenda setting”), segundo a qual a escolha editorial dos temas a serem explorados pelos veículos de informação tem forte capacidade de moldar não apenas o que é debatido publicamente, como também o grau de importância de determinados temas no debate público e na vida dos eleitores (McCombs; Shaw, 1972; Soroka, 2003; Lustig; Olego, 2016).
Soma-se a essa perspectiva o peso da internet e das redes sociais, que, apoiadas em algoritmos, tem levado a um quadro de hiper fragmentação e polarização, no qual as pessoas escolhem nichos ideologicamente amigáveis, se blindando de opiniões concorrentes, essenciais para o fortalecimento da esfera pública e a democracia (Habermas, 2023b). O aumento na velocidade e no volume de informação tem gerado maior polarização política e social, recaindo também sobre o campo da política exterior (Baum; Potter, 2008).
No caso brasileiro, a política externa era tradicionalmente percebida como um domínio de relativa autonomia e “insulamento” burocrático do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e da Presidência da República. Mas essa visão de descolamento da arena doméstica da internacional tem sido questionada pela ampliação de atores e agendas na política exterior. Vide o aumento do pluralismo no processo de tomada de decisão, que tem envolvido cada vez mais entidades subnacionais, empresas, organizações da sociedade civil e outros ministérios e agências do governo federal, desafiando o suposto monopólio e isolamento do Itamaraty (Milani; Pinheiro, 2017). Isso leva a uma concepção de política exterior mais próxima da de política pública e, portanto, mais porosa às dinâmicas domésticas e da própria opinião pública.
Para explorar as relações entre opinião pública e política externa no caso da relação Brasil-Venezuela, consideramos a existência da triangulação entre três eixos principais: o papel exercido pela grande imprensa, a opinião pública em si e as distintas visões dos formuladores de decisão em política externa do governo Lula. Buscaremos entender de que maneira a mídia e a opinião pública impactam lideranças políticas na condução da política externa brasileira.
Para compreender a interação entre os três eixos explicitados, nossa pesquisa buscará analisar o material publicado na imprensa sobre relações políticas e econômicas entre Brasil e Venezuela nos jornais Folha de S. Paulo, Valor Econômico e O Globo, consumidos prioritariamente pelas classes A e B e por formuladores de política externa, além de pesquisas de opinião de institutos como Atlas Intel3.
Buscaremos também fazer entrevistas semiestruturadas com membros do conselho editorial e editores executivos nesses três principais veículos, além de entrevistas em profundidade com burocratas do Itamaraty e formuladores de política externa no governo Lula III.
Os resultados da nossa agenda de pesquisa pretendem expor as problemáticas que envolvem o desafio diplomático que a Venezuela constitui para o governo brasileiro, doméstica e regionalmente, uma vez que o caso venezuelano divide até mesmo os líderes progressistas entre os mais e menos críticos ao regime chavista-madurista4.
Hoje a pressão sofrida pelo governo brasileiro por parte da oposição e da opinião pública, seja por uma postura mais rígida contra abusos cometidos anteriormente pelo governo chavista ou pela condenação à pressão internacional sobre a Venezuela, é um elemento adicional na equação de tentativa de retomada da liderança brasileira na América Latina, especialmente na América do Sul.
Essa agenda de pesquisa, relativamente nova no Brasil, se justifica por duas razões. Primeiramente, vemos que a literatura avança até determinado ponto, em geral explicitando a influência que a opinião pública exerce, mas não necessariamente as razões por trás disso, ou por que o público em geral tem uma determinada opinião sobre o tema, ou mesmo como se dá essa influência, isto é, o mecanismo por trás dela. Em segundo lugar, o presente trabalho pode contribuir para a literatura já existente sobre política externa enquanto política pública (Garcez Targa et al., 2024), e sua relação com opinião pública5, atualizando-a com elementos advindos do caso brasileiro.
Esperamos, por fim, poder oferecer um panorama não apenas complementar aos estudos de política externa e opinião pública (Brewer et al., 2024; Baum; Potter, 2008; Netcht, 2006; Rosenau, 1961), como também buscar entender o impacto que a Venezuela tem na opinião pública e, por consequência, na formulação de política externa no Brasil.
Referências Bibliográficas
ATLAS INTEL. Radiografia da Política Externa Brasileira. Pesquisa Atlas 10-16/04/2024.
BAUM, M.; POTTER, P. B. K. The Relationship Between Mass Media, Public Opinion and Foreign Policy: Toward a Theoretical Synthesis. Annual Review of Political Science, v. 11, 2008, p. 39-65.
BREWER, P. R.; KIMBERLY GROSS, S. A.; WILLNAT L. International Trust and Public Opinion about World Affairs. American Journal of Political Science, v. 48, Jan. 2024, p. 93-109.
GARCEZ TARGA, L.; SCHETTINO VALENTE, M.; BELEM LOPES, D. Política externa como política publica: Proposta de análise relacional a partir de redes e espagos sociais. Revista Tempo do Mundo, v. 33, 2024, p. 205-233.
GONCALVES, J. S. B; CARNEIRO, H. C.; BARROS, P. S. Relação bilateral com vocação regional: integração de infraestrutura, produtiva e comercial entre Brasil e Chile. Texto para Discussão, n. 3028, Rio de Janeiro: Ipea, Jan. 2025.
HABERMAS, Jürgen. Uma nova mudança estrutural da esfera pública e a política deliberativa. São Paulo: Ed. Unesp, 2023b.
KERTZER, J. D; ZEITZOFT, T. A Bottom-Up Theory of Public Opinion about Foreign Policy. American Journal of Political Science, v. 61, n. 3, July 2017, p. 543-558.
LIMA, M. R. S. A dialética da política externa de Lula 3.0. CEBRI-Revista, Sessão Especial, v 2, 1. 5, Jan-Mar 2023, p. 79-95.
LUSTIG, C.; OLEGO, T. Public Opinion and Framing Effects of Argentine Foreign Policy Toward Brazil: Evidence from a Survey Experiment in Urban Centers in Argentina. Contexto Internacional, v. 38, n. 1, Jan./April 2016, p. 241-275.
MARIANO, K. P; BRESSAN, R. N.; LUCIANO, B. T. Liquid Regionalism: a typology for regionalism in the Americas. Revista Brasileira de Politica Internacional, v. 64, n. 2, 2021, p. 1-19.
MCCOMBS, M. E.; SHAW, D. L. The agenda-setting function of mass media. The Public Opinion Quarterly, v. 36, n. 2, 1972, p. 176-87.
MILANI, C. R. S.; PINHEIRO, L. The Politics of Brazilian Foreign Policy and Its Analytical Challenges. Foreign Policy Analysis, n. 13, 2017, p. 278-296.
NETCHT, T. Public Opinion and Foreign Policy: The Stages of Presidential Decision Making, International Studies Quarterly, v. 50, 2006, p. 705-727.
PINHEIRO, L.; HERZ, M. The “endless” first days of the third Lula government. Latin American Policy, n. 14, 2023, p. 316-324.
ROSENAU, J. N. Public Opinion and Foreign Policy. New York: Random House, 1961.
SOMER, M.; MCCOY, J. L.; LUKE, R. E. Pernicious polarization, autocratization and opposition strategies. Democratization, v. 28, n. 5, 2021.
SOROKA, S. N. Media, Public Opinion, and Foreign Policy. Press/Politics, Harvard College, v. 8, n. 1, 2003, p. 27-48.XPalavras
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Marsílea Gombata é pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI-USP) e professora da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP)
Carolina Silva Pedroso é professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).
Notas
- Sobre esse tópico, escrevemos o artigo intitulado “A Venezuela como desafio diplomático para o Brasil de Lula 3”. PEDROSO, C. ; GOMBATA, M . A Venezuela como desafio diplomático para o Brasil de Lula 3. OIKOS (RIO DE JANEIRO), v. 23, p. 6-20, 2025; Meio de divulgação: Digital. https://revistas.ufrj.br/index.php/oikos/article/view/64204; Série: 2; ISSN/ISBN: 18080235. ↩︎
- Acreditamos que é exatamente neste ponto que a nossa agenda de pesquisa se insere nos esforços do Projeto CNPq/MCTI — Regionalismo, Política Externa Brasileira e Atores Domésticos, no 420112-2023-5. ↩︎
- Para ilustrar, na mais recente pesquisa Atlas Intel sobre Radiografia da Política Externa Brasileira, publicada em abril de 2024, o percentual de entrevistados que dizia aprovar a política externa do governo Lula passou de 50% para 44% entre novembro de 2023 a abril de 2024, enquanto o percentual que dizia não aprovar passou de 47% para 52%. Dentre os entrevistados com nível superior, 68,7% creem que o Brasil está mais próximo do que deveria da Venezuela, enquanto 22,5% acreditam que está menos, e 8,7%, que está tão próximo quanto deveria. ↩︎
- Tal divisão ficou evidente depois das eleições presidenciais de 2024 na Venezuela, quando líderes de esquerda como o presidente do Chile, Gabriel Boric, condenou a opacidade do pleito venezuelano, e líderes como Gustavo Petro (Colômbia), Andrés Manuel Lopez Obrador (então presidente do México) e Lula escolherem uma postura de não confrontação com o governo venezuelano, insistindo na divulgação dos resultados eleitorais segundo cada centro de votação. ↩︎
- Nesse sentido, um exemplo é o projeto temático sobre opinião e política externa em relação a Israel e Palestina vem sendo desenvolvido por pesquisadores brasileiros. Ver: https:// ccbn.urg/ br/doc/364/opiniao-publica-e-politica-externa-projeto-tematico-fapesp-isracl-e-palestina ↩︎
PARA SE APROFUNDAR NO TEMA
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As guerras tarifárias de Trump colocaram o Brasil no centro de um debate sobre imperialismo contemporâneo, soberania e os rumos da extrema direita global. Mas quanto há de método e quanto há de desespero nas bravatas do magnata em seu retorno à presidência dos Estados Unidos? Qual é o lugar dos EUA no tabuleiro geopolítico? O termo “imperialismo” ainda carrega poder explicativo nesse quadro? A quantas anda a relação entre Estados nacionais e corporações transnacionais diante da ascensão das big techs? Como interpretar o caldo de conflagração social desse hegemon em declínio ainda assombrado pela desindustrialização? Essas são algumas das questões enfrentadas pelo dossiê de capa desta Margem Esquerda, coordenado por Luiz Felipe Osório e Tiago Ferro. O entrevistado desta edição é o mais importante historiador marxista em atividade no Brasil hoje, Fernando Novais.
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