Educação e violência: da sala de aula à “Hora do Recreio”

Imagem: divulgação
Por Matheus Cosmo
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: “Pai!
cho que um bicho me mordeu!” assim
que a bala varou sua cabeça?
— Claudia Roquette-Pinto
É um tempo desfavorável aos sonhos. Na verdade, tem sido assim há algum tempo. Talvez isso justifique o discurso feito pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva após sua vitória nas eleições de 2022: o povo brasileiro quer ter de volta a esperança, dizia o presidente, utilizando de uma estratégia discursiva semelhante àquela que garantiu sua eleição no início deste século, quando a esperança teria enfim vencido o medo. A ênfase na esperança denuncia, por oposição, o real estado das coisas neste tempo de horizontes bloqueados. Se, nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump, já em 2016, havia demarcado uma rejeição às formas correntes de um aparente neoliberalismo progressista, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, cujos efeitos ainda se fazem sentir no esgoto a céu aberto que a direita encontrou para bramir seus ideais, forneceram o CPF e a roupagem verde-e-amarela à boa teorização de Nancy Fraser. Em suas palavras, não estávamos diante de uma nova roupagem da estrutura neoliberal, apenas presenciávamos o fracasso de sua aparente forma e versão progressista, até então colorida por ideais de representatividade e por bandeiras em prol das mulheres, da luta anti-homofobia e antirracista. Os resultados e efeitos desta empreitada ainda estão sob observação na contemporaneidade dos nossos dias, em que seguem intactas as estruturas de poder já estabelecidas, com políticas de exclusão de classe perpetuadas a torto e a direito. Sem sombra de dúvidas, uma análise possível deste processo se revela com clareza nos debates em sala de aula, espaço no qual os projetos de nação desenhados no correr da História se fazem e afirmam.
Fruto dos processos históricos de seu tempo, roteirizado e encenado a partir de depoimentos e histórias de vida dos próprios estudantes, Hora do recreio é o novo documentário de Lucia Murat que estreou em alguns dos cinemas brasileiros no recente 12 de março. Premiado pelo júri jovem do Festival de Berlim, já em seu título o trabalho faz menção àquilo que concretiza em sua forma artística: é mesmo de um intervalo que trata o trabalho, entre o registro e a cena, a ficção e a realidade. Passando por quatro escolas distintas, ainda que com a entrada não-liberada nos colégios estaduais, seja por bloqueios burocráticos colocados pelo próprio Estado, seja pelos bloqueios letais promovidos pela ação de sua polícia, a diretora Lucia Murat produz um retrato fiel da realidade da educação pública carioca, que decerto traduz e revela todo o projeto de nação desenhado às juventudes deste país.
Na contramão das políticas correntes de negação e esquecimento, não custa mesmo notar, ainda uma nova e outra vez, aquilo que, em uma entrevista fornecida no ano de 2019, Roberto Schwarz resgatou da infame memória nacional:
Não custa notar que nossa liberdade cultural sempre teve um caráter gritante de prerrogativa de classe. Salvo os grandes momentos de exceção, o seu foco estava mais na atualização com a moda dos países dominantes que no ajuste de contas com os abismos de classe em que vivemos.1
É algo desse abismo que aparece no novo trabalho de Lucia, no qual despontam mesmo os abismos de classe, gênero e raça que marcam a organização desigual da sociedade brasileira e que encontram régua e compasso na estrutura das salas de aula, especialmente nas escolas públicas periféricas destinadas à formação dos filhos da classe trabalhadora. Ali, a escola torna-se espelho e enunciação das diversas formas de violência que marcam a trajetória daqueles e daquelas que têm seus direitos parcialmente negados pelo Estado; aqueles e aquelas a quem a promessa de ascensão social tem se tornado cada vez mais apenas um material exclusivo de compra e consumo em produtos de autoajuda e consulta a coaches digitais, sem promessas e garantias reais e concretas de futuro. Nos quadros em cena, a instituição escolar enfim se mostra como o palco dos conflitos em que a diferença se revela em seu lugar mais insuportável, que é na pressuposição impossível de uma convivência entre prerrogativas distintas de classe – até mesmo no que diz respeito à expectativa daquilo que se ensina e que se aprende. Para além da convivência em sala de aula, tema de vários dos debates correntes em escolas e universidades públicas e privadas, a definição dos objetos, autores e materiais de estudo e trabalho também deixa entrever algumas das minúcias do projeto de nação em torno do qual se escreve a história de todo um povo, oficialmente marcado pela exclusão e pelo silenciamento. A escola era para ser um lugar seguro, lembra uma estudante. Mas seguro para quem? Em cima de quais fantasias construímos os pressupostos da educação nacional? Quais pressupostos precisam ser revistos, a fim de que o processo formativo possa ganhar relevância local? Saber que o Estado não autorizou a filmagem do documentário nas salas de aula de suas escolas de Ensino Médio talvez já anuncie um tanto do que se espera e anuncia às gerações em voga.

Imagem: divulgação
De fato, dos depoimentos de cada estudante o que salta aos olhos não é o lamento pelas condições materiais de vida, mas a transformação da violência em forma exclusiva de organização da matéria social. A linguagem bélica e o estado putrefato das relações descritas descrevem o estágio atual de implosão das formas possíveis de mediação junto a um Estado que, atendendo aos desejos neoliberais, se quer cada vez menor, restando apenas o risco, a agressão e o silenciamento como mecanismos de estruturação da ordem nacional. Não à toa, é da voz dos estudantes que sai o maior dos pedidos: Precisa ter uma pessoa para zelar por nós. Efetivamente não se trata, contudo, de uma pessoa, um sujeito singular: o que os estudantes parecem clamar é por algo que beira o cuidado, aqui um tanto desvencilhado das pautas e políticas de gênero que têm marcado a absorção do conceito nos últimos anos, ainda que reconhecendo seu alcance e importância, para abranger a possibilidade de reivindicação de um lugar político a toda uma classe. Em cena, fica o lembrete de que a luta por direitos e acessos também deve vir carregada de políticas reais de apoio e auxílio, que garantam o bem-estar e a própria possibilidade do existir. O que está em jogo são formas de proteção e segurança da vida, que precisam se concretizar para que este sujeito possa enfim encontrar alguma forma pública de expressão. Em suma, respondendo parcialmente àquela conhecida questão de Spivak acerca da possibilidade da fala dos povos subalternos, os estudantes em cena parecem já perceber que o discurso emancipatório precisa caminhar com a defesa das políticas de proteção e segurança à classe desfavorecida – ainda que esta combinação já aparente não ser um dado de possibilidade nos ditos fins de modelos neoliberais supostamente progressistas. Fica, portanto, a dúvida: o que parece, então, restar para a classe trabalhadora, além dos desmanche de seus direitos e da desordem corriqueira, da violência cotidiana? Há, ainda, alguma promessa de futuro ou a fatalidade já está em tudo anunciada? Como efetivamente produzir mundos, sonhos e realidades de vida?
Misturando realidade e ficção, teatro e literatura, cinema e realidade, o documentário de Lucia parece desenhar ao espectador a rota das estratégias de sobrevivência encontradas por toda uma jovem geração em um tempo de degradação das condições de vida. Sem sombra de dúvidas, imaginar algumas outras alternativas e possibilidades implica refletir sobre a própria educação, o projeto nacional de ensino e o percurso formativo de cada sujeito. Neste trajeto, como lembra uma das estudantes, por vezes todo o caminhar se faz com o apoio de apenas um professor. De fato, neste império de exaustão e irresponsabilidade conjunta, pode ser que um único professor seja mesmo capaz de edificar uma escola inteira. No quadro geral de desvalorização de salários e de demandas de trabalho exorbitantes, com um apagão futuro já esperado, o trabalho docente fica mais uma vez colocado em xeque, entre a responsabilização absoluta e a falta de preparo que caracterizam a precariedade da profissão ao menos desde o fim do século passado. O problema deste discurso, que é reflexo de um tempo doente e da implosão de condições mínimas de trabalho, é que educação não se faz apenas na particularidade dos encontros individuais, nos quais alguma experiência é mesmo ainda possível: educação sempre foi – e talvez seja esta uma de suas principais definições – vivência e trabalho coletivo.
Neste universo condensado de reprodução de discursos de opressão, o trabalho de Lucia deixa um lembrete ao espectador: ainda há algum horizonte de projeção e expectativa por meio da arte. É que literatura é vida comprimida no universo possível de várias páginas. Encontrar a vida que pulsa em cada uma das linhas é permitir-se viver outras nuances da própria vida. A cena teatral e as máscaras produzidas pelos próprios estudantes tentam elaborar a experiência de um vivido que transgride a compreensão e que ainda não se elabora porque é puro resíduo da história não-contada de todo um país, no qual é mesmo proibido sonhar, como já anunciava Drummond em seu livro de estreia. Representante deste processo, Hora do Recreio é documento de época e de vida: é trabalho que acompanha o espírito de um tempo e marca o instante em que os excluídos e esmagados socialmente encontram, enfim, a possibilidade de um registro autoral. A questão, contudo, resta a mesma, já há algum tempo: o que muda com a entrada desses novos corpos e sujeitos? Na concretude da vida e na materialidade dos processos, estamos afinal em um momento de abertura ou de fechamento de espaços? Para quem é o tempo de recreio que se anuncia? Quem pode, efetivamente, pausar e aproveitar este intervalo?
Hora do Recreio revela ao espectador que a incorporação discursiva das pautas progressistas ainda não alterou a materialidade dos processos sociais, que são mesmo historicamente lentos e demorados. Por ora, conseguimos conviver muito bem juntando bandeiras de diversidade e acolhimento a práticas de exclusão e silenciamento. A esperança prometida pelo Partido dos Trabalhadores também se permitiu ser vendida nas prateleiras da democracia de consumo operada neste país ao longo dos últimos anos. Na contramão deste discurso esperançoso, o documentário termina com a última fala de Clara dos Anjos, em um romance homônimo de Lima Barreto, finalizado entre dezembro de 1921 e janeiro de 1922: Nós não somos nada nesta vida! A esta fala, talvez os estudantes de Hora do Recreio acrescentem uma nova oração: MAS QUEREMOS SER! E, como se sabe, nas sociedades ocidentais, talvez a única das maneiras de redigir uma nova história e futuro seja mesmo por meio da educação. Ainda que estejamos em tempos muito desfavoráveis, é nosso dever ensinar as novas gerações a sonhar, lembrando-nos de que sonho é, antes de tudo, memória – e a memória é o que permanece vivo nas ruas e encruzilhadas. Talvez seja esta ainda – e sempre – a maior das funções e promessas da escola. azem acreditar.
***
Matheus Cosmo é doutor em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP e mestre em Artes, pela mesma instituição. Possui também pós-graduação em psicanálise, com enfoque nas interfaces entre psicanálise e cultura, psicanálise e negritude e psicanálise com crianças e adolescentes. Professor há quase dez anos, possui licenciatura e bacharelado em Letras, também pela Universidade de São Paulo.
Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).
Notas
- Entrevista a Claudio Leal publicada em “Ilustríssima”, Folha de S. Paulo, 17 de novembro de 2019. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/11/neoatraso-bolsonarista-repete-clima-de-1964-diz-roberto-schwarz.shtml>. Acesso em: 22 mar. 2026. ↩︎



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