Cultura inútil | Ameaças do ambicioso bravateiro mimado podem virar mimimi
Detalhe de pintura de Ilma Gore que ilustra a revista Margem Esquerda #45
Por Mouzar Benedito
Não gosto de criança mimada demais e, por causa do babacão gringo que quer ser dono do mundo (“é meu!… é meu!…”), me lembrei de uma coisa que fiz há muitos e muitos anos, e teve gente que achou ser maldade.
Numa viagem ao Nordeste, vi numa feira um caminhãozinho de lata e comprei pra dar de presente ao filho de um amigo em São Paulo. Voltando de lá, paramos numa barraca de praia em Paraty. Éramos quatro amigos num fusca, e um deles pegou o caminhãozinho para “brincar”. Perto de nós tinha uma turista, com aparência bem burguesa, e um menino, seu filho, que já aparentava ser mimado demais. Ele viu o caminhãozinho e “exigiu”: “É meu! É meu!”. A mulher ficou me olhando com ar de exigência também, querendo que eu desse o brinquedo ao mimadinho. Meu amigo, que estava com o caminhãozinho, ficou incomodado e me perguntou: “Posso dar pra ele?” Respondi: “De jeito nenhum. Não vou alimentar essa prepotência. Comprei pra dar pro filho de um amigo, mas se for pra dar pra outro menino, que seja um proleta que não tenha brinquedos.”
O mimadinho fez birra, a mãe ficou furiosa comigo, mas não dei. E comentei com meus amigos que esses pentelhinhos têm que aprender que não mandam em todo mundo, que não podem tomar tudo dos outros.
Conheci muitos pentelhos que se tornaram adultos muito ruins. Babacas que acham que todo mundo tem que fazer o que querem. Há escrotos assim, como o gringo que ficou puto por, sendo violento, ambicioso, ameaçador e cruel, não receber o Prêmio Nobel da Paz (não que tenha perdido pra alguém muito melhor). Ficou como o menino que queria meu caminhãozinho: “É meu! É meu!” E passou a ameaçar fazer ainda mais maldades como retaliação.
Acho que se ele receber o chega-pra-lá que merece, um castigo, vai fazer como seu assemelhado nacional… o mandão, valentão, pretenso machão que acha que o sofrimento alheio é mimimi (palavra que gosta de usar), quando vem a rebordosa, se revela chorão. De louvador da tortura que dizia ter horror aos Direitos Humanos, passa a reclamar por esses direitos sem nem mesmo receber o castigo que deveria. Privilegiado chorão…
Ah, nisso, me lembro também de uma expressão baiana para sujeito choramingão: “Parece que foi criado por vó”. Do jeito que a coisa anda, parece que o mimado gringo não vai receber o tratamento que merece, mas se recebesse, imagino que ficaria choramingando como seu êmulo nacional…
Uma coisa já deu pra ver: quando peitam suas ameaças e ambições, ele volta atrás. Se os opositores demonstram medo, reforça suas ameaças e aumenta suas ambições.
Um problema é que ele faz um monte de absurdos e os outros fazem pose de negociadores, em vez de peitá-lo: se impõe tarifas para os desafetos, os “negociadores” entram em ação; ele diminui as tarifas e as vítimas consideram um sucesso suas negociações.
Vale a história do bode na sala. Ele coloca um, fica ruim… depois tira, os ameaçados respiram “aliviados” e ninguém o peita pra valer. Vai tomar a Groenlândia? Se os outros se comportarem como vacilões, vai sim. E depois vai tomando outros lugares até que, enfim, não tenham saída a não ser reagirem, como reagiram ao expansionismo hitlerista.
Lembrei-me agora de um ditado da minha terra: “Peido que estrala não fede”, um ditado que não funciona muito, pois pode feder. Suas ameaças podem se transformar em atitudes, se a gente bobear. Pensando nele, e torcendo para que os outros deixem de comportamento submisso e o ponham pra correr, coletei frases (muitas óbvias) sobre ameaçadores e ambiciosos.
Machado de Assis: “Aos quinze anos, há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada”.
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Rainha Cristina da Suécia: “A ambição costuma gerar traidores”.
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Albert-Ena Caron: “Quando a nossa paz e o modo de vida em que acreditamos estão ameaçados, é aí que se tornam preciosos para nós”.
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François Chateaubriand: “Só nos apercebemos do valor dos nossos amigos no momento em que surge a ameaça de os perder”.
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Dominique Voynet: “Fazer política não é abrir as comportas para pedidos e súplicas mais ou menos ameaçadoras”.
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Provérbio chinês: “Quem abre o coração à ambição, fecha-o à tranquilidade”.
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Thomas Merton: “Quando a ambição termina, a felicidade começa”.
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Maquiavel: “Eu creio que um dos princípios essenciais da sabedoria é o de se abster das ameaças verbais ou insultos”.
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Maquiavel, de novo: “Os homens, quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição”.
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Maquiavel mais uma vez: “… a ambição do homem é tão grande que, para satisfazer uma vontade presente, não pensa no mal que daí a algum tempo pode resultar dela”.
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Adam Smith: “A ambição universal dos homens é viver colhendo o que nunca plantaram”.
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Charles Chaplin: “A pior ambição do ser humano é desejar colher os frutos que jamais teve a coragem e ou capacidade de plantar”.
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John Stuart Mill: “Não chamarei de bom ninguém que não seja aquilo que quero dizer quando aplico esse epíteto aos meus semelhantes, e se tal criatura puder me condenar ao inferno por não a chamar assim, para o inferno irei”.
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Joseph Kessel: “Quem exigir ou ameaçar perde todo o direito à cortesia”.
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Frank Herbert: “Não se pode ameaçar um indivíduo e escapar às consequências”.
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Textos budistas: “Devido à sua ambição e egoísmo, o homem faz da sua vida um verdadeiro naufrágio”.
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Martin Luther King: “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar”.
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Barão de Montesquieu: “A injustiça que se faz a um é uma ameaça que se faz a todos”.
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Montesquieu, de novo: “Um homem não é infeliz porque tem ambições, mas porque elas o devoram”.
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Marcel Proust: “A ambição embriaga mais do que a glória”.
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Jorge Luis Borges: “O que é o céu se não um suborno, e o que é o inferno se não uma ameaça?”
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Paulo Coelho: “Uma ameaça não pode causar nenhum mal, se não for aceita”.
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Paulo Coelho, de novo: “Existem dois tipos de idiotas, os que deixam de fazer alguma coisa por que receberam uma ameaça e os que acham que vão fazer alguma coisa por que estão ameaçando”.
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André Maurois: “Muitas pessoas estragam a vida com a imaginação da infelicidade que as ameaça”.
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Robert Croquette: “A ameaça costuma ser mais formidável que a ação”.
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François Chateaubriand, outra vez: “A ameaça do mais forte faz-me sempre passar para o lado mais fraco”.
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Miguel de Cervantes: “Enquanto se ameaça, descansa o ameaçado”.
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Miguel de Cervantes, de novo: “Pouca ou nenhuma vez se realiza com a ambição coisa que não prejudique terceiros”.
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Isaac Asimov: “O anti-intelectualismo tem sido uma ameaça constante se insinuando na nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que ‘a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento’”.
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Caio Fernando Abreu: “Quando o medo é quase absurdo, e principalmente quando o cheiro daquela respiração ameaça tornar-se insuportável, recorro aos jasmins”.
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Caio Fernando Abreu, de novo: “Gosto de tudo que ameaça morrer e de repente se levanta, mais vivo ainda, surpreendendo a todos”.
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Chuck Palahniuk: “Quando o futuro deixou de ser uma esperança e se tornou uma ameaça?”
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Chico Mendes: “Os seringueiros, os índios, os ribeirinhos há mais de cem anos ocupam a floresta. Nunca a ameaçaram. Quem a ameaça são os projetos agropecuários, os grandes madeireiros e as hidrelétricas com suas inundações criminosas”.
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Euclides da Cunha: “Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora”.
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Goethe: “Não é medo, nem desejo, é um tumulto interior, incompreensível, que ameaça rasgar-me o peito, que me sufoca!”
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Leonardo Da Vinci: “As ameaças só servem como armas para aqueles que são ameaçados”.
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Horácio: “O arco nem sempre atinge o alvo que visa”.
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Henry de Montherland: “Uma ameaça, uma promessa, insolência, cortesia: esse é o equilíbrio dos negócios”.
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Yvon Rivard: “Nada ameaça mais a permanência das coisas do que a imaginação do homem”.
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Ambrose Biece: “Ambição. Um desejo incontrolável de ser vilipendiado pelos inimigo em vida e ridicularizados pelos amigos após a morte”.
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René Char: “O essencial está constantemente ameaçado pelo insignificante”.
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Jacques Attali: “Os meios de comunicação servem como amplificadores das ameaças”.
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Attali, de novo: “Se o mercado prevalecer sobre a democracia, ele conduzirá a ciência em direções que ameaçaram a humanidade”.
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Michel de Montaigne: “A ambição é um vício de gente pequena”.
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Jean de La Fontaine: “Arriscamo-nos a perder quando queremos ganhar demais”.
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Jean de la Bruyère: “Um escravo tem um senhor. Mas um homem ambicioso tem muitos senhores: todas as pessoas que lhe podem ser úteis para ele subir na vida”.
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Cesare Pavese: “A dificuldade de praticar o suicídio está nisto: é um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda espécie de ambição”.
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Bertrand Russel: “É a ambição de possuir, mais do que qualquer outra coisa, que impede os homens de viverem de uma maneira livre e nobre”.
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José de Alencar: “É na idade da ambição que se prova a têmpera dos homens”.
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Marquês de Maricá: “A ambição sujeita os homens a maior servilismo do que a fome e a pobreza”.
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Maricá, de novo: “Os bens que a ambição promete são como os do amor: melhores imaginados que conseguidos”.
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Trinstan Bernard: “Um dia, as ameaças à paz surgirão no horizonte. Mas não estamos preparados”.
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Marco Aurélio: “O homem ambicioso tem seus fundamentos nas ações dos outros. O homem voluptuoso, nas suas sensações; e o homem sensato, em suas próprias ações”.
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Theodore Roosevelt: “Educar uma pessoa apenas no intelecto, mas não na moral, é criar uma ameaça à sociedade”.
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George R. R. Martin: “Dê-me inimigos honrados ao invés de ambiciosos, e eu vou dormir mais facilmente à noite”.
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Sun Tzu: “Aquele que se empenha a resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam. Aquele que se ultrapassa a vencer os inimigos triunfa antes que suas ameaças se concretizem”.
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Mahatma Gandhi: “Há riqueza bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ambição”.
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Provérbio turco: “A ambição é uma doença que só encontra remédio alguns palmos sob a terra”.
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Afrânio Peixoto: “A maldade da inveja é filha da ambição impotente”.
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Napoleão Bonaparte: “Uma grande ambição é a paixão de um grande caráter. Aqueles que a possuem podem praticar atos muito bons ou muito ruins. Tudo depende dos princípios que os guiam”.
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Pierre Corneille: “Não ter temor da morte é não temer-se ameaças”.
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Carl Sagan: “O universo não precisa estar em perfeita harmonia com a ambição humana”.
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Stephen Hawking: “A poluição, a ganância e a estupidez são as maiores ameaças ao planeta”.
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José Mujica: “O que uns chamam de crise ecológica é consequência da ambição humana, este é nosso triunfo e nossa derrota”.
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Luc Ferry: “A principal ameaça às nossas democracias reside na sua incapacidade de justificar de forma convincente as suas próprias políticas”.
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Benjamin Disraeli: “A moderação tem sido considerada uma virtude para limitar a ambição dos grandes homens e para consolar as pessoas sem distinção pela sua falta de fortuna e mérito”.
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Paul Valéry: “Dois perigos ameaçam constantemente o mundo: a ordem e a desordem”.
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Rubens Östlund: “O cinema americano reproduz incessantemente uma imagem heroica do homem que precisa superar uma ameaça externa para continuar em paz”.
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Charles Bukowski: “Minha ambição é prejudicada pela preguiça”.
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Bob Marley: “Eu só tenho uma ambição, sabe? Só tem uma coisa que eu realmente gostaria de ver acontecer. Eu gostaria de ver a humanidade viver junta – negros, brancos, chineses… – só isso”.
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Lembrei-me agora de uma ameaça de Mário Amato, então presidente da Fiesp, antes do segundo turno da eleição presidencial entre Collor e Lula: “Se Lula ganhar esta eleição, 800 mil empresários vão deixar o país.” Ele disse isso relembrando que, depois da Revolução dos Cravos, 80 mil empresários saíram de Portugal. Na época, comentei em algum jornal que não me lembro: foi aí que Portugal melhorou, livrando-se de 80 mil parasitas. O Brasil, livrando-se de 800 mil, ia melhorar muito mais.
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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.
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