Cultura inútil | Vergonha na cara? Fux you!

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Por Mouzar Benedito
Como (quase) todo mundo, ao assistir pela TV parte do julgamento do coiso, vibrei no geral e fiquei enojado com a cara-de-pau de um que não se limitou a ser tendencioso: foi além do que se poderia esperar até dos advogados dos golpistas. Admirado (no mau sentido) com a ginástica mental que alguém supostamente bem formado é capaz de fazer para defender o indefensável, eu me lembrei do que o escritor Capistrano de Abreu propunha uma Constituição para o Brasil. Teria apenas dois artigos:
Artigo 1º – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.
Artigo 2º – Revogam-se as disposições em contrário.
E, sem ser fã de Rui Barbosa, me lembrei também de um aforismo de sua autoria que se tornou um clássico das citações dos brasileiros: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
Depois fiquei pensando: o tal ministro votou pela condenação de um auxiliar de Bolsonaro que recebeu ordem para planejar um golpe e livrou a cara do mandante… então, se encarregado de julgar “monocraticamente” algum processo envolvendo Bolsonaro, poderia decidir a favor dele sobre qualquer assunto, por mais esdrúxulo que possa ser. Por exemplo: se o maligno processar os mortos pela Covid dizendo que morreram de birra para o difamar, não duvido que o ginasta mental lhe dê ganho de causa e condene cada família de morto a pagar indenização a ele. Uma grana boa para se somar aos milhões recebidos por pix transferidos pelo gado trouxa.
Depois do julgamento, veio a tal PEC da Bandidagem, felizmente refreada pela pressão popular. No plano internacional, hoje mesmo o Nobel da Paz foi concedido a uma golpista. Mas parei de ruminar sobre essas coisas, juntei frases sobre essa coisa de vergonha na cara (ou falta de) e coletei outras por aí. Lá vão elas…
Santo Agostinho: “É vergonhoso ser desavergonhado”.
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Thomas Corneille (jurista francês): “O crime é vergonhoso, não o cadafalso”.
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Didier-Pierre Chicaneau de Neuvillé (filósofo francês): “O atrevido é aquele que ofende as leis da decência e da honestidade, e não se envergonha disso; o desavergonhado é aquele que se vangloria disso”.
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Anônimo: “Onde quer que estejam, eles só causam mal, e ainda têm a audácia de pregar moralidade”.
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Alexandre Dumas, Filho: “Quando um homem tem vergonha de si mesmo, ele é impiedoso com os outros”.
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Maria Bertuzzo (italiana): “Quanto mais culpada for sua consciência, mais atrevido você será”.
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Carl Jung: “A vergonha é uma emoção que devora a alma”.
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Maquiavel: “Os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha”.
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Bernard Shaw: “Quando um estúpido faz algo de que se envergonha, diz sempre que esse é o seu dever”.
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Leonel Brizola: “Estou pensando em criar um vergonhódromo para políticos sem-vergonha, que ao verem a chance de chegar ao poder esquecem os compromissos com o povo”.
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Tácito: “Uma vez descoberto, o crime não encontra outro refúgio senão no descaramento”.
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Anônimo: “Aquele que se livrou da vergonha jamais a retomará”.
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Francis Bacon: “A baixeza mais vergonhosa é a adulação”.
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J. D. Salinger (escritor estadunidense): “Continuo dizendo ‘prazer em conhecer’ para pessoas que não tenho o menor prazer em conhecer. Mas se você quer sobreviver, precisa dizer certas coisas”.
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Camilo Castelo Branco: “Onde morre a vergonha nascem os expedientes desonrosos”.
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Erasmo de Rotterdam: “Duas coisas, sobretudo, impedem que o homem saiba ao certo o que deve fazer: uma é a vergonha, que cega a inteligência e arrefece a coragem; a outra é o medo, que, indicando o perigo, obriga preferir a inércia à ação”.
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Leandro Kamal: “A vergonha está desaparecendo”.
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Leon Tolstói: “Você nunca deve sentir vergonha do seu trabalho, mesmo o mais humilde e sujo, mas deve sentir vergonha apenas da sujeira moral, que é a ociosidade do seu corpo, que é o resultado direto do consumo do trabalho de outros”.
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Walter Benjamin (sobre a literatura de Kafka): “A vergonha não é apenas aquela que sentimos diante dos outros, mas também aquela que sentimos por eles”.
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Franz Fisher: “Algumas pessoas mentem tão descaradamente que você nem consegue acreditar no oposto do que dizem”.
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Ditado popular: “Homem que com sua honra não sonha, vem-lhe de ter pouca vergonha”.
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Henry David Thoreau: “Se você já construiu castelos no ar, não tenha vergonha deles. Estão onde devem estar. Agora, dê-lhe alicerces”.
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Friedrich Nietzsche: “Ter-se vergonha da sua imoralidade é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da nossa imoralidade”.
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Nietzsche, de novo: “Qual é o sinal da liberdade realizada? Não sentir vergonha de si mesmo”.
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Nietzsche, mais uma vez: “O que é o macaco para o homem? “Uma risada ou uma dolorosa vergonha”.
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Provérbio manchu: “A vergonha não está em ser inferior ao seu oponente, mas ser inferior a si mesmo”.
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Benjamin Franklin: “Tudo o que começa com raiva acaba em vergonha”.
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Stanislaw Jerzy Lec (poeta polonês): “Em nosso país, temos uma rica reserva de energia: a impudência dos imbecis”.
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Paul Simon (cantor estadunidense): “É ultrajante encher os bolsos com a miséria dos pobres; é ultrajante os crimes que alguns seres humanos têm que suportar”.
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Provérbio italiano: “Com uma cara atrevida, você anda de carruagem”.
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Albert Camus: “Não é nenhuma vergonha ser-se feliz; vergonhoso é ser feliz sozinho”.
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Alexander Pope (poeta inglês): “Um homem nunca deve sentir vergonha de admitir que errou, o que é apenas dizer, noutros termos, que hoje ele é mais inteligente do que era ontem”.
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Pope, de novo: “Uma mente nobre tem vergonha de não se arrepender”.
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Confúcio: “O homem sábio tem vergonha de seus erros, mas não tem vergonha de corrigi-los”.
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Blaise Pascal: “Não tenho vergonha de mudar de ideia, porque não tenho vergonha de pensar”.
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Will Smith: “Você pode chorar, não há vergonha nisso”.
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Lucien Emile Arnault (dramaturgo francês): “A vergonha reside na fuga, não na derrota”.
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Vladimir Soloiov (filósofo russo): “Sinto vergonha, logo existo”.
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(Atribuída a) Sócrates: “As pessoas precisam de três coisas: prudência no ânimo, silêncio na língua e vergonha na cara”.
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Paulo Freire: “O ser alienado não procura um mundo autêntico. Isto provoca uma nostalgia: deseja outro país e lamenta ter nascido no seu. Tem vergonha da sua realidade”.
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Provérbio francês: “O velho pecado gera nova vergonha”.
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La Fontaine: “A vergonha de confessar o primeiro erro leva a cometer muitos outros”.
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Provérbio chinês: “Se um homem me engana uma vez, a vergonha é dele. Se ele me engana duas vezes, a vergonha é minha”.
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Cícero: “Desconsiderar o que o mundo pensa de nós não é apenas arrogante, mas também totalmente descarado”.
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Cícero, de novo: “Não há diferença entre um juiz perverso e um juiz ignorante”.
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Heinrich Heine: “A verdadeira loucura talvez não seja outra coisa que a sabedoria que, cansada de descobrir as vergonhas do mundo, tomou a inteligente resolução de tornar-se louca”.
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Maquiavel: “Grandes homens dizem que vergonha é perder, não trapacear para ganhar”.
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Provérbio: “Quem não se envergonha, o mundo inteiro lhe pertence”.
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Sêneca: “A companhia dos desavergonhados enfraquece até o homem forte e duro como uma rocha”.
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Francesco Burdin (escritor italiano): “O crime que não podemos perdoar a nós mesmos: tornar-nos, por timidez, cúmplices da vulgaridade de alguém descarado”.
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Margaret Atwood: “Eu gostaria de não ter vergonha. Gostaria de ser sem-vergonha. Gostaria de ser ignorante. Então não saberia o quanto era ignorante”.
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Salomão (Provérbios): “O justo odeia mentiras; o perverso causa vergonha e desonra”.
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Gabriel García Márquez: “A vergonha tem memória ruim”.
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Miguel de Cervantes: “Mais vale vergonha no rosto que mancha no coração”.
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Sartre: “A vergonha, isso passa quando a vida é longa”.
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Voltaire: “Não será vergonha que os fanáticos sejam zelosos e que os sábios se desmazelem?”.
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Provérbio armênio: “Envergonhado do que viu o dia todo, o sol ficou vermelho à noite”.
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François La Rochefoucauld: “Por maior vergonha que tenhamos merecido, está quase sempre em nosso poder o restabelecimento da nossa reputação”.
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Tchekhov: “Uma pessoa boa sente vergonha até diante de um cão”.
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Tchekhov, de novo: “Os mortos não conhecem vergonha, mas cheiram horrivelmente mal”.
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Goethe: “Os homens mais vazios têm uma opinião muito alta de si mesmos”.
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Renato Kehl (médico brasileiro): “Quando o orgulho e a presunção caminham adiante, a vergonha e o dano seguem-nos de perto”.
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Marie Pourchet (romancista francesa): “A vergonha, que, como o cansaço, é apenas uma visita, desapareceu”.
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Não sei quem: “Em um mundo onde o ultrajante se torna norma, as organizações estáveis não fazem sentido”.
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José Saramago: “Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui”.
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Ryan Holiday (marqueteiro estadunidense): “Se você for descarado o suficiente, pode vender qualquer coisa”.
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Arthur Schopenhauer: “Inteligência, astúcia e certos talentos parciais permitem que alguém prospere no mundo e facilmente conquiste sua fortuna, especialmente se acompanhados de descaramento”.
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Steve Jobs: “Sempre fomos descarados em roubar grandes ideias”.
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Emilio Rega (escritor italiano): “É melhor ter vergonha do que se desavergonhado”.
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Cândido Nocedal y Rodriguez de la Flor (advogado e político espanhol): “No mundo costuma-se chamar de habilidade a falta de vergonha”.
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Mark Twain: “As mentiras mais absurdas que podem ser inventadas encontrarão crentes se a pessoa contar com todas as suas forças”.
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Marcello Vital (professor italiano): “É preciso ter coragem para mentir para os outros, mas é preciso muito mais coragem para mentir para si mesmo”.
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Mario Quintana: “Não tenho vergonha de dizer que estou triste, / Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poema: / Estou triste por que vocês são burros e feios / E não morrem nunca…”
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Termino com uma de Guimarães Rosa que não tem muito a ver com isso, mas gosto dela: “Trabalho não é vergonha, é só uma maldição”.
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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.
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