Cultura inútil | O choro é franco
Você se deu mal? Chore à vontade. A gente entende que toda encenação como valentão, machão (quanta rima!) era mesmo só encenação de quem se julgava todo-poderoso.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Por Mouzar Benedito
O choro comove, mas nem sempre. Às vezes, percebemos que é pura falsidade, hipocrisia, lágrimas de crocodilo, como dizem. Já ouvi dizer que, nos crocodilos, o ato de mastigar força umas glândulas a soltarem lágrimas, mas a origem da expressão “lágrimas de crocodilo” é outra, conforme andei lendo. Segundo Plínio, o Velho, os crocodilos das margens do rio Nilo choravam e faziam manifestações ruidosas simulando desespero, tudo para despertar a piedade e a atenção dos passantes, que iam ver do que se tratava e eram devorados. Certos golpistas chorões, ao serem punidos, não se enquadram nisso? Se alguém se emocionar com eles, será sacaneado.
Ah, me lembrei de outra expressão relacionada a isso, mas praticamente esquecida hoje em dia: lágrimas de Xerxes. Era usada para se referir a um momento de fraqueza ou de humanidade por parte de uma pessoa dura e cruel. Xerxes foi um imperador persa muito arrogante, mas antes de invadir a Grécia, segundo Heródoto, passou seu enorme exército em revista e começou a chorar dizendo: “Quantos, dentre todos eles, hão de regressar?” Mas mesmo assim, os mandou pra guerra. Acho que esse pessoal golpista que engana pobres (ou trouxas), tratando-os como gado, pode ter lágrimas de Xerxes. Fingidas, claro.
Selecionei um monte de frases sobre choro, mas antes de apresentá-las aqui quero me lembrar de um choro que gosto: nos botecos, quando peço uma dose da marvada, peço ao garçom que chore bastante, quer dizer, ponha no copo muito mais do que os 50ml de uma dose comum. Aliás, não sou pioneiro nisso. Na estreia de Greta Garbo no cinema falado, fazendo o papel de prostituta no filme Anne Christie, ela pediu: “Bota aí um uísque com uma cerveja para acompanhar. E não poupa no choro, boneca.”
Bom… vamos às frases (e provérbios):
Provérbio marroquino: “Quem se feriu com a própria mão não deve chorar.”
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Adelino Moreira (na canção “Chore comigo”, popularizada por Nelson Gonçalves): “Liberte o peito/ do amargor e da revolta (…)/ Não se envergonhe/ de chorar perto de mim/ Porque a lágrima/ é o desabafo natural.”
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Machado de Assis: “Lágrimas não são argumentos.”
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Machado de Assis de novo (em Quincas Borba): “E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.”
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Madeleine D’Engle: “Nem sempre podemos chorar na hora certa. E quem pode dizer qual é a hora certa?”
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James Baldwin: “As pessoas conseguem chorar muito mais facilmente do que conseguem mudar.”
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Artur da Távola: “O choro existe para o homem não explodir.”
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Aluísio Azevedo: “Infeliz daquele a quem não é dado chorar; só o pranto afoga a dor que a vontade não vence destruir.”
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Ditado popular: “São lágrimas suspeitas as dos ratos nos enterros dos gatos.”
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Outro ditado popular: “Lágrimas de herdeiros são sorrisos disfarçados.”
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Dona Ivone Lara e Jorge Aragão: “Não me comove o pranto de quem é ruim.”
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Fernando de Magalhães: “Quem enxuga as lágrimas alheias não tem tempo de chorar.”
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Charles Chaplin: “Eu amo andar na chuva porque ninguém percebe que estou chorando.”
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Antônio Maria (contando que chorou muito ao assistir ao filme Luzes da ribalta): “Descobri chorando – o que doeu de um jeito especial – que ninguém tem pena de quem chora no cinema.”
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Marcel Proust: “As pessoas nem sempre são muito tolerantes com as lágrimas que elas mesmas provocaram.”
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Lupicínio Rodrigues (na música “Vingança”): “Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram, que te encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar.”
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Shakespeare: “Chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras.”
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Shakespeare, de novo: “Chorar é diminuir a profundidade da dor.”
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Shakespeare, mais uma vez: “Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes.”
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Lygia Fagundes Telles: “Aí parei de chorar, chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante, as minhas melhores ideias nasceram do ódio.”
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François Mauriac: “Choro pelos meus pecados: aqueles que cometi e aqueles que gostaria de ter cometidos.”
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Padre Sena Freitas: “Neste mundo até a alegria traz lágrimas aos olhos.”
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Ditado popular: “Lágrimas com pão passageiras são.”
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August Strindberg: “Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões? Por que é que um homem não devia chorar?”
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Cecília Meireles: “O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia./ O choro vem quase chorando, como a onda que toca na praia (…),/ O choro foge sem vestígios, mas deixando náufragos dentro!”
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Cecília Meireles, de novo: “É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.”
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Bastos Tigre: “Saber chorar é a virtude precípua do negociante.”
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Andy Warhol: “Uma pessoa pode chorar ou rir. Sempre que você está chorando, você poderia estar rindo, a escolha é sua.”
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Júlio Diniz: “Quem deveras confia nos destinos da Humanidade não tem medo das lágrimas.”
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Júlio Diniz, de novo: “Quando se não chora, parece que as lágrimas nos caem todas cá dentro e queimam; e o padecimento é então de morte.”
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Dante Alighieri: “Não chorei, e assim me transformei em pedra por dentro.”
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Gabriel Charpentier: “Eu uso máscara, e choro por dentro.”
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Camilo Castelo Branco: “As lágrimas são o desafogo das dores que vivem no cérebro normal.”
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Castelo Branco, de novo: “As lágrimas represadas são a peçonha mortal do coração.”
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Castelo Branco, mais uma vez: “São mais dolorosas as lágrimas sem testemunhas.”
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Graciliano Ramos: “Chorou, mas estava invisível e ninguém percebeu o choro.”
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Nando Reis: “Triste é não chorar, se eu também chorei, e não, não há nenhum remédio pra curar essa dor que ainda não passou, mas vai passar, a dor que nos machucou.”
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Carlos Drummond de Andrade: “Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.”
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Tati Bernardi: “Hoje tá um bom dia para organizar todo o choro atrasado.”
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Tati Bernardi, de novo “A vida me emociona o tempo todo, mas se eu ficasse chorando, quem vai pagar minhas contas e me querer cheia de olheiras? Então eu corro.”
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Clarice Lispector: “Faz de conta que ela não estava chorando por dentro – pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver.”
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Lord Byron: “Mas por que eu deveria chorar pelos outros, se ninguém ao menos suspira por mim?”
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Ovídio: “Às vezes, as lágrimas têm a virtude da eloquência.”
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Conselho pra chorão: “Vá chorar na cama, que é lugar quente.”
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Mario Quintana: “Por que será que a gente vive chorando os amigos mortos e não aguenta os que continuam vivos?”
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Barão de Montesquieu: “Devemos chorar as pessoas à nascença, e não quando da sua morte.”
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Provérbio espanhol: “Chorei quando vim ao mundo, e cada dia mostra-se o porquê.”
Sacha Gutry: “Você pode chorar por dois dias – mas não pode rir por duas horas.”
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Cartola: “A sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida.”
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Ditado popular: “Quem chora, seu mal minora.”
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Ditado popular dizendo o contrário: “Quem chora, seu mal piora.”
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Bob Marley: “Algumas lembranças são confusas: umas me fazem rir, quando lembro que chorei. Outras me fazem chorar, quando lembro que rimos juntos.”
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Bob Marley, de novo: “Choro porque tenho vontade, mas nem sempre tenho motivo.”
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Rabrindranath Tagore: “Se de noite chorares pelo sol, não verás as estrelas.”
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Pierre Beaumarchais: “Apresso-me a rir de tudo, com medo de ser obrigado a chorar.”
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José de Alencar: “As lágrimas são um bálsamo que Deus deu à fraqueza da mulher, e que negou à força do homem.”
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Waldick Soriano: “Vou ficar aqui chorando/ pois um homem quando chora/ tem no peito uma paixão.”
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Baruch Espinoza: “Não chore; não ria, mas compreenda.”
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Frank Capra: “Cometi erros no teatro. Pensava que teatro era quando os atores choravam. Mas teatro é quando o público chora.”
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Samuel Beckett: “As lágrimas do mundo são inalteráveis. Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro para. O mesmo vale para o riso.”
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Charles Bukowski: “Eu estou velho quando a moda é ser jovem. Eu choro quando sorrir está na moda.”
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Renato Russo: “Eu não sei se choro, se sumo ou se finjo que estou bem.”
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Provérbio chinês: “Lágrimas nascem em viúvas e piolhos em viúvos.”
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Jean-Paul Sartre: “Lágrimas de um adulto eram como uma catástrofe mística, qualquer coisa como o choro de Deus acerca da maldade de alguém.”
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Kurt Cobain: “Se meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo.”
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Antoine de Saint-Exupéry: “A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar.”
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Candeia: “Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar rir pra não chorar.”
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Provérbio dinamarquês: “Cebola, fumaça e mulheres fazem você chorar.”
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Augusto dos Anjos: “Cansado de chorar pelas estradas / Exausto de pisar mágoas pisadas / Hoje eu carrego a cruz das minhas dores.”
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Leila Diniz: “Viver intensamente é você chorar, rir, sofrer, participar das coisas, achar a verdade nas coisas que faz.”
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Arthur Rimbaud: “Farsa contínua! A minha inocência me faria chorar. A vida é a farsa a ser levada por todos.”
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José Saramago: “É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido.”
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Jean Racine: “Os mais infelizes são os que menos ousam chorar.”
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Elizabeth Gilbert: “Não peça desculpa por chorar. Sem essa emoção, somos apenas robôs.”
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Provérbio francês: “Quem ri de manhã, chora à noite.”
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Provérbio árabe: “Pode acontecer que alguém se esqueça daqueles com os quais riu, nunca esquecerá, porém, daqueles com quem chorou.”
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Miguel de Cervantes: “Muito te ama quem te faz chorar.”
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Ditado popular: “Quem sorrindo tentou nos derrotar, chorando aplaudirá nossa vitória.”
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Theodor Seuss Geisel: “Não chore porque acabou. Sorria porque aconteceu.”
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Paulo Vanzolini: “Ali onde eu chorei, qualquer um chorava. Dar a volta por cima, que eu dei, quero ver quem dava.”
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Anne Frank: “Fico tão confusa pela quantidade de coisas que tenho de considerar que não se choro, ou se rio, depende do meu humor.”
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Provérbio japonês: “A duração de uma vida é a mesma, quer a passemos cantando ou chorando.”
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Charlotte Brontё: “Chorar não indica fraqueza em alguém. Desde o nascimento, foi um sinal de que se está vivo.”
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Fiódor Dostoiévski: “Sofrer e chorar significa viver.”
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Gabriel García Márquez: “Ninguém merece tuas lágrimas, e quem as merece não te fará chorar.”
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Virginia Woolf: “Este é um privilégio da solidão: pode a gente fazer o que bem nos parece. Pode-se até chorar, se ninguém está olhando.”
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Emile Deschamps: “Só descobrimos quanto nos amamos quando choramos juntos.”
Mané Garrincha (depois da vitória da final do Campeonato Mundial de Futebol, em 1958): “Por que todo mundo tá chorando? Não ganhamos o jogo?”
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Heinrich Heine: “Por mais que se chore, no final sempre assoamos o nariz.”
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Lembrei-me de quando era criança e sempre apareciam na cidade algum “circo-teatro”, assim chamado porque, no final, depois dos números de trapezistas, mágicos, palhaços e equilibristas, sempre tinha uma peça (mas não chamavam de peça, era “drama” ou “comédia”). Na Semana Santa, o drama encenado era — fosse qual fosse o circo — “Vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”. E mesmo sendo um drama sabido e repetido, o circo lotava nesse dia, e as pessoas se emocionavam. Eu me lembro do seu Alcindo, que tinha mais de 50 anos de idade, sentava-se na primeira fila e chorava direto durante a apresentação. Nós, moleques, sentávamo-nos perto dele pra ver. Olhávamos mais o seu Alcindo do que a peça. E sempre um amigo dele, brincalhão, falava alto no meio da peça: “O que você tá fazendo, Alcindo?”, e ele respondia com a voz embargada: “Estou enxugando as lágrimas.”
***
Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.
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