O fascismo nosso de cada dia… nas telas 

Cena de O conformista (1970), de Bernardo Bertolucci. Imagem: Divulgação

Por Alysson Oliveira

Há, basicamente, duas formas de se abordar o fascismo no cinema (obviamente, há mais do que apenas duas, mas, para os propósitos deste texto, vamos dividir em dois grandes grupos). A primeira, busca retratar o fascismo a partir da perspectiva do Estado — sua dimensão governamental, institucionalizada e oficial, que se embrenha nas instituições e nas vidas das pessoas. Mas há, também, a abordagem dos microfascismos, que se desenham nas dinâmicas de poder no seio da vida cotidiana. Ambas as abordagens renderam filmes potentes e instigantes que, pelo seu tema, (infelizmente) continuam muito atuais. São filmes desse tipo que compõem esta lista feita por Alysson Oliveira para o Blog da Boitempo.  


A estratégia da aranha (1970), de Bernardo Bertolucci (disponível em DVD pela Versátil) 

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Como bom diretor de filmes políticos, o italiano Bertolucci nunca se furtou de investigar o passado e o presente espinhosos de seu país. Em A estratégia da aranha, ele parte de um conto de Jorge Luis Borges chamado “Tema do traidor e do herói” para investigar a construção de mitos públicos. No enredo, um homem volta à cidade natal para investigar a morte de seu pai, que ocorreu antes do protagonista nascer. Lá ele descobre que o pai fazia parte de uma trama para matar Mussolini, mas se acovardou na hora de explodir uma bomba. A verdade, no entanto, pode ser um emaranhado de traições e mentiras. 


O conformista (1970), também de Bernardo Bertolucci (disponível em DVD pela Versátil) 

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Do mesmo diretor, O conformista é baseado num romance de Alberto Moravia e tem como protagonista Marcelo, um homem que nutre fortes simpatias pelo fascismo. Ele é contratado para matar seu antigo professor — um notório antifascista italiano que vive exilado na França —, mas se apaixona pela esposa francesa do homem. A trama, então, se desenrola de forma impressionante, novamente, com jogos de traições, mentiras, e termina de forma contundente.  


Filhos da esperança (2007), de Alfonso Cuarón (disponível para aluguel na AppleTV e em Blu-ray pela Colecione Clássicos) 

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Um dos filmes mais impressionantes do cineasta mexicano, Filhos da esperança se passa num futuro totalitário onde crianças, por um motivo misterioso, pararam de nascer. A pessoa mais jovem do mundo, Diego Ricardo — conhecido como Baby Diego, apesar de já ter 18 anos, é esfaqueada. Tudo isso leva a um levante social ao redor do mundo, inclusive na Inglaterra, que se tornou um Estado policial militarizado. Theo Faron (Clive Owen) é um ex-ativista e agora burocrata sequestrado por um grupo de militantes, que o levam à última esperança da Terra: Kee (Clare-Hope Ashitey), uma imigrante ilegal que está grávida. Da fotografia impressionante, assinada por Emmanuel Lubezki, à montagem, de Cuarón e Alex Rodríguez, o longa tem a pungência de uma obra de denúncia que, embora totalmente ficcional, se resvale apoia no retrato de governos ditatoriais e violentos.  


O espírito da colmeia (1973), de Víctor Erice (disponível na plataforma Filmicca)

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Clássico espanhol, o longa de Erice se passa em 1940, pouco despois da Guerra Civil Espanhola, com o país sob a ditadura de Franco. Ana (Ana Torrent) é uma garotinha de sete anos que fica traumatizada após assistir à adaptação clássica de Frankenstein feita por James Whale em 1931. Andando pelo seu vilarejo, ela se depara com uma figura peculiar, que poderia ser a própria criatura que viu no filme. Com essa trama, combinando política e fantasia, Erice investiga a existência do “outro” dentro de um regime totalitário.  


A Onda (2008), de Dennis Gansel (disponível na Netflix)

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Não é de se espantar que venha da Alemanha um dos filmes recentes mais contundentes sobre o assunto. O longa parte de uma experiência real de um professor de história estadunidense, Ron Jones, que, em 1967, fez uma experiência com seus alunos do último ano do ensino médio para investigar como o fascismo conquista corações e mentes e se torna um regime oficial mesmo perpetrando horrores. No longa de 2008 (segunda adaptação do episódio factual), o experimento sai de controle e se torna mais do que uma investigação de dinâmicas de poder. Bastante popular, o filme oferece um retrato assustador que dialoga com o público jovem.  


Aleluia, Gretchen (1976), de Sylvio Bach 

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O título talvez engane alguns e faça pensar que é sobre a cantora, famosa por seus inúmeros casamentos e músicas sensuais. Mas não poderia haver maior engano. O longa de Bach é um retrato assombroso sobre a disseminação do nazismo no sul do Brasil, mais precisamente, no interior do Paraná. Uma família alemã, os Kranz, compra um hotel, que em pouco tempo se torna um ponto de encontro para simpatizantes do nazismo na região. Montado pelo hoje crítico de cinema Inácio Araújo, o longa precisou se valer de alguns malabarismos e subterfúgios narrativos para fugir à censura da ditadura brasileira, mas nada disso impede que seja compreendido como é. A trilha musical com Wagner, hinos e canções foi arranjada e tocada pelo grupo O Terço. 

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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. LeGuin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.


Lançamento de Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi. Debate com o autor,Luciana Genro e mediação de Ronaldo Tadeu.


UM ESTUDO PROVOCATIVO SOBRE OS LAÇOS ENTRE O FASCISMO E O LIBERALISMO. 

Desafiando o mito da oposição entre ambos, este livro revela uma tradição liberal-fascista que ligava a liberdade à autoridade e ao Estado forte. Alvaro Bianchi oferece uma visão essencial sobre como os ecos da ideologia fascista persistem nas democracias de mercado atuais.
Clara E. Mattei, autora de A ordem do capital

Há um século a humanidade viu o fascismo chegar ao poder na Itália e espalhar suas ramificações pela Europa e pelo mundo. Ao longo dos anos, houve períodos em que parecia impossível afirmar que algo próximo ao fascismo poderia retornar, mas os regimes e personalidades que emergiram nas últimas décadas deixaram claro que a sombra do fascismo está viva e atuante.  

Na contracorrente da historiografia dominante sobre o tema, este livro se debruça sobre as insistentes tentativas de acomodação da ideologia fascista com o liberalismo. A tese é que longe de negar o projeto fascista, tais esforços de “normalização” representaram uma estratégia para torná-lo perene. Combinando farta pesquisa em arquivos primários e notável rigor sociológico, o cientista político Alvaro Bianchi oferece um raio-x do liberal-fascismo.  

Embora centre sua investigação na Itália – cotejando as aproximações entre o movimento liderado por Mussolini e a obra de pensadores liberais como o economista Vilfredo Pareto e o filósofo Giovanni Gentile –, o autor examina as características antiindividualistas, antinaturalistas e antidemocráticas dessa corrente política híbrida também em países da América Latina. O resultado é uma contribuição original que não só ilumina o fascínio que o fascismo exerceu sobre os liberais, como fornece um precioso instrumental para compreender o neofascismo e o pós-fascismo atuais.   

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