Um gênio do drama social moderno: Ken Loach

Ken Loach em 2011. Foto: Francis Mckee (WikiCommons).
Por Ricardo Antunes
[Atenção, spoilers na pista ⚠️]
Escrevo as primeiras notas deste artigo recorrendo à memória, uma vez que me encontro em atividade no exterior e, por uma coincidência especial, acabo de presenciar uma cena tão inimaginável, quanto memorável.
Como faço há muitos anos, no início de novembro deste ano, participei de uma Conferência Internacional realizada na Universidade de Londres, cujo objetivo central de discutir as questões cruciais do nosso tempo.1
Mas não foi essa a minha surpresa, que teve outra motivação. Durante a referida atividade, soube que o grande cineasta Ken Loach receberia o título de doutor Honoris Causa, em 11 de novembro, concedido pela Universidade de Bolonha (Itália) — e que, por conta da idade de Loach (89 anos), a honraria lhe seria entregue pessoalmente no Kings College, em Londres. Foi esse presente que me permitiu conhecer uma figura tão especial.
Seria impossível, no espaço deste artigo, tratar de sua monumental produção. Só para efeito de ilustração, vamos aqui recordar dois de seus filmes que, pela força e vigor, oferecem uma fotografia viva da vida cotidiana no trabalho no mundo atual.
Começo por Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake, 2016), que se tornou exemplo do drama social gerado pela devastação neoliberal. Ela traz a história trágica de um trabalhador idoso e talvez seja a sua película mais emblemática do significado profundamente destrutivo do capitalismo contemporâneo em relação ao trabalho e à subjetividade humana.

Eu, Daniel Blake. Imagem: Divulgação
O principal personagem do filme, Daniel Blake, depois de várias décadas de dedicação ao labor, na hora de cuidar de sua saúde, por conta dos adoecimentos e padecimentos que macularam a sua vida no trabalho, viu desvanecer a possibilidade de cuidar-de-si.
Foi assim que, já idoso, o personagem embrenhou-se em uma busca inglória por um tratamento. E o horror começa quando se defronta com uma máquina digital programada para dificultar, ao invés de beneficiar, particularmente em relação aos trabalhadores idosos.
O desfecho não poderia ser outro: a tragédia lhe custa a própria vida. Filme britânico, mas profundamente global, nele florescem, junto com as tantas mazelas e infortúnios, também as múltiplas formas de solidariedade, presentes na luta da amiga-companheira do protagonista e de tantos que se comoveram com sua batalha de desfecho inglório.

Eu, Daniel Blake. Imagem: Divulgação
Outro estonteante filme de Ken Loach é também uma das suas obras mais recentes: Você não estava aqui (Sorry We Missed You, 2019) mergulha profundamente nas tantas mazelas que configuram o trabalho em plataformas, que se expande celeremente pelo mundo.
Em poucas palavras: seu filme trata de uma família em que o marido se tornou trabalhador uberizado (entregas de e-commerce) e a mulher, trabalhadora também plataformizada, atua no trabalho do care, dos cuidados. Ambos têm um filho, jovem estudante, que foi vendo, pouco a pouco, desvanecer o feliz núcleo microcósmico familiar, corroído indelevelmente pelo flagelo das condições do trabalho em plataforma.
Você não estava aqui. Imagem: Divulgação
Há cenas emblemáticas já nos primeiros minutos do filme, por exemplo, quando o trabalhador ingressa felizardo na plataforma, sendo que sua primeira decisão foi adquirir, imbuído pelo novo “espírito empreendedor”, um automóvel próprio, financiado, imaginando um futuro próspero em sua nova fase. O resultado se mostra desastroso…
A segunda cena simbólica está estampada no diálogo entre ele o gestor da empresa de e-commerce, que orienta o novo “empreendedor” (em verdade, um potencial candidato a assalariado ultraprecarizado) a levar consigo uma garrafa pet vazia, em seu veículo. O que o fez indagar algo assim: mas por que devo levar uma garrafa vazia? O gerente, duro e rústico, é muito direto ao dizer que em breve ele compreenderia a utilidade.

Você não estava aqui. Imagem: Divulgação
Não foram necessárias sequer algumas horas para que o trabalhador entendesse quão vital era aquela garrafa em seu labor cotidiano. Dado o ritmo extenuante desse tipo de trabalho, sob o comando turbinado dos algorítmicos, logo iria aflorar a absoluta urgência: nesta modalidade “moderna” de trabalho, não há nem local, nem tempo para urinar… Como não há nem tempo e nem espaço para se alimentar, repousar, tomar banho, isto é, aquilo que é basilar para a humanidade, mas é tolhido ao trabalhador uberizado.
É assim que, em pouco tempo, a vida do personagem vai se destruindo e, junto com ela, rui também a sociabilidade familiar. A companheira, trabalhadora dos cuidados, tem que vender o seu automóvel para pagar as dívidas do marido e vê evaporar o transporte que lhe era imprescindível para realizar seus múltiplos atendimentos.
E, se isso não bastasse, nessa modalidade de trabalho completamente desprovida de direitos2, o filho do casal, ao vivenciar o terrível drama dos pais, acaba por se rebelar e vê soçobrar os laços de solidariedade e de afeto anteriormente existentes entre os membros da família.
Dos tantos filmes de Ken Loach, esse foi um dos mais duros de assistir, como se constata em sua cena final, quando afloram o isolamento, o desespero e a desesperança.
Mas a solidariedade, a vida coletiva, a esperança, e a luta por um outro mundo, isso é o que não falta na monumental obra fílmica do diretor. Desde a ação solidária que transborda, por exemplo, em Pão e Rosas (Bread and Roses, 2000), que retrata uma greve das mulheres trabalhadoras imigrantes contra as precárias condições de trabalho; ou em Terra e Liberdade (Land and Freedom, 1995), sobre a Guerra Civil Espanhola; até no documentário The Flickering Flame, de 1996, ao estampar a luta e a solidariedade na greve dos portuários ingleses, que foram derrotados pelo “trabalhista” Tony Blair (que nos Reino Unido era conhecido na esquerda como Tory Blair), dentre tantos outros filmes que marcam sua produção.3
Ken Loach é, então, para muitos, em todo o mundo, o maior gênio vivo do drama social contemporâneo.
* Uma versão deste texto foi publicada originalmente no Jornal da Unicamp, 9 de dezembro de 2025.
Notas
- Trata-se da 22ª edição da Historical Materialism Conference, realizada na School of Oriental and African Studies (SOAS), que contou com quase 1.500 pesquisadores e estudiosos oriundos de todos os quadrantes do mundo. E essa conferência ocorrerá pela primeira vez no Brasil (e na América Latina): o HM-Rio está previsto para acontecer em 15, 16 e 17 de julho de 2026, na UFRJ. ↩︎
- Ver Direitos de Verdade – Essa história também é sobre você (Boitempo, 2025), cartilha de distribuição gratuita, resultado do convênio entre o MPT-15 e o Grupo de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses (GPMT-IFCH). Disponível em: https://direitosdeverdade.com/ ↩︎
- Um estudo qualificado sobre parte da obra de Ken Loach encontra-se em Medina, Cintia, A trágica racionalidade do capital no cinema de Ken Loach, Tese de Doutorado em História Social, USP, 2023. ↩︎
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Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do tabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil I, II, III e IV, Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual, Uberização, trabalho digital e indústria 4.0 e Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais, todos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Os sentidos do trabalho (também publicado nos EUA, Inglaterra/Holanda, Itália, Portugal, Índia e Argentina), O caracol e sua concha, O continente do labor, O privilégio da servidão e Capitalismo pandêmico.
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