Reconstruindo a história da moderna economia política

Retrato de Karl Marx em 1866. Imagem: Wikimedia Commons

Por Maria de Lourdes Rollemberg Mollo

Teorias do mais-valor, considerado por muitos o Livro IV de O capital, faz parte de um manuscrito datado de 1861-1863. Trata-se de um estudo fragmentado sobre vários pensadores do campo da economia, em especial Adam Smith e David Ricardo, mas também Thomas Malthus e outras figuras relacionadas ao que Marx chama de “desagregação da escola de Ricardo”.  

A obra nos apresenta uma verdadeira reconstrução histórica de emergência, auge e declínio da moderna economia política. Nela, passa por temas decisivos do debate econômico como trabalho produtivo, renda absoluta, renda diferencial, lucro, capital portador de juros, custos de produção, preços de mercado, dinheiro, crises e maquinismo. Marx destaca que seus predecessores identificam formas particulares do mais-valor, como lucro e renda da terra, sem, no entanto, se darem conta de sua origem. Ao expor em detalhes as visões desses autores, criticá-las e, assim, elaborar um arcabouço conceitual específico, este é um livro fundamental para quem deseja aprofundar o conhecimento da obra de Marx e tirar conclusões sobre questões sempre sujeitas a debates. 

O texto saiu pela primeira vez em alemão pela Dietz, de Stuttgart, entre 1905 e 1910, em organização proposta por Karl Kautsky — que o fez parecer uma obra acabada. As edições subsequentes também foram reorganizadas e interpoladas por seus editores, o que gerou muitas críticas, em momentos e oportunidades diferentes. Só mais de cinquenta anos depois pudemos contar com o volume dos manuscritos compilado pela Marx-Engels-Gesamtausgabe (MEGA²). Ao adotar esse material como base da tradução, este lançamento da Boitempo traz benefícios significativos para os estudiosos. 

Como ocorre com todo grande pensador, as concepções de Marx são sempre objeto de profundas discussões, e o uso de seu próprio texto, apresentado conforme a evolução de suas reflexões, permite uma apreensão mais precisa de seu pensamento. No caso das Teorias do mais-valor, isso é crucial. Por se tratar de uma obra de críticas a outros pensadores e de aprofundamento de uma concepção em meio a um longo processo evolutivo, a preservação do texto original dos rascunhos de Marx, além de sanar dúvidas surgidas a partir das edições anteriores, oferece subsídio confiável para as pesquisas agora em curso. 

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Maria de Lourdes Rollemberg Mollo é professora titular do Departamento de Economia da Universidade de Brasília. Doutora em Finanças, Moeda e Bancos pela Université Paris X-Nanterre, França; mestre e graduada em Economia pela Universidade de Brasília.


Teorias do mais-valor (volume 1), de Karl Marx
Escrito como parte de seu monumental projeto para O capital, é considerado por alguns o “quarto livro” dessa obra. Esse primeiro volume trata dos fisiocratas, de Adam Smith e das teorias sobre trabalho produtivo e improdutivo. Marx examina como os fisiocratas foram os primeiros a identificar a produção como verdadeira fonte de riqueza, ainda que restringissem esse papel à agricultura. Ele demonstra como Smith rompe com essa visão, ampliando o conceito de trabalho produtivo para toda a atividade que gera valor, mas ao mesmo tempo introduzindo contradições que influenciaram o pensamento econômico posterior. 

Infelizmente, Marx deixou os manuscritos inacabados. A nova edição, feita com tradução direta do alemão, marca a primeira publicação no Brasil baseada no trabalho da MEGA, instituição detentora dos manuscritos do autor, e difere substancialmente das versões anteriores, que seguiam o texto editado por Karl Kautsky no século XX.  Ao eliminar a aparência de um texto finalizado, a nova edição permite uma leitura mais próxima do trabalho efetivamente realizado por Marx, preservando a estrutura original de suas anotações e reflexões. Dessa forma, oferece ao público uma compreensão mais rigorosa de sua investigação sobre o mais-valor e do desenvolvimento crítico de suas ideias. 


Desde 1998, a Boitempo desenvolve um consistente trabalho de recuperação da obra de Karl Marx e Friedrich Engels, com traduções diretamente dos originais e aparatos que fazem de suas edições referência para todos os interessados nos autores.


O essencial de Marx e Engels, organizado por Marcello Musto
Concebida pela Boitempo, principal editora de Marx e Engels no Brasil, para atingir um público amplo, a antologia O essencial de Marx e Engels, composta por três volumes, propõe um mergulho de fôlego e amplitude sem precedentes nos principais pontos do projeto teórico dos fundadores do marxismo. A organização, as apresentações de cada volume e as notas explicativas são de Marcello Musto, professor italiano com contribuições decisivas no florescente campo de estudo marxiano contemporâneo. A obra conta também com prefácio de José Paulo Netto e textos de apoio de alguns dos maiores especialistas brasileiros: Marilena Chaui, Jorge Grespan, Leda Paulani, Virgínia Fontes, Lincoln Secco e Alfredo Saad Filho. A edição é de Pedro Davoglio.



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