Uma comunidade que ainda não encontrou forma

Vladimir Safatle comenta "Lacan e a democracia", de Christian Dunker, destacando o compromisso da psicanálise com uma "democracia por vir", que ainda não existiu e não tem medida comum com a democracia que até agora conhecemos.

Por Vladimir Safatle

O título de Lacan e a democracia: clínica e crítica em tempos sombrios pode servir a certo mal-entendido, mas afinal a psicanálise tem como seu elemento fundamental o trabalho a partir do mal-entendido, a compreensão de que ele sempre porta um conteúdo de verdade. O título do livro poderia nos levar a crer que encontraremos aqui a defesa de que a psicanálise só seria possível no interior de uma ordem democrática, que ela pressuporia uma sociedade liberal na qual os indivíduos pudessem falar livremente de si mesmos e da natureza de suas relações sociais. Uma sociedade de multiplicidade tolerante de formas de vida, na qual os indivíduos deveriam se responsabilizar por suas escolhas e decisões, pois estariam em um universo que dá espaço à iniciativa e anula o peso dos laços tradicionais. Nesse contexto, uma clínica do sofrimento psíquico, como a psicanálise, só poderia ser um tratamento das depressões e ansiedades produzidas pela incapacidade de atuar em um mundo marcado pela insegurança, pelo risco e pela flexibilidade. Não foram poucas as vezes que vimos psicanalistas entrarem por essa via.

No entanto, o que temos nesse sintagma Lacan e a democracia, pelas mãos de Dunker, é um mal-entendido produtivo. Pois o que o leitor encontra é, na verdade, o ponto no qual a psicanálise coloca em questão nossa concepção atual de “democracia”. Daí por que uma das colocações fundamentais do livro é: “Entendo que boa clínica psicanalítica é crítica social feita por outros meios. Isso não é uma ilação sobre os efeitos ‘externos’ do que fazemos a respeito da orientação mais egoísta ou mais altruísta de nossos pacientes; isso decorre do fato de que os sintomas de nossos analisantes são feitos de contradições cuja expressão, determinação e realidade localizam-se nos laços sociais, nas relações desejantes e na economia de gozo”.

Ou seja, se a boa clínica psicanalítica é crítica social é porque ela sabe ouvir as contradições da vida social nos sintomas dos sujeitos que sofrem, ela conhece bem a irrealidade dos valores normativos de nossas sociedades e a maneira com que tal irrealidade produz afetos nos corpos, inibições no desejo, angústias em relação ao tempo e à ação. Assim, Lacan e a democracia é o nome de uma impossibilidade, mas de uma impossibilidade que lembra como as intervenções psicanalíticas apontam para a possibilidade de existência de “uma comunidade de exceção, capaz de representar, por si só, a incompletude e a inconsistência de todas as comunidades”. Uma comunidade do que ainda não encontrou forma em comunidade alguma.

Por isso, o único compromisso que a psicanálise pode ter com a democracia é exatamente como uma “democracia por vir”, que ainda não existiu e não tem medida comum com a democracia que até agora conhecemos. Dunker lembra como a psicanálise conhece bem que a palavra capaz de mediar conflitos é uma palavra que integra em si mesma sua própria impossibilidade. Palavra produzida sob fundo de incomunicabilidade, de mal-entendido, de disparidade, reconhecimento produzido sob o fundo do colapso das possibilidades disponíveis de formas a serem reconhecidas.

Com esse horizonte de problemas em mente, o livro trata do estatuto ontológico da psicanálise, da transformação necessária de suas bases antropológicas. Mas, em um giro de reflexão política direta, ele também trata da degradação dos pactos da democracia liberal em países como o Brasil e suas consequências psíquico-sociais, da tentativa da emergência de um teológico-político que procura funcionar como a vocalização do sofrimento social, assim como dos desafios de transfiguração da psicanálise em uma clínica das transformações sociais, em especial esse referente a sua aposta tensa e difícil em certa universalidade concreta e em sua crítica de usos essencialistas da noção de identidade.

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É possível a associação entre psicanálise e democracia? De que maneira os conceitos de Jacques Lacan se relacionam com a política em geral? Nesta obra, o professor e psicanalista Christian Dunker apresenta aos leitores afinidades entre psicanálise e democracia no atual contexto de ascensão de fenômenos como a antipolítica – não apenas conservadora, mas fascista em termos discursivos. Em Lacan e a democracia, Dunker mostra como a psicanálise contribui para a tradição crítica, para a reflexão histórica sobre a democracia e também para a revalorização da palavra em sua ação direta pelos sujeitos. Fundamentado na convergência de diferentes esforços para pensar o que seria uma política que tem a psicanálise como alicerce, o autor joga luz ao empenho de Jacques Lacan em inscrever a psicanálise na tradição das luzes, no debate da ciência e no crivo da razão.

Lacan e a democracia tem a ambição bem-sucedida de colocar em relevo a articulação entre psicanálise e política, indicando como e por quais meios o ensino de Lacan amplia e favorece sobremaneira as condições para que os psicanalistas ‘não renunciem à sua prática’, indicando que, dentre todas as transformações que se demanda da psicanálise, ‘a dimensão política tem sido aquela na qual o atraso se mostrou mais amargo e mais pleno de potencialidades’. A luta em curso depende muito mais da implicação dos psicanalistas na
polis do que propriamente da política da psicanálise. É notável a implicação de Christian Dunker na sustentação de um discurso ético, na (de)formação dos analistas e na compreensão e no combate ao ódio à democracia.”
– MARIA LÍVIA TOURINHO MORETTO

“Em Lacan e a democracia, Dunker confirma sua vocação de grande intelectual e psicanalista e faz um esforço ímpar de descrição de algo efêmero e vital: a oportunidade dialética que marca a posição psicanalítica no contemporâneo que nos acolhe e nos expulsa. Ele o faz no momento em que a democracia, laço social que notoriamente é uma das condições de existência da psicanálise, tende a ser neutralizada em um empobrecedor processo de absorção do social na narrativa da gestão. Não resta dúvida: para a democracia e para a psicanálise, este é o tempo do καιρός, aquele momento do tudo ou nada, da fenda única aberta no presente, em que é possível uma aposta de um salto mortal salvador, aposta que este amigo da verdade, Christian Dunker, realiza com coragem e competência.”
– NELSON DA SILVA JR.

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O livro de Christian Dunker tem texto de orelha de Vladimir Safatle, quarta-capa de Ian Parker, Maria Lívia Tourinho Moretto e Nelson da Silva Jr. e capa de Michaella Pivetti. Assine o Armas da crítica, o clube do livro da Boitempo, até o dia 15 de janeiro para garantir o seu exemplar!


Na próxima sexta-feira, dia 14 de janeiro às 15h30, teremos lançamento antecipado de Lacan e a democracia, com debate entre Christian Dunker e Jones Manoel, mediação de Andrea Dip.

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Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP, bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), professor visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII, professor-bolsista no programa Erasmus Mundus. Escreveu A paixão do negativo: Lacan e a dialética (São Paulo, Edunesp, 2006), Folha explica Lacan (São Paulo, Publifolha, 2007), Cinismo e falência da crítica (São Paulo, Boitempo, 2008) e coorganizou com Edson Teles a coletânea de artigos O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010), entre outros. Em 2012, teve um artigo incluído na coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (Boitempo, 2012), publicada pela Boitempo Editorial em parceria com o Carta Maior. Foi colunista da Folha de São Paulo e da Revista CULT. Atualmente escreve para o El País – Brasil.

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