Gênero e desdemocratização na América Latina

A partir de estudos de caso e de análises críticas do campo religioso conservador e também da lei e de processos contemporâneos de juridificação, o livro "Gênero, neoconservadorismo e democracia" situa a ordem de gênero e sexualidade no cerne dos processos de erosão democrática a que assistimos no mundo e, mais drasticamente, no país.

Por Sonia Corrêa.

O livro Gênero, neoconservadorismo e democracia: avanços e retrocessos na América Latina é uma grande contribuição para os debates nacionais sobre desdemocratização. A partir de estudos de caso – no Brasil e na Colômbia – e de análises críticas do campo religioso conservador e também da lei e de processos contemporâneos de juridificação, a obra situa a ordem de gênero e sexualidade no cerne dos processos de erosão democrática a que assistimos no mundo e, mais drasticamente, no país. Esse não é um enquadramento trivial, pois, lamentavelmente, no contexto brasileiro, mesmo após as eleições de 2018 essas dimensões da vida política e social continuam a ser tratadas como temas laterais, como “questões da moral e dos costumes”.

O trabalho de Flávia Biroli, Maria das Dores Campos Machado e Juan Marco Vaggione vai contra essa corrente. Gênero e sexualidade são o pivô em torno do qual se articulam o político – o Estado, a Lei, as dinâmicas eleitorais, a sociedade civil –, a política do religioso e os efeitos corrosivos do neoliberalismo em termos de valores, institucionalidades e práticas democráticas. Além de situar gênero e sexualidade no coração da Política (com P maiúsculo mesmo), o livro tem muitos outros méritos sobre os quais haveria mais o que dizer. Nesta breve nota, quero sublinhar três contribuições.

A primeira delas é a perspectiva temporal. As análises desenvolvidas no livro indicam, por exemplo, que a catástrofe eleitoral de 2018 não pode ser plenamente compreendida através de lentes conjunturais. Sem dúvida, no Brasil, os anos 2013-2018 são cruciais para entender a maturação do giro político à direita e a erupção da “ideologia de gênero” como um de seus espantalhos. Porém, como sublinha Vaggione, isso foi precedido por uma longa e complexa genealogia. Ela passa pelo ano de 1995, quando, no contexto das conferências das Nações Unidas, ganhou corpo o problema de gênero no Vaticano, mas tem antecedentes mais profundos e extensos. Por exemplo, a incidência política atual do conservadorismo religioso sobre gênero e sexualidade se nutre da imbricação, pouco debatida, entre normas morais religiosas muito antigas e leis seculares modernas.

Uma segunda contribuição é, sem dúvida, a nomeação e o exame do lugar central que o catolicismo ocupa na constelação neoconservadora dos dias atuais, fato geralmente obliterado nos debates nacionais por efeito, entre outras razões, da estridência do dogmatismo evangélico.

Finalmente, mesmo reconhecendo que contextos nacionais importam e muito – como revela o estudo comparativo entre Brasil e Colômbia –, a política antigênero como faceta do neoconservadorismo e da desdemocratização é decididamente transnacional. Embora isso não seja exatamente uma novidade, o mérito do livro é deslocar o eixo de análise que hoje predomina no debate público e aponta para conexões com Estados Unidos e Europa, enfatizando, de maneira muito profícua, a produção discursiva e a trama de relações, tanto religiosas quanto políticas, que desde muito alimentam essas forças e essas dinâmicas no contexto latino-americano. Desejo a todas e todos uma boa leitura.

 

Com o fim da chamada “onda vermelha” na região, é significativo o aumento da atuação de católicos e evangélicos conservadores na política, com forte reação às políticas de equidade de gênero, direitos LGBTQI e saúde reprodutiva. Flávia Biroli, Maria das Dores Campos Machado e Juan Marco Vaggione destacam o uso, por agentes conservadores, de expressões como “ideologia de gênero”, “feminismo radical” e “marxismo cultural” para justificar normas que promovem exclusões, vetos a perspectivas críticas e o fim de políticas públicas importantes para mulheres e minorias, corroendo, por dentro, a democracia na região.

Vale a pena conferir o debate de lançamento do livro na TV Boitempo, com os autores Flávia Biroli, Maria das Dores Campos Machado e Juan Marco Vaggion, e mediação de Andrea Dip.

“Esta é uma obra fundamental à ação política. Ancorada em pesquisas acadêmicas, aborda as novas configurações do ativismo religioso conservador. Flávia Biroli, Maria das Dores Campos Machado e Juan Marco Vaggione mobilizam um arcabouço teórico que prepara leitoras e leitores para adentrar uma sólida análise do que denominam neoconservadorismo. Articulando atores religiosos e forças sociais e políticas leigas (não religiosas), o livro oferece um amplo e denso mapa que nos permite situar as tensões e os campos de disputa estabelecidos a partir dos avanços conquistados pela ação dos movimentos feministas e LGBTQI, especialmente a partir dos anos 1990, no campo da sexualidade e da reprodução. Um livro instigante para quem deseja compreender as dinâmicas complexas que colocaram gênero, religião e política no centro do debate sobre a democracia.” — Maria José Rosado-Nunes

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