Žižek: A (falta de) alma dos políticos: Biden, Putin e Trump

"Negar que seu inimigo político tenha uma alma não é nada menos do que uma regressão ao racismo vulgar que vem ecoando algumas das gafes de Joe Biden.”

Por Slavoj Žižek.

* TEXTO ENVIADO DIRETAMENTE PELO AUTOR PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZO.

Estou longe de nutrir qualquer tipo de admiração por Vladimir Putin ou Donald Trump, mas o que Joe Biden disse na sua entrevista recente a George Stephanopoulos me deixou quase nostálgico por alguns aspectos da era Trump.

Quando o entrevistador perguntou se ele acreditava que Putin seria um assassino, Biden respondeu: “Eu acredito, sim”. E ainda confirmou as alegações de que em 2011, durante seu mandato como vice-presidente dos EUA, Biden teria dito pessoalmente a Putin que o líder russo “não tem alma”. “Eu não estava sendo esperto, estávamos a sós em seu gabinete”, disse Biden. (O que isso significa? Que Putin poderia ter o matado se os dois estivessem sozinhos?) “Foi assim que aconteceu. Foi na época que o presidente [George W.] Bush tinha dito que havia olhado nos olhos deles e visto sua alma.” “Eu disse: ‘olhei nos seus olhos e acredito que você não tenha uma alma’. E ele virou e respondeu: ‘nós nos entendemos’.” (O que diabos isso deveria significar? Que Putin teria admitido que ele de fato não tem alma, enquanto Biden teria? Ou que os dois verdadeiramente se desprezam?) A resposta que Putin logo deu a essa declaração foi uma jogada de mestre: desejou saúde a Biden e o convidou a um debate público a respeito de grandes questões existenciais e éticas via Zoom.

As palavras fortes de Biden se colocam em franco contraste com as de Trump, que em 2017 sugeriu que a conduta dos EUA era tão ruim quanto à do presidente russo. O âncora da Fox News Bill O’Riley chamou Putin de “assassino” e o então presidente dos EUA rebateu: “Há muitos assassinos, nós temos muitos assassinos”, disse. “Você acha que o nosso país é tão inocente assim?”. Trump bem ou mal demonstrou uma dose de realismo honesto aqui. Também agiu de maneira mais moderada no que diz respeito a algumas outras questões de política internacional. Por exemplo, demitiu John Bolton, que era favorável a uma abordagem mais agressiva em reação ao Irã e a Coreia do Norte – numa clara tentativa de evitar uma guerra. Já a presidência de Biden parece assinalar uma política internacional mais intervencionista, uma ameaça maior à paz mundial. As medidas mais progressistas de Biden (combate muito mais incisivo à pandemia, mais auxílio financeiro aos setores da população que estão sofrendo suas consequências) não devem nos cegar para esse aspecto mais sombrio de seu governo.

Mas voltemos à alegação de Biden sobre Putin não ter alma. Ela é simplesmente equivocada. Assassinos monstruosos têm sim uma “alma”, uma rica vida interior, gostam de produzir fantasias que de alguma maneira justificam seus atos terríveis. Por trás de todo grande crime politico há um poeta ou um mito religioso. Concretamente, não há limpeza étnica sem poesia. Por que? Porque vivemos em uma era que percebe a si mesma como pós-ideológica. Uma vez que grandes causas públicas não têm mais a força de mobilizar pessoas para a violência em massa, é preciso de uma Causa sagrada maior, que faz com que as preocupações mesquinhas dos indivíduos sobre assassinato pareçam triviais. É claro que há casos de ateus patológicos capazes de cometer assassinatos em massa por puro prazer, mas são exceções raras: a maioria precisa ser anestesiada contra sua sensibilidade elementar ao sofrimento do outro, e para isso é necessário uma Causa sagrada. Os ideólogos religiosos geralmente alegam que, independentemente de ser ou não verdade, a religião faz com que pessoas que de outra maneira seriam más façam algumas coisas boas. A partir da nossa experiência atual, talvez devamos pender mais para a formulação de Steve Weinberg: se sem a religião pessoas boas estariam fazendo coisas boas e pessoas más estariam fazendo coisas más, só a religião tem a capacidade de fazer com que pessoas boas façam coisas ruins.

Então se sou contra Putin não é porque ele não tem alma, mas por conta do conteúdo de sua alma. Há um trecho de sua entrevista recente em que dá para sentir como ele de fato fala do coração. Me refiro ao momento em que ele declara solenemente sua tolerância zero por espiões que traíram seu país. “A traição é o crime mais grave possível e os traidores precisam ser punidos”, disse. Fica evidente, a partir desse arroubo, que Putin não tem nenhuma simpatia pessoal por Snowden ou Assange: ele só os ajuda a fim de irritar seus inimigos – e já dá para imaginar qual seria o destino de um eventual Snowden ou Assange russo. Não é de se espantar que, em outra entrevista, ele tenha dito que embora Snowden não seja um traidor, ele – Putin – não consegue entender como Snowden podia ter feito aquilo que ele fez ao seu próprio país, os EUA… Aqui temos um gostinho da alma de Putin, de como sua mente funciona. (Curiosamente, nesse ponto Trump mais uma vez demonstrou mais consideração quando reconheceu que muitas pessoas pensavam que Snowden não estava sendo tratado de maneira justa.)

Negar que seu inimigo político tenha uma alma não é nada menos do que uma regressão ao racismo vulgar que vem ecoando algumas das gafes de Biden. Por exemplo, para demonstrar seu apoio a Barack Obama, ele disse: “Quer dizer, você tem o primeiro afro-americano mainstream bem articulado, inteligente, um sujeito limpo, elegante. Quer dizer, é um caso perfeito, cara!” O que isso significa é que se a presidência Biden acabar sendo melhor do que a de Trump, não será por conta da alma dele. Quanto menos ele recorrer à sua alma, melhor será para todos nós.

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Confira a aula de abertura do curso de “Introdução ao pensamento crítico hoje”, em que Vladimir Safatle apresenta o pensamento do filósofo Slavoj Žižek, com mediação de Silvia Viana.

Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo, de Slavoj Žižek

Uma pandemia global assola o planeta. Com a brusca mudança na rotina de bilhões de pessoas, vivemos em um momento em que o maior ato de responsabilidade é se manter distante daqueles que amamos. Em treze ensaios de escrita rápida, afiada e bem-humorada, a obra destrincha diferentes aspectos do surto provocado pelo novo coronavírus: filosóficos, psicanalíticos, políticos, sociais, econômicos, ecológicos e ideológicos.

Escrito com seu conhecido estilo irreverente e o gosto do autor por analogias da cultura pop (Tarantino, Hitchcock e H. G. Wells flertam com Marx, Hegel e Lacan nestas páginas), este livro fornece fotogramas concisos e provocativos da crise à medida que ela se alastra e engole todos nós. Para apresentar a ousada tese que atravessa os ensaios que compõem esta obra, Žižek não se furta de travar um debate direto com outros intérpretes contemporâneos da crise causada pela covid-19, como Giorgio Agamben, Byung-Chul Han, Alain Badiou e Bruno Latour, entre outros.

O autor abriu mão dos direitos autorais da obra, que serão revertidos à organização internacional Médicos Sem Fronteiras, dedicada a oferecer ajuda médica e humanitária a populações em situações de emergência em todo o planeta. Com tradução de Artur Renzo e edição de Carolina Mercês, a obra conta ainda com prefácio assinado pelo psicanalista Christian Dunker.

Pandemia Capital é uma série especial de obras curtas,rim objetivas e com preços acessíveis que aborda a crise atual do novo coronavírus e suas implicações na sociedade, na psicologia e na economia.

Disponível também em versão e-book nas principais lojas do ramo:

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015), O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016) e o mais recente Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo (2020). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

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