Ressentimento, palavra-chave para ousar compreender o mundo hoje

Em "Ressentimento" (Boitempo, 2020), a psicanalista Maria Rita Kehl traça um vasto panorama que pode nos ajudar a compreender nossa posição diante de conflitos religiosos ou políticos, desde a ascensão do nazismo até a da extrema direita atual, do hemisfério Norte ao Brasil de Bolsonaro.

Por Maria Homem.

Ressentimento é palavra-chave para ousar compreender o mundo hoje. Para escutar as camadas subterrâneas do contínuo (res)sentir de uma mágoa e um lamento que parecem infinitos e exigem desforra e vingança. Como se a culpa do que não somos ou não pudemos ser fosse sempre de um outro, esse bode expiatório que escolhemos quando não podemos nos haver com nossos próprios limites. E assim engendramos sociedades que se acreditam polarizadas e cujas eleições podem ser decididas a partir do ódio e do anseio por erradicar aqueles que são “fonte de todo o mal”. Como viver em um mundo em que os outros são um bando de bandidos e de ignorantes, diante dos quais não temos alternativa lógica sem ser o desejo de eliminação? O livro Ressentimento é urgente pois nos ajuda a desvendar esses mecanismos.

Maria Rita Kehl traça um vasto panorama que pode nos ajudar a compreender nossa posição diante de conflitos religiosos ou políticos, desde a ascensão do nazismo até a da extrema direita atual, do hemisfério Norte ao Brasil de Bolsonaro. A autora trabalha com uma ampla rede de autores para mapear o campo complexo do ressentimento, este afeto que Espinosa chamou de “paixão triste”. Retoma as fundadoras análises de Friedrich Nietzsche, Max Scheler e Sigmund Freud, passando por olhares mais contemporâneos como os de Hannah Arendt, Giorgio Agamben e Slavoj Žižek, que buscam o insondável de nossas vãs repetições. Ganhamos ainda, nesta reedição do livro de 2004, uma importante abordagem no novo (e atualíssimo) posfácio.

Não nos esqueçamos. O ressentimento não se confunde com a revolta ou com a luta por justiça e reconhecimento. Ressentimento não é ação que busca transformar. Ele é o canto queixoso do sujeito da modernidade e de todo aquele que projeta para fora de si, em determinado momento histórico, a fonte de seus males, como um mecanismo de defesa e escudo de proteção para preservar seu narcisismo. Como teremos a sabedoria de escapar do que Freud chamava de “covardia moral”? Quem sabe tenhamos a coragem e as ferramentas para atravessar um dos maiores desafios atuais que é justamente poder se colocar além do ressentimento. Talvez possamos um dia (trans)sentir e assim criar um novo modo de estar com o outro.

Com edição de Carolina Mercês, Ressentimento, de Maria Rita Kehl, conta com capa e diagramação de Antonio Kehl, e vem acrescido de um novo texto de posfácio da autora. Trata-se do quinto livro da psicanalista pela Boitempo: depois do premiado O tempo e o cão: a atualidade das depressões, publicamos também 18 crônicas e mais algumas, Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade e, pela coleção Estado de Sítio, Videologias: ensaios sobre televisão, escrito em conjunto com Eugênio Bucci.

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Maria Homem é psicanalista, pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH/USP e professora nas áreas de Psicanálise, Cinema, Literatura e Comunicação da FAAP. Tem pós-graduação em Psicanálise e Estética pela Universidade de Paris VIII/Collège International de Philosophie e doutorado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Pela Boitempo, publicou No limiar do silêncio e da letra: traços da autoria em Clarice Lispector (2012).

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