Lavando as mãos no oceano

Mauro Iasi fechou o episódio mais recente do Café Bolchevique da TV Boitempo recitando um poema de sua autoria. Atendendo a pedidos do público, publicamos a versão por escrito aqui no Blog da Boitempo.

Por Mauro Luis Iasi.

Ouvi dizer que estás arrependido,
Que, diante das trevas, pediu desculpas.
Estou tranquilo, calmo como um vulcão,
Então, respiro fundo, medito e digo: não.

Não quero tuas desculpas.
Que sinta o peso da culpa na nuca,
Para que andes curvado
Olhando para a rua em que nos massacraram.

Quero que se afogue em suas mentiras
Até soluçar verdades que te encarem
Com a força de um açoite de luz,
Até que possas ver o que não via.

Quero que toda manhã olhe tuas mãos
Empapadas do sangue dos nossos;
E que toda a água dos oceanos seja pouco,
Para ver-te esfregando as mãos como um louco.

Quero que se cale, que ao tentar falar
As palavras saiam de tuas entranhas
Como cactos, rasgando teu silêncio cúmplice
Como catarros mortos como tua alma.

Não quero tuas desculpas, seu arrependimento.
Quero mestre Moa vivo abraçando Marielle,
Quero que árvores mortas pelo fogo
Chorem lágrimas vivas para o céu.

Quero todos os anos que as crianças não viveram,
Quero que haitianos mortos saiam de suas tumbas
Para cobrar justiça de certos generais brasileiros.
Quero de volta os anos roubados pelo bloqueio.

Quero que jovens chilenos voltem para casa
Com cheiro de empanada e sabor de vinho,
E abracem calorosamente seus amores,
Que os beijarão com carinho.

Se não podeis me dar isso,
Ora… que te cales, e sofras.
É muito menos do que tu
Sabes que merece.

 

Mauro Iasi
SBC, outubro de 2019.

***

Mauro Iasi fechou o episódio mais recente do Café Bolchevique da TV Boitempo recitando este poema. Nesse quadro mensal do canal da Boitempo no YouTube, nosso comunista de carteirinha apresenta conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre acontecimentos da conjuntura política e social recente no Brasil e no mundo. Se inscreva no canal aqui e venha tomar este café conosco!

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas. Na TV Boitempo, apresenta o Café Bolchevique, um encontro mensal para discutir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre a conjuntura.

1 comentário em Lavando as mãos no oceano

  1. Palavras fortes e diretas, versos que confirmam o que todos nós queremos. Nós que também sofremos pelos – que só pela sua coragem – foram perseguidos, torturados e assassinados. Um poema que revela nossa ansiedade.

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