Marighella: o filme e a resistência de ontem e de hoje

Direto de Berlim, Flávio Aguiar escreve sobre a estreia de "Marighella", de Wagner Moura: "Retratando os guerrilheiros como participantes de uma luta desesperada para se contrapor ao regime ditatorial, num momento em que todas as liberdades e garantias democráticas eram anuladas pela ditadura de então, o filme não deixa de mostrar todas as contradições e limites da luta armada que abraçaram."

Por Flávio Aguiar.

Na noite de sexta-feira, 15, o filme Marighella, com direção de Wagner Moura, estreou no Festival Internacional de Cinema de Berlim, a Berlinale, dentro da programação principal, embora não concorresse ao Urso de Ouro nem aos demais Ursos de Prata dados em diferentes categorias, como melhor direção, melhor atuação, cenário, etc.

O filme, baseado no livro Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães, retrata os últimos anos da vida do guerrilheiro baiano, na sequência do golpe de 64, até seu assassinato em 4 de novembro de 1969, numa armadilha montada pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury (que no filme aparece com o nome de “Lúcio”) na Alameda Casa Branca, em São Paulo.

O filme foi muito aplaudido no Berlinale Palast, centro nervoso do Festival, onde se deu a estreia.

Seu Jorge faz o papel principal, com grande desempenho, e apoiado por desempenhos excelentes dos coadjuvantes, inclusive de Bruno Gagliasso, que faz o papel do delegado Lúcio, um cruel assassino como o personagem histórico que evoca.

Cerca de 30 atores acompanharam Moura na estreia do filme, o que é raro em termos de um Festival. O diretor salientou o fato em sua rápida fala, em inglês, ao final do filme. Moura sublinhou que o filme é uma homenagem aos que lutaram contra a opressão do regime ditatorial de 1964, mas também aos que lutam agora pela democracia e direitos humanos no Brasil de hoje, evocando Marielle Franco, que, igual ao guerrilheiro dos anos 60, foi assassinada tiros dentro de um carro, no Rio de Janeiro, quase 50 anos depois.

Bruno Gagliasso no papel do delegado “Lúcio” em fotograma de Marighella (2019), de Wagner Moura.

Como no caso do delegado “Lúcio”, o filme toma diversas liberdade poéticas, por assim dizer, em relação aos fatos históricos e outros personagens e seus nomes, mas mantido-se fiel ao roteiro básico da vida do guerrilheiro e àqueles momentos dramáticos do final dos anos 60. Mesmo assim, é possível reconhecer vários dos personagens reais, como o “Velho”, apelido de Joaquim Câmara Ferreira, ou “Toledo”, também assassinado pela equipe de Fleury no ano seguinte, Virgílio Gomes da Silva, o “Jonas”, que atuaram no sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, junto com Vera Magalhães, ou “Dadá”, além de outros e outras personagens. Virgílo foi capturado e assassinado no DOI-CODI, em São Paulo, no final de setembro de 1969, menos depois de um mês depois do sequestro do diplomata.

Retratando os guerrilheiros como participantes de uma luta desesperada para se contrapor ao regime ditatorial, num momento em que todas as liberdades e garantias democráticas eram anuladas pela ditadura de então, o filme não deixa de mostrar todas as contradições e limites da luta armada que abraçaram. O filme está longe de ser uma apologia da violência, embora, como disse seu diretor na entrevista coletiva que antecedeu a apresentação do filme, não queira fazer o julgamento post-mortem dos que escolheram o caminho da guerrilha urbana, nem daqueles que sobreviveram até hoje.

Moura também ressaltou a importância de estrear o filme em Berlim, num momento em que prevê dificuldades para mostra-lo no Brasil, devido à polarização política e o caminho de intolerância e de violência trilhado pela extrema-direita no país.

De todo modo, pode-se dizer que foi uma consagração para o filme, a equipe de atores e seu diretor estreante.

Além de no cinema, em rua próxima do Berlinale Palast houve protestos pela atual situação política no Brasil, evocando as ameaças aos direitos humanos em nosso país e a morte de Marielle Franco, além de pedirem a liberdade de Lula.

Equipe de Marighella (2019) no tapete vermelho da Berlinale.

P.S.: Como costuma acontecer, o cinema brasileiro saiu bem no filme da Berlinale. Espero a tua (re)volta, emocionante documentário de Eliza Capai, sobre a ocupação das escolas em São Paulo, em 2015, ganhou dois prêmios: o da Anistia Internacional e o Premio Internacional da Paz, dado pela Fundação Heinrich Böll, a Fundação Zehlendorf Peace e a Weltfriedendienst. Greta, de Armando Praça, mereceu uma menção no prêmio Teddy, dado a filmes de temática LGBTQI. O 1º prêmio nesta categoria foi para Breve história do planeta Verde, de Santiago Loza, um filme argentino em co-produção com o Brasil, que também ganhou o prêmio Teddy Readers. Outros filmes que impactaram o público foram Estou me guardando para quando o carnaval chegar, documentário algo memorialístico de Marcelo Gomes sobre a cidade de Toritama, no Agreste Pernambucano, declarada “a capital do jeans no Brasil”; Divino Amor, de Gabriel Mascaro, ficção científica sobre o predomínio das religiões pentecostais no Brasil, num futuro não muito distante. Chão, documentário de Camila Freitas sobre o MST em Goiás, também foi indicado para o prêmio da Anistia, ganho por Espero a tua (re)volta. Este foi aplaudido de pé em todas as sessões em que foi apresentado, inclusive na primeira, na Casa das Culturas do Mundo (Haus der Kulturen der Walt), cujo auditório, de 1250 lugares, estava completamente lotado.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel (2012). Seu mais novo livro é O legado de Capitu, publicado em versão eletrônica (e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

1 comentário em Marighella: o filme e a resistência de ontem e de hoje

  1. Antonio Tadeu Meneses // 18/02/2019 às 12:23 pm // Responder

    Comentário Esclarecedor, deixa agente com vontade de ver o filme quando ele for mostrado no Brasil.

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