Um feminismo para os 99%: as mulheres entrarão em greve no 8 de março de 2018

"8 de março será o dia do feminismo para os 99%: um dia de mobilização de mulheres negras e marrons, cis e bi, trabalhadores lésbicas e trans, das pobres e de salários baixos, das cuidadoras não pagas, das trabalhadoras sexuais e migrantes."

Angela Davis, uma das autoras do texto que convoca uma greve geral internacional das mulheres para o próximo 8 de março.

Por Angela Davis, Barbara Smith, Cinzia Arruzza, Keeanga-Yamahtta Taylor, Linda Alcoff, Liza Featherstone Tithi Bhattacharya, Nancy Fraser, Rosa Clemente e  Zillah Eisenstein

Um conjunto de intelectuais e ativistas feministas sediadas nos EUA acaba de publicar um chamado para uma nova greve geral internacional das mulheres neste próximo 8 de março. O texto, assinado por Angela Davis Nancy Fraser, entre outras, defende a urgência de um feminismo combativo para os 99% e que se articule de maneira interseccional. O Blog da Boitempo publica, abaixo, o texto integral do manifesto, publicado originalmente no The Guardian, em 27/01/2018, com o título “We need a feminism for the 99%. That’s why women will strike this year“. A tradução é de Camila Ribeiro, do Blog Junho. Leia também, no Blog da Boitempo, o chamado do ano passado à greve geral das mulheres, clicando aqui, o discurso de Angela Davis na Marcha das mulheres contra Trump, clicando aqui

* * *

Ano passado, no 8 de março, nós, mulheres de todos os tipos, marchamos, paramos de trabalhar e tomamos as ruas em cinquenta países ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, nos manifestamos, marchamos, deixamos as louças para os homens em todas as grandes cidades desse país e em incontáveis cidades menores. Nós interrompemos o funcionamento de três distritos escolares para provar ao mundo, mais uma vez, que enquanto sustentamos a sociedade nós também temos o poder de fecha-la.

8 de março está chegando novamente e as coisas pioraram para as mulheres nesse país.

Nesse um ano de governo Trump, não fomos apenas atacadas com abuso verbal e ameaças misóginas sob o disfarce de declarações oficiais, o regime Trump colocou em prática políticas que continuarão tais ataques contra nós de formas profundamente institucionais.

As reformas tributárias e trabalhistas (Tax Cuts e Job Acts) ceifa isenções que beneficiam trabalhadores de salários mais baixos cuja vasta maioria é composta de mulheres. Há planos para destruir o Medicaid e o Medicare, os dois únicos programas que restam nesse cruel cenário neoliberal que protegem os idosos e os pobres, os doentes e os deficientes, o planejamento familiar e as crianças – e, portanto, as mulheres, as quais fazem a maior parte do trabalho de cuidados. E enquanto o ato nega assistência médica para crianças imigrantes, introduz poupança universitária para “crianças não nascidas” [nascituros], uma maneira arrepiante de estabelecer por decreto legal “direitos” às “crianças não nascidas”, desse modo, assaltando nosso direito fundamental de tomar decisões sobre nosso próprio corpo.

Mas essa não é toda a história.

Com todas essas frentes de guerra abertas contra nós, não nos acovardamos. Nós devolvemos com luta.

Quando, no outono passado, mulheres com visibilidade pública e acesso à mídia internacional decidiram romper o silêncio sobre assédio e violência sexual, as comportas foram finalmente abertas e uma torrente de denúncias públicas inundaram a rede.

As campanhas #MeToo, #UsToo e #TimesUp tornaram visível aquilo que a maioria das mulheres já sabia: seja no ambiente de trabalho ou em casa, nas ruas ou nos campos, em prisões ou em centros de detenções do ICE [Immigration and Customs Enforcement], a violência de gênero com seu efeito racista diferenciado assombra a vida cotidiana das mulheres.

O que também se tornou claro é que o silêncio público sobre algo que sempre soubemos, suportamos e lutamos contra, não existe apenas porque temos medo ou vergonha falar: o silêncio é forçado. O silêncio é imposto por leis do Congresso que fazem as mulheres passar por quase um ano de aconselhamento obrigatório e mediação se elas ousam prestar uma queixa oficial. Ele é afetado pelo sistema de justiça criminal que rotineiramente rejeita relatos de mulheres usando camadas adicionais de intimidação e violência. Em campi universitários, administradores dispostos encontram meios “legais” inteligentes para proteger a instituição e o criminoso enquanto jogam as mulheres aos lobos. Os fundamentos racistas desses procedimentos legais exigem uma resposta.

#MeToo, #UsToo e #TimesUp não apenas expuseram estupradores individuais e misóginos, elas rasgaram o véu que escondia as instituições e estruturas que os autorizava.

A violência de gênero baseada em raça é internacional, como deve ser a campanha contra ela. O imperialismo norte-americano, militarismo e colonialismo fomentam misoginia ao redor do mundo. Não é uma coincidência que Harvey Weinstein, em seus longos anos tentando silenciar e aterrorizar mulheres, usou a empresa de segurança Black Cube, que é feita de ex-agentes do Mossad [Instituto para Inteligência e Operações Especiais do Estado de Israel] e de outras agências de inteligência de Israel. Nós sabemos que o mesmo estado que manda dinheiro a Israel para brutalizar a palestina Ahed Tamimi e sua família também financia as prisões em que mulheres afro-americanas como Sandra Bland e outras morreram.

Então, em 8 de março nós estraremos em greve contra a violência de gênero – contra os homens que cometem violência e contra o sistema que os protege.

Nós acreditamos que não foi nenhum acidente que foram as nossas irmãs com posição social destacada que primeiro tornaram visível aquilo que todas sabíamos. A capacidade delas para isso foi mais forte do que a de nossas irmãs de salários mais baixos, tantas vezes de cor, que limpam quartos naquele chique hotel de Chicago ou de nossa irmã que colhe frutas nos campos da Califórnia.

A vasta maioria de nós não se manifesta porque nos falta poder coletivo em nosso ambiente de trabalho, e porque nos é negado suportes sociais como assistência médica gratuita, fora dele. O trabalho, com seu salário baixo, com seu gerente assediador e seu chefe abusivo, com suas longas horas, se torna a única coisa que tememos perder, porque é a única forma de prover comida a nossas famílias e cuidados aos nossos doentes e enfermos.

Nós não nos calamos. Nós somos forçadas pelo capitalismo a nos calar.

Então, em 8 de março nós falaremos, pessoalmente, contra os abusadores individuais que tentaram arruinar nossas vidas, e nós falaremos, coletivamente, contra a insegurança econômica que nos impede de falar.

Nós entraremos em greve porque queremos expor nossos abusadores pessoais. E entraremos em greve porque precisamos de programas de bem-estar social e trabalhos com salários dignos para alimentar nossas famílias bem como do direito de nos sindicalizar, caso formos demitidas por nos manifestar contra seus abusos.

Então, em 8 de março nós entraremos em greve contra o encarceramento em massa, a violência da polícia e as patrulhas de fronteira, contra a supremacia branca e o rufar de tambores das guerras imperialistas norte-americanas, contra a pobreza e a violência estrutural mascarada que fecha nossas escolas e hospitais, envenena nossa água e comida e nos nega justiça reprodutiva.

E nós entraremos em greve por direitos trabalhistas, direitos iguais para todos os imigrantes, igualdade salarial e salário digno, porque a violência sexual no ambiente de trabalho é permitida quando nos falta meios de defesa coletiva.

8 de março será o dia do feminismo para os 99%: um dia de mobilização de mulheres negras e marrons, cis e bi, trabalhadores lésbicas e trans, das pobres e de salários baixos, das cuidadoras não pagas, das trabalhadoras sexuais e migrantes.

Em 8 de março, #EntramosEmGreve.

***

Três lançamentos para o 8 de março

A Boitempo prepara para o 8 de março três lançamentos de peso: o novo livro de Angela Davis, A liberdade é uma luta constante, um lançamento nacional inédito da cientista política feminista Flávia Biroli, Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil, e um sensível e poderoso livro infantil da feminista negra e educadora bell hooks intitulado Meu crespo é de rainha, pelo selo infantil da Boitempo, o Boitatá. Confira!

A liberdade é uma luta constante
de Angela Davis

“Esses novos ensaios nos fazem voltar na história até as pessoas fundadoras da luta revolucionária e antirracista, mas também nos levam em direção à possibilidade de uma solidariedade e de uma luta interseccionais permanentes. Angela Davis reúne em suas lúcidas palavras nossa inspiradora história e o futuro mais promissor de liberdade.” – Judith Butler

“Neste livro reencontramos a intelectual Angela Davis que tem mantido especiais diálogos com as ativistas negras brasileiras. Esses ensaios nos trazem novas orientações para pensar a luta contra o racismo, o machismo, o sexismo e outras formas de subjugação existentes em nossa sociedade. E o teor dessa nova obra que acaba de ser publicada insiste veementemente em aspectos que particularmente considero primordiais para o fortalecimento de nossas ações: a compreensão de que nosso comprometimento deve se estender também às outras e novas lutas reivindicatórias de direito à liberdade e à vida (nosso ativismo nos pede uma compreensão, uma visão global sobre a luta afirmativa empreendida por todas as identidades agredidas nos mais diferentes espaços geográficos); e uma outra reflexão, tão necessária à nossa militância atual, em qualquer campo de atuação, de que nossas ações devem ser incorporadas e compreendidas no coletivo.” – Conceição Evaristo

Meu crespo é de rainha
de Bell Hooks (texto) e Chris Raschka (ilustrações)

A feminista negra e educadora estadunidense bell hooks escreveu esse sensível poema infantil, primorosamente ilustrado por Chris Raschka, que enaltece a beleza dos cabelos e penteados afro. Porque representatividade importa! 

“Com este livro em mãos, nossas crianças terão – muito mais cedo do que as da minha geração – mais ferramentas para reverter o processo histórico de invisibilidade. Percebi afeto e estímulo em cada palavra! E isso é transformador, é mágico.” – Ana Paula Xongani

 

Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil
por Flávia Biroli

“Há livros que são importantes para a discussão acadêmica e para os movimentos sociais, mas há outros que são mais do que importantes, são absolutamente essenciais, como é o caso deste.” – Céli Pinto

“As cinco dimensões analisadas nesta obra – divisão sexual do trabalho; cuidado e responsabilidades; família e maternidade; aborto, sexualidade e autonomia; feminismo e atuação política – permitem ver como, apesar de alterações significativas neste quadro, o lugar das mulheres permanece subalterno, interpelando os limites da democracia.” – Albertina de Oliveira Costa

4 comentários em Um feminismo para os 99%: as mulheres entrarão em greve no 8 de março de 2018

  1. Angela Davis, uma comunista em um país extremamente capitalista,me surpreendendo com isto.

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  2. Vão ficar 1 dia inteiro sem lavar roupa ? descarregar um caminhão de cimento nenhuma delas que né.

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  3. Onde está concentrado para a marcha do rio de janeiro? e a que horas?

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  4. Escorrendo pelos cantos dos beiços moles

    Nesse momento noturno, dia 8, próximo a um barzinho, com aquela baba a escorrer pelos cantos dos beiços moles (semelhante a de um cão), FHC está a porta da casa do lula, esperando…
    Ele olha atentamente.
    Às vezes dá uma andadinha pra cá e outra pra lá.
    Parece pre-ocupado.
    Lula ainda não chegou…
    FHC ambiciona, apetece, aspira, anseia e espera…
    Pacientemente.
    O que aguarda, agora à noite, o FHC?
    Lula!
    |
    FHC muito ambiciona lamber o entre-dedos do pé de lula (quando lula chegar a casa retirando, cansado, o sapato): lá está FHC babando.
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    FHC é 1 curió & 1 mané!
    |
    FHC deveria mirar-se na Coreia do Sul.
    O que se deve evitar entre os homens é a burrice e a falta de arte. Ou seja: ser PeTralha e, por outro lado, deve se temer o achismo ignorante.
    |
    Observe a realidade dessa ultra-atleta: heroína de 2018: Marit Byørgen! Mas no Brasil, por outro lado: a baranguice do PT apenas. A norueguesa Marit é mulher singular. Única. Ponto final.
    [*Marit Bjoergen — naturalmente não-baranga e nem Kitsch — e que não tem nada a ver com o petismo brega e nem com o PeTralhismo!].

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