O que os adultos fazem quando politizam a infância e ensinam as crianças a odiar

Ou, "uma criança pode brincar com o boneco do Lula presidiário?"

Gabriela Biló Estadão 17 de março blog[Foto de Gabriela Biló, do Estadão, tirada em manifestação na Av. Paulista em março de 2016.]

Por Ilana Katz.

Sábado de aleluia. Desci para usar a sala de ginástica do prédio. Cinco quilômetros depois, olho para a janela que dá vistas para a piscina e preciso desligar a esteira. Custo a crer no que vejo, mas vejo. E escuto. Dois irmãos descem para nadar, toalhas de banho, panelinhas, óculos de natação. E um boneco: o do ex-presidente da república vestido de presidiário.

Todas as minhas palavras foram embora. Esse pequeno texto é uma tentativa de reencontrá-las.

Tenho lido um ou outro artigo em blogs e jornais responsáveis, em que o tema da “politização das crianças” tem sido discutido. Uma tentativa de alertar aos pais e educadores sobre seu papel fundamental no exercício da tolerância à diferença, uma vez que as crianças também vivem o clima de ódio que se instalou no país que habitamos. Não sou a única impressionada. Ainda bem.

A atmosfera de ódio, no circuito das paixões a que muitos já tomamos pelo aspecto da torcida de futebol, é sustentada em alguns dispositivos do mundo adulto. Tudo isso tem cumprido a função de nos fazer crer que estamos em um grande jogo ou em um seriado de TV. Mas prestem atenção na analogia: no seriado de TV, o roteiro já está escrito.

O cidadão brasileiro está submetido a propaganda ideológica. E é sob essa égide que torcemos, comentamos, brigamos. Decidimos, a cada instante, pelo que é certo ou errado, eliminando toda a complexidade do momento que atravessamos. Se um dia já fomos 150 milhões de técnicos, que sabíamos como fazer a seleção brasileira de futebol vencer o resto do mundo, agora somos todos juízes, usando terminologia pseudo-jurídica como jargão. E para não nos deixar esquecer um aspecto fundamental do estado das coisas, muitas, mas muitas pessoas mesmo, usam a camisa da CBF (instituição notoriamente envolvida em casos de corrupção) para ocupar o espaço público, povoado de apaixonados que pedem cadeia para os corruptos.

Ali, cada um conhece “a verdade”. E em nome dela é capaz de bater, xingar e matar para defender o que “pensa” (seria melhor dizer, talvez, “no que crê”). Na melhor das hipóteses, quem toma aquele que discorda como um entrave a ser eliminado justifica a sua radicalidade porque está defendendo o seu país.

E a criança?

A criança ocupa lugar na cidade, participa das formas instituídas que temos e lhes oferecemos de estar com os outros. A criança é um ser político. Pequena ou grande, está presente e pode ler, com os recursos que lhe são disponíveis, o mundo que habita.

As crianças pensam, amam, torcem, detestam, têm inveja, acreditam, desacreditam, elegem prioridades, valoram suas experiências. Enfim, exercitam a cada instante da sua vida, um jeito de habitar o mundo, de participar de suas relações. Armam suas defesas, suas estratégias de conquista, seu pensamento.

Crianças organizam sua experiência a partir de muitos elementos. E, como este não é o espaço para discutir as relações e preponderâncias entre natureza e cultura, vamos apenas considerar que as crianças, assim como todos os humanos, estruturam-se a partir de elementos que incluem o que lhes é ensinado e, muito principalmente, o que lhes é transmitido.

Quando perguntaram a Patrick Vallas, psicanalista francês, o que é uma criança, ele respondeu assim: “A criança não é uma pessoa grande”. Se quisermos avançar na reflexão sobre o absurdo que sequestra as nossas palavras, vale retomar a potência dessa construção. Para isso, é preciso considerar o tempo como um fator determinante desse processo de se passar da infância para a vida adulta. Mas não qualquer tempo, o tempo da experiência. Todo o universo das aprendizagens e das transmissões culturais se põe em jogo na infância de maneira radical.

Podemos pensar que, para proteger essa condição de “ainda não” da infância, nós vivemos sob um determinado pacto social, que guarda certo lugar para a criança: no discurso jurídico, a criança é inimputável, não responde por seus atos. E criança ainda não deveria trabalhar, ela fica fora do circuito de satisfação que se abre na relação do adulto com sua produção, e, do ponto de vista legal, se quiser participar disso, entrará como aprendiz. Mas como Arnaldo Antunes e Paulo Tatit já cantaram por aqui, “criança não trabalha, criança dá trabalho” – e é desse lado que devem estar. Somos nós, os que nos consideramos adultos, que devemos investir na criança, que precisamos nos dar ao trabalho de educá-las.

Mas o fato da criança não ser juridicamente responsável por seus atos não quer dizer que ela não esteja em plena condição subjetiva de ordenar um ato. Criança briga, brinca, xinga, ri. Mata bicho, joga futebol, rouba figurinha do amigo, salva animal perdido, queima os livros da escola, puxa o cabelo da irmã, ajuda um colega com dificuldade, gruda chiclete no cabelo da amiga bonita. A tarefa educativa tem, entre outras, a função de dar tratamento a todos esses atos que a criança ordena.

Nós podemos educar pelo medo, podemos castigar, podemos conversar infinitamente, podemos deixar fazer tudo, podemos não ligar, podemos achar lindo o que a criança faz. Seja qual for a escolha, vai junto nossa condição de lidar com as adversidades, com os desvios de rota, com as decepções, com o que é diferente entre o filho e o pai.

É também por isso que precisamos pensar no lugar que estamos dando para as crianças, no contexto da maior crise política que atravessamos desde a redemocratização do Brasil.

Ser um ser político, que habita a cultura não significa dispor dos elementos necessários na experiência para fazer a leitura autônoma do quadro da política nacional – e isso inclui a todos, não somente as crianças. Por quem falam as criancinhas que gritam palavras de ódio, as menininhas e menininhos que, no colo de seus pais, mandam a presidente da república do seu país “tomar no cu” ou seguram cartazes escritos por seus pais? Essas crianças falam por si?

Do ponto de vista do conteúdo da fala, é evidente que não. Que criança poderia entender a complexidade deste momento para fazer uma avaliação da situação e se posicionar? Mas, do ponto de vista da posição, as crianças falam por si. Todo aquele que anuncia o ódio está odiando. Odiando o quê? Odiando a presidente democraticamente eleita, que condensa na sua figura a encarnação do mal? Ou odiando todos os outros que votaram nela?

Está odiando o outro.

São crianças que odeiam por identificação aos pais, odeiam porque os pais odeiam. Xingam porque os pais xingam. Não toleram porque os pais não toleram. São crianças que, para responderem ao imperativo infantil de se fazerem amar e admirar por seus pais, odeiam.

As crianças que protagonizam essas cenas fazem pensar no nível de submissão que atingimos diante da propaganda irresponsável do ódio. Será preciso, porém, respirar e pensar: para onde vamos assim? Em uma sociedade construída por consumidores amestrados, comprar ódio equivale a comprar chocolate ou a última versão do brinquedo desejado.

Estamos criando uma geração de apaixonados, e portanto uma geração um tanto cega. Estamos eliminando o outro como elemento a ser considerado na ordenação de qualquer gesto humano. Se nenhum desses elementos for suficiente para reconsiderarmos o que fazemos hoje com a infância, sugiro levar em conta o que sempre se esquece numa hora dessas, como esquecemos quando estamos excitados ganhando uma partida de futebol: o outro, a qualquer momento, pode ser você.

Precisamos trabalhar por um país em que a diferença tenha lugar no espaço público. É preciso bem mais do que tolerar, é preciso calcular alguma perda no campo próprio para estar com os outros. Se não pudermos transmitir isso para as nossas crianças, é bom que a gente possa se preparar para viver sob outra ordenação social, moral e ética. As pílulas de Matrix vão deixar saudade.

Hoje vivemos uma experiência de profunda solidão, mas, diferente de todas as outras que vivi, não sinto falta de pares. Sinto falto de outro, de alteridade.

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Depois de encontrar algumas palavras para contornar a cena a que assisti pela janela, penso no que aprendi com minha pequena vizinha e seu irmão. Penso na resposta da criança: boneco é brinquedo. Fica do lado da panelinha. E brinquedo, para criança, é instrumento para sustentar a atividade do pensamento. Por essa nobre razão, deve manter alguns lugares vazios. Não deveria fazer campanha política, ou campanha estética, ou militância moral.

***

Foi em contraponto a este processo que a Boitampo lançou o Boitatá, um selo infantil que não subestima a inteligência de seus pequenos leitores e procura estimular o questionamento e a reflexão crítica sobre o mundo em que vivem. Longe do fla-flu doutrinário, a proposta editorial do selo busca livros que façam pensar, que agucem a curiosidade das crianças, que façam elas se interessarem por novos temas e tenham vontade de saber mais, de questionar e de ir atrás das próprias respostas. 

O selo tem início com a Coleção Livros para o Amanhã, que acaba de ser premiada pelo maior evento de literatura infantil do mundo – a Feira do Livro de Bolonha – na categoria de não ficção. Com texto elaborado e idealizado por uma equipe multidisciplinar de educadores, e arte de quatro ilustradores espanhóis contemporâneos, a coleção é composta de quatro títulos. Os dois primeiros apresentam uma reflexão lúdica sobre as noções de democracia e ditadura, e os últimos dois se aventuram nos temas da desigualdade social e desigualdade de gênero. “Uma coleção que nasceu nos anos 1970, que recupera e atualiza uma série de temas de grande relevância política e social para a formação de leitores independentes. As imagens e os textos favorecem uma reflexão aberta sobre a atualidade”, diz o parecer do júri.

Onde encontrar? Os livros já estão disponíveis nas principais livrarias do país, como a livraria Saraiva, a livraria da Travessa e a livraria Cultura.

***

Ilana Katz é psicanalista, doutora em Psicologia e Educação pela FE/USP, pós-doutoranda no LATESFIP/USP. Participa do MPASP (Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública).

8 comentários em O que os adultos fazem quando politizam a infância e ensinam as crianças a odiar

  1. Antonio Elias Sobrinho // 31/03/2016 às 18:19 // Resposta

    Esse é um texto não só pra ser lido mas também pra ser estudado, discutido e divulgado. O conteúdo é brilhante e a forma é agradável. Veio muito a calhar com a situação difícil que vivemos, numa polarização onde os elementos essenciais para a construção da democracia passam longe. Nesse vale tudo, onde o Estado de Direito e as regras jurídicas foram para o espaço, o que está prevalecendo é o jogo do poder, no seu sentido mais mesquinho, que passa pela desclassificação do outro e pela anulação das diferenças. Assim, vemos um debate marcado pela adjetivação: fascista, coxinha, corrupto, ladrão, etc. e o substantivo fica escondido nesse tiroteio porque ninguém, define, com um mínimo de exatidão, o objeto de sua luta ou guerra, onde estão fora, não só os verdadeiros interessados assim como o fim a que se destina.
    Nesse sentido, ao levantar e discutir a questão da relação pai e filhos nesse momento, que no fundo refere-se a questão educacional, e, mais ainda, a tradição de autoritarismo e paternalismo foi mais do que oportuno.

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  2. Tomas Fischer // 01/04/2016 às 1:13 // Resposta

    Você poderia escrever mais vezes, não? Texto inteligente de quem conhece, é sempre bom.

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  3. Simone D'Alevedo // 01/04/2016 às 13:33 // Resposta

    Bom dia, excelente texto.
    Sugiro descaracterizar os rosto da criança, para protegê-la.
    Quero muito compartilhar o texto, mas não o farei com a imagem de uma criança exposta, ainda que a mãe já tenha sido publicada.
    Obrigada!

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  4. Carlos Roberto Bencke // 01/04/2016 às 18:36 // Resposta

    Não é bem assim. Os pais não podem politizar seus filhos, mas devem aceitar que o Estado manipule as crianças na mais tenra idade nos colégios com “literaturas” injetando todos os tipos de ideologias. Mas papai e mamãe não podem. Se isto não do fascismo não é sei.

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    • Exato ! Pensei nisso tb! Desde a mais tenra idade se politiza, ideologiza as crianças. Mas.claro, isso pode !
      Apoiar as ditaduras que matam milhões de crianças pode !
      Achar o mst e todo resto MS… movimentos legítimos contra a “elite opressora” , que envolvem muitas crianças pode !
      Distribuir cartilhas para os pequenos nas escolas com a foto da presidente e com as inscrição “mulher do coração valente” pode !
      Apoiar um movimento politico que incentiva a distribuição para as crianças de livros e cartilhas quw estimula precocemente a sexualidade pode! (Se bem que isso nem deveria ser esrimulado… mas deixar no tempo certo )
      Apoiar um sistema que distribui cartilhas instruindo adolescentes e jovens a se drogarem, dando inclusive instruçoes de como usar corretamente o cachimbo e a seringa pode !
      Mas falar para o filho que estamos vivendo tempos difíceis, que existem pessoas que usam de forma errada o dinheiro público… isso não, não pode.
      Acho que a imagem foi usada indevidamente… então. .. o “outro lado” não incita violência também?
      Outra coisa… exposiçao dessa criança pode ? Se eu fosse mae certamente processaria.

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  5. Realmente, um absurdo os pais politizarem as crianças! Somente seus professores podem fazer isso…

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  6. José Carlos // 02/04/2016 às 22:43 // Resposta

    Não posso deixar de deixar um comentário a este texto.

    Sem palavras… Chorei… pensei em todas as crianças que conheço…

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