Žižek: A economia política dos refugiados

Zizek ParisPor Slavoj Žižek.*

Slavoj Žižek responde a seus críticos sobre a crise dos refugiados

O presente artigo pode ser lido como uma continuação do último artigo de intervenção de Slavoj Žižek, Perturbação numa redoma, que reformula o impasse do capitalismo global de hoje à luz do rescaldo dos ataques terroristas do dia 13 de novembro de 2015 em Paris. No entanto, o texto pertence também a um debate maior acerca da dita “crise dos refugiados” na Europa. Nele, Žižek responde diretamente a algumas das críticas que foram feitas à seus posicionamentos polêmicos e apresenta de forma mais extensa alguns dos desdobramentos de sua reflexão sobre o tema. Nas suas palavras: “Tomar o controle da crise de refugiados significará quebrar tabus da esquerda.” A tradução é de Estanislau Alves da Silva Filho, para o Blog da Boitempo. Confira!

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O impasse em que o capitalismo global se encontra está cada vez mais palpável. Como sair disso? Fredric Jameson recentemente propôs a militarização global da sociedade como um modo de emancipação: movimentos de base motivados democraticamente são aparentemente fadados ao fracasso, por isso talvez seja melhor, para quebrar o ciclo vicioso do capitalismo global, seguir pelo caminho da “militarização”, o que significaria a suspensão do poder das economias de auto-regulação. Talvez a crise de refugiados em curso na Europa ofereça uma oportunidade para testar esta opção.

Ao menos está bastante claro que para parar o caos é necessária uma organização e cooperação em larga escala, o que incluiria, embora sem se limitar a: criação de centros de recepção próximos à crise (Turquia, Líbano, costa do Líbia), o estabelecimento do transporte nessas estações em que a entrada é concedida à via europeia, e a redistribuição aos potenciais assentamentos. A força militar é o único agente capaz de executar uma tarefa tão grande de uma forma organizada. Afirmar que outorgar esse papel aos militares tem cheiro de um estado de emergência é redundante. Quando você tem dezenas de milhares de pessoas atravessando áreas densamente povoadas desorganizadamente, você tem um estado de emergência — e é num estado de emergência destes que partes da Europa estão agora. Portanto, é loucura pensar que se possa deixar ocorrer livremente um tal processo. Se não mais, os refugiados precisam ao menos de provisões e de cuidados médicos.

Tomar o controle da crise de refugiados significará quebrar tabus da esquerda.

Por exemplo, o direito de “livre circulação” deve ser limitado, se não por outra razão, pelo fato de que ele não existe entre os refugiados, cuja liberdade de movimento já é dependente de sua classe. Assim, os critérios de inclusão e regularização têm de ser formulados de uma forma clara e explícita — quem e quantos serão aceitos, onde serão realocados, etc. A arte aqui é encontrar o caminho do meio entre seguir os desejos dos refugiados (levando-se em conta o seu desejo de mover-se para países onde eles já têm parentes, etc.) e as disposições dos diferentes países.

Outro tabu que temos de abordar refere-se às normas e regras. É um fato que a maioria dos refugiados vêm de uma cultura que é incompatível com as noções da Europa Ocidental de direitos humanos. Tolerância como uma solução (respeito mútuo das sensibilidades de cada um), obviamente, não funciona: muçulmanos fundamentalistas acham que é impossível suportar nossas imagens blasfemas e humor imprudente, algo que consideramos uma parte de nossas liberdades. Liberais ocidentais, igualmente, consideram que é impossível suportar muitas das práticas da cultura muçulmana.

Em suma, as coisas explodem quando membros de uma comunidade religiosa consideram o próprio modo de vida de uma outra comunidade como blasfemo ou prejudicial, se ele é tido ou não como um ataque direto à sua religião. É isto que ocorre quando extremistas muçulmanos atacam gays e lésbicas na Holanda e na Alemanha, e é igualmente o caso quando os cidadãos franceses tradicionais enxergam uma mulher coberta por uma burca como um ataque à sua identidade francesa, pois é exatamente por isso que eles acham impossível permanecer em silêncio quando se deparam com uma mulher coberta em seu meio.

Para conter essa propensão, deve-se fazer duas coisas. Em primeiro lugar, formular um conjunto mínimo de normas de cumprimento obrigatório para todos que incluam a liberdade religiosa, a proteção da liberdade individual contra a pressão do grupo, os direitos das mulheres, etc., sem medo de que tais normas pareçam “eurocêntricas”. Segundo, dentro desses limites, incondicionalmente insistir na tolerância a diferentes formas de vida. E se as normas e a comunicação não funcionam, então a força da lei deve ser aplicada em todas as suas formas.

Outro tabu que deve ser superado envolve o equacionamento de qualquer referência ao legado emancipatório europeu a um imperialismo cultural e ao racismo. Apesar da responsabilidade (parcial) da Europa pela situação a partir da qual os refugiados estão fugindo, chegou o momento de deixar cair mantras esquerdistas criticando eurocentrismo.

A lição que o mundo pós-11/9 nos trouxe é a de que o sonho de Francis Fukuyama de uma democracia liberal mundial está chegando ao fim e que, ao nível da economia mundial, o capitalismo corporativo triunfou em todo o mundo. Na verdade, as nações do Terceiro Mundo que abraçam esta ordem mundial são aquelas que agora estão crescendo a uma taxa espetacular. A máscara da diversidade cultural é sustentada pelo real universalismo do capital global; será melhor ainda se o suplemento político do capitalismo global fiar-se nos assim chamados “valores asiáticos”.

O capitalismo global não tem nenhum problema em acomodar-se a uma pluralidade de religiões locais, culturas e tradições. Assim, a ironia do anti-eurocentrismo é que, em nome do anti-colonialismo, ele faz uma critica ao Ocidente em um momento histórico no qual o capitalismo global não precisa mais dos valores culturais ocidentais para funcionar sem problemas. Em suma, tende-se a rejeitar os valores culturais ocidentais no exato momento em que, criticamente reinterpretados, muitos desses valores (igualitarismo, os direitos fundamentais, a liberdade de imprensa, o Estado de bem-estar, etc.) podem servir como uma arma contra a globalização capitalista. Será que já nos esquecemos de que toda a ideia de emancipação comunista, como prevista por Marx, é completamente “eurocêntrica”?

O próximo tabu que vale a pena ser deixado para trás é o de que qualquer crítica ao direito islâmico incorre em um exemplo de “islamofobia”. Chega desse medo patológico de muitos esquerdistas liberais ocidentais que se preocupam em ser considerados culpados por islamofobia. Por exemplo, Salman Rushdie foi denunciado por desnecessariamente fazer provocações aos muçulmanos e àqueles que (ao menos em parte) foram responsáveis pela fatwa que o condenava à morte. O resultado de tal postura é o que se pode esperar em tais casos: quanto mais os esquerdistas liberais ocidentais afundam-se em sua culpa, mais eles são acusados por fundamentalistas muçulmanos de serem hipócritas que tentam esconder o seu ódio ao Islã.

Esta constelação reproduz perfeitamente o paradoxo do superego: quanto mais você obedece a agência pseudo-moral que as exigências sádicas e primitivas do superego lhe fazem, mais culpado você fica do masoquismo moral e da identificação com o agressor. Desse modo, é como se: quanto mais tolerante você for com o fundamentalismo islâmico, mais forte será a pressão sobre você.

E pode-se ter certeza de que o mesmo vale para o influxo de imigrantes: quanto mais a Europa Ocidental se abre a eles, mais isso levará ao sentimento de culpa por não ter aceitado ainda mais deles. Nunca haverá um número suficiente deles. E com aqueles que estão aqui, quanto mais tolerância direciona-se ao seu modo de vida, mais se ficará culpado por não se conseguir praticar tolerância o suficiente.

Capitalismo global e intervenção militar: a economia política dos refugiados

Como uma estratégia de longo prazo, devemos nos focar no que não podemos deixar de chamar de “economia política dos refugiados”, que significa concentrar-se sobre as causas subjacentes a dinâmica do capitalismo global e intervenções militares. A desordem em curso deve ser tratada como o verdadeiro rosto da Nova Ordem Mundial. Considere a crise alimentar que assola neste momento o mundo “em desenvolvimento”. Não foi outro senão Bill Clinton que deixou claro em seus comentários, no encontro da ONU de 2008 marcado como Dia Mundial da Alimentação, que a crise alimentar em muitos países do Terceiro Mundo não pode ser atribuída sobre os suspeitos habituais, como a corrupção, a ineficiência ou o intervencionismo estatal — a crise é diretamente vinculada à globalização da agricultura. A essência do discurso de Clinton era de que a crise alimentar global atual mostra como “nós todos fizemos besteira, inclusive eu quando era presidente”, tratando o cultivo de alimentos como commodities ao invés de como um direito vital dos pobres do mundo.

Clinton foi muito claro em colocar a culpa não em estados ou governos, mas nas políticas globais de longo prazo dos EUA e da UE, levadas a cabo durante décadas pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional e por outras instituições econômicas internacionais. Tais políticas pressionaram os governos dos países africanos e asiáticos a reduzir os subsídios em fertilizantes, sementes melhoradas e outros insumos agrícolas. Isto fez com que as melhores terras, ratificadamente, fossem utilizadas para culturas de exportação, o que efetivamente comprometeu a auto-suficiência desses países. A integração da agricultura local à economia global foi o resultado de tais “ajustes estruturais”, e o efeito foi devastador: os agricultores foram expulsos de suas terras e empurrados para as favelas, prontos para serem explorados em sweatshops, ao passo que os países tiveram que depender cada vez mais de alimentos importados. Desta forma, ficam mantidos numa dependência pós-colonial e tornam-se cada vez mais vulneráveis às flutuações do mercado. Por exemplo, os preços dos cereais dispararam no ano passado em países como o Haiti e a Etiópia, ambos os quais dedicam seus cultivos à exportação de biocombustíveis, e, consequentemente, suas populações passam fome.

Para abordar esses problemas corretamente, teremos que inventar novas formas de ação coletiva em larga escala; nem a intervenção padrão do Estado, nem a muito elogiada auto-organização local podem dar conta do serviço. E se o problema não pode ser resolvido, devemos considerar seriamente que estamos nos aproximando de uma nova era de apartheid, na qual as partes do mundo abundantes em recursos naturais serão separadas e isoladas das partes que estão famintas-e-permanentemente-em-guerra. O que as pessoas no Haiti e em outros locais com escassez de alimentos poderão fazer? Será que eles não tem o pleno direito de violência rebelde? Ou, de se tornarem refugiados? Apesar de todas as críticas dirigidas ao neo-colonialismo econômico, nós ainda não estão plenamente cientes dos efeitos devastadores do mercado global em muitas economias locais.

Quanto às intervenções militares abertas (e mesmo as não-tão-abertas), os resultados têm sido repetidamente enunciados: Estados falidos. Não há refugiados sem ISIS e não ISIS sem a ocupação do Iraque pelos EUA, etc. Em uma profecia sombria feita antes de sua morte, o coronel Muammar Gaddafi disse: “Agora ouçam bem, vocês da OTAN. Vocês estão bombardeando uma muralha, uma barreira que fica no caminho da migração africana para a Europa e no caminho dos terroristas da Al Qaeda. Esta muralha é a Líbia. Vocês estão destruindo-a. Vocês são estúpidos, e irão queimar no inferno por causa dos milhares de imigrantes africanos.” Ele não estava afirmando o óbvio?

A história da Rússia, que basicamente, como elabora Gaddafi, apesar do óbvio gosto de massa putinesca, tem seu fundo de verdade. Boris Dolgov da Fundação de Cultura Estratégica de base em Moscou disse [TASS]:

Que a crise dos refugiados é uma consequência das políticas EUA-europeias, isto é claro a olho nu. … A destruição do Iraque, a destruição da Líbia e os esforços para derrubar Bashar Assad na Síria com as mãos de islâmicos radicais — é disso que se tratam as políticas da UE e dos EUA, e as centenas de milhares de refugiados são o resultado dessa política.

Da mesma forma, Irina Zvyagelskaya, do departamento de Estudos Orientais no Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou, disse [TASS]:

A guerra civil na Síria e as tensões no Iraque e na Líbia continuam alimentando o fluxo de imigrantes, mas esta não é a única causa. Concordo com aqueles que vêem os acontecimentos atuais como uma tendência na direção de outro reassentamento em massa dos povos, o que deixa países mais fracos com economias ineficazes. Há problemas sistêmicos que levam as pessoas a abandonar suas casas e pegar a estrada. E a legislação europeia liberal permite que muitos deles não só fiquem na Europa, mas que também viam por lá sob benefícios sociais, sem procurar emprego.

E Yevgeny Grishkovets, o autor, dramaturgo e encenador russo, escrevendo em seu blog concorda:

Essas pessoas estão esgotadas, irritadas e humilhadas. Elas não fazem ideia de quais são os valores europeus, ou de como são os estilos de vida e as tradições, do multiculturalismo ou sobre a tolerância. Elas jamais irão concordar em respeitar as leis europeias. … Elas jamais serão gratas às pessoas em cujos países foram conduzidas a entrar de modo a envolverem-nas nesses problemas, porque foram estes mesmo países que primeiramente trouxeram, a seus próprios países de origem, um banho de sangue. … Angela Merkel promete uma sociedade alemã moderna e uma Europa preparada para os problemas. … Isso é uma mentira e um absurdo!

De qualquer maneira, ainda que exista alguma verdade genérica nisso tudo, não podemos saltar desta generalização para o fato empírico de haverem refugiados que correm para a Europa e simplesmente aceitam a plena responsabilidade. A responsabilidade é compartilhada. Em primeiro lugar, a Turquia está jogando um jogo político bem planejado (oficialmente lutando contra o ISIS, mas efetivamente bombardeando os curdos que, por sua vez, estão realmente lutando contra o ISIS). Então, nós temos a divisão de classes no próprio mundo árabe (os ultra-ricos Arábia Saudita, Kuwait, Qatar e Emirados quase não aceitando refugiados). E o que dizer sobre o Iraque com as suas dezenas de bilhões de reservas de petróleo? Como é que estando fora de toda essa confusão, emerge ali um fluxo de refugiados?

O que sabemos é que uma economia complexa de transporte de refugiados está gerando milhões e milhões de dólares em lucro. Quem está financiando isso? Tornando isso propício? Onde estão os serviços de inteligência europeus? Eles estão explorando esse submundo escuro? O fato de que os refugiados estão em uma situação desesperadora não exclui, de forma alguma, o fato de que seu fluxo para a Europa é parte de um projeto bem planejado.

Claro, existe a Noruega

Deixe-me dirigir-me aos meus pretensos críticos de esquerda, que acham a minha quebra de tabus acima mencionada — e publicada em artigos na London Review of Books e no In These Times — problemática. Nick Riemer, escrevendo na Jacobin, condena o “absurdo reacionário” que eu estou “promovendo”:

Deveria ser óbvio para Žižek que o Ocidente não pode intervir militarmente de uma forma que pudesse evitar as “armadilhas neocoloniais do passado recente.” Os refugiados, por seu vez, não são apenas peregrinos sofredores nas terras de outra pessoa sendo, como tal, meros objetos a se oferecer “hospitalidade.” Independentemente dos costumes que trazem com eles, eles devem gozar dos mesmos direitos que os membros das diversas comunidades que constituem a Europa — um pluralismo totalmente ignorado na surpreendente referência que Žižek faz a um “modo de vida europeu exclusivamente ocidental”.

A alegação subjacente a este ponto de vista é muito mais forte do que a de Alain Badiou de qui est ici est d’ici (aqueles que estão aqui, são daqui) — é mais algo como qui veut venir est ici d’ici (aqueles que querem estar aqui, são daqui). Mas, mesmo se aceitarmos isso, é Riemer que ignora inteiramente o ponto de minha observação: é claro que “eles devem gozar dos mesmos direitos que os membros das diversas comunidades que compõem a Europa”, mas de que “mesmos direitos” exatamente esses refugiados devem gozar?

Enquanto a Europa está agora lutando pelos plenos direitos do gay e da mulher (o direito ao aborto, os direitos dos casais do mesmo sexo, etc.), devem esses direitos também serem estendidos para gays e mulheres entre os refugiados, mesmo que tais direitos estejam em conflito com “os costumes que eles trazem consigo” (que é o que geralmente ocorre)? E este aspecto não deve, de forma alguma, ser julgado marginalmente: de Boko Haram a Robert Mugabe, a Vladimir Putin, a crítica anti-colonialista do Ocidente cada vez mais aparece como a rejeição da confusão “sexual” ocidental, e como uma demanda por voltar à hierarquia sexual tradicional.

Estou, é claro, bem ciente de como a exportação imediata do feminismo ocidental e dos direitos humanos individuais pode servir como uma ferramenta ideológica e econômica de neocolonialismo (todos nós nos lembramos de como algumas feministas americanas apoiaram a intervenção norte-americana no Iraque como uma maneira de libertar as mulheres de lá, sendo que o resultado é exatamente o oposto). Mas eu absolutamente me recuso a tirar disso a conclusão de que a Esquerda Ocidental deve fazer aqui um “compromisso estratégico”, e silenciosamente tolerar os “costumes” de humilhar as mulheres e gays, em nome de uma “maior” luta anti-imperialista.

Junto com Jürgen Habermas e Peter Singer, Reimer, em seguida, me acusa de apoiar “uma postura política elitista — a classe política esclarecida versus uma população racista e ignorante.” Quando li isso, eu novamente não pude acreditar nos meus olhos! Como se eu não tivesse escrito páginas e páginas criticando precisamente a elite política liberal europeia! Quanto a “população racista e ignorante”, nós tropeçamos aqui em cima de outro tabu esquerdista: Sim, infelizmente, grande parte da classe trabalhadora na Europa é racista e anti-imigrante, um fato que não deve, de forma alguma, ser julgado como o resultado da manipulação de uma classe trabalhista essencialmente “progressista”.

A última crítica de Riemer é: “a fantasia de Žižek, de que os refugiados constituem uma ameaça para o ‘way of life’ ‘Ocidental’, que pode ser sanado através de melhores modos de “intervenção” militar e econômica no exterior, é a ilustração mais clara de como as categorias utilizadas em uma análise podem abrir as portas de uma retroação.” Quanto aos perigos das intervenções militares, estou bem ciente deles, e eu também considero uma intervenção justificada quase impossível. Mas quando eu falo da necessidade de mudança econômica radical, eu naturalmente não estou visando algum tipo de “intervenção econômica” em paralelo a uma intervenção militar, mas sim uma transformação radical e profunda do capitalismo global, que deve começar no próprio Ocidente desenvolvido. Todo autêntico esquerdista sabe que esta é a única solução verdadeira — sem isso, o Ocidente desenvolvido vai continuar a devastar países do Terceiro Mundo, e com a pretensão fanfarrona e misericordiosa de cuidar de seus pobres.

Na mesma linha, a crítica de Sam Kriss é especialmente interessante, na medida em que ele também me acusa de não estar sendo um verdadeiro lacaniano:

“Pode-se, até mesmo, argumentar que os migrantes são mais europeus do que a própria Europa. Žižek zomba do desejo utópico de haver uma Noruega que não existe, e insiste em que os migrantes devem ficar nos locais para onde foram enviados. (Parece não lhe ocorrer que aqueles que tentam chegar a um determinado país podem já ter membros da própria família estando lá, ou mesmo serem capazes de falar a língua da região, de modo que estão precisamente sendo dirigidos por um desejo de estarem mais integrados. Mas também — não seria isso precisamente o funcionamento do objet petit a [o irrealizável objeto do desejo]? Que tipo de lacaniano fala pra uma pessoa que ela deve efetivamente abandonar seu desejo simplesmente porque trata-se de algo inatingível? Ou seriam os imigrantes indignos do luxo de terem uma mente inconsciente?) Em Calais, os imigrantes tentando chegar ao Reino Unido protestaram contra as suas condições com cartazes exigindo “liberdade de movimento para todos.” Ao contrário de igualdade racial ou de gênero, a livre circulação de pessoas através das fronteiras nacionais é um valor europeu supostamente universal que tem sido realmente implementado — mas, é claro, só para os europeus. Estes manifestantes expuseram a mentira a qualquer pretensão por parte da Europa de estarem defendendo os valores universais. Žižek só consegue articular o “way of life” europeu em termos de generalidades vagas e transcendentes, mas aqui isso se apresenta em carne viva. Se a questão da imigração é um dos desafios do universalismo europeu no combate ao particularismo repressivo e retrógrado, então que se note que este particularismo está inteiramente na parte da Europa. … “A Não-Existência da Noruega” não é uma análise teórica, é apenas uma expressão gentil de um cálido conselho soprado aos ouvidos da classe burocrática Europeia, uma tal que particularmente não se interessa por Lacan. Por toda a sua insistência numa “mudança econômica radical”, esta estrutura epistolar garante que essa alteração está, por enquanto, completamente fora de questão. Daí a insistência de que não existe, e nunca poderá existir, uma Noruega. Os capitalistas não pretendem fazer uma, e Žižek não pretende endereçar-se àqueles que poderiam. Já que, na suposição de que não existe a Noruega, a resposta marxista precisa ser esta, então nós vamos ter que construí-la nós mesmos.”

“Os imigrantes são mais europeus do que a própria Europa”, esta é uma velha tese de esquerda que eu também usei muitas vezes, mas é preciso ser bastante específico quanto a seu significado. Na leitura de meu crítico, isso significa que os imigrantes põem em prática o princípio — “liberdade de circulação para todos”— mais a sério do que a própria Europa. Mas, novamente, tem que se ser bem preciso nisso. Não há “liberdade de movimento” no sentido de liberdade de viajar, e é a “liberdade de movimento” mais radical, no sentido de liberdade de se estabelecer em qualquer país, que eu quero. Nada obstante, o axioma que sustenta os refugiados em Calais não é apenas o de liberdade para viajar, mas algo mais parecido com: “Todo mundo tem o direito de se estabelecer em qualquer outra parte do mundo, e o país ao qual nos mudarmos tem que nos fornecer provisões.” A UE garante (algo como, mais ou menos) este direito para os seus membros, e exigir a globalização deste direito equivale à demandar que a UE seja expandida ao mundo inteiro.

A realização desta liberdade pressupõe nada menos do que uma revolução socioeconômico radical. Por quê? Novas formas de apartheid estão surgindo. Em nosso mundo global, mercadorias circulam livremente, mas não pessoas. Um discurso em torno de paredes porosas e a ameaça de uma inundação de estrangeiros são um índice inerente daquilo que é falso na globalização capitalista. É como se os refugiados quisessem estender a livre circulação global de commodities igualmente às pessoas, mas isso é atualmente impossível devido às limitações impostas pelo capitalismo global.

Do ponto de vista marxista, a “liberdade de movimento” relaciona-se com a necessidade de capital para uma força de trabalho “livre” — milhões de pessoas são arrancadas de suas vidas comunais para serem empregadas em fábricas exploradoras, as sweatshops. O universo do capital refere-se a liberdade individual de movimento de uma forma intrinsecamente contraditória: o capitalismo necessita de indivíduos “livres” como forças mão de obra barata, mas ao mesmo tempo precisa controlar o seu movimento, uma vez que não pode proporcionar as mesmas liberdades e direitos para todas as pessoas.

Exigir-se uma radical liberdade de movimento, precisamente porque ela não existe dentro da ordem existente, seria um bom ponto de partida para a luta? Meu crítico admite a impossibilidade de satisfação da demanda do refugiado, mas ele faz isso afirmando se tratar de uma impossibilidade constitucional — a todo o momento me acusando de ser um não-lacaniano, de um pragmatismo vulgar. A parte sobre objet a como impossível, etc., é simplesmente ridícula, um absurdo teórico. A “Noruega”a que me refiro não é um objeto a, mas uma fantasia. Os refugiados que querem chegar a Noruega demonstram um caso exemplar de uma fantasia ideológica — uma formação-fantasíosa que ofusca os antagonismos inerentes. Muitos dos refugiados querem ganhar um bolo e comê-lo: eles basicamente esperam ter o melhor do bem-estar ocidental enquanto mantém seu peculiar modo de vida, ainda que algumas das principais características do seu way of life sejam incompatíveis com os fundamentos ideológicos do Estado de Bem-estar ocidental.

A Alemanha gosta de enfatizar a necessidade de se integrar os refugiados cultural e socialmente. No entanto — e aqui está mais um tabu a ser rompido — quantos refugiados querem realmente ser integrados? E se o obstáculo à integração não for simplesmente o racismo ocidental? (Aliás, fidelidade ao objeto a não garante de modo algum a virtuosidade do desejo — mesmo uma breve leitura de Mein Kampf mostra claramente que os judeus eram o objet a de Hitler, e ele certamente se manteve fiel ao projeto de sua aniquilação.) É isto que há de errado com a alegação de que “se não houver Noruega, então nós vamos ter que construí-la nós mesmos” — sim, claro, mas não será a fantasmática “Noruega” com a qual os refugiados sonham.

Violência ritualizada e fundamentalismo

Nessa mesma linha, em seu ataque a mim, Sebastian Schuller levanta a questão: “Estaria Žižek agora vinculando-se ao PEGIDA?” [Patriotische Europäer gegen die Islamisierung des Abendlandes; em português, Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente]

O post do blog de Schuller ainda atribui uma declaração a mim que, é claro, eu nunca fiz: “Não reconheço mais nenhuma outra classe, apenas europeus”. O que devemos fazer é ir além do clichê de refugiados como proletários que não tem “nada a perder além de seus grilhões”, invadindo a Europa burguesa: há divisões de classe na Europa, bem como no Oriente Médio, e a questão chave é como essas dinâmicas de classe diferentes interagem.

Isso nos leva à acusação de que, enquanto eu faço um convite a uma crítica do lado obscuro do direito islâmico, permaneço em silêncio a respeito do lado escuro do mundo europeu: “E o que dizer sobre as Cruzes nas escolas? E sobre os impostos das igrejas? E sobre as diversas seitas cristãs com ideias morais absurdas? E sobre os cristãos que anunciam que os gays serão churrasco no inferno?” Este é uma estranha acusação — o paralelo entre o fundamentalismo cristão e islâmico é um tema super-analisado em nossos meios de comunicação (assim como em meus livros).

Seja como for, vamos recordar o que aconteceu em Rotherham, na Inglaterra: Pelo menos 1.400 crianças foram submetidas a exploração sexual brutal entre 1997 e 2013; crianças a partir dos 11 foram estupradas por vários perpetradores, sequestradas, traficadas para outras cidades, espancadas e intimidadas; “encharcadas em gasolina e ameaçadas de serem incendiados, ameaçadas com armas, obrigadas a testemunhar estupros brutalmente violentos e ameaçadas de serem as próximas caso contassem a alguém, segundo o que consta no relatório oficial.” Houveram três inquéritos anteriores sobre esses acontecimentos, que não levaram a nada. Uma equipe de investigação observou um medo entre os funcionários do conselho de serem rotulados como “racista” caso insistissem no assunto. Por quê? Os perpetradores eram quase que exclusivamente membros de gangues paquistanesas e suas vítimas — chamadas de “lixo branco” pelos perpetradores — eram estudantes brancos.

As reações eram previsíveis. E boa parte da Esquerda serviu-se de inúmeras possibilidades estratégicas, principalmente através de generalizações, com o intuito de desfocar os fatos. Numa exibição do politicamente correto no que há de seu pior, em dois artigos do Guardian os perpetradores foram vagamente designados como “asiáticos”. Alegações foram feitas. Ah, isto não é sobre etnia e religião, mas sim sobre a dominação do homem sobre a mulher. Quem somos nós com a nossa igreja pedófila e nosso Jimmy Saville para adotarmos uma superioridade moral contra uma minoria vitimizada? Pode-se imaginar uma maneira mais eficaz de abrir o campo para o UKIP e outros populismos anti-imigrantes que exploram as preocupações das pessoas comuns?

O que não se reconhece é que tal anti-racismo é na verdade uma forma de racismo dissimulado, uma vez que trata com condescendência paquistaneses como seres moralmente inferiores que não podem ser julgados nos padrões humanos normais.

A fim de sair deste impasse, poderíamos começar observando os paralelos bastante pertinentes entre os acontecimentos em Rotherham e a pedofilia dentro da Igreja Católica. Em ambos os casos, estamos lidando com uma organizada — e mesmo ritualizada — atividade coletiva. No caso de Rotherham, poder-se-iam estabelecer ainda mais correlações entre certos elementos. Um dos efeitos terríveis da não contemporaneidade de diferentes níveis da vida social é o aumento da violência sistemática contra as mulheres. Uma violência que é específica de um determinado contexto social não é violência aleatória, mas sistemática — segue um padrão e transmite uma mensagem clara. Embora tivéssemos razão de estarmos horrorizados com os estupros grupais na Índia, como Arundhati Roy apontou, a causa da unanimidade na reação moral foi a de que os estupradores eram pobres e pertencentes dos estratos sociais mais baixos. Apesar disso, o eco mundial de violência contra as mulheres é suspeito, por isso, talvez, fosse útil alargar a nossa percepção e incluir outros fenômenos semelhantes.

Os assassinatos em série de mulheres em Ciudad Juarez, na fronteira, não são apenas patologias particulares, mas, sim, uma atividade ritualizada, parte da subcultura das gangues locais e direcionada a jovens mulheres solteiras que trabalham em novas fábricas de montagem. Esses assassinatos são casos claros de reação machista à nova classe de mulheres independentes e trabalhadoras: o deslocamento social devido à industrialização e modernização rápida provocam uma reação brutal em homens que experimentam esse desenvolvimento como uma ameaça. E a característica crucial em todos estes casos é que o ato criminoso e violento não é uma explosão espontânea de energia brutal e impensada, que rompe com as correntes dos costumes civilizados, mas algo que é aprendido, externamente imposto, ritualizado e que é uma parte da substância simbólica coletiva de uma comunidade. O que é reprimido ao olhar público “inocente” não é a brutalidade do ato cruel, mas precisamente o seu caráter “cultural”, ritualístico, na medida em que implica um intrínseco elemento simbólico.

A mesma lógica sócio-ritual pervertida está em jogo quando representantes da Igreja Católica insistem em dizer que os casos intercontinentais de pedofilia, por mais deploráveis que sejam, são internos, um problema da Igreja, e, então, exibem grande relutância em colaborar com a polícia na sua investigação. Os representantes da Igreja estão, de certa maneira, certos. A pedofilia de padres católicos não é algo que diz respeito apenas às pessoas que acidentalmente (leia-se: particularmente) escolheram a profissão de padre. Trata-se de um fenômeno que diz respeito à Igreja Católica como instituição, e se inscreve em seu próprio funcionamento enquanto uma instituição sócio-simbólica. Isto não está concernido ao inconsciente “privado” de indivíduos, mas ao “inconsciente” da própria instituição. Não é algo que acontece porque a instituição tem de acomodar-se às realidades patológicas da vida libidinal, a fim de sobreviver, mas, sim, um algo que a própria instituição precisa para se reproduzir. Pode-se imaginar um sacerdote direito (não pedófilo) que, depois de anos de serviço, se envolve em pedofilia, porque a própria lógica da instituição seduz a isso. Tal inconsciente institucional instaura um plano subterrâneo que é desmentido e que, precisamente por ser desmentido, sustenta a instituição pública. (Nas forças armadas dos Estados Unidos, este subterrâneo consiste nos ritualísticos trotes sexualizados e obscenos que ajudam a sustentar a solidariedade do grupo.) Em outras palavras, não é simplesmente por razões conformistas que a Igreja tenta abafar os embaraçosos escândalos de pedofilia: ao defender-se, a Igreja defende seu mais íntimo e obsceno segredo. Identificar-se a este lado secreto é fundamental para a própria identidade de um sacerdote cristão: se um padre denuncia seriamente (e não apenas retoricamente) esses escândalos ele, com isso, exclui-se da comunidade eclesiástica. Ele deixa de ser “um de nós”. Da mesma forma, quando um sulista dos Estados Unidos na década de 1920 denunciou a KKK à polícia, ele automaticamente estava excluindo-se da sua comunidade, justamente por trair a sua solidariedade fundamental.

Os eventos Rotherham devem ser abordados exatamente da mesma maneira, uma vez que estamos lidando com o “inconsciente político” de jovens muçulmanos do Paquistão. O tipo de violência em jogo não é uma violência caótica, mas uma violência ritualizada, com contornos ideológicos precisos. Um grupo de jovens, que se entendia marginalizado e subalterno, fazia sua vingança em meninas mais humildes do grupo predominante. É totalmente legítimo levantar a questão de se saber se existem elementos em sua religião e cultura que inauguram um espaço para a brutalidade contra as mulheres, sem se culpar o Islã como tal (que não é mais misógino do que o cristianismo em si). Em muitos países e comunidades islâmicas pode-se observar uma consonância entre violência contra as mulheres, subordinação das mulheres e sua exclusão da vida pública.

Entre muitos grupos e movimentos fundamentalistas, a imposição rigorosa da diferença e da hierarquia sexual estão no topo de suas agendas. Contudo, nós devemos simplesmente aplicar os mesmos critérios a ambos os lados (fundamentalistas cristãos e islâmicos), sem medo de admitir que nossa crítica liberal-secular ao fundamentalismo também está manchada por uma falsidade.

A crítica ao fundamentalismo religioso na Europa e nos Estados Unidos é um tema antigo e de uma variação infinita. A própria maneira sutil com que os intelectuais liberais se auto-satisfazem tirando sarro de fundamentalistas encobre o verdadeiro problema, que é a sua dimensão escondida de classes. A contraparte dessa “tiração-de-sarro” é a patética solidariedade dirigida aos refugiados e, também, a não menos falsa e patética auto-humilhação de nossa auto-admoestação. A verdadeira tarefa é construir pontes entre as classes trabalhadoras “nossas” e “deles”. Sem essa unidade (que inclui a crítica e a autocrítica de ambos os lados), a luta de classes regride convenientemente para um choque de civilizações. É por isso que ainda há um outro tabu a ser deixado para trás.

As preocupações e inquietações das, assim chamadas, pessoas comuns afetadas pelos refugiados são muitas vezes descartadas como sendo uma expressão de preconceitos racistas, quando não totalmente neo-fascistas. Deveríamos nós realmente deixarmos PEGIDA & Companhia serem o único caminho aberto para estas pessoas?

Curiosamente, o mesmo enredo subjaz à crítica esquerdista “radical” dirigida a Bernie Sanders: o que incomoda seus críticos é precisamente o seu contato próximo com os pequenos agricultores e outras pessoas que trabalham em Vermont, que geralmente dão o seu apoio eleitoral para os conservadores republicanos. Sanders está pronto para ouvir as suas preocupações e cuidados, sem descartá-los como lixo branco racista.

De onde é que a ameaça vem?

Obviamente que ouvir as preocupações das pessoas comuns de modo algum implica em se aceitar a premissa básica de sua postura, a ideia de que as ameaças à sua forma de vida vem de fora, dos estrangeiros, do “outro”. A tarefa está no âmbito de ensiná-los a reconhecer a sua própria responsabilidade pelo seu futuro. Para explicar esse ponto, vamos pegar um exemplo de uma outra parte do mundo.

O novo filme de Udi Aloni, Junction 48 (a ser lançado em 2016), lida com a difícil situação dos jovens “palestinos israelenses” (palestinos descendentes de famílias que permaneceram em Israel após 1949), cuja vida cotidiana envolve uma contínua luta em duas frentes — tanto contra a opressão do Estado de Israel, como contra pressões fundamentalistas de dentro de sua própria comunidade. O papel principal é interpretado por Tamer Nafar, um rapper israelo-palestiniano bem conhecido que, em sua música, zomba da tradição do “assassinato em noma da honra”, praticado contra meninas palestinas por suas próprias famílias palestinas. Uma coisa estranha aconteceu com Nafar durante uma recente visita aos Estados Unidos. Na UCLA, depois de Nafar se apresentar com a sua canção de protesto sobre os “assassinatos em nome da honra”, alguns estudantes anti-sionistas repreenderam-no por promover a visão sionista que enxerga os palestinos como bárbaros primitivos. Eles acrescentaram que, se existem crimes de honra, a responsabilidade é de Israel por manter os palestinos, desde a ocupação israelense, em condições precárias e debilitantes. Eis a digna resposta de Nafar: “Quando vocês me criticam, vocês criticam a minha própria comunidade, em inglês, para impressionar seus professores radicais. Eu canto em árabe, para proteger as mulheres do meu próprio gueto.”

Um aspecto importante da posição de Nafar é que ele não está apenas protegendo meninas palestinas do terror famíliar, ele também está possibilitando que elas lutem por si mesmas — que elas assumam os riscos. No final do filme de Aloni, depois que a menina decide se apresentar em um concerto contrariamente à vontade de sua família, o filme termina deixando o pressentimento sombrio de um assassinato em nome da honra.

No filme de Spike Lee sobre Malcolm X, há um detalhe maravilhoso: depois de Malcolm X dar uma palestra em uma faculdade, uma jovem estudante branca se aproxima dele e pergunta o que ela pode fazer para ajudar na luta negra. Ele responde: “Nada.” O ponto nesta resposta não é o de que os brancos simplesmente não devem fazer nada. Em vez disso, eles devem primeiro aceitar que libertação negra deve ser o trabalho dos próprios negros; não é algo que pode ser concedido a eles como um presente dado pelos brancos liberais bonzinhos. Somente na base dessa aceitação é que podem fazer algo para ajudar os negros. Aí reside o ponto de Nafar: palestinos não precisam da ajuda paternalista dos liberais ocidentais, e eles precisam menos ainda do silêncio sobre os “assassinatos em nome da honra”, como sendo uma parte do “respeito” esquerdista-ocidental pelo modo de vida palestino. A imposição de valores ocidentais como sendo os direitos humanos universais e o respeito pelas diferenças culturais, independentemente dos horrores que por vezes estão para além dessas culturas, são dois lados da mesma mistificação ideológica.

Para enfraquecer realmente a xenofobia patriótica que se opõe às ameaças externas, deve-se rejeitar o seu próprio pressuposto, ou seja, que cada grupo étnico tem a sua própria e adequada “Nativia.” Em 7 de setembro de 2015, Sarah Palin deu uma entrevista à Fox News, junto ao apresentador Steve Doocey do Fox and Friends:

“Eu amo imigrantes. Mas, como Donald Trump, apenas acho que temos muitos condenados neste país. México-americanos, asiático-americanos, nativo-americanos — eles estão adulterando o caldo cultural dos Estados Unidos, afastando-o para longe do que costumava ser nos dias de nossos Pais Fundadores. Penso que deveríamos procurar alguns desses grupos e apenas perguntar educadamente: ‘Vocês se importariam de ir para suas casas? Vocês se importariam de nos dar o nosso país de volta?’”

“Sarah você sabe que eu te amo”, Doocey interrompeu: “E eu acho que é uma ótima ideia com relação aos mexicanos. Mas para onde é que os nativo-americanos deveriam ir? Eles realmente não têm um lugar que seja deles para voltar, não?”

Sarah respondeu: “Bem, eu acho que eles deveriam voltar para Nativia ou de onde quer que eles tenham vindo. A mídia liberal trata os nativo-americanos como se fossem deuses. Como se eles simplesmente tivessem algum tipo de direito automático de estar aqui neste país. Mas eu te digo, se eles não aprenderem a descer daqueles cavalos e começarem a falar a língua americana, então eles deverão ser enviados de volta para a casa deles também.”

Infelizmente, nós imediatamente ficamos sabendo que esta história — boa demais para ser verdade — era, de fato, uma peça brilhantemente encenada pelo Daily Currant. No entanto, como se costuma dizer, “Se não é verdade, é muito bem contado.” Da natureza ridícula dessa montagem, foi trazida à cena a fantasia oculta que sustenta a visão anti-imigrante: no mundo global e caótico de hoje, há sempre uma certa “Nativia” à qual as pessoas que nos incomodam pertencem. Esta perspectiva materializou-se no apartheid da África do Sul, na forma dos bantustões — territórios reservados para habitantes negros. Os brancos sul-africanos criaram os bantustões com o intuito de torná-los independentes, garantindo assim que os sul-africanos negros perdessem seus direitos de cidadadão nas restantes áreas África do Sul controladas por brancos. Apesar dos bantustões terem sido definidos como os “lares originais” dos povos negros da África do Sul, diferentes grupos negros foram alocados nestas suas terras natais, de um modo brutalmente arbitrário. Os Bantustões correspondiam a 13 por cento das terras do país, cuidadosamente selecionadas por não conterem nenhum tipo de reserva mineral importante — o restante de riquezas em reservas minerais do país ficaria, então, nas mãos da população branca. O Ato de Cidadania das Homelands Negra, de 1970, designava formalmente todos os sul-africanos negros como cidadãos das Homelands, mesmo se eles vivessem na “África do Sul branca”, e cancelava a cidadania sul-africana deles. Do ponto de vista do apartheid, esta solução foi ideal: os brancos ficavam com a maior parte das terras enquanto os negros eram proclamados estrangeiros em seu próprio país, e tratados como trabalhadores convidados que poderiam, a qualquer momento, ser deportados de volta à sua “terra natal”. A natureza artificial de todo este processo salta aos olhos de maneira escandalosa. Repentinamente os grupos negros foram informados que uma porção pouco atraente e infértil de terra era seu “verdadeiro lar.” Hoje, mesmo que um Estadoda Palestina emergisse na Cisjordânia, não seria exatamente como um bantustão cuja “independência” formalizada serviria ao propósito de libertar o governo de Israel de qualquer responsabilidade pelo bem-estar das pessoas que vivem lá.

Mas também devemos acrescentar a esta reflexão que as defesas, a multiculturalista ou a anti-colonialista, de diferentes “modos de vida” também são falsas. Tais defesas encobrem os antagonismos inerentes a cada uma das formas particulares de vida, ratificando atos de brutalidade, sexismo e racismo como expressões de um modo particular de vida que não temos o direito de mensurar enquanto estrangeiros, ou seja, desde os valores ocidentais. A fala do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, na Assembleia Geral das Nações Unidas é uma defesa anti-colonialista típica, usada para justificar uma homofobia brutal:

Respeitar e defender os direitos humanos é a obrigação de todos os Estados, e está consagrado na Carta das Nações Unidas. Em nenhum lugar a escritura arroga a alguns o direito de executar um julgamento sobre os outros, zelando por esse compromisso universal. A este respeito, rejeitamos a politização desta importante pauta e a aplicação de normas duplas para vitimar aqueles que ousam pensar e agir de forma independente dos prefeitos auto-ungidos do nosso tempo. Nós igualmente rejeitamos as tentativas de prescrever “novos direitos” que são contrários aos nossos valores, normas, tradições e crenças. Nós não somos gays! Cooperação e respeito mútuo farão avançar a causa dos direitos humanos no mundo. Confrontação, difamação e padrões duplos, não.

O que poderia significar a enfática alegação de Mugabe “Nós não somos gays!”, remontando-se ao fato de que, com certeza, existem muitos gays também no Zimbábue? Significa, é claro, que os gays lá são reduzidos a uma minoria oprimida cujos atos são muitas vezes diretamente criminalizados. Mas pode-se compreender a lógica subjacente: o movimento gay é percebido como o impacto cultural da globalização, ou ainda, sob outra perspectiva, a globalização enfraquece as formas sociais e culturais tradicionais de tal maneira que a luta contra gays surge como um aspecto da luta anti-colonial.

Será que o mesmo não se aplica a, digamos, Boko Haram? Para certos muçulmanos a libertação das mulheres aparece como a característica mais visível do impacto cultural destruidor da modernização capitalista. Assim, Boko Haram, que pode grosseiramente ser representado na sentença  “Formas de educação ocidental [de mulheres especificamente] são proibidas”, possivelmente compreende a si mesmo como uma forma de combater o impacto destrutivo da modernização quando impõe regulação hierárquica entre os dois sexos.

O enigma é esse: por que extremistas muçulmanos, que foram, sem dúvida, expostos à exploração, dominação, e outros aspectos destrutivos e humilhantes do colonialismo, miram no que é (ao menos para nós) a melhor parte da Legado Ocidental — nosso igualitarismo e pessoal liberdades? A resposta óbvia pode ser a de que seu alvo é bem escolhido: o que faz com que o Ocidente liberal seja tão insuportável é o fato de que ele não só pratica a exploração e a dominação violenta, mas que também, adicionando o insulto à injúria, ele apresentam essa realidade brutal disfarçando-a de seu oposto — de liberdade, igualdade e democracia.

A defesa retrógrada de Mugabe dos modos particulares de vida encontra sua imagem espelhada no que Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria – de direita -, está fazendo. Em 3 de setembro de 2015, ele justificou o fechamento da fronteira com a Sérvia como um ato de defesa da Europa cristã contra invasores muçulmanos. Este foi o mesmo Orban, que, em julho de 2012, disse que na Europa Central um novo sistema econômico deve ser construído: “Tenhamos a esperança de que Deus nos ajudará, e então nós não teremos que inventar um novo tipo de sistema político no lugar da democracia que precisa ser colocada em prática, por uma questão de sobrevivência econômica. … A cooperação não é uma questão de intenção, mas de se ter força. Talvez existam países onde as coisas não funcionam dessa maneira, por exemplo, nos países escandinavos, mas uma gentalha meio-asiática, como nós, apenas poderá se unir se houver força.”

O elemento irônico dessas linhas não está ausente se olharmos para alguns antigos dissidentes húngaros: quando o exército soviético moveu-se para Budapeste para esmagar o levante anti-comunista de 1956, a mensagem que os líderes húngaros sitiados enviavam repetidamente ao Ocidente era: “Nós estamos defendendo a Europa aqui.” (Contra os comunistas asiáticos, é claro.) Agora, após o colapso do comunismo, o governo cristão-conservador pintou como o seu principal inimigo o multi-cultural cosumista liberal democrata ocidental, o qual a Europa Ocidental de hoje atura, clamando por uma nova ordem comunitária mais orgânica para substituir a “turbulenta” democracia liberal das duas últimas décadas. Orban já expressou sua simpatia para com os casos de “capitalismo com valores asiáticos”, como a Rússia de Putin, portanto, se a pressão europeia sobre Orban continuar, podemos facilmente imaginá-lo enviando a mensagem para o Oriente: “Nós estamos defendendo Ásia aqui!” (E, para adicionar uma reviravolta irônica, a partir da perspectiva racista da Europa Ocidental, existem muitos húngaros hoje que não são descendentes dos primeiros hunos medievais — mas Attila, ainda hoje, é um nome popular húngaro.)

Haveria uma contradição entre esses dois Orbans: o Orban amigo de Putin que se ressente do Ocidente liberal-democrático e o Orban defensor da Europa cristã? Não. As duas faces de Orban dão provas (caso seja necessário) de que a principal ameaça para a Europa não é imigração muçulmana, mas os seus defensores populistas anti-imigrantes.

Então, como seria se a Europa tivesse que aceitar o paradoxo de que a sua abertura democrática é baseada na exclusão. Em outras palavras, não há “nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade”, como Robespierre já o disse há muito tempo. Em princípio, isto é, naturalmente, verdade, mas é aqui que temos de ser muito específicos. De certa forma, o assassino em massa da Noruega, Andres Breivik, estava certo na escolha de seu destino: ele não atacou os estrangeiros, mas aqueles dentro de sua própria comunidade que eram demasiadamente tolerantes para com estrangeiros intrometidos. Os estrangeiros não são o problema — mas, sim, a nossa própria identidade (europeia).

Apesar de a crise em curso da União Europeia afigurar-se como uma crise da economia e das finanças, é, na sua dimensão fundamental, uma crise político-ideológica. O fracasso de referendos relativos à Constituição da UE há um par de anos atrás, deu um sinal claro de que os eleitores perceberam a União Europeia como uma união econômica “tecnocrática”, sem qualquer perspectiva que pudesse mobilizar as pessoas. Até a recente onda de protestos, da Grécia para a Espanha, a única ideologia capaz de mobilizar as pessoas tem sido a defesa anti-imigrante da Europa.

Há uma ideia que circula no subsolo de uma desapontada Esquerda radical, que é uma reiteração amenizada da predileção para o terrorismo na sequência do movimento de 1968: a ideia maluca de que somente uma catástrofe radical (uma ecológica, de preferência) pode despertar as massas e, assim, dar um novo impulso à emancipação radical. A última versão desta ideia relaciona-se com os refugiados: somente um afluxo de um número realmente grande de refugiados (e seu descontentamento, uma vez que, obviamente, a Europa não será capaz de satisfazer as suas expectativas) poderá revitalizar a esquerda radical europeia.

Considero esta linha de pensamento obscena: não obstante o fato de que tal desenvolvimento pode dar um imenso impulso à brutalidade anti-imigrante, o aspecto verdadeiramente louco dessa ideia é o projeto de se preencher a lacuna de proletários radicais faltantes, importando-os a partir do estrangeiro, de modo que vamos chegar a revolução por meio de um agente revolucionário importado.

Isso, é claro, de modo algum implica que devamos nos contentar com o reformismo liberal. Muitos liberais de esquerda (como Habermas) que lamentam o declínio contínuo da UE parecem idealizar seu passado: a “democrática” UE, a perda do que eles lamentam nunca ter existido. As políticas recentes da UE, como as que impõem austeridade à Grécia, são apenas uma tentativa desesperada de tornar a Europa apta a um novo capitalismo global. A crítica usual da esquerda-liberal a UE — que é algo basicamente OK, exceto por um “déficit democrático” — denuncia a mesma ingenuidade, tal qual os críticos de países ex-comunistas que basicamente os suportam, exceto pela reclamação sobre a falta de democracia: em ambos os casos, o “déficit democrático” é e era uma parte necessária da estrutura global.

Mas aqui, sou ainda mais um pessimista cético. Recentemente, quando eu estava respondendo a perguntas de leitores do Süddeutsche Zeitung, o maior jornal diário alemão sobre a crise de refugiados, a questão que de longe atraiu mais atenção concernia precisamente a democracia, mas com um toque de direita populista: quando Angela Merkel fez o seu famoso apelo publico, convidando centenas de milhares de pessoas para irem à Alemanha, qual era a sua legitimação democrática? O que lhe dava o direito de trazer uma mudança tão radical à vida alemã sem consulta democrática? Meu ponto aqui, é claro, não é apoiar os populismo anti-imigrante, mas apontar claramente os limites da legitimação democrática. O mesmo vale para aqueles que defendem a abertura radical das fronteiras: estariam eles cientes de que, uma vez que as nossas democracias são de estados-nações democráticas, tais demandas equivaleriam à suspensão delas — de modo que, como consequência, estariam impondo uma mudança gigantesca no status quo de um país sem a consulta democrática da sua população? (A resposta deles teria sido, obviamente, a de que aos refugiados também deve ser dado o direito de voto — mas isto é claramente insuficiente, uma vez que se trata de uma medida que só pode vigorar após a integração completa dos refugiados ao sistema político de um país.) Um problema semelhante surge com os apelos à transparência nas decisões da UE: o que eu temo é que, uma vez que em muitos países a maior parte da população é contrária a redução da dívida grega, tornar as negociações da UE públicas faria com que os representantes desses países enrijecessem ainda mais as medidas contra a Grécia.

Encontramos aqui o velho problema: o que acontece com a democracia quando a maioria está inclinada a votar em leis racistas e sexistas? Eu não tenho medo de concluir: políticas emancipatórias não devem ser compelidas a priori por procedimentos formais-democráticos de legitimação. Não, as pessoas muitas vezes NÃO sabem o que querem, ou não querem o que sabem, ou, ainda, elas simplesmente querem a coisa errada. Não há nenhum atalho simples aqui.

Nós definitivamente vivemos tempos interessantes.

* Publicado originalmente em inglês no In these times, em 16/11/2015, a tradução é de Estanislau Alves da Silva Filho para o Blog da Boitempo.

***absoluto frágil zizek

A Boitempo acaba de lançar o aguardado O absoluto frágil, ou, porque vale a pena lutar pelo legado cristão, de Slavoj Žižek, um ensaio explosivo que defende, contra a ascenção dos fundamentalismos modernos uma aproximação entre o cristianismo e o marxismo num projeto político emancipatório renovado. Nas palavras do esloveno: “O primeiro paradoxo da crítica materialista da religião é este: às vezes é muito mais subversivo destruir a religião a partir de dentro, aceitando sua premissa básica para depois revelar suas consequências inesperadas, do que negar por completo a existência de Deus.”

***

Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Violência, seis reflexões laterais * Kindle (Amazon | Travessa)

***

Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

3 comentários em Žižek: A economia política dos refugiados

  1. Emmanuel Nakamura // 26/11/2015 às 14:19 // Responder

    Caros leitores de Zizek,
    Hegel tem uma opinião engraçada: «Deus fez o homem a sua imagem. Este é o conceito do homem. O homem viveu no paraíso; este pode ser chamado de jardim zoológico». O esquerda sempre teve uma concepção totalmente equivocada de democracia: um lixo mesmo, que só merece nosso cuspe. Tal concepção se apoia na ideia grega de um ideal ético-comunitário, i.e. um paraíso. Para Marx, a democracia era, ao contrário, um princípio da formação da vontade política-subjetiva: os assuntos políticos tinham que atingir a última camada da sociedade porque esta teria uma posição política para o ético-comunitário, já que a vontade política dessa camada consiste na organização da sociedade sobre a pressuposição da liberdade social. Liberdade social significa direito aos meios de produção e vida. Acentuo a palavra direito. Este era o critério de Marx: a democracia é uma garantia de um setor da sociedade vai defender politicamente a liberdade social. A liberdade não está projetada exteriormente num ideal de uma comunidade democrática, mas está no interior da vontade política da individualidade subjetiva. Nesse sentido, ela é um prolongamento do princípio protestante da liberdade subjetiva – que os gregos historicamente não conheceram e muito menos Zizek. O «intelectual», louvado no Brasil, cresceu na Eslovenia, um país ex-comunista que não sabe o que é direito. A democracia, a que ele se refere, não tem critério racional algum. Ela é uma espécie de paraíso para animais. Ela tem um critério natural-cultural, i.e, está ligado a determinidade natural de um povo: quem nasce em determinado lugar é livre e participa da democracia. Já a vontade particular subjetiva – para o Zizek «inclinada a votar em leis racistas e sexistas» – deve ser excluída, não através da escravidão, como na grécia antiga, mas através de soldados armados defendendo as fronteiras da Europa. Ainda bem que a esquerda mundana não está no poder. O mundo poderia estar ainda pior…
    Respeitosamente,
    Emmanuel Nakamura.

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  2. Aída Paiva // 11/01/2016 às 22:29 // Responder

    Emmanuel Nakamura, você e sua classe social estão mudando, você percebeu isso?

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  3. Zizek, você é um crápula que mantém o sistema capitalista e a burguesia. Você utiliza esse blog para colher comentários que serão posteriormente usados contra a classe trabalhadora. Vocês irão todos pro inferno! Clamo a justiça divina contra você, Zizek, porque é a única coisa que me resta.

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