Ódio sem fim ao PT

15 02 25 lincoln secco odio sem fio ao ptPor Lincoln Secco e Ciro Seiji.

Manchete da Folha de São Paulo no dia 12 de fevereiro de 2015: “Doleiro Afirma que José Dirceu Sabia de Repasses de Desvios da Petrobrás ao PT”. Nenhum acusado por um criminoso sob delação premiada mereceria uma primeira página. Exceto se ele for do PT.

José Dirceu foi condenado e já cumpriu parte de sua pena. Aguarda sua liberdade plena para pedir a revisão criminal de seu julgamento e, eventualmente, apelar a tribunais internacionais. A sua condenação não teve sustentação nos autos, como juristas de diferentes posicionamentos ideológicos declararam.

Obviamente que Dirceu cometeu erros políticos que deveriam, em outras circunstâncias, ser julgados pelo seu partido. Foi ele quem escolheu o caminho de um partido social democrata de massas com alianças amplas para chegar ao poder.

O PT entrou no governo pedindo licença – não precisava. Vinha sustentado pelas ruas, com a identidade dos militantes dos sindicatos, dos movimentos populares e da esquerda. Mas introjetou a ideia de que tinha ganho a partir de uma artimanha publicitária, a Carta ao Povo Brasileiro. Tanto que ao primeiro sinal de golpe em 2005, Lula colocou o boné do MST e quer repetir a dose hoje com o MTST. Mas agora a nova geração de lutadores sociais não levará borrachada por ele.

NEOPETISMO

Os dirigentes neopetistas1 até poderiam ter rifado Dirceu e Genoíno para salvar a própria pele, mas não deveriam ter abandonado o partido às hienas míopes para que a sua rebeldia, história e prontidão fossem transformadas em moranguinhos2 e burocratas da estrutura do Estado.

Depois, o PT conseguiu a proeza de escolher os juízes que colocaram na cadeia dois de seus ex-presidentes: Dirceu e Genoíno. Eles pagaram pela ideologia do republicanismo periférico: aquele que considera neutras instituições forjadas pela classe dominante apenas para seu uso egoísta.

Mas José Dirceu também foi condenado pelo seu “sucesso” político. Arquiteto da chegada do PT ao poder e oriundo da luta armada, os de cima não o perdoariam jamais.

A causa disso é aquilo que Florestan Fernandes denominava a resistência sociopática da burguesia periférica a qualquer mudancismo social. A insistência na fabricação de escândalos como arma política e a tentação recorrente de derrubar o PT de um governo para o qual foi eleito legitimamente demonstram que nem mesmo as mudanças ordeiras produzidas pelo neopetismo foram assimiladas.

A perseguição atinge até mesmo executivos de empresas no exercício de seu “sagrado” direito de financiar todos os partidos em troca de favores públicos. Inconformados em suas celas, perguntam-se: “O que fizemos de errado?”. A resposta é uma só: juntaram-se ao PT. O objetivo da maioria do poder judiciário é secar as fontes de financiamento do partido infligindo o pânico nos doadores de campanha.

CAOS

No entanto, há um preço a se pagar. O PT foi a última chance da burguesia legitimar sua “dominação democrática”. A derrocada “ética” do PT e seu afastamento de práticas socialistas não ensejaram novas formas permanentes de luta na esquerda. Junho ainda não decantou e as derrotas populares de 2014 o comprovaram. O neopetismo, mistura de covardia republicana e repressão aos novíssimos movimentos sociais colaborou com aquelas derrotas.

O PT seguiu o caminho da água, o mais fácil, porque os neopetistas não são leões famintos, mas lobos domesticados de estômago elástico. Mesmo assim insultou com a sua mera presença na festa das figuras medíocres da política nacional, da elite sem berço que vê o Brasil como uma criança branca que volta de Miami carregada de brinquedos de plástico.

O único que eles temiam, e temiam porque já teve um revolver na mão, era Dirceu. Era preciso, portanto, reduzir a pedaços os seus nervos e a sua vontade. Mas não conseguiram porque o ódio não tem data de validade.

O destino de José Dirceu é um símbolo do futuro de seu partido. À sua direita o seu próprio governo; à sua esquerda, os reclamos de sua militância desorganizada, sem núcleos e perdida nas ruas desde junho. Dali ecoam cada vez menos discretamente os sons da insurreição.

Na encruzilhada, o PT hesita entre a debandada e outra revolta dos bagrinhos3. Só que os bagrinhos de hoje estão nas ruas, ocupações, na educação popular, nos mesmos lugares em que apanham sob o olhar cúmplice de dirigentes que se calam para proteger seus glúteos recostados em cadeiras irresistíveis.

NOTAS

1 O neopetismo não diz respeito a pessoas que adentraram recentemente no partido. O PT mais que dobrou de tamanho nos primeiros 3 anos de governo Lula, mas muitos jovens aderiram não apenas por oportunidade de carreira, e sim porque a imagem do PT continua incomodando as elites das classes dominantes. Por outro lado, muitos dirigentes neopetistas são antigos membros do partido que aderiram ao nepotismo, ao conservantismo e apoiam a repressão policial e judiciária de manifestantes.

2 Primeira leva em massa de militantes pagos pelo PT em São Paulo.

Alusão à imagem de revolta interna da base petista nos anos 1980.

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

4 Comments on Ódio sem fim ao PT

  1. Miguel Aires // 25/02/2015 às 18:13 // Responder

    Brilhante artigo.

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  2. Davi Martins // 25/02/2015 às 18:32 // Responder

    José Dirceu era o mais querido e confiável da direita. Foi por ela abandonado como serão os políticos de qualquer matiz ideológica que se deixarem ser pegos contando vil metal (de interesse de ambos, diga-se). Sem a descoberta dos esquemas de mesadas e “recursos não contabilizados”, ele continuaria sendo útil e querido. A elite financeira não teme Dirceu, Lula, ou qualquer outro político, com revolver ou notebook. O PT hoje não passa de um PMDB no armário. Apenas as massas nas ruas assustam os donos do país. E os caciques petistas estão a léguas de distâncias delas.

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  3. Um dos artigos mais absurdos que já lí. Vou analisar todas as partes dele. Por enquanto vou pegar uma só referência: “ Depois, o PT conseguiu a proeza de escolher os juízes que colocaram na cadeia dois de seus ex-presidentes: Dirceu e Genoíno. Eles pagaram pela ideologia do republicanismo periférico: aquele que considera neutras instituições forjadas pela classe dominante apenas para seu uso egoísta.”

    1) A afirmação que republicanismo com instituições neutras são apenas para uso egoísta, mostra que respeito as instituições democráticas não tem valor nenhum para o autor e para boa parte do PT.
    2) Esquece de mencionar que na escolha dos juízes não houve qualquer objetivo de neutralidade; apenas os escolhidos ( Barbosa – “ Lula fez a bondade de colocar um negro que deveria se comportar como um negro e eternamente agradecer seu dono” Um verdadeiro ingrato, e Fuchs- “deixa que eu resolvo , este nos enganou” ) , por diversos motivos não se comportaram como marionetes; tipo Lewandowsky, este sim um verdadeiro agradecido.

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  4. Questões Relevantes // 26/02/2015 às 0:06 // Responder

    Gosto de posicionamentos claros. Lincon Secco deixa transparente seu desprezo pela democracia e o estado de direito, bem como seu apreço por José Dirceu, o mago das consultorias.

    É verdade que embora seu posicionamento seja claro, seu texto é um tanto enviesado, cheio de teorias da conspiração e saudosismo da revolução que não houve.

    Também deixa claro que não entende nada de economia. Se entendesse, compreenderia que o sucesso do primeiro mandato do Lula teve tudo a ver com rasgar os velhos panfletos ptistas e “introjetar a Carta aos Brasileiros”. Sem isso, o governo Lula teria acabado em um ano, com desemprego nas núvens, inflação galopante e outras mazelas.

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