Weird Fiction: essa força estranha (parte II)

15.01.30_Fabio Fernandes_New WeirdPor Fábio Fernandes.

Uma das características mais interessantes da Weird Fiction é sua difícil capacidade de classificação. Parece paradoxal? E é: num mundo cada vez mais governado pela “marketabilidade”, onde tudo tem de ter um rótulo, a ficção weird é uma das mais difíceis de encaixar em classificações de gênero literário.

Talvez isso se deva à tentativa de definição feita por Lovecraft (ver coluna anterior), onde ele deixa claro que o weird não se resume a histórias macabras e de fantasmas, mas um certo pavor do desconhecido, para dizer o mínimo. Isso poderia até ser fácil no século XIX e na época do criador do mito de Chtulhu, mas com o passar das décadas o buraco (ou a toca do monstro abissal) foi ficando bem mais embaixo. O século XX, com duas guerras mundiais e inúmeros conflitos não menos atrozes, como a Guerra Civil Espanhola e as Guerras da Bósnia e do Kosovo, para citarmos apenas alguns, desafia o entendimento do conceito de humanidade, e nos convida a rever definições de horror e de bizarro.

Entre o período clássico e o contemporâneo, tivemos um momento de Weird Fiction (definição retroativa, claro) não menos prolífico, mas com autores não necessariamente considerados do gênero fantástico pela crítica. Entre eles, Shirley Jackson (autora do espetacular conto A loteria e do clássico romance We Have Always Lived in the Castle), também considerada um expoente do chamado Gótico Americano, e conhecida mundialmente pelo filme The Haunting, adaptação de seu livro The Haunting of Hill House, e Robert Aickman, praticamente desconhecido no Brasil, prolífico autor de contos, reunidos em diversas coletâneas, entre as quais Dark Entries e Cold Hand in Mine.

Jackson, com sua quebra do bucólico faulkneriano em A loteria e a revelação de que o horror pode não estar no sobrenatural, mas nas pessoas ditas simples e comuns ao nosso redor (como disse Caetano parafraseando Foucault, de perto ninguém é normal – os americanos apenas levaram mais tempo para descobrir isso), inspirou autores como Richard Matheson e Rod Serling – este não por acaso o criador da série de TV Twilight Zone (Além da Imaginação, no Brasil) – a escreverem histórias que, fossem de ficção científica ou mais voltadas para o fantástico surreal, sempre oscilavam entre o mundo natural e o mundo extranatural justamente numa zona crepuscular, e talvez essa twilight zone que Serling nomeou tão bem possa ser outra definição para Weird Fiction. Mas não só, claro.

Em 2008, os editores Ann e Jeff VanderMeer lançaram nos Estados Unidos uma coletânea que daria o que falar no mundo inteiro: The New Weird. Eram 414 páginas que prestavam uma grande homenagem ao gênero, desde seus autores mais antigos vivos (como Michael Moorcock e M. John Harrison, grandes nomes da chamada New Wave britânica de meados da década de 1960, uma ficção fantástica mais pop, erudita e voltada à exploração do self, ao contrário das grandes aventuras galácticas criadas pela geração anterior de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke) até os mais recentes e bizarros, como o recém-falecido Jay Lake, Jeffrey Ford e China Miéville, sem deixar de lado os nomes mais famosos dos anos 1980, como Clive Barker (cujo horror splatterpunk – ok, ok, too much information, rótulos demais, mas essa é a natureza do mundo literário em que vivemos – é por diversas vezes considerado weird pelo puro teor de suas ideias) e o cyberpunk Paul DiFillipo.

A grande sacada da antologia estava menos nos contos (excelentes, aliás) do que na última parte, dedicada a uma extensa troca de e-mails entre vários dos autores apresentados na coletânea, onde eles discutiam o que era exatamente o que eles estavam escrevendo. É nessa troca de e-mails que ficamos sabendo que a criação do termo New Weird se deve a M. John Harrison e ele próprio defende com unhas e dentes a adoção da expressão antes que outro grupo o faça (dito assim parece uma manobra fria e calculista de um editor inescrupuloso – mas não é; a discussão é intensa, hilária em alguns momentos, mas pertinente até hoje toda vez em que se pensa como circunscrever [sem patrulhar] os limites de um gênero).

Vocês já perceberam, evidentemente, um nome mais conhecido lá em cima. China Miéville, cujo A cidade & a cidade traduzi para a Boitempo no ano passado, é considerado um dos mestres da New Weird, se não O grande mestre. Não é para menos: o próprio A cidade… tem elementos fantásticos que já lhe dariam fácil, fácil, a carteirinha de sócio emérito do Clube dos Escritores Bizarros. Mas está longe de ser seu livro mais estranho.

Esse título pertence a Perdido Street Station. Publicado em 2000 sob o rótulo de Fantasia, estava na cara que o livro não se enquadraria facilmente em nenhum molde previamente estabelecido pela indústria. O que dizer de um romance ambientado numa cidade semi-medieval, semi-industrial, onde humanos e seres alienígenas convivem, trabalham (nem sempre em harmonia, isso não é historinha infantil) copulam e bebem (muito), traficam, enganam, se estranham, se ajudam, se amam, enfim, se comportam como habitantes de uma cidade como outra qualquer – o que não é fácil para uma cidade inexistente em um mundo que provavelmente não é o nosso. Junte a isso seres infernais, uma espécie de magia científica e máquinas retrô cheias de engrenagens criadas por um equivalente de Da Vinci e você terá uma ideia (apenas uma ideia) do que é Perdido Street Station. Nesse livro não existe (necessariamente) horror cósmico lovecraftiano, mas o sense of wonder, a sensação do maravilhoso, esta se faz presente o tempo todo. Perdido, mais The Scar e The Iron Council, que compõem a Trilogia de Bas-Lag, são um dos retratos mais vívidos de um mundo estranhamente similar ao nosso em termos de leis da Física mas onde a Biologia (entre outras ciências) enlouqueceu.

O universo da New Weird Fiction ainda conta com o reforço de um comitê central cheio de autores da melhor qualidade: Caitlin R. Kiernan, Sarah Monette, Michael Marshall Smith, Thomas Ligotti, Hal Duncan, e Jeff VanderMeer. O editor da antologia The New Weird é autor do gênero há anos, e recentemente lançou a trilogia Área X, uma homenagem a Stalker (tanto o livro dos irmãos Strugatski quanto a adaptação cinematográfica de Andrei Tarkóvski) que está fazendo sucesso por onde passa.

E já começa a aparecer uma novíssima geração (seria a New New Weird?). Autores como Robert Shearman, Usman T. Malik, Jacques Barcia, J. Y. Yang, com narrativas cada vez mais estranhas e descoladas da ficção fantástica tradicional, trazendo um ar de renovação fundamental para a Literatura com L maiúsculo. Parece paradoxal, num tempo em que livros de fantasia com histórias simplistas e narrativas lineares e de fácil digestão vendem como água? E é. Que bom.

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Fábio Fernandes é escritor, tradutor e professor universitário. Traduziu recentemente A cidade & a cidade, de China Miéville, e está atualmente trabalhando no aguardado Perdido Street Station previsto para ser lançado pela Boitempo no segundo semestre de 2015. Colabora com o Blog da Boitempo, mensalmente, às sextas.

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