China Miéville: este é o cara (que você não conhece)

China MiévillePor Fábio Fernandes*.

China Miévile. Não, não é pseudônimo. E o sujeito também não é descendente do autor de Moby Dick (que, vamos nos lembrar, tinha o sobrenome Melville e que nos deixou como descendente um dos mestres da música eletrônica, Richard Melville Hall, mais conhecido como Moby, mas esta é outra história).

Google him. Procure o sujeito no Google, em bom português anglicizado. E o que você vai encontrar, se procurar no Google Images, é a foto e um sujeito careca, cheio de piercings na orelha esquerda, musculoso e com cara de skinhead.

Mas diz o antiquíssimo ditado: não se julga um livro pela capa. De skinhead hooligan Miéville não tem nada: formado em Antropologia Social por Cambridge em 1994, com Mestrado e Doutorado em Relações Internacionais pela London School of Economics, Miéville atualmente é professor de creative writing na Warwick University. Trotskista de carteirinha e membro do Partido Socialista Inglês, concorreu em 2001 a um cargo na Câmara dos Comuns (não ganhou).

E, além disso tudo, é escritor. Dos bons.

Mas por que você nunca ouviu falar em China Miéville? É algo um tanto estranho, principalmente se levarmos em conta que o sujeito tem 37 anos, ou seja, é da mesma geração de Nick Hornby, Neil Gaiman e Will Self (na verdade, um pouco mais novo, mas quem está contando?), todos estes publicados no Brasil e sucessos de público e crítica. É cooller pelo menos um desses autores (pensando bem, talvez não Neil Gaiman, porque é autor de quadrinhos e de roteiros para cinema – quem viu a constrangedora entrevista de Edney Silvestre com Gaiman na Globonews, gravada na FLIP em 2008, vai entender do que estou falando).

China Miéville escreveu até agora seis romances e uma coletânea de contos. Começou com King Rat (1998), e logo em seguida iniciaria o que ficaria conhecido como o Ciclo de Bas-Lag (um mundo próprio, que não é a Terra, e que não se explica se é um outro planeta, uma outra dimensão, um universo paralelo – e isso não é importante): Estação Perdido (2000), The Scar (2002), Iron Council (2004). Em 2005, Miéville lança uma coletânea de contos, Looking for Jake, que contém uma história de Bas-Lag, e em 2007 o infanto-juvenil Un Lun Dun, com ilustrações do autor. No dia 15 de maio de 2009, Miéville vai lançar no Reino Unido (e no dia 26 de maio nos EUA) um livro que está sendo esperado com ansiedade por fãs e críticos há anos, e tem tudo para se equiparar a Estação Perdido em status cult: A cidade & a cidade.

Estação Perdido está se tornando a passos largos um cult underground no Brasil. Primeiro apenas entre fãs mais empedernidos de ficção científica e fantasia – e todos sabemos o que isso significa. A marca de Caim indelével do sujeito que, como o Sheldon de Big Bang Theory, só usa camisetas de super-heróis, tem tiques esquisitos e vive discutindo (normalmente em altos brados) que este ou aquele filme de Jornada nas Estrelas é horrível porque se afasta da cronologia da série original, que afinal de contas precisa ser respeitada a todo custo, etc. etc. etc. Enfim, fanboys – pessoas de quem os ditos “normais” fogem com mais rapidez do que da gripe suína.

Mas Perdido Street Station furou esse cordão sanitário, essa barreira, como queiram, em pouco tempo. E agora já está sendo lido até mesmo por escritores brasileiros respeitados e tidos como cult.

Eu poderia passar a maior parte deste texto explicando diversas teorias pelas quais um livro ganha popularidade, mas o caso é que aí eu estaria escrevendo um texto de ficção (talvez até científica). Porque essas teorias são todas furadas. Sucesso não se explica. O sucesso existe – toda explicação é retroativa.

O que eu posso dizer pela minha experiência de escritor, tradutor e principalmente de leitor é que Estação Perdido me pegou pelos colhões porque é cheio de vida. O que é que você pode dizer quando abre as páginas de um livro que te mostra uma cidade tecnorrenascentista habitada por humanos e alienígenas, com sexo interespécies, cientistas em busca dos segredos do voo através de estudos de contenção de energia taumatúrgica usando a teoria do caos como base, políticos do nosso plano de realidade negociando com embaixadores infernais, greves de trabalhadores humanos e aliens e polícia comendo todo mundo na porrada – como em qualquer universo que se preze, porque o mundo de Estação Perdido tem homens-pássaro, homens-cacto, mulheres-inseto, mas não tem unicórnio nem bichinho bonitinho.

É um mundo de trabalhadores, imigrantes, ladrões e prostitutas. É um mundo de violência e sangue. É um mundo quase igual ao nosso, só que diferente. Estação Perdido foi publicado originalmente como Fantasia, o mesmo rótulo de gênero ao qual pertencem clássicos como O Senhor dos Anéis, de J.R.R.Tolkien, ou a série Harry Potter, de J.K.Rowling.

E no entanto não é nada disso.

O romance de estreia de Miéville prestou uma homenagem a autores clássicos de horror como H.P.Lovecraft e Robert Howard (autores depulp fiction nas décadas de 1920 e 1930 e criadores da chamada Weird Fiction, ou, numa tradução literal, ficção bizarra). Mas adicionou à mistura, neste mundo pós-moderno (ou de modernidade líquida, como queiram), muitos outros autores, como Borges, Gramsci e Marx, John Reed, e escritores de fantasia pós-Tolkien como Mervyn Peake (autor da trilogia Gormenghast, bem mais adulta e sombria que O Senhor dos Anéis, e que não tem a menor previsão de lançamento no Brasil) e M. John Harrison (este ainda vivo, e cujo livro Viriconium, escrito na década de 1970, influenciou ativamente o estilo de Miéville – preciso dizer que Harrison também é desconhecido por estas bandas?)

Em 2003, numa lista de discussão na web (cujos apontamentos foram documentados na coletânea de contos e ensaios inéditos The New Weird, publicada em 2008), Harrison e outros escritores, ao se referirem ao trabalho de Miéville, consolidaram o termo New Weird Fiction, que já andava sendo utilizado aqui e ali havia algum tempo, mas sem muito rigor.

Para eles, New Weird Fiction era um retorno ao tipo de fantasia com horror que se lia nos tempos da revista norte-americana pulp Weird Tales (a mesma que publicava Lovecraft e Howard).

A diferença era que desta vez havia, ao contrário dos autores da velha onda, uma preocupação com a linguagem e com a construção de personagens tridimensionais e coerentes.

Em um artigo escrito para o jornal britânico The Guardian em 2004, Miéville se declara um completo “control freak”. Aliás, se ele ainda não tem uma grande fortuna crítica, só o fato de merecer espaço num dos mais conceituados jornais britânicos já deveria ser motivo suficiente para ficarmos de olho no sujeito. O rigor com que Miéville constrói sua linguagem e seus personagens é do nível de um Martin Amis, William Golding, Hanif Kureishi, apenas para ficarmos em autores britânicos mainstream relativamente recentes.

Como disse o jornalista José Castello recentemente a respeito de Leite Derramado, de Chico Buarque, literatura é invenção. Mas Castello acha que o ápice da invenção é o Chico. Com o devido respeito, Castello (e eu te respeito pra burro, você é um dos meus críticos favoritos), não é não. Já tem uma pá de autor brasileiro tentando fazer (e alguns até conseguindo) o que Miéville faz em seus livros.

Os outros livros do ciclo de BasLag abordam outras partes desse estranho mundo: The Scar é uma história de piratas – mas não esperem Jack Sparrow e piadinhas engraçadinhas. Como Estação Perdido…, The Scar tem muita sujeira e sangue. É uma versão marinha do livro mais famoso de Miéville. Iron Council é,  surpreendentemente, a versão areia. É um western. Com criaturas bizarras e fantasmagóricas, mas com muito deserto e cactos (e homens-cacto, como em Estação Perdido).

A cidade & a cidade não se passa em Bas-Lag, mas numa versão paralela de nosso próprio mundo, na cidade fictícia de Beszel, em algum lugar do leste europeu. Ali, o que seria um simples assassinato de rotina para o Inspetor Tyador Borlú, do Esquadrão de Crimes Radicais, se torna a ponta de um iceberg muito maior, que revela conspirações estranhas e incompreensíveis. Borlú terá de viajar de Beszel à única metrópole na Terra mais estranha que a sua própria, a cidade de Ul Qoma, cujas fronteiras precisam ser atravessadas não só física como psiquicamente.

Outra prova do talento e do rigor de Miéville neste livro é o esforço que ele faz para emular o pidgin English – o inglês “porco” de um falante do Leste Europeu que não tem o inglês como idioma nativo e que precisa pensar antes de enunciar.

Com ecos de Borges e Kafka, e borrifos de Marcel Schwob e Ítalo Calvino, este livro promete atrair os nãonerds – e mostrar também para eles que um livro não se julga pela capa, nem um autor pelo seu público.

* Este texto foi escrito em 2009 e publicado pelos Cadernos de Não-Ficção #2 (Não Editora).

Chegou a obra prima de China Miéville!

Foto estoque_envioDepois do sucesso de A cidade & a cidade, chega ao Brasil o aclamado romance que consagrou o escritor inglês China Miéville como um dos maiores nomes da fantasia e da ficção científica contemporânea. Em Estação Perdido, primeiro livro de uma trilogia que lhe rendeu prêmios como o British Fantasy (2000) e o Arthur C. Clarke (2001), o leitor é levado para Nova Crobuzon, no planeta Bas-Lag, uma cidade imaginária cuja semelhança com o real provoca uma assustadora intuição: a de que a verdadeira distopia seja o mundo em que vivemos.

Onde encontrar? Livraria Cultura | Saraiva | Livraria da Travessa | Livraria Martins Fontes | Livrarias Curitiba

***

Fábio Fernandes é escritor e tradutor. Está atualmente traduzindo A cidade e a cidade, de China Miéville, previsto para ser lançado pela Boitempo em novembro de 2014.

9 comentários em China Miéville: este é o cara (que você não conhece)

  1. Fábio, não conhecia o China e agora estou esperando o lançamento do novo livro dele pela Boitempo. Fiquei curioso também para saber dos autores brasileiros que conseguem “fazer o que o Miéville faz em seus livros”. Dá a dica aí! Valeu!

    Curtido por 1 pessoa

  2. O livro dele The Scar é simplesmente sensacional… Apesar de ser o 2º livro de Perdido Street Station, não é uma sequencia.
    Fiquei sabendo dele por um amigo inglês. Tive de recorrer à versão ingles do livro… mas é bom saber que as obras dele estão vindo pra cá;

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  3. Fabio Fernandes // 21/11/2014 às 22:50 // Responder

    Morves, só vi o seu comentário agora, desculpe. Mas você não perde por ter esperado: a próxima coluna vai tratar da New Weird, e vou falar dos tais autores brasileiros. Abraço!

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  4. Fabio Fernandes // 21/11/2014 às 22:51 // Responder

    Sayuri, The Scar é bom mesmo, não? Uns dizem que é melhor que o Perdido – já eu gosto de todos. 🙂 De qualquer maneira, todos serão publicados, e o público brasileiro vai poder escolher qual o seu favorito.

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  5. lucianaminuzzi // 29/11/2014 às 14:03 // Responder

    Republicou isso em Lucianaminuzzi's Webloge comentado:
    Tenho que ler algo desse cara.

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  6. Fábio, excelente tradução do “The City And The City”. AGuardo ansiosamente para reler PErdido Street Station ao final do ano em Português! Detalhe o Mieville tem 43 anos e não 37.

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  7. Fábio, excelente tradução do “The City and the city”. Aguardo para reler o “Perdido Street Station” ao final do ano finalmente em Português, aliás poderiam ser editados mais de um livro por ano do Mieville por aqui ein 🙂
    Em tempo O Mieville tem 43 e não 37.
    Estou lendo o ” A Cidade e a cidade” espero que não acabe nunca,

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  8. Vou procurar o livro! Os trabalhos dele em Estudos Críticos do Direito são interessantíssimos e foi muito bacana depois saber da sua outra faceta como autor de “Weird Fiction”. Uso seu trabalho acadêmico na minha pesquisa de doutorado, sobre uso emancipador do direito. Vale a leitura.

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  9. Já estou a caminho da compra do 1° livro da trilogia. Ouvi excelentes críticas de quem o leu e agora, com essa matéria, me reforçou a curiosidade. Abraços.

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4 Trackbacks / Pingbacks

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