Weird Fiction: essa força estranha (parte I)

1Por Fábio Fernandes.

Antes da ficção científica surgir como gênero literário assumido, ela já estava lá. Antes da fantasia se consolidar com Tolkien e seus seguidores, ela já fazia sucesso. A Weird Fiction (termo que não tem tradução para o português, mas que poderíamos interpretar aproximadamente como “ficção do estranho” ou “ficção do bizarro”) já mexia com a imaginação dos leitores desde o século dezenove.

Não é difícil imaginar o motivo: tendo como seus principais temas o macabro de modo geral e as histórias de fantasmas em particular, esse subgênero da ficção especulativa está diretamente ligado ao que convencionamos chamar de narrativa de horror. Mas, segundo o pesquisador S. T. Joshi em seu livro The Weird Tale, ela se distingue do horror e da fantasia porque é anterior à divisão mercadológica em gêneros. E foi isso o que lhe deu, digamos, sustança: como as convenções estilísticas de gênero, os marcadores semióticos que determinam o que cada gênero tem que ter ou não (por exemplo, robôs e espaçonaves na ficção científica, espadas e magia na fantasia) ainda não haviam sido estabelecidas no século dezenove (a ficção científica só começa a definir esses marcadores em 1926, quando Hugo Gernsback cria a revista Amazing Stories nos EUA e também a expressão “science fiction”).

É a partir daí que a weird fiction acaba sendo realmente uma força estranha; um caldeirão que, criado na Grã-Bretanha ainda no tempo da expansão colonial, mistura vários tipos de narrativa num samba (ou seria valsa?) do britânico louco, que é confrontado com forças sobrenaturais e míticas além de seu controle e explicação. Mas é um americano, H. P. Lovecraft, que no começo do século vinte, adota o termo Weird Fiction de seu criador (Sheridan Le Fanu, autor de Carmilla, história de vampiros que influenciou o Drácula de Bram Stoker) e procura, com o espírito de racionalização do estadunidense da era moderna, dar explicação para o que não faz sentido. Em seu livro O Horror Sobrenatural na Literatura, Lovecraft define assim o gênero:

“A verdadeira história weird tem algo mais do que assassinatos secretos, ossos e sangue, ou uma forma coberta por um lençol sacudindo correntes de acordo com as regras. Uma certa atmosfera de sufocamento e inexplicável pavor de forças exteriores e desconhecidas deve estar presente; e deve haver uma pista, expressada com profunda seriedade e gravidade, daquela mais terrível concepção do cérebro humano: uma maligna e particular suspensão ou derrota das leis fixas da Natureza que são nossa proteção contra os ataques do caos e os demônios do espaço insondável.” (tradução nossa)

Le Fanu é considerado o precursor da Weird Fiction, mas foi Lovecraft seu principal evangelista. Juntamente com autores como Robert E Howard (pai de Conan, o Bárbaro, que também navegou um pouco por essas águas), William Hope Hodgson, Arthur Machen, Clark Ashton Smith e Lord Dunsany, Lovecraft escreveu histórias que mesclavam horrores sobrenaturais, científicos e cósmicos. Nas Montanhas da Loucura (que quase virou filme nas mãos de Guillermo del Toro recentemente) é um de seus exemplos mais interessantes de horror seguindo suas próprias regras: uma missão exploratória na Antártica encontra uma construção gigantesca e vestígios do que pode ter sido uma civilização alienígena que teria montado sua base aqui na nossa pré-história… mas pode também ser algo mais que isso, algo mais pavoroso. E aí, nessa dúvida, nessa linha fina entre loucura e sanidade, está grande parte da Weird Fiction lovecraftiana.

Que tem como seu eixo o mito de Cthulhu, criado por Lovecraft na história The Call of Cthulhu em 1926 e publicado em 1928 na revista Weird Tales, o principal bastião desse subgênero (publicada ininterruptamente de 1923 a 1954 e que, depois de diversas reencarnações – nada mais natural para uma revista weird –, retornou em 2007, aparentemente para ficar). Cthulhu, cuja descrição é deliberadamente obscura mas que é de modo geral caracterizado como uma imensa criatura aquática adormecida desde os primórdios da Terra no fundo dos mares e destinada a emergir de seu sono eterno no fim dos tempos, virou uma coqueluche entre os apreciadores do subgênero. Tanto que a expressão “mito de Cthulhu”, na verdade, foi criada posteriormente por August Derleth, amigo e correspondente de Lovecraft, responsável pela criação da editora Arkham House e pela divulgação póstuma de suas obras, que continuam a fazer um incrível sucesso até hoje – isso mais pelas imagens aterradoras, que grudam na retina e insistem em não sair, do que das descrições racistas e de uma virulência impressionante contra os negros em particular.

Isso fez com que em meados de 2014 o americano Daniel José Older, autor do romance Salsa Nocturna e co-editor da antologia de fantasia Long Hidden começasse uma petição para que se troque o busto de Lovecraft como premiação dos World Fantasy Awards pelo de Octavia E. Butler, autora que nas últimas décadas vem ganhando mais importância e servindo de norte para novos autores de FC e fantasia. (Disclaimer: este que vos digita assinou a petição.) Embora a petição não tenha valor de lei e a discussão ainda esteja longe de terminar – S.T. Joshi criticou aberta e furiosamente Older por supostamente não entender que Lovecraft era um homem de seu tempo e que isso seria natural (mas uma lida em textos como o poema On the Creation of Niggers basta para vermos que não é bem assim) – o que é preciso mesmo é entender que o mundo mudou, e embora se possa gostar do mito de Chtulhu, não se pode subscrever às crenças de seu criador.

Agora, mudando de pato para ganso (metamorfose que em weird fiction é normal e perfeitamente aceitável), façamos um rápido pit-stop aqui e observar algo que é evidente mas que nem sempre é lembrado quando se escreve um texto a respeito do weird: os anglo-americanos não são os detentores das histórias de fantasmas e congêneres que caracterizam esse subgênero. Entre os hoje aceitos como autores desse tipo de narrativa estão o japonês Ryonosuke Akutagawa (autor de Rashomon, imortalizado no cinema por Akira Kurosawa) e Jorge Luis Borges (que na verdade é inclassificável, e talvez por isso mesmo – e por ser assumidamente fã de Lovecraft, a quem inclusive dedicou um de seus contos, There Are More Things – entra na lista).

Mas alguns brasileiros também se encaixam muito bem no gênero. Joaquim Manuel de Macedo, com A Luneta Mágica, por exemplo, Machado de Assis (sim, Machado, com histórias como Uma Visita de Alcibíades, ainda que com um humor que não é costumeiro das narrativas weird) e João do Rio, com o assustador O Bebê de Tarlatana Rosa, são apenas alguns dos autores. E entre 1947 e 1958 o radialista Almirante, em seu programa Incrível, Fantástico, Extraordinário, apresentou algumas das mais apavorantes narrativas macabras à brasileira, envolvendo ameaças de mortos, cirurgias espirituais, e até blocos carnavalescos com baterias de desencarnados! Em termos de estranheza e bizarrice o Brasil nunca deveu nada a ninguém.

A Weird Fiction nunca deixou de fazer sucesso, nem aqui nem no exterior, onde poucos anos atrás ela ressurgiu sob outro formato, mais turbinado e com autores mais em sintonia com nosso tempo e nossa realidade, ganhando inclusive outro rótulo: New Weird. Mas isso é assunto para a próxima coluna.

***

***

Fábio Fernandes é escritor e tradutor. Está atualmente traduzindo A cidade & a cidade, de China Miéville, previsto para ser lançado pela Boitempo em novembro de 2014. Colabora com o Blog da Boitempo, mensalmente, às sextas.

4 comentários em Weird Fiction: essa força estranha (parte I)

  1. Bom texto. Parabéns.

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  2. Com todo respeito ao teu texto, que é muito bom! Parabéns! Mas fiquei triste por saber da troca da premiação. Amo Octavia Butler. Quando eu era criança não me sentia representado pelos heróis dos livros. Eram todos brancos, loiros do olho azul, e nos negros eramos representados apenas como coadjuvantes, isso quando não éramos os vilões. Octavia finalmente nos colocou no papel principal, e de uma forma soberba, e foi muito além disso. E Lovecraft era meu herói, mas me deixou muito decepcionado qdo li o poema. Mas a troca de Lovecraft por Octavia, pela razão apresentada, me pareceu voltar em épocas q determinados autores e livros eram cerceados pela igreja e governos, etc. Não o defendo por achar q seu pensamento era natural e era coisa de uma época, pois não era. P quem lia tanto como ele o preconceito não se justifica. Mas achei injusto analisar um autor tão complexo apenas por uma dimensão.
    Mesmo assim obrigado pelo espaço, acompanho sempre seus textos!!

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  3. Fabio Fernandes // 09/02/2015 às 23:23 // Responder

    Salve, André! Obrigado pelos elogios. Mas me apresso a acrescentar uma coisa aqui: a petição não implicou em troca imediata. Tanto que isso acabou não acontecendo. Portanto, o busto de Lovecraft permanece – assim como as discussões que giram em torno justamente do que você muito bem comentou. Abraço!

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