Um cangaceiro contra a ditadura militar

14.10.30_Pericás_O cangaceiroPor Luiz Bernardo Pericás.

Durante os anos de chumbo, vários artistas alçaram a voz contra a ditadura militar, através de livros, canções, peças de teatro e filmes. No cinema, talvez o exemplo mais inusitado desta vertente seja O’ cangaceiro (isso mesmo, com apóstrofe), de Giovanni Fago, um “faroeste italiano” ambientado na Bahia! Lançada em dezembro de 1969, essa co-produção ítalo-espanhola passou despercebida por muitos amantes da sétima arte. E mesmo pelos apreciadores dos Spaghetti Westerns. Ainda que relativamente pouco conhecida, a fita, contudo, é um caso clássico de crítica contundente ao poder autoritário dos generais e ao imperialismo.

Fago, o diretor da película, começou sua carreira como assistente de lendas como Mario Monicelli, Vittorio De Sica, Renato Castellani e Lucio Fulci e a partir de 1967, se tornou regente de “bangue-bangues” como Per 100. 000 dollari ti amazzo e Uno di più all’inferno. E, é claro, de O’ cangaceiro. Em vez do norte do México ou do “Velho Oeste” dos Estados Unidos, a obra tem como cenário o sertão nordestino. E no lugar de revolucionários, caubóis e caçadores de recompensas, os personagens tradicionais do hinterland brasileiro: padres, beatos e coronéis.

Para o papel principal foi chamado o ator cubano-americano Tomas Milian. Em 1958, ele se mudou para a Itália, onde participou de filmes de Mauro Bolognini e Luchino Visconti. Seu primeiro western foi The Bounty Killer (1966), de Eugenio Martín. Também estrelou, dentro do gênero, trabalhos de Sergio Solima e o clássico Vamos a matar, compañeros (1970), de Sergio Corbucci, ocasião em que contracenou com Franco Nero, Jack Palance e Eduardo Fajardo. Ao longo da carreira, Milian ainda participaria de filmes de Franco Brusati, Dennis Hopper, Michelangelo Antonioni, Tony Scott, Oliver Stone, John Frankenheimer, Steven Spielberg, Steven Soderbergh, Andy Garcia e Bernardo Bertolucci. Em O’ cangaceiro, ele teria um desempenho memorável.

É fácil perceber os ecos de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, e de O cangaceiro, de Lima Barreto, ao longo da narrativa. Vale destacar aqui a fotografia magnífica e original de Alessandro Ulloa, a música de Riz Ortolani e a montagem de Eugenio Alabiso.

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O filme começa com um ataque de tropas comandadas pelo coronel Minas (Leo Anchóriz) contra o cangaceiro Firmino e seu grupo, num vilarejo baiano. O oficial garante a integridade dos cidadãos caso o bandoleiro se entregue. Mas mente. Os soldados massacram, sem piedade, todos os bandidos e chacinam a população local, por esta ter supostamente ajudado os facínoras. O jovem Expedito, o protagonista da história, será ferido na ocasião. Além disso, seu pai (que durante o tiroteio apenas olhava, resignado, para uma gaiola, onde um passarinho preso simbolizava a vida limitada e sem possibilidades de mudança do homem do campo; por sinal, todos os moradores tinham cáveas com aves enclausuradas), é assassinado, e sua vaca (o sustento do sertanejo), também eliminada a bala. O ato violento mostra claramente que o “povo” aparentemente não tem como escapar deste mundo “oficial” de injustiça e opressão. Não se pode confiar no Estado. Ele acabará com tudo que estiver à sua frente; os homens, portanto, são “dispensáveis”…

Expedito, entretanto, vivenciará uma mudança brusca e radical em seu destino. Tratado com ervas medicinais pelo eremita Julian, um “homem santo”, ele se restabelece em pouco tempo. O beato, em seu discurso de fanático religioso, diz que Jesus era forte e levava um chicote nas mãos, para expulsar os mercadores do templo; ao mesmo, porém, era bondoso e ajudava os pobres. Também afirma ao interlocutor em recuperação que havia estado pessoalmente com Deus, o qual lhe ordenara anunciar ao mundo que a “Justiça” prevaleceria. Estranhamente, segundo ele, Nosso Senhor se parecia muito com… Expedito! “Virá um homem que se parecerá comigo, e tu o enviarás para lutar pela Justiça e o chamarás de Redentor”, completa o velho barbudo.

Há, a partir daí, uma conversão radical. Expedito se torna um andarilho (supostamente enviado pelos Céus) que tentará convencer o povo miserável de uma vila de choças a segui-lo. Naquele momento, porém, é confrontado por “Diabo negro”, um criminoso que procura arregimentá-lo para seu bando. O “redentor” não aceita: afinal, “ele” é o escolhido, o “rei dos cangaceiros”, aquele que levará consigo a cruz e o facão. “Um machete é mais longo que a mão, mas um fuzil é mais longo que um machete”, pontifica o bandoleiro afrodescendente, que acaba permitindo que o rapaz siga seu caminho (algo de que se arrependerá no futuro). Depois disso, o jovem joga longe o objeto do cristianismo que levava como um cajado. Sua decisão está tomada…

O próximo passo de Expedito é se dirigir a um forte na capital (uma mistura de quartel e prisão), onde ocorreria uma grande festa popular organizada pelo coronel Minas em homenagem ao bispo Pedreira Souza. O aprendiz de cangaceiro chega ao local sentado num carrinho de rolamentos, se fingindo de mendigo paralítico. Sua atitude insultuosa, porém, incomoda o oficial, que manda prendê-lo. “Fascista!” , grita Expedito. Por certo, um sertanejo pobre, inculto e isolado do mundo nunca proferiria essa palavra e sequer saberia de sua existência ou significado. Na verdade, esse é o grito de toda a oposição progressista contra os militares no poder no Brasil, desde 1964. O termo forte, é claro, foi colocado propositadamente na boca daquele personagem, um homem simples e explorado… Desprezando o suposto deficiente, os soldados o empurram numa rampa que o leva direto a uma cela repleta de detentos: é sua visita simbólica ao inferno. A disposição física dos desanimados inmates, por sinal, é interessantíssima e remete à cenografia do teatro experimental.

Os prisioneiros ganharão uma injeção de ânimo deste elemento externo (talvez a “vanguarda” armada) e se tornarão seus discípulos (um deles, por sinal, tem o nome de Pedro). Enquanto isso, o bispo, com toda sua pompa e riqueza, dá o tom de artificialidade e poder, participando das celebrações para benzer os canhões do quartel! Durante toda a história, o que se vê é uma constante aproximação e aliança entre o Estado, a Igreja, os coronéis e o exército. Expedito, neste ínterim, lidera uma fuga coletiva, explode os armamentos (matando, nesse processo, Minas e o representante da Santa Sé) e começa sua trajetória como bandoleiro.

Em pé, no meio de um cemitério, cercado por seus asseclas (seus “apóstolos”, sentados ou deitados no chão, próximos às lápides e cruzes), Expedito, com cartucheiras cruzando o peito, confirmará sua metamorfose: “o redentor veio libertar o povo dos grilhões… o país tem fome de Justiça e os oprimidos clamam por sua liberdade… benditos… aqueles que sabem manejar armas!” Um dos homens ainda tenta fugir, quer abandonar o grupo. Mas é alvejado pelo cangaceiro. Agora, não se pode mais dar às costas à luta popular: quem está nela, terá de permanecer… ou será eliminado. A responsabilidade histórica está colocada. “Lutaremos pela Justiça e pela vingança”. É a exortação à guerrilha…

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O holandês Vincenzo Helfen (Ugo Pagliai) chega a um vilarejo e estaciona seu carro no meio da praça. A miserável cidadezinha, em peso, corre em direção ao veículo, uma novidade para todos de lá: o arcaico e o moderno se deparam, se defrontam. Em pouco tempo, o automóvel é totalmente depenado, mostrando a incompreensão (e ao mesmo tempo, fascínio) com o mundo contemporâneo, opulento e próspero, que nunca chegara tão longe, naqueles ermos. Nem a carcaça escapa… Do veículo, só restam os eixos e… um livro! A representação da cultura sofisticada não tem valor para aqueles trabalhadores rurais, imersos na ignorância e na pobreza…

O estrangeiro, enviado de uma companhia europeia, fora até ali em busca de petróleo. O objetivo é explorar (ou melhor, roubar) as riquezas do país e enviar todos os lucros para o exterior. Expedito, sem saber disso, contudo, adentra o lugarejo e se depara com o neerlandês. Agora, é um homem transformado. A maquiagem de Milian, neste momento, lembra vagamente aquela de Solomon “Beauregard” Bennet, o icônico personagem de Face a face, o filme de Sergio Solima no qual contracenara com Gian Maria Volonté. O “redentor” exige que Helfen leia o livro inteiro para ele, uma narrativa sobre o mar (tradicionalmente, a representação da utopia sertaneja, um lugar idílico e quase inatingível, onde ele poderá escapar e encontrar a felicidade). Ao final, porém, Expedito acha tudo uma bobagem. A história não lhe diz nada: sua escolha é o mundo real em seu entorno. E atuar nele, a partir de um viés messiânico. “Prefiro a vida do menino Jesus”, comenta.

Depois de liberado, Helfen terá uma reunião com o alto clero da Igreja, políticos e o governador Branco (interpretado por Eduardo Fajardo; o nome do personagem, por sinal, bastante sugestivo, especialmente se considerarmos que tratava-se de um poderoso membro da elite num estado majoritariamente negro), sobre as melhores formas de explorar o petróleo no “território de Água Branca até Palmeiras”. O holandês, talvez ingenuamente, acredita que as jazidas trarão benefícios e prosperidade à região, já que o povo terá trabalho, o dinheiro irá circular e será preciso construir estradas e outras obras de infraestrutura na área. Mas o governador é incisivo: “Temos de evacuar a população da zona, por bem ou por mal… Água Branca terá de ser borrada do mapa… As leis são muito úteis, nos permitem agir legalmente em nosso próprio interesse”. Afinal, como diria o novo bispo: “Existe o perigo de uma explosão do materialismo”. Em outras palavras, os trabalhadores poderiam se organizar em sindicatos ou em partidos (provavelmente, de caráter marxista) e enfrentar os poderosos; isso não deveria ser permitido.

Com o triunfo de Expedito sobre tropas do governo (enviadas para destruí-lo), dizimadas por seus sequazes, o redentor mostra que há possibilidade de vitória contra o Estado autoritário. Uma nova forma de neutralizar o bandido, assim, deve ser colocada em prática, para que os planos do governador e da multinacional não sejam obstaculizados. Helfen, o elemento-chave neste caso, tem uma ideia: tentará seduzir o bandoleiro, oferecendo inicialmente armas modernas. De acordo com o europeu, Branco admirava o “redentor” e estava disposto a dar uma festa em sua homenagem para selar o acordo. Fica nítida a tentativa de cooptação da liderança popular: se Expedito acabasse com os outros bandos de cangaceiros que atuavam na região, as autoridades lhe concederiam algumas demandas. “O simples fato de ter sido convidado já é uma grande vitória, depois de todo o mal que [Branco] nos fez, tanto a mim como à minha gente… e à minha vaca”, comentaria o fora da lei.

E então, Expedito e seus companheiros penetram na festa no Palácio do governo, retratada de maneira felliniana. Os convidados da elite local são caricaturas: ridículos, arrogantes e desconectados da realidade, vivem num mundo paralelo, cercados de serviçais, conversando sobre temas sem qualquer vínculo com a vida da população (a mulher do governador, por exemplo, fala sobre a primavera, muito úmida naquele ano). A incompatibilidade entre os interesses do “povo” e dos ricos é patente.

A função prossegue, e o hiato entre os bandoleiros e os “poderosos” só parece aumentar. Para o “redentor”, a sopa é horrível. “Água suja”, diria. A cena é quase uma homenagem subliminar à menina Mafalda, a personagem dos quadrinhos criada pelo argentino Quino. Vale lembrar que a garota detestava tomar sopa, o alimento insosso que representava a ditadura militar de seu país.

O acordo será confirmado: Branco concorda com as exigências de seu adversário, uma fazenda e o cancelamento do preço por sua cabeça, dando um salvo-conduto para que pudesse viver sem ser perseguido pelas autoridades. Enquanto as comemorações continuam, um dos brigands rouba o anel do bispo e os outros, dançam insanamente no meio dos endinheirados.

O próprio Expedito irá bailar com uma das criadas. A cultura popular mostra sua força; ela é a vitoriosa, penetrando no ambiente quase impermeável da burguesia e tomando conta do lugar.

A partir daí, o líder dos bandoleiros começará uma perseguição implacável às outras quadrilhas que atuavam no sertão. Sem se dar conta, estará fazendo o trabalho sujo que tanto queria o governador. Até se enfrentar com “Diabo negro”. A cena antológica do duelo nas dunas é talvez uma das mais interessantes e memoráveis dos Spaghetti Westerns e rivaliza com a de Três homens em conflito, de Sergio Leone, e a de Os violentos vão para o inferno, de Sergio Corbucci. Desta vez, porém, o embate insano é feito com machetes, enquanto ao fundo, não para de tocar um samba nervoso, fazendo com que as imagens ganhem uma dimensão de loucura. É quase um delírio glauberiano transformado em faroeste italiano. Como se pode imaginar, o “redentor” mata o seu adversário. E então irá se comportar como uma autoridade, dando presentes ao populacho (objetos roubados), chegando a convidar padres a visitar a fazenda que ganhara e que dera o nome de “Paraíso terrestre”, onde acreditava poder construir uma sociedade mais justa.

Enquanto isso, os estrangeiros começam a retirar o petróleo. O capitalismo não se importaria com os arroubos de Expedito, e poderia conviver com ele, desde que não interferisse em suas atividades e em seus lucros.

“Os poços são nossos, os brasileiros não custaram muito”, diz um dos funcionários da empresa europeia. Ainda assim, comenta em tom de desabafo e desprezo, que “a mão de obra barata produz escasso rendimento”.

Helfen, indignado, retruca:

“O povo não tem o que comer!”

“É verdade. Mas o obrigaremos a comer para incrementar a produção!”

“Eles se recusarão. Sabem que não durarão para sempre. É melhor não se acostumarem…”

O jogo das enganações se opera ao longo de toda a fita. As autoridades enganam o povo, enquanto os estrangeiros enganam o governo e a Igreja. Até Expedito, que combate todos eles, acaba enganado por Branco, por Helfen e quem sabe, até mesmo, pelo eremita Julian.

Branco ainda chega a contratar Frank Binaccio e seu grupo de gângsteres americanos para acabar de vez com o “redentor”. São os imperialistas, aliados do poder instituído, vendilhão da pátria, os parceiros do Estado autoritário na luta contra os mais pobres. Avisado por Helfen (agora arrependido de tudo que fizera), contudo, Expedito elimina os criminosos ianques e ao final, assassina o governador. É a vingança do “guerrilheiro”. E também, simbolicamente, do Terceiro Mundo contra os interesses coloniais.

Mas a partir daí, não se sabe qual será o destino e a função daqueles combatentes. “Começo a achar que não sou o redentor”, confessa Expedito. O próprio Fago parece não saber se o caminho das armas é viável. Fica a dúvida naquele momento. O cangaceiro e seus homens apenas partem, juntos, sem objetivo definido, para um destino incerto. Temos aqui um belo filme, em grande medida, subvalorizado e esquecido pelo grande público. Ainda assim, mesmo com possíveis falhas, imprecisões históricas e certo grau de ingenuidade, esta é uma fita com muitas qualidades, que deve ser resgatada. E vista por todos aqueles que apreciam este gênero do cinema.

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Recomendamos a leitura do aclamado Os cangaceiros – ensaio de interpretação histórica, de Luiz Bernardo Pericás, uma análise cultural, política e sócio-histórica da figura mítica do cangaceiro, referência obrigatória para o estudo banditismo rural nordestino e seus desdobramentos na atualidade.

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Chega às livrarias este mês a coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizada por Luiz Bernardo Pericás e Lincoln Secco! 27 ensaios sobre Antonio Candido, Caio Prado Júnior, Celso Furtado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque, Paulo Freire, Milton Santos, Astrojildo Pereira, Câmara Cascudo, Jacob Gorender, Ruy Mauro Marini, Maurício Tragtenberg, entre outros pensadores críticos do Brasil.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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