Nem todo “escravo” tem a “mentalidade da Casa Grande”

valteremirmauroPor Valter Pomar.

Nunca foi fácil a vida da militância de esquerda que defende o Partido dos Trabalhadores.

Entretanto, ainda mais difícil anda a vida daquela militância de esquerda que é contra o PT.

Afinal, no atual ambiente político, esta “oposição de esquerda” corre o risco de ser vista, ou de converter-se objetivamente, ou pelo menos é acusada de ser linha auxiliar da oposição de direita.

A situação vem gerando polêmicas duras, como fica claro na leitura de Emir Sader (“Não é a Copa, imbecil, são as eleições”); no editorial do Brasil de Fato (dia 03 de junho, falando das “Eleições presidenciais e o papel do esquerdismo”); e na resposta de Mauro Iasi, intitulada “O escravo da casa grande e o desprezo pela esquerda” .

Não pretendo comentar aqui o texto do Emir Sader. A quem interessar, sugiro a leitura deste artigo.

Tampouco pretendo criticar aqui o editorial do Brasil de Fato, embora considere um equívoco o uso que dão ao termo “neodesenvolvimentismo”.

Vou me limitar ao texto do Mauro Iasi, que busca “identificar frações de classes e seus diversos interesses em torno do governo Dilma”, concluindo em 2014 o mesmo que já havia concluído em 2005, a saber: que o PT “assumiu posturas políticas que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores”, sendo “um setor da classe trabalhadora” que foi “capturado pela hegemonia burguesa”.

Noutras palavras: “o PT em seu projeto (e prática) de governo apresenta em nome da classe trabalhadora um projeto pequeno-burguês”, sendo que “na composição física do governo vemos setores de classes diretamente representados, como o caso dos interesses dos grandes monopólios (…) dos bancos (…), do agronegógio” etc.

O problema da análise de Mauro Iasi é não conseguir explicar por quais motivos o grande capital, setores médios, a direita, o oligopólio da mídia e os governos imperialistas estão tão irritados com o governo Dilma.

Mauro Iasi sabe que precisa explicar esta “irritação”. Tanto é que afirma o seguinte: “mesmo assim, dando tanto à burguesia monopolista e tão pouco aos trabalhadores, a burguesia sempre vai jogar com várias alternativas, e, na época das eleições, vai ameaçar, chantagear e negociar melhores condições para dar sua sustentação.”

Segundo este raciocínio, as candidaturas da oposição são “instrumento para ameaçar, chantagear e negociar melhores condições”.  Ficando implícito que a opção preferencial do “capital monopolista” é governar com o PT e através do PT.

Lamento, mas isto não é “análise concreta da situação concreta”, recordando muito a postura predominante no Partido Comunista frente ao segundo governo Vargas. Naquela ocasião, os comunistas foram incapazes de entender e toma posição adequada frente ao imenso ódio e oposição do imperialismo e da “burguesia realmente existente” contra um governo… burguês.

Iasi parece consciente de que sua análise não consegue dar conta de explicar este aspecto da realidade: por qual motivo um governo que aplica políticas “que se distanciam dos objetivos históricos dos trabalhadores” gera tamanho ódio por parte do grande empresariado e de parcela dos setores médios etc.

Mauro sugere que o problema estaria no foco de análise: trata-se de observar o “período histórico” e não apenas a “conjuntura da eleição”.

Ou seja: teríamos que evitar a “artimanha governista”, a “mágica” que faz desaparecer “o governo real” e no lugar dele coloca “um mito” que “resiste ao neoliberalismo contra as forças do mal igualmente mitificadas e descarnadas de sua corporalidade real. É o odioso ‘neoliberalismo’, que vai retroceder nos incríveis ganhos sociais alcançados e desestabilizar os governos progressistas na America Latina. Vejam, nos dizem, como são piores que nosso governo, precisamos derrotá-los para evitar o retrocesso e as privatizações. Mas uma vez derrotados eleitoralmente os adversários de direita… quem privatizou o Campo de Libra? Colocando exército para bater em manifestantes? Quem aprovou a lei das fundações público-privadas que abriu caminho para a privatização da saúde e outras? Quem aprovou a lei dos transgênicos, o código florestal e de mineração?”

Portanto, segundo Iasi a imensa bulha do grande empresariado contra o governo encabeçado pelo PT seria um fenômeno real, mas circunscrito ao período eleitoral, pois mesmo derrotado, entre uma eleição e outra o grande empresariado acabaria conseguindo aquilo que deseja.

Novamente, apelo por uma “análise concreta da situação concreta”: a postura amplamente majoritária no grande empresariado, de oposição ao governo Dilma, não é um fenômeno eleitoral. Começou antes, com destaque para o momento em que o governo tentou enfrentar os bancos. A esse respeito, aliás, recomendo a ótima entrevista do professor Adalberto Moreira Cardoso aqui.

Mauro Iasi comete o mesmo erro pelo qual critica o Brasil de Fato: circunscrever a “análise da situação concreta” a um aspecto da realidade. O PT rebaixou seu programa a um patamar “pequeno burguês”? Verdade. O governo é de aliança com setores do grande capital? Verdade. O governo aplica políticas de interesse do grande capital? Também é verdade. Mas o governo também aplica outras políticas e expressa outros setores sociais, o quê, nas condições concretas do Brasil e do mundo entre 2011-2014 entra em conflito com os interesses presentes e futuros do grande capital. O erro de Iasi consiste, no fundamental, em desconhecer ou minimizar este aspecto da realidade, este conflito de classe.

Não se trata de artimanha, de mágica, nem de um fenômeno eleitoral, mas de variáveis bastante “simples”, tais como o nível de emprego, a política de salários, a presença do Estado na economia, o nível de democracia e participação, a relação com os Brics e com a região latino-americana etc.

Algumas destas variáveis são tão visíveis, que Mauro Iasi tem que admitir a existência de “duas versões distintas disputando a direção do projeto burguês no Brasil. Um o capitalismo com mais mercado e menos Estado, outro o capitalismo com mais Estado para garantir a economia de mercado”.

De fato, esta disputa existe, e não é de hoje. Aliás, ao longo do século XX, o papel do Estado na economia foi uma variável muito importante da disputa entre duas vias de desenvolvimento capitalista, a conservadora (que predominou) e a democrática (que geralmente foi derrotada).

Claro que, tomada “em si”, a defesa de um forte papel do Estado não implica em ser de esquerda, nem mesmo em ser democrata. Mas, pergunto: nas condições concretas do período 1980-1989, 1990-2002 e 2003-2014, quais classes e frações de classe defenderam/defendem que o Estado tenha um papel mais ativo na economia e quais classes e frações de classe defenderam/defendem que o Estado tenha um papel menos ativo na economia? E como isto se relaciona com o conjunto dos interesses de cada classe e fração de classe existente no Brasil?

Se não respondermos a estas questões, apontando qual fração defende o que neste determinado momento, a conclusão será acaciana e tautológica: enquanto houver capitalismo, o Estado capitalista cumprirá um papel funcional ao desenvolvimento capitalista.

Ao invés de responder a esta e outras questões concretas, Mauro opta por algo que me parece uma conclusão “pré-fabricada”, que já estava pronta antes da análise começar e que independe desta análise, a saber: o “pacto social e de implementação de um social-liberalismo” estariam impedindo o “avanço da consciência de classe”.

Para facilitar o debate, admitamos que isto fosse verdade e respondamos o seguinte: a vitória do PSDB (ou do PSB) nas eleições de 2014 romperá este “pacto social” e interromperá a “implementação do social-liberalismo”? Em caso positivo, o que será colocado no lugar?

Se a resposta é que tudo vai continuar como antes, que o pacto social e o social-liberalismo continuarão, então a “mudança” consistiria “apenas” na derrota eleitoral do PT. Neste caso, pergunto: é então da derrota do PT que dependeria o “avanço da consciência de classe”? Se a resposta for sim, então é correto dizer que a “oposição de esquerda” é “aliada objetiva” da direita?

Vamos supor que a resposta seja outra: que uma vitória do PSDB (ou do PSB) provocará mudanças mais ou menos importantes. Neste caso, pergunto: as mudanças vão melhorar ou vão piorar a vida da classe trabalhadora? Supondo que piorem, então não caberia reavaliar a análise negativa feita acerca do governo Dilma? Além disto, não caberia explicar como a piora nas condições de vida da classe trabalhadora contribuiria para o “avanço da consciência de classe”?

Quem se der ao trabalho de fazer os “exercícios lógicos” acima deveria concluir o seguinte: quem deseja romper a aliança com o grande capital, quem deseja implementar um programa mais avançado, quem deseja fazer avançar a consciência de classe, deve trabalhar pela vitória do PT nas eleições de 2014. Pois toda alternativa que implique na derrota do PT resultará em piores condições para a classe trabalhadora e para a esquerda brasileira.

Evidentemente, precisamos de uma vitória do PT em condições de fazer um segundo mandato superior. Pois segundo a análise que fazemos, esgotaram-se as condições objetivas que por breve período tornaram possível combinar presidência petista, aliança com o grande capital e políticas públicas moderadas, com avanços em termos de soberania, integração, democracia e condições de vida. A partir de agora, aconteça o que acontecer nas eleições, haverá uma disjuntiva cada vez mais acentuada. Não espero que o conjunto da oposição de esquerda perceba isto. Mas é nosso dever convencer alguns de seus integrantes e grandes parcelas de sua base social.

Um detalhe que me escapou [atualização, 18/06/2014]

Ao comentar o texto de Mauro Iasi, me escapou falar de um aspecto importante: sua descrição acerca do que ocorreu com a esquerda petista. Reproduzo integralmente:

“Para manter a ‘imagem’ do governo petista (Sader está preocupado com a imagem) é preciso uma operação perversa: atacar quem denuncia os limites desta experiência, não importando o quanto desqualificado e hipócrita seja o ataque, estigmatizando, despolitizando o debate. Primeiro foi necessário destruir a esquerda dentro do PT e sabemos os métodos que foram usados nesta guerra suja. Na verdade o que vemos agora contra a esquerda fora do PT é uma projeção do ataque vil e brutal que companheiros da esquerda petista sofreram e (aqueles que ainda resistem lá no PT) ainda sofrem (esquerdistas, isolados das massas, sem expressão eleitoral, irresponsáveis, etc.). E depois que conseguirem isolar, estigmatizar e satanizar a crítica de esquerda a essa experiência centrista e rebaixada de governo? Quando forem atacados pela direita que não guarda nada a não ser desprezo para com os escravos da casa grande?”

O que falta nesta descrição? Na minha opinião, três aspectos: o impacto da crise geral do socialismo e da ofensiva neoliberal; a pressão direta da burguesia; e as opções da chamada esquerda.

Aquilo que Mauro caracteriza como “destruição” da esquerda do PT não teria ocorrido sem os dois primeiros fatores, mais exatamente sem o impacto que causaram na classe trabalhadora brasileira.  E a “reconstrução” da esquerda, por sua vez, está vinculada a mudanças no ambiente geral da luta de classes, em âmbito internacional e nacional.

Já a extensão da “destruição” (e/ou o êxito da “reconstrução”) dependem em grande medida das opções ideológicas, programáticas, estratégicas, táticas e organizativas da própria esquerda.

Neste sentido, acho que os “métodos que foram usados nesta guerra” (métodos que Mauro chama de “sujos”) explicam muito menos do que em geral gostamos de admitir. Até porque falar dos “métodos sujos” dos outros é o tipo de discurso de quem perdeu ou de quem desistiu (tipo a “piada” dos republicanos derrotados afirmando que “nossas canções eram melhores” do que as dos franquistas).

Na minha opinião, quem continua na luta não deve “lamentar” a falta de modos (ou de gosto) do inimigo ou adversário. Devemos, é claro, denunciar toda “sujeira”. Mas o que vai decidir a luta não é um lamento, mas sim a adequada combinação entre circunstâncias objetivas, inspiração, transpiração.. e um pouco de sorte.

Deste ponto de vista, observando a trajetória da chamada esquerda petista desde 1993 até hoje, minha impressão é que podíamos ter feito muito mais e melhor para defender nossas posições.

Isto vale tanto para os que saíram do Partido, quanto para os que ficaram no Partido mas saíram da esquerda, quanto para aqueles que continuam defendendo as posições da esquerda petista (caso em que me incluo).

Existe um enorme espaço e uma enorme simpatia, dentro do PT e dentro de amplos setores da classe trabalhadora que confiam no PT, para a defesa das posições de esquerda.

Claro que neste momento há muito mais “espaço” (em governos, eleitoral, nas direções etc.) para quem sai da esquerda e se acomoda ao status quo interno.

Claro, também, que a primeira vista parece ser mais “simples”, mais “coerente”, defender certas posições fora do PT do que dentro dele.

Mas a “comodidade relativa” dos que saem da esquerda petista, seja para fora da esquerda, seja para fora do PT, não implica na solução dos problemas estratégicos postos para a classe trabalhadora.

Na minha opinião, ou conseguimos “girar à esquerda” o próprio Partido e o governo encabeçado pelo PT, ou a classe trabalhadora e o conjunto da esquerda brasileira – inclusive os setores que criticam e condenam o PT – sofreremos uma derrota de longa duração.

É por isto que, respeitando os que desistem do PT, eu não posso deixar de questionar a lógica política envolvida, em especial as ilusões dos que acreditam ser possível, ao mesmo tempo, derrotar o PT e a direita.

Ao menos no atual período histórico, não acredito em solução positiva para a classe trabalhadora brasileira que não envolva positivamente o PT. Contra o PT ou sem o PT, o desenlace será certamente negativo.

Claro que nada garante que com o PT tenhamos um desenlace positivo. Mas até onde consigo perceber, segue sendo melhor correr o risco do que não tentar.

***

Valter Pomar é historiador formado pela Universidade de São Paulo, doutor em História Econômica e gráfico formado pelo Senai. Foi secretário de Cultura, Esportes, Lazer e Turismo da Prefeitura de Campinas de 2001 a 2004. Foi secretário de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores e, desde 1997, integra a direção nacional do Partido. Pela Boitempo, publicou Socialismo ou barbárie: documentos da Articulação de Esquerda, uma coletânea de textos sobre o debate político da esquerda brasileira no fim do século XX, mas que ainda continuam pertinentes neste início de século XXI.

1 comentário em Nem todo “escravo” tem a “mentalidade da Casa Grande”

  1. Sim, todos os partidos de esquerda são sempre os melhores do mundo, desde que não haja nenhuma alternativa melhor. Isso no entanto não impede os sérios e os honestos de trabalharem para a emancipação dos trabalhadores, dando voz ao descontentamento, e evitando alianças castradoras.

    JJ

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