Guia de leitura | Resumo de O CAPITAL | ADC#30

A caixa de abril do Armas da crítica está mais do que especial!
Em Resumo de O capital, 32º volume da Coleção Marx-Engels, o leitor terá em mãos um guia que servirá para investigar a leitura de Engels da obra de Marx: quais suas ênfases e omissões? O que representa para ele o cerne do argumento do livro? A obra traz um conjunto de resenhas feitas por Engels logo após o lançamento do primeiro volume de O capital, além de um manuscrito que o resume, uma espécie de guia para entender a obra, publicado pela primeira vez em português.
autor Friedrich Engels
tradução Nélio Schneider e Leila Escorsim Netto (cartas)
apresentação Lincoln Secco
orelha Janaína de Faria
edição Pedro Davoglio
coordenação de produção Livia Campos
diagramação Antônio Kehl
capa Antonio Kehl, sobre ilustração de Cassio Loredano
páginas 144
Além do livro, os assinantes também recebem o último número da revista Margem Esquerda, com entrevista exclusiva e dossiê dedicado a Roberto Schwarz, nosso maior crítico literário em atividade, especial sobre conservadorismo neoliberal no Brasil de Bolsonaro, homenagem a Mike Davis, Godard e François Chesnais e muito mais…
Para acompanhar essa dupla de peso, o livreto “Sobre a leitura de Marx no Brasil”, de Roberto Schwarz, e um postal A5 com a ilustração de capa de Resumo de O capital.
autoras Maria Lygia Quartim de Moraes, Ana Paula Pacheco,Tiago Ferro, Felipe Catalani, Christian
Dunker, Michael Löwy, Eleni Varikas, Maíra Kubík Mano, Tales Ab’Sáber e muito mais…
edição Artur Renzo
edição de imagens Francisco Klinger Carvalho
edição de poesia Flávio Wolf de Aguiar
diagramação Antonio Kehl
capa Artur Renzo e Natasha Weissenborn
coordenação de produção Livia Campos
páginas 160


Quem foi Friedrich Engels?
Friedrich Engels nasceu em 28 de novembro de 1820, em Barmen, na atual Alemanha. Filho de um industrial do ramo têxtil, deixou os estudos para trabalhar na fábrica da família em Manchester, na Inglaterra, experiência fundamental para sua trajetória política e intelectual.
Conhecedor do capitalismo por dentro, Engels tornou-se um crítico da divisão de classes, da religião e da família. Revolucionário e teórico do socialismo, entre suas obras estão: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Anti-Dühring e Dialética da natureza.
Na década de 1840, Engels conheceu o amigo e parceiro intelectual Karl Marx, com quem fundou o marxismo e escreveu o Manifesto comunista, um dos textos políticos mais influentes da humanidade, A ideologia alemã, A sagrada família e tantos outros. Morreu em 1895 em razão de um câncer.
Resumo de O capital é o 32º livro da coleção Marx-Engels.
“Desde que há capitalistas e trabalhadores no mundo, não surgiu nenhum livro que tivesse tanta importância para os trabalhadores quanto este.“
FRIEDRICH ENGELS sobre O CAPITAL


O esforço de divulgação da obra máxima de Marx
Produzidos de 1867 a 1868, os escritos compilados no 32º volume da coleção Marx-Engels contêm, além de um resumo de O capital, resenhas do livro redigidas para jornais alemães dos mais variados espectros editoriais – predominantemente aqueles de circulação entre liberais e burgueses. O cuidado na elaboração de cada resenha demonstra a preocupação de Engels em despertar o interesse de diversos setores da sociedade alemã pela leitura da obra de Marx. Revela também a confiança na solidez das análises teóricas desenvolvidas pelo amigo: “não acreditamos que, entre todos os nossos economistas, haja um que seja capaz de refutá-las”, escreve Engels numa das resenhas que o leitor encontrará neste volume.
Estudiosos interessados na discussão contemporânea sobre a interpretação feita por Engels de O capital, em particular no que se refere às categorias de valor, dinheiro e capital, passam a contar com um material – até agora inédito em português – de enorme relevância para investigação e análise. As anotações de Engels podem ainda ser especialmente úteis, como texto de apoio, a iniciantes na árdua e imprescindível leitura de O capital.
Janaína de Faria
Professora Adjunta do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.
“Com este lançamento, a Boitempo reverbera os fundamentais esforços de Engels para a difusão da obra máxima de Marx, que desde sua publicação permanece incontornável para aqueles que buscam compreender as contradições inerentes ao modo de produção capitalista e, sobretudo, para orientar as ações dos que vislumbram superá-lo.“
JANAÍNA DE FARIA


O amigo mais dedicado
Engels não foi o único dos amigos de Marx a tentar quebrar a ‘conspiração de silêncio’ em torno de O capital, mas foi o mais dedicado. Utilizou-se de uma rede de velhos companheiros dele, de Jenny e de Marx e publicou uma série de artigos anônimos para a chamada ‘imprensa burguesa’ criticando O capital de um ponto de vista ‘burguês’.
A presente edição da Boitempo resgata esses artigos dispersos e sua publicação conjunta permite pela primeira vez à leitora e ao leitor sistematizar as estratégias editoriais de Engels, além de ter uma visão dos limites que a imprensa impunha e impõe à forma da escrita, à radicalidade das opiniões e ao aprofundamento das ideias. E, mais ainda, este livro contribui para debater a polêmica sobre como Engels teria constituído o marxismo como um sistema teórico assimilável pelo movimento operário da época.
Lincoln Secco
Professor de História Contemporânea na USP.
“Por mais que hoje saibamos que O capital é uma obra monumental e inacabada, a edição de Engels não impediu que tantos revolucionários desenvolvessem a teoria do imperialismo, da troca desigual, da queda tendencial da taxa de lucro, do trabalho produtivo, das formações pré-capitalistas, da transição socialista, da assim chamada acumulação primitiva etc. Ao contrário: aquela edição, traduzida e difundida ainda hoje, é um documento da ‘efetividade histórica’ do pensamento de Marx.”
LINCOLN SECCO


Engels & Marx
Engels era muito menos nervoso, muito mais estável que Marx; tinha uma disposição mais brilhante, menos contorcida e mais harmoniosa. Física e intelectualmente, era mais elástico e resiliente. Frequentemente censurava Marx por permitir que seu temperamento o “tragasse”, por nunca relaxar e nunca estar satisfeito consigo mesmo.
Ambos eram igualmente capazes de resistência, tenacidade e persistência, e ambos possuíam grande amor ao trabalho e uma capacidade inesgotável para ele. Ao longo de suas vidas, entregaram-se sincera e desinteressadamente à sua tarefa, perseguindo-a com devoção fanática e uma rejeição indômita da vaidade pessoal. O tom das cartas que trocaram é estimulante, rápido, livre e fácil: ele reflete a modéstia que em ambos se combinava com uma crueldade selvagem contra si mesmos e contra os outros.
Gustav Mayer em Friedrich Engels: uma biografia (p.62)
“Eu só devo a você que isso tenha sido possível”
KARL MARX A FRIEDRICH ENGELS,
após terminar de corrigir as provas do Volume I de O Capital, em agosto de 1867.


Mercadoria e dinheiro
A dificuldade em relação à mercadoria reside no fato de ela, como todas as categorias do modo de produção capitalista, representar uma relação pessoal sob um invólucro objetal.
Os produtores relacionam seus diferentes trabalhos uns com os outros como trabalho humano universal na medida em que relacionam seus produtos um com o outro como mercadorias – sem essa mediação das coisas, eles não conseguem fazer isso. A relação entre as pessoas se manifesta, portanto, como relação entre as coisas.
As mercadorias só podem se relacionar entre si como valores e, portanto, como mercadorias, relacionando-se antagonicamente a alguma outra mercadoria como equivalente universal. Mas só a ação social pode fazer de determinada mercadoria um equivalente universal: dinheiro.
[RESUMO DE O CAPITAL, p.19]
“Marx prova, por meio de grande quantidade de citações, que a economia acadêmica não desconhece o fato de que o salário do trabalho é menor do que a totalidade do produto do trabalho. É de se esperar que seu livro proporcione a esses senhores a ocasião de nos oferecer maiores esclarecimentos sobre esse ponto deveras estranho.”
[Engels em resenha para a Gazeta Renana, 12 out. 1867]


A transformação do dinheiro em capital
Para transformar dinheiro em capital, o possuidor de dinheiro tem, portanto, de encontrar no mercado de mercadorias o trabalhador livre, e livre em dois sentidos: ser uma pessoa livre que dispõe de sua força de trabalho como sua mercadoria e, em contrapartida, ser alguém que não tem outra mercadoria para vender, livre e solto, carecendo absolutamente de todas as coisas necessárias à realização de sua força de trabalho.
De passagem seja dito que a relação entre possuidor de dinheiro e possuidor de força de trabalho não é uma relação natural nem uma relação social comum a todas as épocas, mas uma relação histórica, produto de muitas revoluções econômicas. Assim sendo, as categorias econômicas analisadas até aqui têm um cunho histórico.
[…] A massa dos produtos só pode assumir a forma de mercadoria no interior de um modo de produção bem determinado, o capitalista, embora a produção de mercadorias e a circulação já possam ter lugar onde a massa de produtos jamais se torna mercadoria.
[RESUMO DE O CAPITAL, p.32]
“O limite mínimo do valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência fisicamente indispensáveis. Quando se reduz a esse mínimo, o preço da força de trabalho cai abaixo do seu valor, já que este pressupõe a qualidade normal da força de trabalho, não a força de trabalho precarizada.“
[RESUMO DE O CAPITAL, p.33]


Produção do mais-valor absoluto
O processo de trabalho sobre a base capitalista possui duas peculiaridades: 1) o trabalhador trabalha sob o controle do capitalista; 2) o produto é propriedade do capitalista, dado que o processo de trabalho se limita a ser um processo entre duas coisas compradas pelo capitalista: entre a força de trabalho e os meios de produção.
Porém, o capitalista não quer que o valor de uso seja produzido por si só, mas como suporte do valor de troca e, especificamente, do mais-valor. O trabalho nessa condição – em que a mercadoria é unidade de valor de uso e de valor de troca – transforma-se em unidade de processo de produção e processo de valorização (p. 151 [p. 263]).
O tempo de trabalho no qual o trabalhador reproduz o valor de sua força de trabalho – em relações capitalistas ou outras – é trabalho necessário, ao passo que o trabalho que vai além disso, o trabalho que gera mais-valor
para o capitalista, é mais-trabalho. Mais-valor é mais-trabalho coagulado e o que difere nas distintas formações sociais é tão somente a forma de extraí-lo.
[RESUMO DE O CAPITAL, p.38]
“Os meios de produção se tornam meios de sucção de trabalho alheio. Não é mais o trabalhador que emprega os meios de produção, mas são os meios de produção que empregam o trabalhador.”
[RESUMO DE O CAPITAL, p.43]


A produção do mais-valor relativo
Em caso de uma jornada de trabalho dada, o mais-trabalho só pode ser aumentado pela redução do trabalho necessário, mas esta só se consegue – abstraindo-se de pressões para que o salário diminua abaixo do seu valor – mediante redução do valor [da força] do trabalho e, portanto, mediante redução do preço dos meios de subsistência necessários. Isso, por sua vez, só se consegue mediante aumento da força produtiva do trabalho, mediante uma revolução no próprio modo de produção (p. 291-3 [p. 387-90]).
O mais-valor produzido pelo prolongamento da jornada de trabalho é mais-valor absoluto; o mais-valor produzido pela redução do tempo de trabalho necessário é mais-valor relativo (p. 295 [p. 287]). O valor das mercadorias é inversamente proporcional à força produtiva do trabalho, e o mesmo vale para o valor da força de trabalho, por ser determinado pelos valores das mercadorias. O mais-valor relativo, ao contrário, é diretamente proporcional à força produtiva do trabalho. (p. 299 [p. 393]).
[RESUMO DE O CAPITAL, p.45]
“O capitalista compra 100 forças de trabalho individuais e recebe uma força de trabalho combinada de 100. Ele não paga a força de trabalho combinada de 100. Quando ingressam no processo combinado de trabalho, os trabalhadores já deixaram de pertencer a si mesmos; eles já foram incorporados ao capital. Desse modo, a força produtiva social do trabalho se manifesta como força produtiva imanente do capital.“
[RESUMO DE O CAPITAL, p.48]


As resenhas de O capital
“Independentemente do que pense o leitor das concepções socialistas do autor do livro, acreditamos ter mostrado a ele, nas linhas precedentes, que, nesse caso, está diante de um escrito muito superior à literatura social-democrata corrente. Acrescentamos que, com exceção das questões densamente dialéticas das primeiras quarenta páginas, o livro é de fácil compreensão, a despeito de todo o seu rigor científico, e foi redigido de maneira a despertar o interesse pelo estilo literário sarcástico, que não poupa ninguém.” – Gazeta Renana (1867)
“Cinquenta folhas de impressão contendo um tratado erudito para provar que todo o capital dos nossos banqueiros, comerciantes, fabricantes e grandes proprietários de terras nada mais é que trabalho acumulado e não pago da classe trabalhadora!” – Gazeta de Elberfeld (1867)
“Esse livro desapontará deveras alguns leitores. Há anos um grupo muito específico tem-se referido à sua publicação. Nele finalmente seria revelada a doutrina secreta e a panaceia do socialismo, e há quem tenha imaginado, quando afinal o viu anunciado, que ficaria sabendo como será o reino milenar comunista. Quem se preparou para tal diversão errou feio.” – Gazeta de Düsseldorf (1867)

Leituras complementares
Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!
Este mês trazemos uma seleção de três textos de apoio: um discurso do próprio Engels em razão da morte de seu companheiro intelectual e dois capítulos de obras de fôlego: o primeiro, da biografia do próprio Engels, escrita por Gustav Mayer, que retrata a amizade com Marx; o segundo, da biografia de Karl Marx, escrita por José Paulo Netto, que destrincha os anos de escrita de O capital.
Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!
Friedrich Engels
Esboço do discurso a ser lido diante do túmulo de Karl Marx
Gustav Mayer
Amizade com Marx
José Paulo Netto
Londres: O capital

Vídeos
Este mês trazemos o lançamento antecipado de Resumo de O capital, com Janaína de Faria, Lincoln Secco e Natan Oliveira (mediação), um vídeo de Jorge Grespan analisando a gênese e a estrutura de O capital e um curso completo em cinco aulas da obra magna de Marx com Eleutério Prado, Leda Paulani, Marcelo Carcanholo e Jorge Grespan.

Para aprofundar…
Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Friedrich Engels: uma biografia, de Gustav Mayer
Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora, organização de José Paulo Netto
A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels
A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels
Dialética da natureza, de Friedrich Engels
A sagrada família, de Friedrich Engels e Karl Marx
Anti-Dühring, de Friedrich Engels
Sobre a questão da moradia, de Friedrich Engels
Manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels
A ideologia alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels
O socialismo jurídico, de Friedrich Engels e Karl Kautsky
Esboço para uma crítica da economia política e outros textos de juventude, de Friedrich Engels

Rádio Boitempo: Megafone #6: Deivison Faustino lê “O capital”, de Karl Marx, nov. 2022.
Rádio Boitempo: Megafone #3: Leda Paulani lê “O Capital”, de Karl Marx, ago. 2022.
Revolushow: Curso Livre Marx & Engels 01 – O Pensamento de Engels, com José Paulo Netto, jan. 2021.
Revolushow: Curso Livre Marx & Engels 05 – A Criação do Marxismo, com Virgínia Fontes, fev. 2021.
Armas da Crítica: CB #07 – A crítica da economia política em Marx, com Jorge Grespan, abril 2019.
Kanal Marx: Episódio 02 – O método dialético, com Diogo Orsi e Ana Paula Salviatti, mar. 2019.
Kanal Marx: Episódio 03 – Prefácios, com Diogo Orsi e Ana Paula Salviatti, mar. 2019.
Kanal Marx: Episódio 04 – A mercadoria, com Diogo Orsi e Ana Paula Salviatti, mar. 2019.

Tudo sobre Engels, com Alysson Mascaro, José Paulo Netto, Ricardo Antunes e Marília Moschkovich, TV Boitempo, 2022.
A criação do marxismo, com Virgínia Fontes, TV Boitempo, 2020.
Debate – 200 anos de Engels, com Maria Lygia Quartim de Moraes, Sabrina Fernandes e Osvaldo Coggiola, TV Boitempo, 2020.
200 anos de Friedrich Engels, com José Paulo Netto, Tutaméia TV, 2020.
Marx/Engels e Lênin diante da revolução, com Tariq Ali,TV Boitempo, 2018.
Os manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels, com Michael Heinrich, TV Boitempo, 2018.
O projeto Marx-Engels da Boitempo, com José Paulo Netto, TV Boitempo, 2016.
Engels e os estudos feministas, com Maria Lygia Quartim de Moraes, TV Boitempo, 2019.

“Engels e o esforço de divulgação da obra máxima de Marx“, Blog da Boitempo, abril 2023.
“Quando Marx traduziu O capital para o francês“, por Marcello Musto, Blog da Boitempo, set. 2022.
“Friedrich Engels: uma ode à beleza e à práxis revolucionária”, por Roberta Traspadini, Blog da Boitempo, abril 2021.
“Ciência e dialética materialista na obra de Engels“, por Laura Luedy, Blog da Boitempo, dez. 2020.
“O retorno de Engels“, por John Bellamy Foster, Jacobin, nov. 2020.
“Friedrich Engels foi mais do que um segundo violino para Karl Marx“, por Marcello Musto, Jacobin, nov. 2020.
“Sem Engels não haveria Marxismo“, TraduAgindo, ago. 2020.
“Karl Marx e a crítica da economia política“, por Friedrich Engels, Lavra Palavra, 2018.
A edição de conteúdo deste guia é de Isabella Meucci e as artes são de Victoria Lobo.


Você precisa fazer login para comentar.