Guia de leitura | Marxismo e judaísmo | ADC#53

Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil
Arlene Clemesha

Guia de leitura / Armas da crítica #53

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Quem é Arlene Clemesha?

Historiadora e professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo, onde fundou e dirige o Centro de Estudos Palestinos (CEPal), é mestre e doutora em história econômica pela mesma instituição.

Foi pesquisadora visitante na University of Michigan at Ann Arbor (2001) e representante da sociedade civil brasileira na Rede de Coordenação Internacional da ONU pela Palestina entre 2005 e 2015.

“Resta para o marxismo de hoje não apenas criticar as soluções do passado, mas tomar consciência da constante mudança de seu objeto histórico, ou seja, da necessidade da recriação permanente do próprio marxismo, tanto quanto cabe ao judaísmo reconhecer no marxismo a teoria social que mais séria, sistemática e consequentemente ocupou-se das condições da sua emancipação, como parte da emancipação humana em geral.”

ARLENE CLEMESHA

Pelos labirintos da relação entre judaísmo e marxismo

De Karl Marx a Daniel Bensaïd, passando por Rosa Luxemburgo, Leon Trótski, Walter Benjamin, Isaac Deutscher e tantos outros, o encontro entre o marxismo e os judeus foi uma poderosa fonte de insights luminosos e ideias críticas. Esse encontro transcendia o judaísmo ao questionar religiões e ortodoxias, mas carregava a memória de uma minoria perseguida.

Os marxistas judeus foram outsiders heréticos e revolucionários cosmopolitas que se rebelaram contra velhos obscurantismos e novos nacionalismos. Neste brilhante ensaio, Arlene Clemesha nos guia pelos labirintos dessa fascinante história política e intelectual.

Enzo Traverso

Professor de história na Universidade Cornell, em Nova York. Autor, entre outros livros, de Melancolia de Esquerda: Marxismo, História e Memória (Âyiné, 2018).

“Um livro extraordinário que rastreia as maneiras pelas quais os marxistas se mobilizaram para compreender e resolver a questão judaica.

Com um foco nos socialistas europeus e russos do final do século XIX e início do XX, a obra conta uma história em perspectiva global que permanece relevante para a nossa compreensão de acontecimentos contemporâneos.”

RAN GREENSTEIN

Professor associado na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, e autor de Zionism and its Discontents: A Century of Radical Dissent in Israel/Palestine (Pluto, 2014).

Recontar a história de uma relação complicada

Como sugere o título deste livro, a abordagem da questão judaica pelo marxismo não tem sido fácil. Ao lado de um acervo de estudos esclarecedores, sem dúvida valiosos, o marxismo também registra não poucas derrapagens, quando teóricos e pesquisadores, adeptos do seu método, pretenderam explicar o que foram e são os judeus, as causas do antissemitismo e as propostas socialistas para a questão judaica.

A obra de Arlene Elizabeth Clemesha oferece ao público brasileiro uma excursão notavelmente interessante pelos meandros sinuosos do tema. O texto, enxuto e acessível, se distingue pela erudição e pelo recurso frequente às fontes originais (exceto as de língua iídiche), incluindo bibliografia atualizada e de grande riqueza.

A história da União Soviética demonstra ou, ao menos, sugere que o socialismo não constitui solução automática para a questão judaica. A ditadura do proletariado não implica necessariamente a extinção da ideologia antissemita. Preconceitos milenares não se dissolvem apenas com a mudança do regime. A adoção de soluções corretas, do ponto de vista dos próprios princípios marxistas, exige conhecimentos factuais e elaboração teórica profunda, nem sempre disponível.

Apesar de se dedicarem com empenho ao estudo da questão judaica, os marxistas foram surpreendidos por dois acontecimentos interligados e para eles imprevistos: o Holocausto e a criação do Estado de Israel.

Jacob Gorender

Um dos mais importantes historiadores marxistas brasileiros, Assina a apresentação da edição da Boitempo de O capital.

“Os marxistas sempre se opuseram ao sionismo e, até a Segunda Guerra Mundial, coincidiam com o sentimento da maioria dos judeus em todo o mundo. Os marxistas viam no sionismo uma ideologia nacionalista burguesa, consideravam inadmissível a ambição de criar um Estado judeu em território já secularmente habitado por uma população árabe e julgavam toda a proposta sionista como uma utopia por definição inviável.”

JACOB GORENDER

Prefácio à segunda edição

A segunda edição deste livro chega ao público em um momento de extrema gravidade para o povo palestino, para Israel no Oriente Médio e para o judaísmo mundial, submetido a uma crise de consciência sem precedentes na era contemporânea. 

Como bem disse Edgard Morin, em O mundo moderno e a questão judaicaa relação israelo-palestina é muito simples, há um opressor e um oprimido. Mas ela é também extremamente complexa na medida em que o sionismo projeta no futuro o medo do passado.

Inseridos na cultura do medo, esses judeus sionistas protegem o Estado de Israel de críticas, na maioria das vezes bastante objetivas e racionais, como se protegessem seu próprio direito à existência enquanto pessoa judia em qualquer país do mundo.

“O que faz este livro, em contrapartida, é resgatar a história que a vitória do movimento sionista buscou ocultar, quando, em meados da década de 1950, tentou ressignificar o sionismo como a realização da luta histórica do povo judeu, relegando outras correntes e outros movimentos, de fato majoritários até o entreguerras, a meras notas de rodapé da história judaica.”

ARLENE CLEMESHA

Para além da polêmica ideológica

A questão teórica e histórica levantada pelas relações entre marxismo e judaísmo coloca um problema decisivo para o materialismo histórico: aquele da relação entre a “crítica da religião”, considerada por Marx como o primeiro estágio de toda crítica, e a “crítica da nação”, considerada pelo socialismo marxista como o objetivo histórico do movimento operário.

O dilema começa quando se pretende dar uma resposta materialista à questão: O que é o judaísmo? Uma religião? Um povo? Uma nação?

O socialismo, e o socialismo marxista como a corrente mais influente dentro do movimento socialista, não deu uma resposta definitiva a essa pergunta. E sequer pode-se falar de “uma” resposta marxista, pois as respostas marxistas variam de período em período histórico, acompanhando as vicissitudes dramáticas da história dos judeus nos séculos XIX, XX e agora, XXI.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 19]


Desarmando as armadilhas

Acreditarmos ter conseguido, neste trabalho, evitar as duas armadilhas sempre presentes para todo estudo acerca das relações entre socialismo e judaísmo:

1) a de considerar o movimento operário e socialista judeu mais como parte da “história do judaísmo” do que como parte da história geral do movimento operário e socialista

2) a de considerar a origem judaica de grande parte dos dirigentes do movimento revolucionário e socialista, sobretudo na Revolução de Outubro, como um detalhe anedótico ou sem relevância histórica (uma “nota de rodapé”, como nos disse Michael Löwy).

Somente uma abordagem que evite tais armadilhas é pertinente se quisermos analisar realmente, do ponto de vista histórico, as relações entre marxismo e judaísmo.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 25]


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Conspiracionismo e mistificações

Na controversa relação entre o marxismo e o judaísmo, chama-nos a atenção a existência, de um lado, do mito do “socialismo judeu”, no qual o marxismo e todo o movimento operário aparecem como uma grande conspiração dos judeus contra a ordem estabelecida, e, de outro, a acusação de que Marx foi antissemita.

O mito do “socialismo judeu” surgiu a partir da constatação da significativa adesão de judeus ao movimento revolucionário do final do século XIX e primeira metade do século XX, consequência de sua situação particularmente crítica e da conscientização da impossibilidade de resolução de seus problemas por vias reformistas.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 27]

Engels ressaltou a importância da combatividade e da grande adesão dos judeus ao movimento operário, em vista do perigo de que o antissemitismo chegasse a se tornar ‘um dos temas prediletos da direita europeia’.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 27]

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Sobre a questão judaica e o suposto antissemitismo de Marx

Já a acusação de que Marx, ele próprio de origem judia, foi antissemita, como afirma Maximilien Rubel entre outros, e inclusive antimarxista ao escrever sobre o judaísmo, como defende Robert Misrahi, se deve, se não a uma leitura interesseira, certamente a uma total incompreensão do texto de Marx, “Sobre a questão judaica”.

Longe de constituir um lapso na trajetória intelectual de Marx, o texto marca o momento preciso do assentamento das bases do materialismo histórico através da total integração, pela primeira vez na obra de Marx, do homem na sociedade e da atividade humana na atividade social, ou seja, “a união interativa entre sujeito e objeto, entre o homem e o seu meio”.

O ponto de partida de toda a crítica de Marx a Bruno Bauer foi o fato de este não ter explorado a questão judaica naquilo que ela tinha de mais fértil; ou seja, de não tê-la transformado numa ampla crítica social. Pelo contrário, Bauer analisa o “problema judeu” pela ótica da religião judaica e sua relação com o cristianismo, e, por fim, a relação de ambas com o Estado cristão, reduzindo
o problema a uma questão puramente teológica
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[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 27 e 29]

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O Estado cristão agia, na visão de Bauer, de forma coerente e legítima, recusando aos judeus a igualdade de direitos com os cristãos […] na visão de Bauer, o judeu era o primeiro responsável por sua própria opressão na medida em que se mantinha fiel a uma religião que, no seus termos, favorecia e engendrava o “egoísmo”, a “usura” e a tendência dos judeus a se isolarem e se preocuparem apenas com os “seus problemas”, “ignorando a humanidade”. Portanto, a condição primeira da emancipação dos judeus era, segundo Bauer, o abandono da sua religião.

Bauer dirige a sua crítica não contra o Estado em geral mas contra o Estado cristão, e a questão política fundamental da relação do Estado moderno com a religião se resolveria automaticamente pela própria ausência de religião. Marx demonstra que Bauer “resolve” um problema (o da relação do Estado moderno com a religião) que sequer chega a levantar quando concebe a emancipação política como a própria emancipação humana.

Apontando as contradições da concepção de “emancipação” de Bauer, Marx estabelece a sua verdadeira natureza, o seu caráter progressivo, e os seus limites. A partir da emancipação política, a questão judaica perde definitivamente o seu caráter particular e se insere no problema da emancipação geral da humanidade.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 30-32]

Marx se posiciona radicalmente contra Bauer inclusive na medida em que a tese deste servia (por mais que o autor não o previsse) aos interesses do Estado prussiano, legitimando a sua atitude conservadora e reacionária contra os judeus

ARLENE CLEMESHA

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Judaísmo e a questão nacional

A Segunda Internacional foi fundada, em Paris (1889), com a participação de delegações de diversos países do mundo. Ela foi criada enquanto uma federação, sendo o direito de voto concedido às seções nacionais.

Karl Kautsky, de origem tcheca e militante do movimento socialista austro-húngaro antes de se tornar membro do Partido Social-Democrata alemão (SPD), foi um dos mais importantes teóricos marxistas da Segunda Internacional e aquele que liderou o debate sobre a questão nacional no seio da social-democracia de sua época.

Para Kautsky, a nação representava uma comunidade linguística-territorial criada pelo capitalismo e de caráter transitório. Seu destino seria dissolver-se. […] Os judeus, para Kautsky, carentes de território e de língua nacional, não apenas não constituíam uma nação como se encontravam em vias de assimilação.

Karl Kautsky via o proletariado judeu como uma “classe do futuro” ao mesmo tempo que condenava o sionismo e a própria religião judaica, descrita como um ressábio do passado medieval. Na qualidade de líder da Segunda Internacional, Kautsky tinha pleno conhecimento das potencialidades das organizações operárias judaicas da Rússia, que estavam sempre representadas nos congressos da Internacional, com delegações numerosas e informes que impressionavam o público por sua precisão e detalhe.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 46 e 74-76]

“Os escritos de Kautsky que condenam o sionismo datam desde 1897 (publicados na Neue Zeit) até 1914, com a publicação de Rasse und Judentum, em que encontramos a crítica ao sionismo em termos de sua realização prática. Enzo Traverso aponta que Kautsky foi o único teórico marxista de sua época a incluir entre os motivos para se opor ao sionismo a existência de uma nação árabe na Palestina

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 78]

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A divisão dos socialistas diante do Caso Dreyfus

Na França, o primeiro grande impulso para o deslanchar do antissemitismo veio da falência, no final do século XIX, do banco Unión Générale, atribuída às manobras dos Rothschild, uma família de banqueiros judeus de influência. Mas o grande golpe desferido sobre essa comunidade judaica assimilada e confiante nos princípios da Revolução Francesa veio com o Caso Dreyfus, em 1894.

O capitão do exército, Alfred Dreyfus, era o único judeu de seu setor quando, no verão de 1894, o serviço de inteligência francês descobriu que um de seus oficiais enviara um documento militar secreto (o bordereau) à Embaixada alemã em Paris. Num processo que contou com a falsificação de provas, violentos distúrbios antijudaicos em janeiro e fevereiro de 1898, e manifestações antissemitas e patriotas por parte da imprensa, Dreyfus foi por duas vezes julgado “culpado”.

Mas o impacto maior sobre a opinião pública viria apenas em janeiro de 1898 quando Émile Zola publica “J’accuse!” [Eu acuso!], uma carta aberta ao presidente da República, no jornal L’Aurore, de Georges Clemenceau. Foram feitas 200 mil cópias do artigo, denunciando a armação maliciosa contra Dreyfus (e levando Zola ao exílio).

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 50-51]

“Os socialistas, por diferentes motivos, demorariam para assumir uma posição frente ao Caso Dreyfus. […] Segundo Enzo Traverso, Kautsky teria de fato atribuído a Jean Jaurès o mérito de ‘salvar a honra do socialismo francês’, que não podia permanecer numa posição de neutralidade diante das falsas acusações contra Dreyfus.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 56 e 58]

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Combater o antissemitismo da própria esquerda

Segundo a visão de diversos autores, a esquerda demorou em perceber o alcance político do antissemitismo, e isso só ocorreu de fato quando o antissemitismo se voltou contra ela, a esquerda.

Foi em 1893 – logo após as eleições que garantiram a presença de antissemitas no Reichstag da Alemanha – que surgiu o posicionamento mais importante da social-democracia contra o antissemitismo, através do informe de Auguste Bebel ao congresso de Colônia do SPD. Bebel definia os judeus como um “povo […] forjado pela perseguição” tanto quanto os ciganos.

Assim como outros, Bebel criticou o antissemitismo apontando o seu caráter pequeno-burguês e a sua manifestação no meio universitário; considerou o antissemitismo como um movimento anticapitalista reacionário, condenado pelo próprio avanço histórico, que eliminaria esses resquícios de atraso.

Bebel não apenas deve ser visto como um dos principais animadores da campanha geral do SPD contra o antissemitismo, mas como aquele que chegou a combater o antissemitismo dentro do seu partido e alertar os seus companheiros dos preconceitos de que eram alvo Rosa Luxemburgo e Aleksandr Izráil Lázarevitch Guelfand — um militante emigrado da Rússia, conhecido como Parvus.

Rosa Luxemburgo combateu o antissemitismo em diversas ocasiões.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 69, 72 e 74]

Diferentemente de Bebel, ela “via o antissemitismo como sinal da rápida decomposição da sociedade moderna […], e não como o resquício de uma era feudal. No entanto, o fato de o antissemitismo ser sinal de um estágio avançado de decomposição capitalista (como na França durante o Caso Dreyfus) não excluía, para Rosa Luxemburgo, o seu caráter também de sinal do atraso.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 73]

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Raízes históricas do movimento operário judeu

O surgimento daquilo que Nathan Weinstock chama de um “protoproletariado judeu” se inicia em meados do século XIX através de um processo de diferenciação crescente entre artesãos e aprendizes no interior das guildas: “No início, não havia mais do que uma percepção difusa dos antagonismos entre empregadores e assalariados, ou […] (pior ainda) entre judeus afortunados e judeus desfavorecidos”.

O fosso aberto entre os dois extremos do artesanato cria uma consciência coletiva própria aos assalariados, que se manifesta no desejo de se organizarem à parte, com as suas próprias salas de estudos religiosos e seus próprios predicadores. Em meados do século XIX a tendência se concretiza nas primeiras khevroth dos assalariados (ajudantes e aprendizes de artesão) […]. Mas a importância da tomada de consciência, por parte dos aprendizes, da necessidade de constituição de khevroth próprias, vinha do fato de que os aprendizes e ajudantes constituíam o meio de onde brotava o operariado judeu […] um primeiro passo em direção às verdadeiras organizações operárias: os sindicatos.

As primeiras greves dos trabalhadores judeus irrompem em 1870-1871 nas fábricas de tabaco de Vilna e nas oficinas têxteis de Bialostock. A greve era uma forma de luta operária inédita na região, e Weinstock defende que o mais provável é que os judeus tenham aprendido a tática dos alemães residentes na “zona” — a região habitável por judeus segundo as leis restritivas do Império Russo.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 107 e 109]

“O marco do ‘verdadeiro início’ do movimento operário judeu na zona de residência, segundo Weinstock, ficaria por conta da greve de 1887 dos operários judeus das fábricas de tecidos de Bialostock. Extremamente bem organizada, com os ‘fundos de greve’ que recebiam donativos semanais de cada trabalhador, e funcionando num sistema de rodízio de trabalho para que houvesse sempre um grupo na ativa garantindo os recursos para a sustentação de todos os grevistas, que assim poderiam resistir por mais tempo, essa greve foi igualmente descrita por Ber Borochov como um marco histórico do movimento operário judeu: a sua ‘entrada para a história’.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 118]

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Um longo caminho para a unificação das lutas

O caminho percorrido pelo movimento dos trabalhadores judeus da Rússia até chegarem a uma organização centralizada, de altíssimo nível organizativo e grande penetração nas massas judias, como o Bund, foi marcado pelo surgimento e sucessão de diferentes formas organizativas numa espécie de conquista gradual de consciência operária.

A partir de 1895 diversas lideranças do movimento operário judeu já se manifestam favoráveis à unificação dos diferentes núcleos em uma organização mais ampla. Mas esta só se tornaria uma “tarefa urgente” em 1897 diante da iminência da unificação do movimento social-democrata russo.

Por razões de segurança, a reunião para a fundação do Bund foi realizada durante as comemorações do Ano-Novo judeu: 7 a 9 de outubro de 1897. Treze delegados representando o conjunto da zona de residência, oriundos de organizações locais, sindicatos e os jornais clandestinos Arbeter shtime e Yidisher arbeter (entre os quais se contavam onze homens e três mulheres, cinco intelectuais e oito operários manuais) se reuniram numa modesta casa operária, construída em madeira, na periferia de Vilna, para fundarem a “União Geral dos Trabalhadores da Lituânia, Polônia e Rússia”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 119 e 131-134]

“O Bund era um destacamento do movimento socialista russo atuando em meio judeu.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 143]

Divergências no interior do movimento

Entre 1901-1902 surgiriam os primeiros círculos do sionismo socialista, liderados por Ber Borochov, assim como a corrente de Nachman Sírkim. Mas o primeiro partido sionista operário forma-se apenas em 1906 (o Poale Sion). Ele não chega a constituir um movimento “de massas” como o Bund e, como aponta Isaac Deutscher, é muitas vezes ignorado o fato histórico de que “a maioria dos judeus foi, até a Segunda Guerra Mundial, hostil ao movimento sionista”.

A história do Bund esteve intimamente relacionada àquela do Partido Operário Social-Democrata Russo, e na polêmica que se desenvolve entre eles vemos surgir a política bolchevique em relação à questão judaica. O Bund integrou o POSDR quando da sua constituição, em 1898, na qualidade de “organização autônoma” nos assuntos referentes à agitação e propaganda em meio judeu (que tinha que ser feita em iídiche, a única língua falada pela maior parte dos trabalhadores judeus); separou-se em 1903 (durante o II Congresso do POSDR) e, impulsionado pela Revolução de 1905, voltou a reintegrá-lo em 1906. A partir de 1912, orientou-se definitivamente em direção aos mencheviques.

O conflito entre os bolcheviques e o Bund (lembrando que no início dos trabalhos do Congresso de 1903 os mencheviques ainda apoiaram os bolcheviques contra o Bund, antes da cisão entre eles) surgiu em torno de três princípios defendidos pela organização judia a partir do início do século:

a) o reconhecimento do Bund enquanto representante exclusivo da social-democracia entre os judeus;

b) a consequente transformação do POSDR numa federação de partidos nacionais independentes;

c) a chamada “autonomia nacional-cultural”, no que se referia à organização estatal.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 136-138]

A Revolução Russa e o combate ao antissemitismo

A luta contra o antissemitismo estava, efetivamente, no centro das preocupações e da política das lideranças revolucionárias. Para Lênin, ela não se dissociava da luta contra o próprio tsarismo e, demonstrando-o, ele definiria a natureza de classe do antissemitismo e o seu efeito de atomização do movimento operário.

Segundo a visão de Lênin, a palavra de ordem da “autonomia nacional-cultural” — levantada, entre outros, pelo Bund — pregava o isolamento das nações em assuntos de educação (ou cultura em geral), “isolamento esse compatível com a retenção dos fundamentos para todo tipo de privilégio (inclusive nacional) […], ela divide o proletariado das diferentes nações, juntando-o com os respectivos elementos reacionários e burgueses”.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 139 e 141-142]

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O VIII e último Congresso do Bund, em dezembro de 1917, reiterou a posição mantida na última década e meia, repudiou a Revolução de Outubro, negou qualquer apoio ao “golpe bolchevique”, e passou a boicotar os órgãos soviéticos para a condução dos assuntos judeus.

O Bund, assim como os mencheviques, acreditava que a direção da atual etapa revolucionária deveria ser burguesa (para a resolução de tarefas tipicamente pertencentes a uma revolução burguesa: a “questão agrária” e a “questão nacional”) e que, especificamente após a Revolução de Fevereiro, o caminho para o socialismo seria pacífico. O Bund seria, assim como o partido menchevique, dissolvido em 1920 pelo poder soviético. Mas não antes de percorrer um processo de fraturas, na Rússia como na Ucrânia, que o levaria, de seus 33 mil membros iniciais, a um total de 11 mil.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 144]

“Segundo a expressão de Isaac Deutscher, a Revolução Russa constituiu o “bilhete de entrada” dos judeus à cultura da Rússia: tiveram uma liberdade jamais vista para a utilização de sua língua, publicação de livros, revistas e jornais, manutenção de escolas onde o idioma era o iídiche, enfim, em todos os aspectos culturais.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 146]

Combatentes judeus contra o fascismo na Espanha

Entre 1936 e 1938 milhares de militantes judeus, das mais diversas partes do mundo, engrossaram as fileiras dos combatentes “internacionais” na Guerra Civil Espanhola. No entanto, essa participação é pouco mencionada pela historiografia da guerra civil e pela própria história do movimento operário judeu, cuja ênfase recai sobre a participação dos judeus no movimento operário russo, entre mencheviques e bolcheviques, ou através de seus próprios partidos.

Ao contrário da visão predominante no segundo pós-guerra, que chegou a descrever a guerra na Espanha como a “antessala” do grande embate de 1939-1945 entre democracias e o nazifascismo, o que atraiu milhares de voluntários à Espanha foi a perspectiva de derrotar o fascismo na Espanha através dos métodos revolucionários de luta, inseparáveis da política e do próprio fim revolucionário, fornecendo o exemplo a ser seguido em seus países de origem.

O símbolo da participação dos judeus nas Brigadas Internacionais ficou por conta da única companhia especificamente judaica, criada depois de um ano de luta, em 12 de dezembro de 1937, no seio da XIII Brigada, a Brigada Dombrowski, que era polonesa.

A companhia judia recebeu o nome de “Naftali Botwin”, em homenagem ao jovem comunista polonês executado em 1925 por ter matado um provocador infiltrado pela polícia polonesa no movimento operário.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 149 e 157]

“Os judeus, diz Trótski, pelas condições históricas às quais foram submetidos, tornaram-se especialmente suscetíveis às ideias do comunismo científico e internacionalistas por sua própria dispersão pelo mundo.”

ARLENE CLEMESHA

Um bolchevique judeu

A trajetória e as ideias de Leon Trótski sobre o judaísmo se revestem de múltiplos interesses. Em primeiro lugar, naturalmente, devido às suas origens judaicas.

Durante o período da revolução e guerra civil na Rússia, Trótski escreveu bem pouco sobre a questão judaica. Mas pelo que revela a sua autobiografia, entre outros escritos, a questão judaica esteve presente nas intempéries do dia a dia desse período agitado.

Quando a imprensa mundial se referia à Revolução Russa, quase sempre mencionava, como fator depreciativo, a origem judaica de Trótski, um de seus principais líderes. Já a imprensa judaica, diz Albert Glotzer, expressava orgulho das origens judaicas de Trótski, apesar de quase sempre condenar o seu bolchevismo!

De fato havia uma campanha antissemita dentro da Rússia, e fora dela também, dirigida contra a revolução.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 161 e 172-174]

Usos políticos do antissemitismo

Mas o antissemitismo não era exclusividade dos opositores da Revolução de Outubro. Ele existia dentro da Rússia como herança do tsarismo e Trótski se viu tendo que combatê-lo dentro do próprio Exército Vermelho.

Décadas mais tarde, no artigo “Termidor e antissemitismo”, escrito em 22 de fevereiro de 1937 e publicado no The New International, em maio de 1941, ele analisa um assunto específico: o crescimento do antissemitismo na União Soviética após a morte de Lênin, e a sua utilização contra Trótski e seus aliados da Oposição de Esquerda.

Para Trótski, a persistência do antissemitismo na Rússia não se devia à incapacidade da revolução em combatê-lo, mas à “necessidade” de a contrarrevolução stalinista resgatá-lo e utilizá-lo como instrumento político de seu governo.

No quadro desse novo clima antissemita criado na União Soviética, por meio da mescla das antigas crenças antissemitas com as recentes impressões de que os judeus eram os mais novos exploradores dos trabalhadores russos, é que Stálin passou a utilizar o antissemitismo nas suas manobras políticas, com cada vez mais êxito. Para muitos, no mundo inteiro, o desprezo, para dizer o mínimo, de Stálin pelos judeus só ficou claro quando os ministros do Exterior russo e alemão, Molotov e Ribbentrop, apertaram as mãos na assinatura do pacto Hitler-Stálin.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 175, 179 e 181-182]

Na antessala do Holocausto

Trótski se opôs ao sionismo durante toda a vida porque o via como um movimento irrealizável e reacionário, porque não tinha recursos próprios, era dependente do imperialismo britânico que retirava o seu apoio de acordo com a sua conveniência, tinha que enfrentar o nacionalismo árabe e, finalmente, afastava os trabalhadores judeus do movimento revolucionário socialista. Mas, analisando a evolução da questão judaica nas décadas iniciais do século XX, Trótski formulou a concepção da construção nacional judaica
dentro de um regime socialista mundial.

Trótski foi o primeiro líder, de qualquer corrente política, a alertar o mundo dos dois perigos representados pela ascensão do nazismo na Alemanha: uma nova guerra mundial e o extermínio físico dos judeus.

Em 1938, afirmou: “O número de países que expulsa os judeus cresce sem parar. O número de países que podem aceitá-los decresce… Podemos, sem dificuldade, imaginar o que espera os judeus com o mero início da próxima guerra mundial. Mas mesmo sem guerra, o próximo desenvolvimento da reação mundial significa com certeza o extermínio físico dos judeus.”

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 191, 194 e 196]

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A questão judaica à luz do materialismo histórico

Abraham Léon é autor da obra reconhecida por alguns como “o estudo mais agudo sobre o problema judaico” ou “a única análise profunda da questão judaica à luz do materialismo histórico”: Concepção materialista da questão judaica. Foi escrita em 1942 sob as duras condições da clandestinidade e da ocupação nazista da Bélgica, apenas dois anos antes de sua morte, aos 26 anos de idade, numa câmara de gás do campo nazista de Auschwitz.

Trata-se de uma história do papel socioeconômico exercido pelos judeus nas diferentes sociedades, em diferentes períodos históricos, desde a época da Dispersão. A tese desenvolvida pelo autor é a de que, apesar de destruídos o Estado da Judeia e as condições normais para a sobrevivência de um povo juntamente com a sua cultura e religião, o judaísmo conservou-se ao longo da história devido à função econômica assumida pelos judeus no seio das sociedades antiga e medieval. Os judeus passaram a constituir, diz Léon, um grupo social com uma função econômica determinada: um “povo-classe”.

 Mas se as causas reais do antissemitismo são econômicas, o que aparece, na própria visão do autor, é seu elemento mítico ou ideológico. A “raça que luta pelo seu espaço vital” constituiria a força motriz aparente do imperialismo; enquanto que sua força motriz verdadeira se encontra na contradição fundamental do capitalismo — a contradição entre uma superprodução e um consumo estreito. “O racismo é, pois, antes de mais nada, o disfarce ideológico do imperialismo moderno.” Por essa razão se explica o interesse do grande capital em alimentar o sentimento antissemita da pequena burguesia e depois do proletariado, como ocorreu na Alemanha durante a ascensão de Hitler.

[MARXISMO E JUDAÍSMO, p. 203-204 e 217]

“O grande capital apenas se serviu do antissemitismo das massas pequeno-burguesas. Converteu-o em peça central da ideologia fascista. Mediante o mito do ‘capitalismo judaico’, o grande capital procurou monopolizar em seu proveito o ódio anticapitalista das massas.”

ABRAHAM LÉON

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos um artigo da autora, Arlene Clemesha, publicado na revista Margem Esquerda, um texto de Daniel Bensaïd a respeito de Sobre a questão judaica, além de um capítulo de Walter Benjamin: aviso de incêndio, em que Michael Löwy comenta a IX tese benjaminiana “Sobre o conceito de história”.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Arlene Clemesha

Pensar a Palestina após Gaza: uma breve historiografia da Nakba


Daniel Bensaïd

Reflexões acerca de Sobre a questão judaica, de Karl Marx


Michael Löwy

Walter Benjamin: aviso de incêndio

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Arlene Clemesha, Breno Altman e Jean Tible; um vídeo em que a filósofa Judith Butler discute a questão Israel-Palestina em sua estrutura colonial; e a playlist com o curso “A sociologia marxista da religião”, ministrado por Michael Löwy.

Recomendamos, além disso, o filme Terra e liberdade (1995), de Ken Loach, que aborda a Guerra Civil Espanhola.

Para aprofundar…

Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Opera Mundi: Marxismo e judaísmo – 20 minutos, com Arlene Clemesha, fev. 2025.

Provocast: #106 – Oriente Médio, com Arlene Clemesha, set. 2021.

Rádio Boitempo: Acervo Boitempo #9: O marxismo de Leon Trótski, com Ruy Braga, ago. 2023.

Rádio Boitempo: Acervo Boitempo #13: O marxismo de Walter Benjamin, com Fabio Mascaro Querido, dez. 2023.

Rádio Boitempo: Megafone #12: Sabrina Fernandes lê Angela Davis sobre a Palestina, com Sabrina Fernandes, nov. 2023.

Rádio Boitempo: Acervo Boitempo #10: O marxismo de Rosa Luxemburgo, com Isabel Loureiro, set. 2023.

Sobre a questão judaica | III Curso Livre Marx-Engels
decisiva do século XXI,
com Arlene Clemesha,TV Boitempo.

Diálogos com Marx: religião, com Arlene Clemesha, Fabio Luis Barbosa, Marco Fernandes e Mauro Lopes, TV Boitempo.

Do rio ao mar: Palestina, marxismo e judaísmo, com Arlene Clemesha, Canal Desacato.

O genocídio na Palestina como um instrumento colonial, com Jodi Dean, TV Boitempo.

A palestina fala por todos nós, com Jodi Dean, TV Boitempo.

Quem critica Israel é antissemita?, com Arlene Clemesha, Provoca.

A extraordinária história da formação do movimento operário judeu“, por Samuel Kilsztajn, Blog da Boitempo, mar. 2025.

4 nomes fundamentais para pensar a relação entre marxismo e judaísmo“, por Blog da Boitempo, fev. 2025.

Judith Butler e a crítica judaica do sionismo“, por Soraya Smaili, Blog da Boitempo, mar. 2017.

A ocupação é a atrocidade“, por Edward W. Said, Blog da Boitempo, jul. 2014.

Walter Benjamin e o marxismo, 100 anos depois“, por Rafael Vieira, Blog da Boitempo, dez. 2024.

Bem-vindos ao Brasil avivado“, por André Castro, Blog da Boitempo, fev. 2025.

A edição de conteúdo deste guia é de Carolina Peters e as artes são de Mateus Rodrigues.