Guia de leitura | Democracia para quem? | ADC#38

Democracia para quem?
Angela Davis, Patricia Hill Collins e Silvia Federici
Guia de leitura / Armas da crítica #38
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Democracia para quem? reúne as palestras proferidas de 15 a 19 de outubro de 2019, por três intelectuais do movimento feminista – Angela Davis, Patricia Hill Collins e Silvia Federici – no âmbito do seminário internacional “Democracia em Colapso?”, promovido pelo Sesc São Paulo e pela Boitempo. No livro, é possível tomar contato com reflexões feitas pelas três autoras – referências globais em suas áreas de estudo e de atuação – sobre temas como capitalismo, racismo, desigualdade social, ecologia, entre outros.
Além de adesivo e marcador, a caixa do mês ainda é acompanhada do livreto “Feminismo, corpos e territórios”, com a transcrição das falas de Judith Butler e Preta Ferreira no debate ocorrido no ciclo “Por um feminismo para os 99%”, em 2021.
autoras Angela Davis, Patricia Hill Collins e Silvia Federici
coordenação editorial Frank de Oliveira
edição de texto e notas Gilberto Maringoni
transcrição e tradução VComunicações
revisão Renata Sangeon
diagramação Antonio Kehl
capa Daniel Justi
coordenação de produção Livia Campos
páginas 128


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Quem é Angela Davis?
Angela Davis é filósofa, professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia e ícone da luta pelos direitos civis. Como ativista, ligou-se ao grupo Panteras Negras e ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Foi presa na década de 1970 e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis”. Foi candidata a vice-presidente da República em 1980 e 1984.
Pela Boitempo, publicou O sentido da liberdade e outros diálogos difíceis (2022), Construindo movimentos: uma conversa em tempos de pandemia (2020, com Naomi Klein), Uma autobiografia (2019), A liberdade é uma luta constante (2018), Mulheres, cultura e política (2017) e Mulheres, raça e classe (2016).
“Há muita luta para se afirmar a democracia.”
ANGELA DAVIS


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Quem é Patricia Hill Collins?
Patricia Hill Collins é professora emérita do departamento de sociologia da Universidade de Maryland. Foi a primeira mulher negra a presidir a Associação Americana de Sociologia. É considerada, ao lado de Angela Davis e bell hooks, uma das mais influentes pesquisadoras do feminismo negro nos Estados Unidos.
Pela Boitempo, publicou Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica (2022), Interseccionalidade (com Sirma Bilge, 2021) e Pensamento feminista negro (2019).
“Nunca tivemos democracia, para além de algumas formalidades.”
PATRICIA HILL COLLINS


Quem é Silvia Federici?
Silvia Federici é escritora, professora e militante feminista. Nasceu na Itália em 1942 e, no fim da década de 1960, mudou-se para os Estados Unidos; lá, em 1972, ajudou a fundar o International Feminist Collective [Coletivo Internacional Feminista] e, então, lançou uma campanha por salários para o trabalho doméstico.
Pela Boitempo, publicou O patriarcado do salário (2021) e Mulheres e caça às bruxas (2019).
“A caça às bruxas não acabou.”
SILVIA FEDERICI


Para somar esforços na luta por democracia e liberdade
O que Angela Davis, Patricia Hill Collins e Silvia Federici, intelectuais fundamentais de nosso tempo, apresentam em Democracia para quem? são as contradições, guiadas sistemicamente pelo capitalismo, que nos fazem falar em democracia e liberdade enquanto convivemos com essas expressões e podemos observar que são pertencentes de forma supremacista à categoria homem-branco-hetero-burguês em nossas sociedades. Assim, é possível explicar que nações possam ser defensoras da democracia e da liberdade ao mesmo tempo que encarceram descontroladamente e têm a violência como política pública.
Mas as autoras vão além. Realizar uma radiografia histórico-política sobre como mulheres – notadamente mulheres negras e indígenas – são marginalizadas para atender ao funcionamento das engrenagens decorrentes de desigualdades, baseadas em hierarquias sociorraciais e de gênero, é a tarefa por elas escolhida para que reflitamos sobre as urgentes transformações estruturais de que necessitamos.
Juliana Borges
Escritora, livreira e ativista.
“Democracia para quem? é uma importante publicação para aqueles e aquelas que buscam refletir e somar esforços para implementar mudanças profundas em nossas sociedades, começando pelo entendimento sobre democracia e liberdade, superando todos os sistemas de opressão e construindo vidas de direitos e plenas do viver em equanimidade.”
JULIANA BORGES


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Tempo de recomeços
Embora essas três mulheres, ativistas e intelectuais internacionais, tenham perspectivas distintas, elas ajudaram a fazer florescer o debate no Brasil e no mundo, o que nos motiva a recuperarmos autoras “esquecidas”, resgatarmos a história pouco ou não contada do nosso país, assim como os fundamentos marxianos e teorias invisibilizadas.
Com sua atuação, elas contribuem para a elaboração de um profícuo arcabouço, que tem por propósito uma interpretação ontológica da vida social capitalista, para a construção de uma práxis emancipatória. As tarefas são árduas nas batalhas cotidianas e, neste tempo de reconstrução, não podemos nos enganar com as apropriações das bandeiras das nossas lutas pelos ideólogos do capital. As ativistas deste livro asseveram que não nos basta a representatividade se a maioria continua a viver em cativeiro. […]
Iniciamos um novo tempo de recomeços e de desafios, por isso é necessário reconstruirmos as possibilidades de nos organizarmos e de nos movimentarmos por meio de uma política da esperança, porque sem esperança não existem possibilidades de luta.
Marcela Soares, no prefácio de Democracia para quem?.
“Marielle Franco sabia que a liberdade é uma luta constante. E seu legado é defendido por aqueles que continuam lutando contra o racismo, a violência, a homofobia e a destruição do meio ambiente.“
ANGELA DAVIS


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As mulheres negras e a democracia
Quando consideramos as lutas históricas das mulheres negras por todo este hemisfério, reconhecemos que não pode haver democracia sem a nossa participação. E, inversamente, quando as mulheres negras se moveram em direção à liberdade, elas nunca representaram apenas elas mesmas. Representaram todas as suas comunidades negras, indígenas, pobres, comunidades que sofreram exploração econômica, opressão de gênero e violência racial.
Quando as mulheres negras se levantam, o mundo se levanta conosco. Essa é uma lição importante sobre a luta pela democracia. Uma democracia que exclui pessoas negras não tem nada de democrática, uma democracia que exclui mulheres negras não tem nada de democrática.
ANGELA DAVIS
[DEMOCRACIA PARA QUEM?, p. 29]
“A matriz de dominação é a relação de poder entre raça, classe e gênero. Essa é a estrutura interseccional das relações de poder, dos tipos de poder.”
PATRICIA HILL COLLINS


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Não há atalhos para a democracia
Quero deixar duas questões para vocês pensarem. A primeira é que democracia, para mim, é um ideal. Nós ainda não a tivemos, para além de políticas formais. Os Estados Unidos possuem uma história de democracia e desigualdade profundamente entrelaçadas. O ideal de democracia, de que somos todos iguais, pode ser sintetizado na frase “Venha para a América. Você pode ser tudo o que quiser, garotinha negra”. Isso não é necessariamente verdade. Assim como não há atalhos para as políticas de empoderamento, não há atalhos para a democracia.
A segunda questão é: como o desenvolvimento de uma noção cara de ação política pode fornecer ferramentas para a participação democrática? Os instrumentos que apresentei sobre políticas de sobrevivência, políticas formais, políticas de protesto, políticas culturais etc. nos distanciam do reconhecimento de como as pessoas contribuem de formas diferentes para um projeto democrático mais abrangente? Não tenho certeza. A visão de solidariedade de que precisamos apenas nos dar as mãos e ficarmos juntas para conquistar o mundo é a estrutura das políticas de protesto. Mas, se olharmos de forma mais abrangente, talvez vejamos uma solidariedade mais flexível e estratégica.
PATRICIA HILL COLLINS
[DEMOCRACIA PARA QUEM?, p. 29]
“O sistema capitalista não pode ser entendido a não ser que olhemos para ele de todos os pontos de vista, de todos os temas diferentes e de todas as diferentes formas de exploração.”
SILVIA FEDERICI


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Uma hierarquia de formas de vida desiguias
Se a democracia significa autodeterminação, se a democracia significa “governo do povo para o povo”, como dizem nos Estados Unidos, e se a democracia significa que todos têm acesso igual aos frutos da Terra, infelizmente sou levada a concluir que nunca houve nada semelhante na história do capitalismo moderno. O sistema começa com conquista, colonização, escravidão, caça às bruxas e, de diferentes maneiras, continua nesse caminho até o presente, com guerras mundiais e, hoje, com um estado permanente de exposição mundial que vem sendo feita em várias formas, formas tradicionais, assim como microformas, exposição mundial da militarização do dia a dia, que agora está se estendendo para quase todo canto do mundo.
Então acho que precisamos entender que, quando falamos em democracia em colapso, quando levantamos a questão, que com certeza é muito importante, é porque essa sociedade em que vivemos e seu sistema social são muito habilidosos em criar uma hierarquia de formas de vida desiguais que faz com que olhemos para determinados locais, períodos da história ou setores da população e fiquemos com a impressão de que tudo está bem.
SILVIA FEDERICI
[DEMOCRACIA PARA QUEM?, p. 96]

Leituras complementares
Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!
Este mês trazemos três capítulos de cada um dos livros: A liberdade é uma luta constante, de Angela Davis, Pensamento feminista negro, de Patricia Hill Collins e Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici.
Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!
Angela Davis
Solidariedades transnacionais
Patricia Hill Collins
A mulher negra como teórica social crítica
Silvia Federici
A história oculta da fofoca

Vídeos
Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Helena Silvestre, Marcela Soares e Preta Ferreira, além de três aulas introdutórias sobre as autoras: Angela Davis, com Raquel Barreto; Patricia Hill Collins, com Winnie Bueno e Silvia Federici, com Sabrina Fernandes.

Para aprofundar…
Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

O sentido da liberdade e outros diálogos difíceis, de Angela Davis
Construindo movimentos: uma conversa em tempos de pandemia, de Angela Davis e Naomi Klein
Uma autobiografia, de Angela Davis
A liberdade é uma luta constante, de Angela Davis
Mulheres, cultura e política, de Angela Davis
Mulheres, raça e classe, de Angela Davis
Bem mais que ideias: a interseccionalidade como teoria social crítica, de Patricia Hill Collins
Interseccionalidade, de Patricia Hill Collins e Sirma Bilge
Pensamento feminista negro, de Patricia Hill Collins
O patriarcado do salário, de Silvia Federici
Mulheres e caça às bruxas, de Silvia Federici

Rádio Boitempo: Megafone #12: Sabrina Fernandes lê Angela Davis sobre a Palestina, nov. 2023.
Rádio Boitempo: Conversas camaradas #6: Angela Davis e as lutas por liberdade, com Raquel Barreto e Vilma Reis, nov. 2022.
Mano a mano: Angela Davis, out. 2022.
Grifa Podcast: Introdução ao pensamento feminista negro: Angela Davis e Lélia Gonzalez, com Raquel Barreto, mar. 2021.
Filosofia pop: #157: Angela Davis, com Thais Rodrigues, jun. 2022.
Rádio Boitempo: Conversas camaradas #01: Patricia Hill Collins e a interseccionalidade como teoria social crítica, com Thiago Amparo e Nubia Regina Moreira, jun. 2022.
Grifa Podcast: Introdução ao pensamento feminista negro: Patricia Hill Collins, com Nubia Moreira, jul. 2021.
Outras mamas: #102: O patriarcado do salário, com Bruna Della Torre, mar. 2021.

A liberdade é uma luta constante | Angela Davis no Ibirapuera, TV Boitempo.
Curso: feminismo negro descolonial nas Américas, com Angela Davis, TV Boitempo.
Angela Davis e Judith Butler em conversa sobre a desigualdade, SSEXBBOX.
Curso de Introdução ao pensamento de Patricia Hill Collins, com Winnie Bueno, Nubia Moreira, Angela Figueiredo, Patricia Hill Collins, TV Boitempo.
Patricia Hill Collins explica Pensamento feminista negro (6 episódios), TV Boitempo.
Interseccionalidade, com Patricia Hill Collins e Sirma Bilge, TV Boitempo.
Feminismo, comuns e ecossocialismo, com Silvia Federici e Sonia Guajajara, TV Boitempo.
O patriarcado do salário, (3 episódios), com Silvia Federici, TV Boitempo.
Feminismo, marxismo e caça às bruxas, (5 episódios), com Silvia Federici, TV Boitempo.

“Quem é Angela Davis?“, Blog da Boitempo, 2022.
“Construindo o futuro da luta contra o racismo“, por Angela Davis, Blog da Boitempo, 2017.
“O marxismo de Angela Davis“, por Silvio Almeida, Blog da Boitempo, 2016.
“A liberdade é uma luta constante“, por Conceição Evaristo, Blog da Boitempo, 2018.
“Quem é Patricia Hill Collins?“, Blog da Boitempo, 2022.
“O otimismo transformador de Patricia Hill Collins”, por Elaini Cristina Gonzaga da Silva, Blog da Boitempo, 2022.
“A urgência do pensamento feminista negro para a democracia”, de Juliana Borges, Blog da Boitempo, 2017.
“Quem é Silvia Federici?“, Blog da Boitempo, 2022.
“A imagem da bruxa está no centro de uma batalha”, por Silvia Federici, Blog da Boitempo, 2019.
“Silvia Federici, a força analítica de Marx e o caráter explosivo da luta feminista”, por Bruna Della Torre, Blog da Boitempo, 2021.
A edição de conteúdo deste guia é de Isabella Meucci e as artes são de Victoria Lobo.


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