Guia de leitura | ADC#16

Justiça interrompida
Nancy Fraser

Guia de leitura / Armas da crítica #16

A caixa de fevereiro do Armas da crítica traz uma potente análise dos desafios impostos pela derrocada dos socialismos no final dos anos 1980, pelo surgimento das políticas de identidade e pela fragmentação das frentes de luta progressista com Justiça interrompida: reflexões críticas sobre a condição “pós-socialista”, de Nancy Fraser.

A autora nos oferece um quadro teórico abrangente para analisar as diferentes causas e soluções para as injustiças econômicas e culturais. Evitando posturas economicistas, que rechaçam políticas de reconhecimento como “falsa consciência”, bem como posturas culturalistas, que rechaçam políticas redistributivas como antiquadas, Fraser desenvolve um modelo de crítica social que integra as duas dimensões. 

Para acompanhar as discussões sobre justiça social, a caixa do mês traz um livreto especial com uma entrevista exclusiva concedida pela economista Maria da Conceição Tavares à revista Margem Esquerda.

autor Nancy Fraser
tradução Ana Claudia Lopes e Nathalie Bressiani
orelha Flávia Biroli
edição Pedro Davoglio
diagramação Antonio Kehl
coordenação de produção Livia Campos
capa Maikon Nery
páginas 288

Quem é Nancy Fraser?

Nancy Fraser nasceu em Baltimore, nos Estados Unidos, em 1947. Graduou-se em 1969 no Bryn Mawr College, uma faculdade privada exclusiva para mulheres, e defendeu seu doutorado em 1980 na City University of New York (CUNY). É professora titular de filosofia e política na New School for Social Research, onde leciona desde 1995.

Expoente do feminismo, tema com o qual trabalha desde o início da carreira e pelo qual milita politicamente, e da teoria crítica, a autora publicou diversos trabalhos de grande impacto nessas e em outras áreas da filosofia política e social. Pela Boitempo publicou Feminismo para os 99%: um manifesto (2019), em coautoria com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya e Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica (2020), em coautoria com Rahel Jaeggi.

“Neste livro, Nancy Fraser aponta as falsas oposições do que chama de ‘condição pós-socialista’. Argumentando que a separação entre lutas por reconhecimento de identidades e lutas por distribuição de bens materiais e serviços é inconsistente, ela mostra como as esquerdas ‘social’ e ‘cultural’ podem se unir em torno de objetivos comuns.”

SEYLA BENHABIB

Compromisso com a justiça social

O que significa, afinal, produzir pensamento político e social em uma época de crescentes desigualdades, em que o capitalismo financeiro amplia sua capacidade de destruição? Para Nancy Fraser, trata-se de colaborar para uma crítica abrangente das injustiças, que supere a dualidade entre o cultural e o socioeconômico, o simbólico e o material. Suas análises sobre as lutas por reconhecimento e por redistribuição são antídotos contra fantasmas que circulam no campo da esquerda, em particular o de que “lutas identitárias” operariam contra ou em paralelo aos esforços para transformar as relações socioeconômicas.

Fraser produz teoria consistente ao travar um diálogo aberto com as demandas dos movimentos sociais. É uma teoria informada pelo compromisso com a justiça social e pelos esforços para definir normativamente o que ele significa. Busca, assim, elucidar um quadro abrangente de objetivos emancipatórios, com princípios que nos permitam avaliar as alternativas que estão em jogo. E, claro, evitar falsos dualismos.

Flávia Biroli

Professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, autora de  Gênero e desigualdades: limites da democracia no Brasil (Boitempo, 2018) e coautora de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014) e  Gênero, neoconservadorismo e democracia: disputas e retrocessos na América Latina (Boitempo, 2020).

“Nancy Fraser faz um esforço altamente inovador e original para ‘interromper’ a discussão convencional sobre justiça, questionando tanto o modo como interpretamos necessidades e desejos específicos, quanto nossos conceitos e noções normativos.”

AXEL HONNETH

A condição “pós-socialista”

A primeira característica da condição “pós-socialista” é a ausência de qualquer visão progressista digna de crédito de uma alternativa à ordem atual. Isso está relacionado, em parte, à crescente deslegitimação do socialismo em sentido amplo na esteira de 1989.

A segunda característica constitutiva da condição “pós-socialista” diz respeito a uma mudança na gramática das reivindicações políticas. Reivindicações pelo reconhecimento de diferenças de grupo têm ganhado enorme destaque nos últimos tempos, às vezes eclipsando reivindicações por igualdade social.

O contexto desses desdobramentos, e a terceira característica definidora da condição “pós-socialista”, é um liberalismo econômico ressurgente. À medida que o centro de gravidade política parece se deslocar da redistribuição para o reconhecimento, e os compromissos igualitários parecem retroceder, um capitalismo de fora a fora globalizante mercantiliza cada vez mais as relações sociais, erode as proteções sociais e piora as oportunidades de vida para bilhões de pessoas.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.15-18]

“Fraser é uma das mais criativas filósofas sociais e teóricas críticas de sua geração. Este livro já nasceu um clássico – historicamente fundamentado, teoricamente avançado e politicamente progressista.”

CORNEL WEST

Redistribuição e reconhecimento

Em vez de pura e simplesmente apoiar ou rejeitar toda e qualquer política de identidade de maneira absoluta, devemos nos ver com uma nova tarefa intelectual e prática: desenvolver uma teoria crítica do reconhecimento, uma teoria que identifique e defenda apenas as versões da política cultural da diferença que possam ser coerentemente combinadas com políticas sociais de igualdade.

Ao formular esse projeto, pressuponho que a justiça hoje requer ambos, redistribuição e reconhecimento. Minha proposta é analisar a relação entre esses paradigmas. Isso significa, em parte, descobrir como conceitualizar reconhecimento cultural e igualdade social de modo que eles reforcem e não enfraqueçam um ao outro. Também significa teorizar como o desfavorecimento econômico e o desrespeito cultural estão hoje entrelaçados e reforçam um ao outro. Isso requer, portanto, o esclarecimento dos dilemas políticos que surgem quando procuramos combater as duas injustiças simultaneamente.

Meu objetivo mais amplo é conectar duas problemáticas políticas que estão hoje dissociadas, pois somente com a integração do reconhecimento à redistribuição podemos chegar a um quadro teórico adequado aos anseios de nossa era.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.28-29]

“A capacidade de análise e de antecipação, ainda na década de 1990, dos obstáculos que enfrentamos no novo milênio mostram por que Nancy Fraser se tornou uma das grandes teóricas do nosso tempo.”

FLÁVIA BIROLI

Depois do salário familiar

A ordem de gênero que está desaparecendo descende da era industrial do capitalismo e reflete o mundo social do qual se originou. Esse mundo era centrado no ideal do salário familiar. Nele, presumia-se que as pessoas se organizariam em famílias nucleares heterossexuais e chefiadas por um homem, e que a principal fonte de renda seriam os ganhos do homem no mercado de trabalho. O chefe de família receberia um salário familiar suficiente para sustentar filhos e uma mulher e mãe em tempo integral, e esta realizaria o trabalho doméstico sem receber remuneração.

O ideal do salário familiar estava inscrito na estrutura da maior parte dos Estados de bem-estar da era industrial. Hoje, contudo, o pressuposto do salário familiar não se sustenta mais – seja de um ponto de vista empírico, seja de um ponto de vista normativo.

Nessa transição para uma nova fase pós-industrial do capitalismo, estamos vivenciando a agonia final da antiga ordem industrial de gênero. A crise do Estado de bem-estar é indissociável dessas mudanças de época. Em certa medida, essa crise está radicada na derrocada do mundo do salário familiar e de seus pressupostos centrais a respeito dos mercados de trabalho e das famílias.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.60-61]

“Longe de ser um veredito negativo e definitivo sobre a relevância e a viabilidade de ideais socialistas, a condição ‘pós-socialista’ é, na verdade, uma estrutura de sentimentos ou um certo clima cético que caracteriza o estado da esquerda pós-1989.”

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.15]

Uma visão emancipatória feminista

Está nascendo um novo mundo de produção econômica e reprodução social – um mundo de emprego menos estável e de famílias mais diversas. Embora seja impossível saber ao certo qual será sua forma final, ao menos uma coisa está clara: o mundo que está nascendo, tanto quanto o mundo do salário familiar, vai exigir um Estado de bem-estar que de fato proteja as pessoas contra as incertezas.

As feministas estão em uma boa posição para criar uma visão emancipatória para o período que se avizinha. Mais do que ninguém, elas compreendem a importância das relações de gênero na atual crise do Estado de bem-estar industrial e a centralidade da equidade de gênero para qualquer solução satisfatória.

Feministas também compreendem a importância do trabalho do cuidado para o bem-estar humano e os efeitos da organização social desse trabalho para a posição social das mulheres. Por fim, feministas estão atentas aos potenciais conflitos de interesses nas famílias e à inadequação das definições androcêntricas de trabalho.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.62-63]


“Política de classe ou política de identidade? Política social ou política cultural? Igualdade ou diferença? Redistribuição ou reconhecimento? A implicação é que essas alternativas excluem umas às outras, que temos de escolher entre igualdade social ou multiculturalismo, e que redistribuição e reconhecimento não podem ser combinados. Essas alternativas, sustento, são falsas antíteses, as quais questiono ao longo deste livro.”

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.17]

A esfera pública

A ideia de “esfera pública”, no sentido habermasiano, designa um palco nas sociedades modernas em que a participação política se realiza por intermédio da fala. Trata-se de um espaço em que cidadãos e cidadãs deliberam sobre assuntos comuns, isto é, uma arena institucionalizada de interação discursiva.

Essa arena é conceitualmente distinta do Estado; é um lugar de produção e circulação de discursos que podem, em princípio, ser críticos ao Estado. A esfera pública, no sentido habermasiano, é também conceitualmente distinta da economia oficial; não é uma arena de relações de mercado, e sim uma arena de relações discursivas, um palco para debater e deliberar, e não para comprar e vender.

Por essa razão, tomo como premissa básica que algo semelhante à ideia habermasiana de esfera pública é indispensável à teoria social crítica e à prática política democrática. Parto do princípio de que nenhuma tentativa de compreender os limites das democracias realmente existentes no capitalismo tardio pode ser bem-sucedida se não utilizar de algum modo essa ideia.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.94-95]

“Teóricas e teóricos críticos devem rebater o argumento de que temos de escolher ou a política de redistribuição ou a política de reconhecimento. Em vez disso, nosso objetivo deveria ser integrá-las em um único quadro teórico abrangente. O objetivo, em resumo, deveria ser criar um outro ‘pós-socialismo’, um ‘pós-socialismo’ que incorpore, e não repudie, o melhor do socialismo.”

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.20]

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A teoria do discurso e o feminismo

Qual seria a contribuição de uma teoria do discurso para o feminismo? E o que, portanto, as feministas querem de uma teoria do discurso? Minha sugestão é que uma concepção de discurso pode nos ajudar a compreender pelo menos quatro questões inter-relacionadas.

Em primeiro lugar, uma teoria do discurso pode nos ajudar a compreender como as identidades sociais são moldadas e alteradas ao longo do tempo. Em segundo lugar, essa teoria pode nos ajudar a compreender como, sob condições de desigualdade, grupos sociais, entendidos como agentes coletivos, se formam e se desfazem. Em terceiro lugar, uma concepção de discurso pode elucidar como a hegemonia cultural de grupos dominantes é assegurada e disputada. Em quarto e último lugar, essa concepção pode lançar luz sobre as perspectivas emancipatórias de transformação social e prática política.

Uma concepção de discurso que nos permita examinar identidades, grupos e hegemonia da maneira como descrevi seria de grande valia para a prática feminista. Essa concepção valorizaria as dimensões de empoderamento nas lutas discursivas sem levar a recuos “culturalistas” em relação ao engajamento político.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.185]

“Nossa própria existência como teóricas e militantes feministas, generaliza de maneira indiferenciada a dominação masculina. Em contrapartida, o tipo de concepção que proponho nos ajudaria a compreender de que modo, mesmo em condições de subordinação, as mulheres participam da produção da cultura.”

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.185]

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Antiessencialismo e multiculturalismo pluralista

Não é coincidência que o antiessencialismo desconstrutivo e o multiculturalismo pluralista fracassem de um mesmo modo, pois os pontos fracos de ambos têm uma mesma raiz: nem um nem outro consegue unir uma política cultural de identidade e diferença a uma política social de justiça e igualdade. Nem um nem outro consegue unir as lutas por reconhecimento às lutas por redistribuição. Nem um nem outro compreende o cerne da conexão: as diferenças culturais só podem ser livremente elaboradas e democraticamente mediadas tendo como base a igualdade social.

Tanto o antiessencialismo como o multiculturalismo tentaram corrigir as falhas do feminismo da diferença, mas elas permanecem nos mesmos termos dele. Ambos se restringem ao plano da cultura, a qual discutem abstraindo das relações sociais e das estruturas sociais, inclusive a economia política. Ambos tentam elaborar uma política cultural da diferença abstraindo de uma política social de igualdade. Nem um nem outro serve de modelo para uma concepção de democracia radical que seja digna de crédito.

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.215]

“Temos de encontrar uma forma de combinar a luta por um multiculturalismo antiessencialista com a luta pela igualdade social. Só então poderemos desenvolver um modelo de democracia radical que seja digno de crédito e uma política que seja adequada à nossa época. Uma palavra de ordem promissora para esse projeto é: ‘Nenhum reconhecimento sem redistribuição’”

[JUSTIÇA INTERROMPIDA, p.222]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos uma seleção de quatro textos de apoio: duas teses de Feminismo para os 99%: um manifesto, escrito por Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, um trecho do último capítulo de Capitalismo em debate, com uma conversa entre a autora da caixa do mês e Rahel Jaeggi e um capítulo de Feminismo e política, assinado por Flávia Biroli.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya

O feminismo liberal está falido. É hora de
superá-lo

Precisamos de um feminismo anticapitalista – um feminismo para os 99%


Nancy Fraser e Rahel Jaeggi

Contestando o capitalismo


Flávia Biroli

Justiça e família

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado de Justiça interrompida, com Ana Claudia Lopes, Flávia Biroli, Nathalie Bressiani e Beatriz Rodrigues Sanchez (mediação), uma aula de introdução a Nancy Fraser com Yara Frasteschi e o debate “Manifestos: comunismo, socialismo e feminismo”, com Nancy Fraser, Bhaskar Sunkara, Osvaldo Coggiola e mediação de Daniela Mussi.

Para aprofundar…

Uma compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Podcast do PPGLM: Ep. 46 – A Filosofia Social de Nancy Fraser, com Nathalie Bressiani, jan. 2022.

Quem somos nós: As Pensadoras: Nancy Fraser, por Yara Frateschi, ago. 2021.

Ilustríssima conversa: Feminismo neoliberal deixa os 99% para trás, com Heloisa Buarque de Hollanda, jan. 2021.

Filosofia Pop: #107 – Nancy Fraser, com Laiz Fraga, out. 2020.

Somos sementes: #08 – Grandes mulheres: Nancy Fraser, com Enrico Bueno, out. 2020.

Conjectura: Conjectura 32 – Crises, injustiças e heteronomias: Nancy Fraser crítica do capitalismo, com Ivan Rodrigues, set. 2020.

Theory Pleeb: Capitalism: A conversation in critical theory [em inglês], com Nancy Fraser, jun. 2019.

Jacobin Radio: The Dig: Beyond Economism [em inglês], com Nancy Fraser, set. 2018.

Manifestos: comunismo, socialismo e feminismo, com Bhaskar Sunkara, Nancy Fraser e Osvaldo Coggiola, TV Boitempo, 2021.

Capitalismo em debate, com Pedro Paulo Zahluth, TV Boitempo, 2021.

Nancy Fraser: Feminismo para os 99%, com Beatriz Rodrigues Sanchez, FFLCH – USP, 2021.

Por um feminismo para os 99%, com Talíria Petrone, TV Boitempo, 2020.

Nancy Fraser: Marx and Feminism [em inglês], com Nancy Fraser, RosaLuxNYC, 2020.

Butler, Davis e Fraser: feminismo e democracia na contemporaneidade, com Yara Frateschi, Café Filosófico CPFL, 2019.

Critique of Capitalism, com Nancy Fraser [em inglês], The New School, 2019.

Curso As filósofas e o direito: “Nancy Fraser e usa teoria da justiça”, com Ingrid Cyfer, Canal Escola Superior do MPMA, 2017.

Nancy Fraser e o Feminismo“, por Nathalie Bressiani, Blog Mulheres na Filosofia.

“Só um radical ecossocialismo democrático pode mudar o horizonte“, por Nancy Fraser, Jacobin Brasil, out. 2021.

O que é o capitalismo?“, por Nancy Fraser, Blog da Boitempo, set. 2021.

Como um certo feminismo se converteu em empregada do capitalismo“, por Nancy Fraser, A Terra é redonda, ago. 2020.

Nancy Fraser: “O neoliberalismo não se legitima mais”, por Nádia Junqueira Ribeiro e Nathalie Bressiani, Le Monde Diplomatique, mar. 2020.

Um feminismo que visa libertar todas as mulheres deve ser anticapitalista“, por Nancy Fraser, Jacobin Brasil, nov. 2019.

Redistribuição: Nancy Fraser e a Economia Política“, por Enrico Paternostro Bueno, Civitas – Revista de Ciências Sociais, 2018.

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