Guia de leitura | ADC#9

A força da não violência
Judith Butler

Guia de leitura / Armas da crítica #09


Como a ética da não violência pode estar associada a uma luta abrangente por igualdade social?

Neste livro, Judith Butler demonstra que a não violência é erroneamente compreendida como prática passiva que emana de um lugar tranquilo da alma ou uma relação ética individualista com as formas de poder existentes. No entanto, trata-se de uma postura ética fundada no seio do campo político. Uma forma agressiva de não violência reconhece que a hostilidade é parte de nossa constituição psíquica, mas valoriza a ambivalência como modo de controlar a conversão da agressão em violência.

O esforço da não violência é, portanto, baseado em movimentos que buscam transformação social, que reformulam o direito das vidas ao luto à luz da equidade, movimentos cujas alegações éticas decorrem de uma percepção da interdependência vital como base da igualdade política e social.

Junto com o livro do mês, preparamos o livreto Judith Butler, criadora de problemas: trajetória intelectual e política, que conta com uma entrevista exclusiva da autora para a Margem Esquerda, realizada por Carla Rodrigues, Maria Lygia Quartim de Moraes e Yara Frateschi.

autor Judith Butler
tradução Heci Regina Candiani
prefácio Carla Rodrigues
orelha Helena Silvestre
edição Thais Rimkus
diagramação Natalia Aranda | Crayon Editorial
capa Alex Gyurkovicz
páginas 168

Quem é Judith Butler?

Nascida em 1956 nos EUA, Judith Butler cresceu em uma família judia e foi iniciada no pensamento filosófico aos 14 anos por um rabino da sinagoga local. Em 1984, obteve seu doutorado em filosofia na Universidade de Yale. É professora de Literatura Comparada no Departamento de Retórica da Universidade da Califórnia, em Berkley, e professora titular da cátedra Hannah Arendt na European Graduate School, na Suíça.

Teórica multidisciplinar, Butler coloca a filosofia em diálogo com a antropologia, a teoria psicanalítica, a ciência política e a sociologia. Além de transitar entre regiões, mobilizando filosofia francesa e alemã, movendo-se entre pós-estruturalismo e materialismo.

Embora tenha se tornado referência nos estudos de gênero com a publicação de Problemas de gênero, há 30 anos, Butler tem uma extensa obra na qual investiga não só a identidade e performatividade de gênero, mas também o discurso de ódio, a ética judaica e a Palestina, o poder do Estado, as dinâmicas de vida e morte, e as relações entre desigualdade e violência.

Pela Boitempo publicou Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo (2017) e agora A força da não violência (2021).

“Judith Butler é simplesmente uma das pensadoras mais afiadas, desafiadoras e influentes do nosso tempo.”

J. M. BERNSTEIN

Uma defesa radical da vida

Em A força da não violência, Judith Butler nos provoca a observar e, sobretudo, a compreender a violência a partir de um caminho diferente daquele a que fomos habituados.

Somos vulneráveis, indissociavelmente conectados, e Butler nos instiga a repensar também a noção de vulnerabilidade, associando-a à força da não violência. Uma atitude de defesa radical da vida. Conhecida por desafiar imaginações, a autora cutuca o pensamento para que este se mova, encarando as coisas de outro ponto de vista.

Esta obra oferece reflexões profundas e realmente comprometidas em convidar nossa mente a dançar outros compassos possíveis, libertos. Conecta-se com filosofias de povos nativos que morreram para salvar centenárias seringueiras, acorrentando-se a elas, defendendo a vida delas com a própria vida.

A força da não violência, ao contrário da passividade, nos impele a sair do lugar.

Helena Silvestre

Militante das lutas pela libertação de povos e territórios, editora da Revista Amazonas e autora de Notas sobre a fome, um dos finalistas do prêmio Jabuti de 2020.

“Meu trabalho sobre a não violência é um esforço para articular um imaginário antineoliberal – um imaginário no qual as relações sociais e as obrigações de cada um para com o outro sejam mais importantes do que a automaximização individual e do que as políticas de despossessão levadas a cabo pelas forças conjuntas do Estado e da economia.”

JUDITH BUTLER

Utopias atualizadas

Desde o título, A força da não violência anuncia uma contradição performativa: afirmar que há força na não violência. À primeira vista, pode parecer mais ou menos óbvio que seja ético e político negar qualquer forma de violência. Mas é disso que Butler quer escapar quando se vale do termo “força”, indicação de que pacifismo, aceitação ou resignação estão muito distantes da proposta de negação da violência.

Há força e, acrescento, há a afirmação do poder da não violência, o que nos exige pensar formas de fazer oposição à violência de Estado fora dos próprios termos da violência de Estado.

Chegamos, assim, ao que há de mais instigante no livro de Butler: a recuperação do significante utopia, que parecia gasto, abandonado ou subsumido às experiências distópicas cotidianas.

Associada às propostas de igualdade radical e solidariedade global, a utopia evocada por Butler parte da concepção de contrarrealismo e convoca a potência da imaginação, porque só a partir do exercício de imaginar outros mundos possíveis será viável viver de forma não violenta ou, dito de outro modo, será possível pensar a violência para fora do campo da violência de Estado tal qual a conhecemos.

Carla Rodrigues

Professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, assina o prefácio de A força da não violência.

“A postura ética da não violência tem de estar ligada a um compromisso com a igualdade radical. E, em termos mais específicos, a prática da não violência requer oposição às formas biopolíticas de racismo e às lógicas de guerra que fazem distinção entre as vidas que merecem defesa e as que não a merecem.”

JUDITH BUTLER


Ideal ético, político e igualitário

O ideal ético e político da não violência só pode ser compreendido em sua relação com o ideal de igualdade e a demanda pelo direito ao luto por meio de uma crítica ao individualismo.

Em A força da não violência, reflexão psicossocial e filosófica, baseada em Michel Foucault, Frantz Fanon, Sigmund Freud e Walter Benjamin, Butler argumenta que, na atualidade, opor‑se à violência exige a compreensão de suas diferentes modalidades, entre elas, a regulação do direito ao luto.

A autora mostra como “fantasmas raciais e demográficos” se integram à lógica de imposição da violência pelo Estado e outras modalidades do “deixar morrer”, infligindo a violência às pessoas mais expostas a seus efeitos e submetidas a seus poderes letais.

A luta pela não violência é baseada em modos de resistência e movimentos a favor da transformação social que diferenciam a agressão de seus objetivos destrutivos a fim de afirmar os potenciais vivos da política igualitária radical.

“Às vezes, o argumento a favor da violência é apenas que se trata de um meio para alcançar um fim. Então a pergunta é: a violência pode permanecer mero instrumento ou meio para acabar com a violência – suas estruturas, seu regime – sem se tornar um fim em si mesma?.”

JUDITH BUTLER


Um compromisso permanente

A não violência talvez seja mais bem descrita como uma prática de resistência que se torna possível, se não obrigatória, precisamente no momento em que a perpetração da violência parece ser o mais justificável e óbvio.

Desse modo, a não violência pode ser compreendida como uma prática que não apenas impede um ato ou processo violento, mas que exige uma forma de ação constante, às vezes agressiva.

Portanto, uma sugestão que apresentarei é que podemos pensar a não violência não apenas como a ausência de violência, ou o ato de se abster de cometer violência, mas também como um compromisso permanente. Ou mesmo como um modo de redirecionar a agressão com o propósito de afirmar os ideais de igualdade e liberdade.

[A FORÇA DA NÃO VIOLÊNCIA, p.37]

“Sempre e em qualquer medida que houver espaço para o uso de armas, força
física ou força bruta, ali e na mesma medida haverá muito menos possibilidade
para a força da alma.”

MAHATMA GANDHI

A vida de outrem

Proponho uma questão relativamente simples, que de imediato poderíamos identificar como parte da psicologia moral, ou talvez da filosofia moral: o que nos leva a tentar preservar a vida de outrem?

É evidente que os debates sobre a preservação da vida, assim como aqueles sobre liberdade reprodutiva e tecnologia, cuidados com a saúde, leis e prisões, têm influência sobre a ética médica. Embora eu não vá entrar aqui nos detalhes desses debates, espero que parte de minha argumentação tenha impacto sobre o modo como os iniciamos.

E, mais que isso, quero apontar uma característica desses debates que diz respeito a quando e onde a preservação da vida é evocada: invariavelmente fazemos suposições sobre o que conta como vida. Essas suposições não incluem apenas quando e onde começa a vida ou como deve terminar, mas também, talvez, em outro registro, a quem pertence a vida que conta como vida.


[A FORÇA DA NÃO VIOLÊNCIA, p.65]

“Hoje a escolha não é mais entre a violência e a não violência. É entre a não
violência
ou a não existência.”

MARTIN LUTHER KING JR.

O que nos motiva a preservar a vida?

Para compreender as formas tácitas e até inconscientes de racismo que estruturam o discurso estatal e público sobre violência e não violência, volto-me para Michel Foucault e Frantz Fanon e o que podemos chamar de “fantasmas populacionais” e “fantasmas raciais”.

Étienne Balibar e Walter Benjamin, lidos em conjunto, nos oferecem um caminho para compreender os múltiplos sentidos de “violência” e o ritmo complexo com o qual a violência do Estado ou de outros poderes reguladores nomeia como “violento” aquilo que se opõe à sua própria legitimidade, de modo que essa prática de nomeação se torna uma maneira de promover e dissimular sua própria violência.

Podemos nos perguntar o que nos impede de matar, mas também o que nos motiva a procurar caminhos éticos e políticos que busquem ativamente, sempre que possível, preservar a vida. Que façamos essas perguntas sobre os outros como indivíduos, grupos específicos ou totalidade possível é muito importante, pois aquilo que admitimos como certo sobre a natureza dos indivíduos e dos grupos, ou mesmo as ideias de humanidade que evocamos em tais discussões condiciona nossas visões sobre quais vidas merecerem ser preservadas e quais não, bem como o que define e limita as ideias vigentes de humanidade.

[A FORÇA DA NÃO VIOLÊNCIA, p.89-90]

“O legado (da não violência) não é um legado individual, mas um legado coletivo de uma ampla população que se mantém unida, coesa, para afirmar que nunca se renderá às forças do racismo e da desigualdade.”

ANGELA DAVIS

Vulnerabilidade e resistência

A vulnerabilidade não precisa ser identificada exclusivamente como passividade; ela só faz sentido à luz de um conjunto concreto de relações sociais, incluindo práticas de resistência.

Uma visão da vulnerabilidade como parte das relações e das ações sociais concretas pode nos ajudar a compreender como e por que as formas de resistência surgem da maneira que surgem.

Embora a dominação não seja sempre seguida de resistência, se nossos quadros referenciais de poder não conseguirem entender que vulnerabilidade e resistência podem funcionar juntas, corremos o risco de não identificarmos os pontos de resistência criados pela vulnerabilidade.

[A FORÇA DA NÃO VIOLÊNCIA, p.148]

“O conceito político de autopreservação, usado com frequência na defesa da ação violenta, não leva em consideração que a preservação do eu necessita da preservação da Terra e que não estamos “no” meio ambiente global como seres que subsistem sozinhos, que só subsistiremos enquanto o planeta subsistir. O que é verdadeiro para seres humanos é verdadeiro para todas as outras criaturas vivas que necessitam de solo saudável e água potável para continuar a vida”

JUDITH BUTLER


Perseverança em meio ao luto e à ira

Não temos de amar uns aos outros para nos engajarmos em uma solidariedade significativa. O surgimento de uma capacidade crítica, da crítica em si, está associado à preciosa e contrariada relação de solidariedade, em que nossos “sentimentos” navegam na ambivalência que os constitui. Sempre podemos desmoronar, por isso lutamos para permanecer juntos.

Só assim temos a chance de persistir em um denominador comum crítico: quando a não violência se torna o desejo pelo desejo do outro de viver, uma maneira de dizer: “Você é enlutável, perder você é intolerável, quero que você viva, quero que você queira viver, por isso tome meu desejo como seu desejo, pois o seu desejo já é o meu”. O “eu” não é você, mas é inconcebível “sem você” – sem mundo, insustentável.

Por isso, tomados de ira ou de amor – amor furioso, pacifismo militante, não violência agressiva, persistência radical –, esperamos viver esse vínculo de maneira que nos permita viver com os vivos, conscientes dos mortos, manifestando perseverança em meio ao luto e à ira, a trajetória instável e controversa da ação coletiva à sombra da fatalidade.

[A FORÇA DA NÃO VIOLÊNCIA, p. 155]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos uma seleção de três textos de apoio: uma entrevista de Butler à Margem Esquerda, um capítulo de seu livro Caminhos divergentes e um capítulo de Violência, de Slavoj Žižek .

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Judith Butler

Entrevista à Margem Esquerda


Judith Butler

Walter Benjamin e a crítica da violência


Slavoj Žižek

SOS violência

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado de A força da não violência, com Carla Rodrigues, Helena Silvestre e Marília Moschkovich, uma aula de introdução à obra de Judith Butler por Carla Rodrigues, uma apresentação do livro do mês por Helena Silvestre e a própria Butler comentando sobre seu conceito de não violência.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo, de Judith Butler

Margem Esquerda #33 – Dossiê: Marxismo e lutas LGBT

Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?, de Judith Butler (Civilização Brasileira)

A vida psíquica do poder: teorias da sujeição, de Judith Butler (Autêntica)

Vida precária: os poderes do luto e da violência, de Judith Butler (Autêntica)

Relatar a si mesmo: crítica da violência ética, de Judith Butler (Autêntica)

Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, de Judith Butler (Civilização Brasileira)

Violência: seis reflexões laterais, de Slavoj Žižek

Camarada, de Jodi Dean

Escritos políticos, de Frantz Fanon

Raça, nação e classe: as identidades ambíguas, de Étienne Balibar e Immanuel Wallerstein

Transmissão: Judith Butler, padrões de gênero e liberdade de corpos, com Judith Butler, Linn da Quebrada e Jup do Bairro [em inglês], jun. 2021.

La Poudre: Episódio 90 – Não-violência, com Judith Butler [em inglês], março 2021.

Matéria Bruta: O pensamento de Judith Butler, com Carla Rodrigues, set. 2020.

Campo, um podcast de antropologia: Judith Butler, set. 2020.

Bay Area Book Festival Podcast: A necessidade radical da não violência, com Judith Butler [em inglês], out. 2020.

Centro de Estudos Hannah Arendt (USP): Diálogos Arendtianos | A influência de Hannah Arendt nas teorias de Judith Butler, out. 2020.

Politics Theory Other: #80 – A força da não violência, com Judith Butler [em inglês], março 2020.

Filosofia Pop: #073 – Judith Butler, com Carla Rodrigues, jul.2019.

Judith Butler e a filosofia da não violência, com Carla Rodrigues, TV Boitempo, 2021.

Violência, Luto e Precariedade: da biopolítica à necropolítica a partir de Judith Butler, com Carla Rodrigues e Maiquel Dezordi Wermuth, Núcleo de Estudos do Comum, 2021.

A força da não violência, com Judith Butler e Amia Srinivasan [em inglês], Whitechapel Gallery, 2020.

Judith Butler por Carla Rodrigues: As Pensadoras,
Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, ago.2020.

Judith Butler no Brasil | Quem tem medo de falar sobre gênero?, TV Boitempo, 2019.

Judith Butler no Brasil | Reflexão acadêmica e militância política, TV Boitempo, 2019.

Judith Butler: Relatar a si mesmo: crítica da violência ética, com Jacqueline Moares Teixeira, LabNAU-USP, 2019.

A Teoria Queer, com Judith Butler, SESC São Paulo, 2019.

Caminhos divergentes | Conferência completa, com Judith Butler, TV Boitempo, 2017.

“Judith Butler: pensar formas de reivindicar a vida”, por João Cavalcante e Renato Contente, Suplemento Pernambuco, jul. 2021.

O futuro da pandemia“, por Judith Butler, Blog da Boitempo, maio 2021.

Judith Butler“, por Carla Rodrigues, Blog Mulheres na Filosofia, 2020.

“Judith Butler reivindica a não-violência ativa“, por Donatella Di Cesare, Outras Palavras, out. 2020.

“De quem são as vidas consideradas choráveis em nosso mundo público?”, por Judith Butler, El País, jul. 2020.

Judith Butler: a violência da negligência“, por Francis Wade, Carta Maior, maio 2020.

“Judith Butler defende a não violência agressiva em novo livro“, Instituto Humanitas Unisinos, fev. 2020.

Judith Butler: “Matar é o ápice da desigualdade social”, Instituto Humanitas Unisinos, nov. 2018.

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