Guia de leitura | ADC#7

Escritos políticos
Frantz Fanon

Guia de leitura / Armas da crítica #07

A caixa de maio traz uma potente tradução inédita no Brasil feita diretamente do original em francês.

Em Escritos políticos, uma seleção de artigos jornalísticos de Frantz Fanon, acompanhamos o cotidiano do colonialismo francês na Argélia, o desenvolvimento da luta de libertação nacional do povo argelino e a formação do movimento internacional dos países colonizados e do terceiro mundo em meados do século XX.

Com uma prosa vigorosa, cortante e poética, os artigos reunidos nesta obra trazem ao leitor os desdobramentos teóricos ocorridos em uma fase decisiva do pensamento de Fanon, além de revelarem seu trabalho de agitação política e sua visão estratégica a respeito de conflitos de grande escala, que abririam um horizonte de cura revolucionária para a alienação da humanidade. 

autor Frantz Fanon
tradução Monica Stahel
orelha Renata Gonçalves
introdução Jean Khalfa
prefácio Deivison Mendes Faustino
capa e xilogravuras Edson Ikê
diagramação Antonio Kehl
apoio Instituto Francês
páginas 160

Quem foi Frantz Fanon?

Frantz Omar Fanon (1925-1961) foi um dos mais importantes pensadores e revolucionários do século XX. Nascido na Martinica, então colônia Francesa, formou-se em medicina e psiquiatria antes de tomar parte na guerra de independência argelina, nas fileiras da Frente de Libertação Nacional, onde atuou como organizador, jornalista, médico, embaixador.

Autor de obras geniais como Pele negra, máscaras brancas e Os condenados da terra, é hoje reverenciado no mundo todo como um dos principais intelectuais do terceiro-mundismo, do pan-africanismo, do anticolonialismo e do marxismo periférico.

“Frantz Fanon é o mais arrebatador teórico do racismo e do colonialismo deste século.”

ANGELA DAVIS


A centralidade do colonialismo para o capital

A originalidade de Frantz Fanon está, em primeiro lugar, em evidenciar os elementos psíquicos, ideológicos e subjetivos que compõem a violência objetiva da dominação e exploração colonial, mas, acima de tudo, a centralidade do colonialismo para o movimento desigual e combinado de universalização do capital.

Se Karl Marx reconheceu a importância do colonialismo para a acumulação primitiva de capital, Fanon, que foi testemunha ocular da colonização empreendida pelo capital monopolista e, sobretudo, do neocolonialismo, se colocou do lado da análise histórica dissonante de Rosa Luxemburgo para argumentar que as conquistas coloniais de povos não europeus e a consequente subordinação de sua sociabilidade ao modo de produção capitalista tiveram como função não apenas a universalização do capital, mas também a criação de zonas “externas” de transferência das principais contradições capitalistas para a sua periferia, permitindo, assim, uma “gestão” domesticada da luta de classes nos centros.

Deivison Mendes Faustino (Nkosi)

Sociólogo, pós-doutorando no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal de São Paulo.

Fanon é o primeiro desde Engels a repor claramente em cena os processos da história.

E não se creia que um sangue demasiado ardente ou alguma desventura da infância lhe tenha dado qualquer gosto peculiar pela violência: ele se faz intérprete da situação, nada mais.

Mas isso já basta para que ele reconstitua, etapa por etapa, a dialética que a hipocrisia liberal oculta de nós e que nos produziu tanto quanto a ele.”

JEAN-PAUL SARTRE

Tomar para si a própria história

Escritos políticos é uma obra intensa e bela. Explicita as mazelas da colonização, mas especialmente a força da resistência anticolonial. A seleção de textos de Franz Fanon nos convida a uma imersão na luta pela libertação da Argélia, apresentando o fio condutor de sua reflexão.

A obra revela um Fanon profundamente envolvido na luta contra o colonialismo francês. A desumanização imposta aos argelinos é respondida com a radicalidade da luta pela independência. Os artigos sinalizam uma produção intelectual intrinsecamente ligada à vivência revolucionária. Essa é uma das maiores riquezas dos textos aqui reunidos. Uma perfeita “análise concreta da situação concreta”.

Este livro é sobre a história de uma revolução que culminou na vitória do povo argelino. É inspirador ler sobre um povo tomando para si a própria história. Fanon se transforma enquanto edifica o combate contra o opressor. A contribuição do autor para nossa luta como povo negro, em África ou em Diáspora, é inquestionável.

Talíria Petrone

Historiadora, mestra em serviço social e deputada federal pelo PSOL. Autora de (Re)nascer em tempos de pandemia e do prefácio à edição brasileira de Feminismo para os 99%: um manifesto.

“A revolução é essencialmente inimiga de meias medidas. O processo revolucionário é irreversível e inexorável, o senso político ordena que não se obstrua sua marcha!”

FRANTZ FANON

A insistência nos processos vitais da desalienação

O núcleo de Escritos políticos é uma seleção de artigos da edição francesa de El Moudjahid, jornal da Frente de Libertação Nacional (FLN) publicado em Túnis e do qual Fanon foi colaborador
de 1957 a 1960.

Será fácil encontrar em Escritos políticos, em muitos momentos, seu estilo, sua insistência nos processos vitais atuantes em toda desalienação, seu interesse por uma consciência que só se forja libertando-se das identidades do passado, mas também revisitando-as, sua preocupação em prevenir a ossificação das estruturas evolucionárias e o neocolonialismo, e sua crença numa dimensão propriamente revolucionária do movimento nacional argelino.

Jean Khalfa

Professor na Universidade de Cambridge, especialista em história da filosofia e literatura moderna.

“O anticolonialismo de um africano, mesmo que já independente, não […] pode ser reduzido a uma tomada de posição moral. Cada africano é um soldado anticolonialista, e bem sabemos que, em determinadas circunstâncias, não temos a escolha das armas. O anticolonialismo do africano é um anticolonialismo de luta e não uma repartição da consciência étnica – os colonialistas belgas, ingleses ou franceses precisam habituar-se a ver em cada africano um inimigo renhido de sua dominação na África.”

[ESCRITOS POLÍTICOS, p.120]

A “redescoberta” da atualidade de Fanon

Com a derrota dos movimentos terceiro-mundistas, os descaminhos das revoluções de libertação nacional (que deram origem, na maioria dos casos, a regimes sem caráter emancipatório e de gestão neocolonial) e o fim do “campo socialista”, a obra de Fanon perde o impacto político de outrora, passando depois a ser valorizada na universidade pelo prisma dos estudos culturais e da crítica pós-colonial.

Mais recentemente, com a falência da promessa neoliberal e a intensificação das lutas na periferia do sistema capitalista, ocorre uma “redescoberta” da obra fanoniana, que prioriza a integridade de seu pensamento e seus aportes fundamentais e atuais para pensar a luta antirracista, anticolonial e anticapitalista no século XXI.

Jones Manoel

Historiador, mestre em serviço social, organizador Colonialismo e luta anticolonial: desafios da revolução no século XXI , de Domenico Losurdo, e colunista do Blog da Boitempo.

“A reconquista da soberania nacional argelina não será apenas uma vitória argelina, mas uma vitória africana, um triunfo asiático, um passo rumo à realização de uma humanidade livre e feliz. O colonialismo francês, pressionado pelas tenazes de nossa vontade comum, é levado em ritmo acelerado a travar combates de retaguarda, todos fadados ao fracasso.”

[ESCRITOS POLÍTICOS, p.127]

A refundação radical da sociabilidade

A obra fanoniana é perpassada pelo problema político e por questões de reconhecimento na busca de uma apreensão mais ampla das totalidades que performam a situação colonial.

Fanon compreende que a única forma de se vencer a situação colonial é por meio de sua completa destruição. Somente se refundando radicalmente as bases da sociabilidade humana poderá o homem se desalienar.

Para tanto Fanon vê o uso da violência revolucionária, tanto física como simbólica, bem como as adaptações e inovações dos usos da linguagem do colonizador pelo colonizado como vias para se romper a mumificação da cultura. O próprio processo já é em si uma catarse coletiva que principia a renovação de indivíduos e coletividades e propicia o surgimento de um novo homem.

João Carvalho

Mestre em história social pela USP, doutorando em história social da cultura pela UFMG e educador popular.

“A resistência argelina é um fogo que não se pode apagar porque é ininterruptamente alimentado pela chama contagiosa da revolução anti-imperialista. É assim que se revela sob seu aspecto de trágico absurdo o esforço desmedido da França para derrotar nossa luta. Não basta cobrir um país de blindados, tanques e soldados para fazer fracassar nele a maré montante da história.”

[ESCRITOS POLÍTICOS, p.78]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos três textos de apoio, de Angela Davis, Silvio Almeida e Vladimir Safatle, e um álbum de imagens com uma espiadia nos bastidores da confecção das gravuras do livro, feitas por Edson Ikê.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Angela Davis

Solidariedades transnacionais


Silvio Almeida

Legalidade e violência: Sartre leitor de Fanon


Vladimir Safatle

Do uso da violência contra o Estado ilegal


Edson Ikê

[Bastidores: Gravuras de capa e miolo]

Vídeos

Este mês trazemos a apresentação de Escritos políticos feita por Deivison Faustino para os leitores do Armas da Crítica, o debate Marx, Fanon e o anticolonialismo revolucionário, com Jones Manoel e Priscilla Santos, uma introdução à vida de Fanon feita por Jones Manoel e outra à obra, feita por Deivison Faustino.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Pele negra, máscaras brancas (Ubu), de Frantz Fanon

Alienação e liberdade: escritos psiquiátricos (Ubu), de Frantz Fanon

Por uma revolução africana: textos políticos (Companhia das Letras), de Frantz Fanon

Frantz Fanon: um revolucionário particularmente negro (Ciclo Continuo), de Deivison Fasutino

A disputa em torno de Frantz Fanon: a teoria e a política dos fanonismos contemporâneos (Intermeios), de Deivison Faustino

Revolução Africana: uma Antologia do Pensamento Marxista (Autonomia Literária), organização de Jones Manoel e Gabriel Landi

Colonialismo e luta anticolonial: desafios da revolução no século XXI, de Domenico Losurdo

Marxismo e questão racial, organização de Silvio Luiz De Almeida

Diáspora a cor da nossa cultura: Quem foi Frantz Fanon?, com N’Kinpa – Núcleo de Culturas Negras e Periféricas, 2021.

Guilhotina: #61 – Deivison Nkosi, fev. 2020

Lado Black: #62 – Frantz Fanon”, com Luiza Braga, Rafael Chino, John Razen, Pedro Maciel e Deivison Nkosi, 2020

Revolushow: #94 – “Pele Negra, Máscaras Brancas”, com João Carvalho, Jones Manoel e Deivison Faustino, nov. 2020.

LabExperimental: n.001 – Introdução ao pensamento de Frantz Fanon, com Deivison Faustino, out.2019.

Frantz Fanon e a psicanálise, com Priscilla Santos e Deivison Nkosi, Companhia das Letras, 2020.

Frantz Fanon: Um breve guia de leitura, com João Carvalho, Assim disse João, 2020.

Colonialismo e Frantz Fanon, com Christian Dunker, Falando nisso, 2020.

Frantz Fanon e a dialética da violência, com Renato Noguera, UBU TV, 2020.

O humanismo radical de Frantz Fanon, com Jones Manoel, Jones Manoel, 2020.

Sobre a violência: Frantz Fanon e a política como subversão, com Deivison Nkosi, STI FFLCH USP.

“A psicopatologia do tecido social em Frantz Fanon: a dupla negação da identidade e da alteridade“, por João Carvalho, Blog Boitempo, 2020.

A humanidade partida: reflexões fanonianas sobre a pandemia”, por Jones Manoel, Blog da Boitempo, 2020.

A psiquiatria de Fanon“, por Deivison Faustino, Quatro Cinco Um, 2020.

Exorcismo revolucionário“, de Renato Noguera, Quatro Cinco Um, 2020.

Por um Fanon revolucionário“, por João Carvalho, Blog da Boitempo, 2019.

O dia em que Frantz Fanon encontrou um ‘marxista puro'”, por Jones Manoel, Blog da Boitempo, 2019.

Frantz Fanon, racismo e pensamento descolonial“, por Dennis de Oliveira, Revista Cult, 2018.

Frantz Fanon, uma voz dos oprimidos“, por Anne Mathieu, Le Monde Diplomatique, 2009.

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