Guia de leitura | ADC#6

Marx: uma introdução
Jorge Grespan
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Margem Esquerda: Capitalismo digital

Guia de leitura / Armas da crítica #06

A caixa de abril traz duas publicações de peso para pensar (e transformar) o mundo contemporâneo.

Em Marx: uma Introdução Jorge Grespan introduz a crítica de Marx à sociedade burguesa, seus mecanismos, representações e instituições. Conceitos centrais da teoria marxiana são mobilizados para desmistificar a aparente normalidade do capitalismo contemporâneo. Em 6 capítulos, temas como alienação, mercadoria, fetichismo, capital e revolução são expostos em linguagem acessível, sem prejuízo de sua complexidade. A partir do encadeamento lógico dos conceitos utilizados por Marx, Grespan apresenta o núcleo de sua crítica à sociedade capitalista, destacando a atualidade do autor para o entendimento das transformações do capitalismo.

autor Jorge Grespan
orelha Ricardo Antunes
capa Maikon Nery
edição Pedro Davoglio
páginas 104

A edição mais recente da revista da Boitempo chega em primeira mão para os assinantes do Armas da crítica com um dossiê de fôlego sobre as tendências de exploração e dominação do capitalismo contemporâneo digitalizado. A Margem Esquerda deste semestre também traz uma entrevista exclusiva com Pepe Mujica, artigos que se debruçam sobre a conjuntura latino-americana, tradução inédita de Lukács, ensaio de Michael Löwy sobre o manifesto das mulheres na Comuna de Paris e muito mais…

autores Jodi Dean, Evgeny Morozov, Ludmila Abílio, Michael Löwy, José Paulo Netto, Michael Löwy, Amanda Jurno, João Peschanski, Sergio Amadeu, Rafael Grohmann, Taylisi Leite, Fabio Querido, entre outros
entrevista Pepe Mujica
imagens Guto Lacaz
edição Artur Renzo e Ivana Jinkings
páginas 168

Quem é Jorge Grespan?

Amplamente considerado um dos maiores estudiosos brasileiros de Marx na atualidade, Jorge Grespan nasceu em Porto Alegre, em 1959. Graduado em economia (1980) e em história (1982) pela Universidade de São Paulo (USP), fez doutorado em filosofia na Universidade Estadual de Campinas (1994) e pós-doutorado na Universidade Livre de Berlim (1996).

É professor titular do Departamento de História da USP e autor de O negativo do capital (Hucitec, 1998; Expressão Popular, 2012), Iluminismo e revolução francesa (Contexto, 2003) e o mais recente Marx e a crítica do modo de representação capitalista (Boitempo, 2019). Colaborador da revista Margem Esquerda, Grespan também assina um dos capítulos do livro Curso Livre Marx-Engels (Boitempo, 2015), organizado por José Paulo Netto.

“O objetivo de Marx era desmascarar a pretensa normalidade de que se revestem até mesmo os fenômenos mais insuspeitos e contraditórios da sociedade moderna.

Além de descritiva e explicativa, sua obra é uma teoria crítica do capitalismo que revela a contradição profunda na base desse sistema, isto é, a correlação entre sua dimensão positiva e sua dimensão negativa.”

JORGE GRESPAN

Uma incomum conjugação

Não é fácil escrever uma introdução a Marx, autor tão marcante que, como nenhum outro, descortinou as tantas e tão agudas contradições que se desenvolveram com o capitalismo. Escritor que manejava filosofia, economia política, teoria social, análise política e literatura (chegando a flertar com as ciências exatas) e que era capaz de ler esse conjunto imenso de obras clássicas quase sempre em suas línguas originais. Como consequência desse incomensurável labor intelectual, floresceu um empreendimento verdadeiramente monumental: a crítica da economia política, que encontrou sua síntese maior em O capital.

Grespan pode escrever esta introdução porque, sendo um profundo conhecedor da obra de Marx, é capaz de indicar nos Livros II e III de O capital (publicados depois da morte do autor) o que é próprio da escrita marxiana e o que devemos ao contributo engelsiano, que foi vital para que os dois volumes inacabados pudessem ser finalmente publicados.

Assim, seu livro realiza uma feliz e incomum conjunção entre densidade, rigor e clareza, típicos de um pesquisador que mergulhou na interioridade da ópera de Marx.

Ricardo Antunes

Professor titular de sociologia da Unicamp e coordenador da coleção Mundo do Trabalho da Boitempo.

“O capital não tem controle total sobre as condições que cria para se reproduzir e ampliar.

Nos momentos em que suas contradições irrompem em crises, abre-se uma chance para a transformação radical do mundo.”

[MARX: UMA INTRODUÇÃO, p.64]

A crítica da sociedade burguesa

Apesar do grande debate no século XX sobre as diferenças entre os textos redigidos na juventude e na maturidade, debate cujo pormenor não cabe aqui reconstituir, é possível afirmar com segurança que o conjunto da obra de Marx persegue um eixo central que lhe confere unidade: a crítica da sociedade burguesa. Na longa trajetória de Marx como intelectual e militante, esse sempre foi o alvo de sua teoria e prática. Marx desenvolve de maneira acabada sua crítica radical no conceito de fetichismo e também nos conceitos de ideologia, de crise e revolução. Contudo, é preciso lembrar que, como a vida, seu pensamento e suas elaborações conceituais não são estanques. Muito ao contrário, ganham força e profundidade com as mudanças de enfoque e correções de rota que Marx, por vezes, precisou adotar.

[MARX: UMA INTRODUÇÃO, p.14]

“[…] os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o cérebro dos vivos”.

KARL MARX

[O 18 DE BRUMÁRIO DE LUÍS BONAPARTE, p.25]

A verdadeira revolução social

Para Marx, a redistribuição completa dos meios de produção define a verdadeira revolução social e marca a transição de uma época histórica para outra. O que está em jogo é o surgimento de novas relações de produção, mais do que a mera ascensão de uma classe ao poder político. Contudo, a revolução das relações sociais depende não apenas da luta das classes, mas também de transformações no próprio modo de produzir, isto é, nos métodos e na organização do processo de trabalho, que Marx chama de “forças produtivas”.

A transformação nas forças produtivas altera constantemente os próprios meios de produção, introduzindo ferramentas e técnicas que podem criar a necessidade de alterar também sua distribuição entre as classes sociais, de modo a impor novos conflitos entre elas. Esse nexo entre as relações sociais de produção e as forças produtivas é a base da concepção geral da história que Marx delineou com Engels em sua juventude, mas que não chegou a ser desenvolvida, aparecendo apenas como pressuposto da crítica da economia política.

[MARX: UMA INTRODUÇÃO, p.14]

“Marx propõe que o elemento propulsor da vida social em todas as sociedades divididas em classes ao longo da história tem sido a oposição e a luta entre essas classes, luta que nenhuma conciliação política pode eliminar definitivamente, apenas atenuar ou mascarar.”

[MARX: UMA INTRODUÇÃO, p.78]

O feitiço da mercadoria

No capitalismo, as relações sociais não se apresentam como vínculo entre pessoas, e sim como vínculo entre coisas, assumindo as qualidades objetivas das coisas, especialmente sua aparência de força externa ao mundo humano, de realidade natural e eterna. Essa força parece dividir o trabalho entre os produtores e criar as necessidades e os desejos dos consumidores, ao mesmo tempo em que mantém intocáveis instituições como a propriedade privada. A naturalidade intrínseca às coisas obscurece o caráter histórico do capitalismo e, assim, contribui muito para sua aceitação e manutenção.

Contudo, a palavra “fetichismo” é empregada por Marx para indicar mais exatamente o reverso dessa situação: não só as relações entre as pessoas adquirem atributos objetivos, mas também as coisas passam a se revestir de qualidades subjetivas. “Fetiche” vem de “feitiço” e designa algo enfeitiçado, algo inanimado que se move como se estivesse vivo e ao qual se atribui um poder misterioso. Ao usar esse termo, Marx não quer dizer que as mercadorias podem ir ao mercado por conta própria, e sim que o padrão pelo qual elas são trocadas é, aparentemente, seu valor de uso, suas qualidades materiais inerentes. É como se essa materialidade presidisse as relações sociais de troca, como se o valor de troca fosse determinado pelo valor de uso e não pela sociabilidade do trabalho.

Por isso, enquanto as relações humanas se coisificam, as relações entre as coisas adquirem subjetividade, e expressões como o “mercado está nervoso” ou “está calmo” tornam-se lugar-comum nos meios de comunicação.

[MARX: UMA INTRODUÇÃO, p. 44-45]

“A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios da produção espiritual […]. Os indivíduos que compõem a classe dominante […] regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo.”

KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS

[A IDEOLOGIA ALEMÃ, p.47]

Ilusão real

Na história do capitalismo, o próprio andamento dos fatos ajuda a confundir causa com efeito, essencial com acessório. Nas crises, por exemplo, sempre há quem diga que ocorre um mero desequilíbrio associado ao exagero da especulação, aos excessos do gasto público e privado e até ao problema moral da ganância descontrolada de alguns indivíduos. Em linhas gerais, o desequilíbrio remeteria à desproporção entre a massa da riqueza real e a do dinheiro que a representa. Marx já conhecia esses pontos de vista. Ele os corrige, evidentemente, demonstrando que o que se define aí como a própria crise não passa de sintoma, de mero efeito; que a dimensão financeira e creditícia do sistema apenas manifesta a dimensão em que o capital produz e é produzido.

Contudo, o que transparece em tais pontos de vista não é um simples erro, e sim mais um caso em que se “representa realmente algo, sem se representar algo real”, nos termos claros de A ideologia alemã. Nesse quiproquó encontra-se uma chave para penetrar no modo pelo qual o capital engendra as formas que tornam os agentes econômicos até certo ponto conscientes do que fazem e, assim, capazes de reproduzir com eficácia o sistema em que vivem.

[MARX E A CRÍTICA DO MODO DE REPRESENTAÇÃO CAPITALISTA, p. 9-10]

“O capital é trabalho morto, que, como um vampiro, vive apenas da sucção de trabalho vivo, e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo ele suga”

KARL MARX

[O CAPITAL, LIVRO I, p. 307]

Pós-capitalismo

Como ficaria o valor, o mais-valor e o lucro em uma sociedade pós-capitalista? Por definição, não haveria mais nada disso. Contudo, Marx nunca teorizou diretamente sobre o mundo depois do capitalismo, mas deixou algumas pistas para que pudéssemos imaginar. Existiria um excedente econômico, como em toda sociedade, pois uma provisão para eventuais problemas é necessária. Mas esse excedente não teria a forma de mais-valor, porque não existiria, já que é própria a uma sociedade em que as esferas social e privada se opõem devido à presença da propriedade dos meios de produção.

Em um mundo pós-capitalista, o excedente seria de produto imediatamente social, não mediado pela propriedade privada. Ou seja, a produção ficaria organizada de tal maneira que os produtos do trabalho seriam imediatamente socializados, enquanto, no capitalismo, são apropriados imediatamente pelo proprietário privado e só mediante sua troca por outros produtos privados é que são socializados. É essa mediação privada que está por trás do conceito de “fetiche” da mercadoria em Marx. No mundo pós-capitalista, não haveria mediação: a relação social seria direta, o trabalho apareceria de modo imediatamente social. Marx diz, por isso, que essa sociedade seria “transparente”.”

[JORGE GRESPAN]

“O comunismo não é […] um estado de coisas que deve ser instaurado, um Ideal para o qual a realidade deverá se direcionar. Chamamos de comunismo o movimento real que supera o estado de coisas atual.

As condições desse movimento […]
resultam dos pressupostos atualmente existentes..”

KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS

[A IDEOLOGIA ALEMÃ, p.38]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos dois textos clássicos de Karl Marx e um par de textos de apoio do próprio Jorge Grespan.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Karl Marx

Ad Feuerbach


Karl Marx

Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução (1844)


Jorge Grespan

Crítica da economia política, por Karl Marx


Jorge Grespan

Marx: começando pelo final

Vídeos

Este mês trazemos uma aula aberta de Jorge Grespan sobre “Como começar a ler Marx”, e uma série completa conduzida por ele na TV Boitempo sobre a atualidade de Marx e o problema da representação capitalista. Além disso, ele gravou um vídeo especialmente para nosso Clube do Livro apresentando o livro do mês e falando um pouco dos bastidores da escrita de Karl Marx: uma introdução!

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Armas da Crítica: CB#7 A crítica da economia política em Marx, com Jorge Grespan, abril 2019.

Revista de História – USP, O século XVIII iluminista: revolução e crítica, entrevista com Jorge Grespan, set. 2020.

Perfis da História n.4: O historiador é a memória da sociedade, entrevista com Jorge Grespan, nov. 2020.

Tutaméia entrevista Jorge Grespan, com Eleonora e Rodolfo Lucena, Tutaméia, maio 2020.

Entrevista com Jorge Grespan, Revista Escrita da História, abril 2020.

A estrutura e o sentido do Livro III de O capital de Karl Marx, com Jorge Grespan, Instituto de Estudos Avançados da USP, 21 nov. 2019.

Quem tem medo de Karl Marx?, com Jorge Grespan, Silvio Almeida, Esther Solano e Renata Souza, Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, maio 2019.

Curso: O capital, de Marx – Leis tendenciais, acumulação e crise, TV Boitempo, com Jorge Grespan, 2019.

Depois de tantas derrotas, o legado de Marx ainda existe? Especialistas respondem“, Aventuras na História, março 2020.

Gabriel Cohn sobre “Marx e a críticas do modo de representação capitalista”, de Jorge Grespan, Blog Boitempo, 2019.

Resenha de “Marx e a crítica do modo de representação capitalista”, de Jorge Grespan por Bruna Della Torre, Boletim Lua Nova, 2019.

Máscaras de Marx“, por Jorge Grespan, Revista Cult.

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