Guia de leitura | ADC#5

Raça, nação, classe: as identidades ambíguas

Étienne Balibar e Immanuel Wallerstein

Guia de leitura / Armas da crítica #05

Quarenta anos após a derrota do nazismo e vinte anos após a grande onda de descolonização, como é possível que o racismo ainda seja um fenômeno crescente? Quais são as características especiais do racismo contemporâneo? Como ele pode ser relacionado às divisões de classe e às contradições do Estado-nação? E até que ponto, por sua vez, o racismo hoje nos obriga a repensar a relação entre lutas de classes e nacionalismo? Este livro tenta responder a essas perguntas fundamentais por meio de um notável diálogo entre dois gigantes do pensamento crítico contemporâneo.

Ambos os autores desafiam a noção de que o racismo é uma continuação ou um retorno da xenofobia de sociedades e comunidades do passado. Eles o analisam como uma relação social indissoluvelmente ligada às estruturas sociais atuais – o Estado-nação, a divisão do trabalho e a divisão entre centro e periferia – que estão sendo constantemente reconstruídas. Apesar de suas divergências produtivas, Balibar e Wallerstein enfatizam a modernidade do racismo e a necessidade de entender sua relação com o capitalismo contemporâneo e a luta de classes. Acima de tudo, seu diálogo revela as formas de conflito social presentes e futuras, em um mundo em que a crise do Estado-nação é acompanhada por um aumento alarmante do nacionalismo e do chauvinismo.

autores Étienne Balibar e Immanuel Wallerstein
tradução Wanda Caldeira Brant
orelha Silvio Luiz de Almeida
capa Maikon Nery
edição Thais Rimkus
páginas 304

BÔNUS! Este mês, vocês recebem também um livreto exclusivo com o famoso dossiê de capa da revista Margem Esquerda sobre marxismo e questão racial coordenado por Silvio Almeida!

Os autores

Immanuel Wallerstein (1930 – 2019) foi um renomado sociólogo estadunidense. Fez graduação, mestrado e doutorado na Universidade Columbia, onde lecionou até 1971. Deu aulas em diversas faculdades pelo mundo e tornou-se presidente da Associação Internacional de Sociologia, entre 1994 e 1998. Recebeu o título de doutor honoris causa pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) em 1999, pela Universidade de Coimbra em 2006 e pela Universidade de Brasília em 2009.

Étienne Balibar, filósofo marxista francês, nasceu em 1942, na França; em 1961, filiou-se ao Partido Comunista Francês, do qual foi expulso duas décadas depois, após escrever um artigo com críticas a políticas do partido em relação a pessoas imigrantes. Autor de uma lista extensa de publicações, trabalha também como professor emérito na Universidade de Paris-X-Nanterre e na Universidade da Califórnia em Irvine.

A modernidade do racismo

O racismo não está regredindo, mas se encontra em progressão, no mundo contemporâneo. Esse fenômeno inclui desigualdades, fases críticas, e é preciso tomar cuidado para não confundir suas manifestações; em última análise, ele só pode ser explicado por causas estruturais. Na medida em que o que está em jogo aqui – por meio de teorias eruditas, racismo institucional ou popular – é a categorização da humanidade em espécies artificialmente isoladas, é preciso que exista uma cisão violentamente conflitual no âmbito das próprias relações sociais.

Não se trata, então, de simples “preconceito”. Além disso, é preciso não só que haja transformações históricas tão decisivas como a descolonização, mas também que essa cisão seja reproduzida no contexto mundial que criou o capitalismo. Não se trata, assim, de uma sobrevivência nem de um arcaísmo. No entanto, isso não é contraditório com a lógica da economia generalizada e do direito individualista? De forma alguma. Nós dois pensamos que o universalismo da ideologia burguesa (portanto, também seu humanismo) não é incompatível com o sistema de hierarquias e de exclusões que, antes de mais nada, adquire a forma do racismo e do sexismo. Do mesmo modo que o racismo e o sexismo adquirem a forma de sistema.

ÉTIENNE BALIBAR

“Não há racismo sem teoria. É inútil se perguntar se as teorias racistas são, sobretudo, das elites ou das massas, das classes dominantes ou das classes dominadas.”

ÉTIENNE BALIBAR

O machismo também é estrutural?

Se o capitalismo como sistema gera o racismo, ele precisa gerar também o sexismo? Sim, pois, na realidade, os dois estão estreitamente ligados. A etnicização da força de trabalho existe de modo a permitir salários muito baixos para segmentos inteiros da mão de obra. Esses baixos salários de fato só são possíveis porque os assalariados se estabelecem em estruturas domésticas nas quais a renda proveniente do salário vital corresponde a apenas uma proporção relativamente pequena da renda doméstica total. Essas estruturas domésticas necessitam contar com uma ampla contribuição do trabalho para a chamada subsistência e para as compras triviais – em parte, pelo homem adulto, sem dúvida, mas em muito maior parte pela mulher adulta e pelos jovens e idosos de ambos os sexos.

Nesse sistema, essa contribuição do trabalho não assalariado “compensa” a baixa renda salarial e, portanto, de fato representa um subsídio indireto para os empregadores dos assalariados que vivem nessas estruturas domésticas. O sexismo permite que não pensemos sobre isso. O sexismo não é apenas a imposição de papéis profissionais diferentes, ou até menos apreciados, para mulheres, da mesma maneira que o racismo não é apenas xenofobia. Assim como o racismo pressupõe manter as pessoas em um sistema de trabalho, não as expulsar dele, o sexismo tem o mesmo propósito. […] E, com o sexismo, automaticamente tem-se o etarismo. Da mesma maneira que supomos que o trabalho da dona de casa não esteja criando mais-valor, imaginamos que as múltiplas contribuições dos jovens e dos idosos não assalariados também não o façam.

IMMANUEL WALLERSTEIN

“A destruição do complexo racista supõe não só a revolta de suas vítimas, mas também a transformação dos próprios racistas e, consequentemente, a decomposição interna da comunidade instituída pelo racismo.”

ÉTIENNE BALIBAR

Sobreposições

A grande mensagem do livro é que “raça”, “nação” e “classe” são categorias que não devem ser analisadas de forma separada; elas são como três óculos diferentes que servem para observar o mesmo fenômeno. Se sua análise for feita do ângulo de apenas um, ela perde o foco. Assim, a questão mais abrangente é qual é a relação entre “raça”, “nação” e “classe”, e a resposta é que há uma sobreposição de cerca de 80% entre elas. […] Os óculos que você usa geram consequências muito diferentes para sua análise teórica e política. E minha explicação é que em cada ocasião, devo escolher qual usar. De modo que, se eu disser “a classe trabalhadora”, que é uma velha categoria marxista, supostamente o proletariado, sabe-se que as pessoas proletárias, de acordo com a definição tradicional, não são os brancos da classe dominante, mas os negros ou os mulatos que são subjugados etc.

Então, o que se perde quando alguém as analisa separadamente é que não se vê que 80% dos proletários são, de fato, um grupo inferior no que diz respeito a “classe”, “raça” e “nação”. Portanto, em primeiro lugar, elas são todas semelhantes, mas não idênticas; em segundo lugar, é preciso decidir como se abre a porta. O modo como ela for aberta terá enormes consequências sobre a forma de você pensar a questão e de atuar em relação a ela – e isso não é algo que possa ser fixado de uma vez por todas. Assim, o que hoje é uma categoria “classe” ou uma categoria “nação” útil para a análise pode não funcionar amanhã, uma vez que cada uma se encontra em constante mudança.”

IMMANUEL WALLERSTEIN

“No espaço da economia-mundo que, de fato, se tornou o da política-mundo, da ideologia-mundo, a divisão de sub-homens e super-homens é estrutural, mas violentamente instável.”

ÉTIENNE BALIBAR

Identidades ambíguas

A sobreposição das categorias e a necessidade de ir além de uma concepção rígida e mecanicista de “raça”, “classe” e “nação” e de estudar sua interação representam mais ou menos o que as pessoas hoje chamariam de teoria da interseccionalidade, no sentido amplo do termo. Quando discutimos o título do livro e, sobretudo, o subtítulo – cabe lembrar que foi publicado primeiro em francês, logo depois foi lançada a edição inglesa, mas a primeira foi a francesa –, Immanuel tinha proposto que o subtítulo fosse Identidades ambivalentes, e eu disse que não gostava muito da palavra “ambivalente”, que não era bem isso o que tinha em mente, e propus Identidades ambíguas. Na realidade, penso que os dois adjetivos estão relacionados.

No entanto, pelo menos a meu ver, “ambíguo” é também uma categoria necessária devido à interseccionalidade e, no fim, acabamos concordando a respeito disso. Se você observa identidades coletivas concretas e considera movimentos, forças que atuam no campo político e social, percebe que nunca existem identidades que sejam apenas de classe, de nação, de raça ou de etnicidade. Nunca se tem algo puro, sempre se tem algo ambíguo. Se você vê por esse ponto de vista – e eu utilizo deliberadamente o termo “interseccionalidade” –, há várias coisas que se perdem de forma dramática, pelo menos no título deste livro. E a mais gritante, a mais visível, é o gênero.

ÉTIENNE BALIBAR

“Um sistema capitalista em expansão necessita de toda a força de trabalho que encontra. A expulsão de alguém do sistema é infrutífera. Mas, se quisermos maximizar a acumulação de capital, é preciso minimizar os custos de produção (portanto, os custos da força de trabalho) e, ao mesmo tempo, os custos da agitação política (minimizar, não eliminar, pois não é possível eliminar os protestos da força de trabalho).

O racismo é a fórmula mágica que concilia esses objetivos.

IMMANUEL WALLERSTEIN

Análise estrutural do racismo

Raça, nação e classe nos oferece uma das mais sofisticadas e radicais análises já feitas acerca da questão racial. A força do livro está na análise estrutural do racismo, o que significa dizer que, para além dos diferentes contextos históricos e das diferenças culturais em que a ‘raça’ se manifesta, há um esforço para que questões identitárias saiam da flutuação ideológica e sejam conectadas com o processo de reprodução da sociabilidade capitalista, com seus conflitos, seus antagonismos e suas permanentes crises.

Por esse motivo, o leitor e a leitora irão se deparar com dois conceitos-chave na organização das teses deste livro: ‘sistema-mundo’ e ‘forma-nação’. É, portanto, com o manejo de tais conceitos que Balibar e Wallerstein colocarão o racismo como relação social cujas determinações atendem às condições históricas em que se realiza o processo de valorização do valor. Assim, o racismo é tratado como uma condição universal da sociedade contemporânea, ao mesmo tempo que chama atenção para as distintas formas com que as tensões raciais podem historicamente se apresentar.

O livro repõe o dilema ‘raça ou classe?’ a partir de uma perspectiva dialética, ao demonstrar que a formação das classes é racialmente orientada e que a constituição das raças é economicamente determinada. Trata-se de uma publicação indispensável e que nos ensina de forma rigorosa que racismo e capitalismo não podem ser compreendidos separadamente.

Silvio Luiz de Almeida

“O universalismo e o racismo-sexismo não são tese e antítese aguardando sua síntese. Constituem um conjunto inseparável que contém reflexos tanto da dominação quanto da libertação, e a história nos convida a superá-los enquanto problemática.

É com esse espírito que temos de voltar à história e procurar compreender nossas próprias ambiguidades, uma vez que, apesar de tudo, nós mesmos somos produtos do sistema histórico do qual fazemos parte.”

IMMANUEL WALLERSTEIN

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos três materiais complementares sobre a análise do capitalismo e do universalismo feita por Wallerstein e Balibar.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Alessandra Devulsky

Estado, racismo e materialismo


Immanuel Wallerstein

Trajetória intelectual e política. Entrevista à revista Margem Esquerda


Luiz Alberto Moniz Bandeira

Wallerstein e a análise do universalismo

Economia, política e racismo estrutural, com Silvio Almeida

Este mês trazemos uma trinca de reflexões afiadíssimas do filósofo Silvio Luiz de Almeida sobre marxismo e análise estrutural do racismo para a TV Boitempo.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

Interseccionalidade, de Patricia Hill Collins e Sirma Bilge

Margem Esquerda n. 27 (dossiê marxismo e questão racial), de Silvio Almeida (org.)

O universalismo europeu, de Immanuel Wallerstein

Universalismo e diversidade, de Renato Ortiz

A armadilha da identidade, de Assad Haider

Benzina: Benzina entrevista Silvio Almeida, com Orlando Calheiros e Stephanie Borges, ago. 2020.

Conexão Xangai: #06 – Entrevista Silvio Almeida: racismo estrutural e o neoliberalismo, 1 mar. 2021.

Lado B do Rio: #160 Silvio Almeida, ago. 2020.

Intersecting Optics: A Dialogue on Race, Nation, Class 30 years on, com Immanuel Wallerstein, Étienne Balibar e Manuela Bojadžijev [em inglês], Haus der Kulturen der Welt, mar. 2018.

Race, Nation and Class: Rethinking their Articulation, com Étienne Balibar [em inglês], Haus der Kulturen der Welt, mar. 2018.

Racismo“, de Silvio Almeida. Verbete da enciclopédia de Teoria Geral e Filosofia do Direito, abr. 2017

Capitalismo e crise: o que o racismo tem a ver com isso?“, por Silvio Luiz de Almeida, Blog da Boitempo, 23 jun. 2020.

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