Guia de leitura | ADC#4

Interseccionalidade

Patricia Hill Collins e Sirma Bilge

Guia de leitura / Armas da crítica #04

A interseccionalidade tornou-se tema central em círculos acadêmicos e militantes. Mas o que significa exatamente e por que surgiu como lente vital para explorar como as desigualdades sociais de raça, classe, gênero, sexualidade, idade, capacidades e etnia se moldam mutuamente?

Nesta edição revisada e expandida de um texto já bastante difundido, Patricial Hill Collins e Sirma Bilge fornecem uma introdução seminal ao campo do conhecimento e da práxis interseccional. Analisando o surgimento, o crescimento e os contornos do conceito de interseccionalidade, as autoras também abordam seu alcance global por meio de uma série de novos temas, como ascensão do populismo de extrema direita, justiça reprodutiva, mudança climática e ambientes e culturas digitais. Uma obra indispensável para entender as intricadas relações da sociedade contemporânea.

autor Patricia Hill Collins e Sirma Bilge
tradução Rane Souza
orelha Winnie Bueno
capa Flavia Bomfim
edição Thais Rimkus
páginas 288

Quem é Patricia Hill Collins?

Patricia Hill Collins é considerada uma das mais influentes pesquisadoras do feminismo negro nos Estados Unidos. Nascida em 1948, na Filadélfia, foi a primeira mulher negra a presidir a Associação Sociológica Americana. Ela é atualmente professora emérita do departamento de sociologia da Universidade de Maryland, College Park. É autora de diversos livros, dentro os quais Fighting Words: Black Women and the Search for Justice (University of Minnesota Press, 1998), On Intellectual Activism (Temple University Press) e Pensamento feminista negro (Boitempo, 2019).

Quem é Sirma Bilge?

Sirma Bilge é professora catedrática no departamento de sociologia da Universidade de Montréal, onde leciona sobre gênero e sexualidade, racismo, nacionalismo e relações étnicas, abordagens pós-coloniais e decoloniais; além de coordenar um seminário sobre interseccionalidade. É autora de diversos artigos e capítulos em publicações sobre o tema.

Ela também é pintora! (Na imagem abaixo, você confere um pedaço de um trabalho dela.)

“Nosso objetivo neste livro é democratizar a rica e crescente literatura sobre a interseccionalidade – não presumindo que apenas estudantes de origem afro-americana se interessem pela história negra ou que só jovens LGBTQ tenham interesse nos estudos queer, tampouco que a interseccionalidade seja destinada apenas a um segmento da população. Ao contrário, convidamos leitoras e leitores a usar a interseccionalidade como uma ferramenta analítica para examinar uma variedade de tópicos, como os que são discutidos aqui.”

PATRICIA HILL COLLINS E SIRMA BILGE

“Os leitores têm em mãos uma contribuição teórico-crítica ímpar, que evidencia que a interseccionalidade é muito mais do que costumeiramente compreendemos no contexto brasileiro, onde a circulação acadêmica do termo lhe reduziu a um somatório de opressões. Na verdade, a interseccionalidade é uma importante ferramenta analítica oriunda de uma práxis-crítica em que raça, gênero, sexualidade, capacidade física, status de cidadania, etnia, nacionalidade e faixa etária são construtos mútuos que moldam diversos fenômenos e problemas sociais.”

WINNIE BUENO

“Nem o feminismo brasileiro, liderado por mulheres que eram sobretudo ricas e brancas, nem o movimento negro, que estava ativamente engajado em reivindicar uma identidade negra coletiva que identificava o racismo como uma força social, poderiam por si sós abordar de maneira adequada as questões das afro-brasileiras. Mulheres negras que participavam do movimento negro tinham aliados combativos quando se tratava de ativismo negro antirracista, mas encontravam muito menos compreensão a respeito do fato de que os problemas enfrentados pela população negra possuíam formas específicas de gênero. De fato, as questões específicas da vivência da mulher negra no Brasil, no cruzamento de racismo, sexismo, exploração de classe, cidadania de segunda classe e heterossexismo, tinham pouco reconhecimento.

A história da análise de classes no Brasil, que via o capitalismo e os direitos da classe trabalhadora como forças importantes na formação da desigualdade, abriu espaço para indivíduos excepcionais, como Benedita da Silva. No entanto, quando se tratava de raça como categoria de análise, as mulheres negras enfrentavam pressão similar para subordinar suas preocupações específicas à bandeira da solidariedade de classe. Esses movimentos sociais isolados, contemplando feminismo, antirracismo e movimentos da classe trabalhadora, foram importantes, e muitas mulheres negras continuaram a participar deles. No entanto, como nenhum movimento social conseguiu resolver adequadamente as questões específicas das mulheres afro-brasileiras, elas criaram um movimento próprio.”

É importante notar o trabalho de Collins em elucidar como as dimensões das lutas e ativismo com o pensamento feminista negro não precisam ser tratados de forma que levam a uma dicotomia estéril ou a um impossibilidade de conexão ou conciliação. A própria construção do pensamento feminista negro viria dessa relação dialética entre opressão e ativismo, entender como a opressão funciona, ao mesmo tempo em que a própria reflexão crítica desse funcionamento foi suprimida ou quase pela estrutura da opressão. A subordinação política das mulheres negras se dá por conta dos privilégios construídos na base da opressão. A negação de direitos básicos, a exclusão dos espaços educacionais, construiu essa subordinação. A dimensão política dessa subordinação se dá pela sistemática ausência de direitos e acessos a espaços educacionais e condições dignas de vida. Nesse sentido seria crucial discutir a dimensão econômica que colocou mulheres negras em situações em que não existiram oportunidades de mobilidade social por fixar a maioria delas em trabalhos subalternizados negando-lhes os direitos concedidos a homens brancos, por exemplo. A relação entre escravidão e trabalho doméstico sintetiza essa dimensão econômica.

Desnaturalizar esses lugares sociais faz com que entendamos como essa subordinação foi construída e possibilitou a supressão do pensamento das mulheres negras. Collins também argumenta como as imagens de controle sobre a mulheres negras constroem essa subordinação. Os estereótipos criados como “a escrava”, “mãe preta”, imagens essencialistas que servem como meio de oprimir mulheres negras, pois retiram suas humanidades e as fixam num lugar imutável. Todas essas dimensões podem ser pensadas a partir do contexto brasileiro e serve como um grande manancial de reflexões críticas da condição das mulheres negras.

DJAMILA RIBEIRO

Interseccionalidade enquanto ferramenta analítica

“Pessoas comuns fazem uso da interseccionalidade como ferramenta analítica quando percebem que precisam de estruturas melhores para lidar com os problemas sociais. Considerando que as afro-americanas eram também negras, mulheres e trabalhadoras, o uso de lentes monofocais para abordar a desigualdade social deixou pouco espaço para os complexos problemas sociais que elas enfrentam. As questões específicas que afligem as mulheres negras permaneciam relegadas dentro dos movimentos, porque nenhum movimento social iria ou poderia abordar sozinho todos os tipos de discriminação que elas sofriam. As mulheres negras usaram a interseccionalidade como ferramenta analítica em resposta a esses desafios.

O uso da interseccionalidade como ferramenta analítica aponta para várias dimensões importantes do crescimento da desigualdade global. Para início de conversa, a desigualdade social não se aplica igualmente a mulheres, crianças, pessoas de cor, pessoas com capacidades diferentes, pessoas trans, populações sem documento e grupos indígenas. Em vez de ver as pessoas como uma massa homogênea e indiferenciada de indivíduos, a interseccionalidade fornece estrutura para explicar como categorias de raça, classe, gênero, idade, estatuto de cidadania e outras posicionam as pessoas de maneira diferente no mundo. Alguns grupos são especialmente vulneráveis às mudanças na economia global, enquanto outros se beneficiam desproporcionalmente delas. A interseccionalidade fornece uma estrutura de interseção entre desigualdades sociais e desigualdade econômica como medida da desigualdade social global.”

A interseccionalidade na encruzilhada

A interseccionalidade se encontra em uma encruzilhada importante. Até agora, conseguiu manter o dinamismo intelectual e político que nasce de sua heterogeneidade. Isso é muito difícil, considerando os desafios políticos e intelectuais que exploramos neste livro. Mas é não porque é difícil que não vale a pena.

Para continuar a ser um empreendimento vibrante e em expansão, a interseccionalidade deve olhar reflexivamente para as próprias práticas e verdades. Consideramos a heterogeneidade da interseccionalidade não uma fraqueza, e sim uma fonte de mudanças sociais emancipatórias de imenso potencial. Eis uma ferramenta que todos podemos usar para avançar rumo a um futuro mais justo.

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos dois materiais complementares sobre feminismo negro.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Sueli Carneiro

Entrevista à Margem Esquerda, revista semestral da Boitempo


Patricia Hill Collins

O pensamento feminista negro como teoria social crítica

Temas do pensamento feminista negro, com Patricia Hill Collins

Este mês trazemos uma série completa com a socióloga Patricia Hill Collins produzida especialmente para TV Boitempo. Ao longo de seis vídeos, a socióloga estadunidense percorre alguns dos principais conceitos e problemáticas em torno da teoria e prática do feminismo negro. E, para finalizar, a gravação integral (legendada) da conferência que ela apresentou durante sua última visita ao Brasil em 2019, por ocasião do lançamento da edição brasileira de Pensamento feminista negro.

Para aprofundar…

Aquela compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis

Pensamento feminista negro, de Patricia Hill Collins

Por um feminismo afro-latino-americano, de Lélia Gonzalez

Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil, de Sueli Carneiro

Imagens de controle: um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins, de Winnie Bueno

Guilhotina: #70 – Winne Bueno, com Bianca Pyl e Luis Brasilino, 12 jun. 2020.

Guilhotina: #71- Raquel Barreto, com Bianca Pyl e Luis Brasilino, 19 jun. 2020.

Feminismo negro, com Nubia Regina Moreira e Patricia Hill Collins, Sesc São Paulo, 8 mar. 2018.

O feminismo negro vem da resolução de problemas da vida cotidiana, com Patrícia Hill Collins, Brasil de fato entrevista, 20 nov. 2019.

A urgência do pensamento feminista negro para a democracia“, por Juliana Borges, Blog da Boitempo, 6 abr. 2017.

Um guia teórico, metodológico e político para o feminismo negro“, por Nubia Regina Moreira, Blog da Boitempo, 30 jul. 2019.

Aprendendo com a outsider within“, por Patricia Hill Collins (trad. Juliana de Castro
Galvão), Revista Sociedade e Estado, v.31 n. 1 jan./abr. 2016,

Patricia Hill Collins e a defesa de um feminismo negro independente“, por Letícia Paiva, Claudia, 20 nov. 2019

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