O que cabe em uma palavra? Antifeminismo, identidade e as emoções que atravessam a política

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Por Estéfany Rocha Monteiro
Em 6 de outubro de 2026, dois dias depois do primeiro turno das eleições, uma pergunta apareceu entre as mais pesquisadas pelos brasileiros no Google: “O que é antifeminista?”. Ela ocupava a segunda posição entre as perguntas relacionadas ao feminismo, atrás apenas de “O que é feminismo?”. Segundo levantamento divulgado pelo UOL, o interesse relativo pelo assunto havia crescido 180% desde o domingo eleitoral, alcançando o maior patamar registrado desde março de 2023. Naquele domingo, Eduarda Campopiano, uma jovem de 23 anos que havia construído sua presença pública declarando oposição ao feminismo, fora eleita deputada estadual por São Paulo com 1.956.238 votos.
O levantamento não permite conhecer as posições políticas das pessoas que realizaram aquelas buscas, tampouco estabelecer alguma relação causal entre as pesquisas e os votos recebidos pela parlamentar. A proximidade dos acontecimentos, contudo, chama a atenção para uma questão que acompanha a expansão de movimentos políticos contemporâneos: o significado de uma identidade não precisa ser compreendido da mesma maneira por todos aqueles que participam de sua circulação pública. Uma palavra pode se tornar amplamente reconhecida, provocar aproximações e rejeições e adquirir grande projeção política enquanto permanece aberta a interpretações diferentes.
Na campanha de Campopiano, o antifeminismo apareceu associado à defesa da família, à religião, ao conservadorismo e a posições sobre segurança pública. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo na noite de sua eleição, a deputada afirmou que pretendia representar um eleitorado identificado com o lema “Deus, pátria, família e liberdade”. Também declarou que defenderia o porte de armas para mulheres e que continuaria combatendo propostas associadas ao movimento feminista. Essas posições possuem conteúdos próprios, dizem respeito a problemas diferentes e podem despertar concordância ou discordância por razões igualmente diversas. Sua reunião em uma mesma identidade política exige compreender como pessoas e grupos passam a reconhecer vínculos entre assuntos que, considerados separadamente, não conduzem necessariamente às mesmas conclusões.
O que faz alguém reconhecer na palavra antifeminismo a defesa de valores que considera fundamentais? Uma pessoa preocupada com a segurança de sua família, por exemplo, pode encontrar identificação com uma liderança que defende o armamento civil e, a partir dessa aproximação, passar a conhecer outras posições do mesmo grupo. Outra pode chegar pela religião, pelo desacordo com propostas relacionadas ao aborto ou pela identificação com lideranças conservadoras. Essas possibilidades não demonstram o que motivou os votos recebidos por Campopiano, mas ajudam a formular a questão que atravessa as pesquisas sobre persuasão e comportamento político: de que maneira convicções anteriores, experiências cotidianas e vínculos coletivos participam da interpretação de discursos e da formação de novas atitudes?
A construção contemporânea da identidade antifeminista já vinha sendo estudada antes das eleições. Em sua tese de doutorado Representação política no Instagram: feminismo e antifeminismo, defendida em 2025 na Universidade de São Paulo, a antropóloga Olívia Alves Barbosa acompanhou redes feministas e antifeministas entre 2020 e 2024, examinando como as funcionalidades das plataformas digitais participam da formação de identidades e da disputa pela representação das mulheres. Entre os materiais analisados estão publicações da própria Campopiano, incluindo uma postagem em que a então influenciadora apresenta o antifeminismo como um verbete de dicionário.
A definição reunia a oposição ao feminismo e à chamada revolução sexual, a defesa da independência de pensamento diante de movimentos de esquerda e a afirmação de que as mulheres nada deveriam ao feminismo. Barbosa observa que o formato visual procurava conferir objetividade e autoridade a uma interpretação política específica. Em outras publicações, Campopiano aproximava referências cristãs de críticas às concepções feministas sobre gênero, autonomia e organização familiar. Essas associações permitiam apresentar a rejeição ao feminismo como parte de uma posição mais ampla sobre a sociedade, na qual religião, identidade feminina e oposição à esquerda eram interpretadas como dimensões relacionadas.
A pesquisa de Barbosa demonstra que essa linguagem foi sendo construída por influenciadoras, redes de apoiadoras, organizações e espaços de sociabilidade digital, em um processo que antecedeu a eleição de 2026. A circulação de palavras e imagens participava da formação de uma identidade reconhecível, reproduzida em perfis pessoais, encontros e atividades políticas. A expansão do antifeminismo, portanto, possui uma história de organização e produção de significados que permite estudar o fenômeno para além do desempenho individual de uma candidata.
Essa trajetória encontra um interlocutor importante em Stuart Hall. Ao examinar a ascensão do thatcherismo no Reino Unido, Hall investigou como reivindicações relacionadas à autoridade, à segurança, à família e à liberdade econômica passaram a integrar um mesmo projeto político. A articulação dessas demandas envolveu disputas sobre a interpretação de problemas sociais, por meio das quais grupos com experiências diferentes puderam se reconhecer em uma linguagem compartilhada. Sua análise estava situada nas transformações políticas e econômicas britânicas das décadas de 1970 e 1980, mas a questão que formulou permanece pertinente: como reivindicações distintas adquirem um significado político comum?
A psicologia social permite examinar outra dimensão desse processo. Em 2003, Geoffrey Cohen publicou quatro estudos experimentais sobre a influência da identificação partidária na avaliação de políticas públicas. Os participantes, estudantes universitários norte-americanos identificados com posições liberais ou conservadoras, receberam propostas de assistência social cujas características substantivas e cujo suposto apoio partidário eram modificados pelos pesquisadores. Em determinadas condições, saber que uma proposta era defendida pelo próprio partido exerceu influência maior sobre sua avaliação do que o conteúdo apresentado. Os participantes frequentemente atribuíram suas escolhas às características das propostas e às convicções pessoais, reconhecendo pouco a influência da posição de seu grupo.
Os resultados ajudam a compreender como o pertencimento político pode participar da interpretação de uma ideia, inclusive quando a pessoa considera que está realizando uma avaliação independente. Essa influência, entretanto, encontra condições e limites: a relevância do grupo para o assunto discutido, o grau de ambiguidade da proposta e a existência de convicções anteriores influenciam sua intensidade. Cohen investigou comportamentos experimentais em um contexto norte-americano específico; seus resultados não explicam diretamente os votos brasileiros de 2026. Eles oferecem, contudo, evidências de que o significado socialmente atribuído a uma posição pode interferir na maneira como seu conteúdo é compreendido.
Há ainda a dimensão emocional dessas identificações. No artigo Affective Economies, publicado em 2004, Sara Ahmed examina como sentimentos circulam entre pessoas, palavras e imagens, adquirindo novas associações ao longo de histórias coletivas. Sua análise de discursos nacionalistas e racistas mostra como experiências de medo, amor e ressentimento podem ser relacionadas a determinadas figuras sociais, que passam a representar ameaças ou objetos de proteção. Para Ahmed, as emoções participam da formação das fronteiras entre grupos e da maneira como certas pessoas passam a se reconhecer umas nas outras.
Essa interpretação permite recolocar a pergunta sobre aquilo que já estaria presente nas pessoas antes de encontrarem determinado discurso político. Alguém pode ter experiências anteriores de insegurança, receio diante de transformações sociais ou vínculos profundos com determinadas tradições. Entretanto, essas experiências também são interpretadas ao longo da vida, nas relações familiares, nas instituições religiosas, no trabalho, nos meios de comunicação e nos grupos políticos. Uma preocupação com a segurança pode ser associada a diferentes propostas de ação estatal; uma concepção religiosa da família pode conviver com posições distintas sobre políticas públicas; o sentimento de perda pode encontrar explicações econômicas, culturais ou morais. A linguagem política participa da construção dessas relações, contribuindo para definir o que se percebe como ameaça, proteção e pertencimento.
A própria história das palavras mostra que tais associações se transformam. Barbosa recupera, em sua tese, uma reportagem de 1981 na qual uma mulher que se declarava antifeminista também defendia a legalização do aborto. Naquele contexto, sua rejeição estava associada a determinadas estratégias de militância e concepções sobre a feminilidade. Décadas depois, influenciadoras conservadoras passaram a utilizar o mesmo termo para construir uma identidade política em que a oposição ao aborto e a defesa de papéis tradicionais de gênero ocupam lugar de destaque. Entre essas manifestações, encontram-se transformações históricas nas organizações políticas, nas reivindicações feministas e nas formas de apresentação pública das mulheres.
A história recente brasileira também demonstra que essas identidades possuem uma dimensão institucional. Em Mulheres e a ultradireita: pautando o gênero no Brasil de Bolsonaro, tese defendida em 2023 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Laís Müller Napoleão Braz investigou a participação de lideranças femininas conservadoras e a atuação parlamentar das deputadas eleitas pelo Partido Social Liberal em 2018. Seu trabalho identifica diferenças relevantes entre essas agentes, cujas posições políticas combinavam, de maneiras distintas, religião, segurança pública, economia e questões de gênero. A presença feminina no movimento conservador aparece, nessa pesquisa, como resultado de trajetórias políticas próprias, da participação em organizações e da atuação efetiva na formulação de agendas legislativas.
Essas investigações ajudam a compreender por que a análise do comportamento eleitoral precisa alcançar as relações entre experiências individuais e estruturas coletivas. Os sentimentos mobilizados por determinadas palavras possuem histórias sociais; as identidades que elas representam são construídas em espaços concretos; sua conversão em participação política depende também de partidos, organizações, recursos, lideranças e condições materiais. A expansão das plataformas digitais acrescentou novas possibilidades de circulação e reconhecimento, ao mesmo tempo que aproveitou redes e conflitos que já existiam anteriormente.
Um dicionário pode esclarecer a origem e os usos de “antifeminismo”, mas dificilmente explicará por que uma pessoa o associa à segurança dos filhos, outra à religião e uma terceira ao desacordo com determinada agenda partidária. Essas associações se formam em trajetórias distintas e podem mudar com os vínculos que cada pessoa estabelece. Quando uma liderança consegue apresentá-las como partes de uma causa comum, oferece também uma maneira de interpretar os problemas da vida cotidiana, identificar responsáveis e reconhecer aliados. A eficácia política da palavra depende dessa história social de aproximações; a mesma história ajuda a compreender por que seus adeptos podem discordar entre si sobre tantos assuntos.
Na semana em que quase dois milhões de votos levaram uma candidata declaradamente antifeminista à Assembleia paulista, outros brasileiros procuravam saber o que significava ser antifeminista. As duas cenas ocorreram no mesmo país e no mesmo momento, sem que possamos estabelecer quem pesquisou, quem votou ou como cada um chegou às próprias convicções. Ainda assim, juntas, elas deixam uma tarefa mais exigente do que decifrar slogans: compreender de que experiências essa identidade retira sua força e como organizações políticas aprendem a reuni-las. Enquanto procurarmos a fórmula do discurso vencedor apenas nas palavras do candidato, continuaremos ignorando o longo caminho pelo qual essas palavras chegaram a fazer sentido para tanta gente.
**** Estéfany Rocha Monteiro é advogada e pesquisadora nas áreas de direitos humanos, justiça transicional e memória, com formação recente pela Geneva Academy of International Humanitarian Law and Human Rights.
PARA SE APROFUNDAR NO DEBATE
Feminismo e política, autoria de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli
Uma Introdução abrangente à teoria política feminista, discorrendo sobre temas como prostituição, aborto e representação política. Em tempos de questionamento do movimento, revela como as lutas feministas transcendem as questões específicas de gênero, impactando a estrutura social.
Feminismo em disputa, autoria de Esther Solano, Beatriz Della Costa e Camila Rocha
Pesquisa oportuna sobre o feminismo e o diálogo necessário entre mulheres de diversas perspectivas políticas. Aborda como encontrar valores compartilhados e construir uma agenda comum para todas as brasileiras. Um convite à união para alcançar um objetivo maior: liberdade e autonomia.
Feminismo para os 99%, autoria de Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser
Feminismo para os 99% é sobre um feminismo urgente, que não se contenta com a representatividade das mulheres nos altos escalões das corporações. O Manifesto feminista faz parte de um movimento global e será lançado no 8 de Março de 2019 em diversos países, como Itália, França, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina e Suécia. A edição brasileira conta com a participação de Talíria Petrone, deputada federal e militante feminista negra, que assina o Prefácio, e Joênia Wapichana, primeira mulher indígena a ser eleita deputada federal, advogada, militante das causas indígenas e dos direitos humanos, no texto de orelha.
ASSISTA NA TV BOITEMPO
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



Deixe um comentário