O papel das universidades no enfrentamento das mudanças climáticas: Henrique Tahan Novaes vai à COP31
Docente no câmpus de Marília, Henrique Tahan Novaes é educador e defende mudanças nos modelos de produção e consumo, além de uma maior integração da questão climática ao ensino, à extensão e à pesquisa nas instituições de ensino superior.
Fonte: Jornal da UNESP
Por Marcos do Amaral Jorge
* Este texto foi originalmente publicado no Jornal da UNESP em 06/11/2026.
Na próxima segunda-feira, dia 9, terá início na cidade de Antália, na Turquia, o principal fórum global de negociação da ONU para debater o enfrentamento às mudanças climáticas, a COP31. O Brasil, que recebeu o encontro em Belém no ano passado, passará o comando para Austrália e Turquia, que dividirão a presidência nesta edição.
Em meio a negociações entre os países sobre estabelecimentos de metas e compromissos ambientais, financiamento para a adaptação e mitigação climática, entre outros temas, a COP também recebe representantes da sociedade civil, acadêmicos e empresários para acompanhar as discussões, apresentar projetos científicos e divulgar iniciativas alinhadas aos desafios climáticos.
O educador Henrique Tahan Novaes está entre esses representantes. Professor da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da Unesp, no câmpus de Marília, e coordenador da CDeP3 (Coordenadoria de Desenvolvimento Profissional e Práticas Pedagógicas), Novaes irá compor duas mesas-redondas que vão debater a colaboração do ensino superior no enfrentamento à mudança do clima. Essa agenda, aliás, tem ocupado boa parte da atuação acadêmica do docente nos últimos anos.
Além de escrever um livro em que discute diferentes estratégias de produção agrícola que buscam se afastar da lógica capitalista, como a agroecologia e a produção associativa, o professor também coordena o curso de extensão “Como impedir o fim do mundo: colapso ambiental e alternativas”. Prestes a começar sua quarta edição, a iniciativa reúne docentes e pesquisadores de diferentes instituições para discutir a crise ambiental contemporânea em sua relação com a dinâmica de acumulação do capital e com a financeirização da natureza.
Neste ano, Novaes tem conduzido pesquisas sob financiamento da Fapesp que tem por objetivo analisar a incidência e as consequências dos agrotóxicos nos rios e nos mares brasileiros e a educação agroecológica dos Movimentos Sociais do Campo, em um projeto vinculado ao INCT-CEMAR (Instituto Nacional de Identificação, Quantificação, Dispersão, Riscos Ambientais e Mitigação da Poluição por Contaminantes Emergentes em Ambientes Marinhos e Costeiros).
Na entrevista para o Jornal da Unesp, o docente do câmpus de Marília, que atua como revisor do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), discute a contribuição do capitalismo para o atual cenário de emergência ambiental e climática e apresenta os possíveis caminhos para o ensino superior colaborar de forma mais enfática para o enfrentamento desse quadro.
O senhor é educador e trabalha junto a movimentos sociais em abordagens críticas aos sistemas produtivos tradicionais, além de ter uma forte atuação em projetos de extensão que conectam educação e novos modelos de desenvolvimento. De que forma a sua atuação acadêmica dialoga com os temas que serão discutidos na COP31?
Henrique Tahan: Temos feito muitas pesquisas sobre o colapso ambiental. Estamos vivendo a mais importante encruzilhada histórica colocada para a humanidade com sinais evidentes desse colapso. Os eventos extremos já bateram a nossa porta: são ondas de calor, processos de desertificação, chuvas torrenciais, aumento de furacões e tornados, secas prolongadas, entre outros eventos extremos. Diferente do que dizem os negacionistas, esses não são eventos “naturais”. Os relatórios do IPCC já demonstraram que da 1ª Revolução Industrial para cá, mas especialmente desde a 2ª Revolução Industrial (marcada pela presença do motor a combustão), a temperatura da terra subiu mais de 1,5º (tendo como marco o ano de 1750) e estamos muito próximos de superar os 2º, o que é simplesmente terrível.
Ou seja, há uma urgência histórica. Se não mudarmos rapidamente o padrão de produção e consumo, especialmente extinguir o modo de vida dos ricaços, não existirão mais condições de vida na terra, ou as mesmas se tornarão insuportáveis. O relatório do IPCC, nosso principal documento científico para a descrição do atual momento de crise climática, usa termos genéricos, que não colocam o dedo na ferida. O relatório usa especialmente as palavras “humanidade” e “antropoceno”. Eu prefiro falar em capitaloceno, para problematizar e politizar a questão do modo de produção intrinsecamente destrutivo. Fiz essa advertência nos dois relatórios que revisei.
Como surgiu o convite para participar da COP31 e de que forma se dará essa participação?
Henrique Tahan: A minha participação é fruto de um edital que o Itamaraty lançou para a participação da sociedade civil (ONGs, universidades e movimentos sociais) na COP31. Foi um processo com amplíssima concorrência e eu fui um dos selecionados. No início da semana, fizemos uma reunião com a diretora-executiva da COP30 Ana Toni e ela nos informou que somos a maior delegação da COP31.
Com apoio institucional do Gabinete da Reitoria e do Escritório de Sustentabilidade da Unesp, iremos representar a Universidade e o Brasil neste importante encontro mundial. Iremos participar diretamente das mesas sobre o papel da Universidade na mitigação dos problemas climáticos. Há uma enorme diversidade de diagnósticos e perspectivas sobre o papel da universidade para evitar o fim do mundo. Particularmente acredito que nós, das universidades públicas latino-americanas, temos muito a ensinar ao mundo.
Quais as possibilidades que você enxerga para as universidades atuarem diante desse desafio climático?
Henrique Tahan: Desde os anos 1950, mas especialmente a partir dos anos 1980, no contexto da redemocratização da América Latina, surgiram e surgem muitos pesquisadores-extensionistas na nossa região interessados no debate ambiental. A ciência engajada, as possibilidades da pesquisa-ação para a resolução de problemas socioambientais, a intenção com extensão transformadora são o futuro da universidade.
Podemos contribuir de diversas formas: seja através de pesquisas “clássicas” que nos ajudam a mapear o colapso ambiental em diferentes regiões do mundo, seja através da ciência engajada (que eu prefiro), pois está mais antenada nas demandas dos movimentos ambientalistas antissistêmicos.
O currículo das universidades no mundo inteiro ainda ignora a questão ambiental. Os projetos político-pedagógicos dos cursos ainda estão baseados na ideologia do progresso técnico ou do “desenvolvimento”, ou ainda estruturados em “caixinhas”. Quando aparece a questão ambiental, ela aparece como “adição” ou de forma “epitelial”, sem alterar os pilares e fundamentos da formação dos nossos engenheiros, economistas, biólogas, químicas, advogados, etc.
Grandes problemas ambientais exigem grandes soluções e estou convencido que teremos que alterar radicalmente o sentido da universidade pública no século 21. Precisamos de mais especialistas em agronomia conectados com a agenda da transição agroecológica, e menos com a agenda da exportação de commodities. As cidades latino-americanas se tornaram um verdadeiro inferno: se chove a cidade alaga rapidamente, se não chove os seus cidadãos são obrigados a fumar quatro cigarros por dia – mesmo os não fumantes – em função da poluição. Estamos vivendo um típico apartheid, a nova forma da casa grande e senzala, uma enorme concentração de renda, quem tem comida e quem não tem, transporte público ainda movido a diesel, um enxame de carros nas ruas ou trens caros e privatizados. Na outra ponta, helicópteros, jatinhos particulares, iates e por aí vai. Estamos preparados enquanto universidade para esses novos desafios socioambientais? Acredito que não.
Gostaria de destacar também que realizamos em maio deste ano, na CDeP3, o I Ciclo de Formação em Extensão, em parceria com a PROEC (Pró-Reitoria de Extensão), e a temática ambiental apareceu nos debates. Em 2027, faremos a segunda edição e também organizaremos o ciclo de Formação em Pesquisa. Certamente a temática ambiental e a produção não alienada de conhecimento irão aparecer novamente. A Unesp, com seu Programa de Formação e sua Escola de Formação, está se preocupando com isso. Nossos docentes recém-contratados estão demandando formações para construir um novo Brasil, o Brasil das PCDs, das cotas e de uma nova relação entre ser humano e natureza, que chamo de reconexão metabólica.
Quais os temas você irá abordar em suas participações na COP31 e de que forma esses assuntos se conectam com o enfrentamento às mudanças climáticas?
Henrique Tahan: Vou acompanhar algumas negociações que envolvem a relação entre ensino superior e meio ambiente. Além disso, estarei em duas mesas sobre a) o papel da universidade na promoção da biodiversidade urbana e b) o papel da educação interdisciplinar para mitigar os problemas ambientais. Na primeira mesa pretendo debater a relação campo-cidade, especialmente o debate da produção de alimentos sem venenos para as grandes metrópoles. Na segunda mesa pretendemos criticar o ensino disciplinar, em gavetinhas, totalmente esquartejado. Os paradigmas da formação interdisciplinar, transdisciplinar, pensamento complexo ou baseado na totalidade (prefiro estes últimos dois) de alguma forma questionam a separação ou esfacelamento da realidade em disciplinas isoladas e também a divisão clássica entre ciências naturais, exatas e humanas. A agroecologia é um bom exemplo do futuro, pois integra as três áreas e procura romper esta forma de pensamento e ação engavetada.
Como você avalia a realização das COPs? Ultimamente, o evento tem sofrido críticas por conta de discussões travadas e pelas dificuldades em alcançar consensos em temas relevantes para a agenda climática.
Henrique Tahan: A maior dificuldade é que os Estados Unidos – me refiro aqui ao governo Trump – é sustentado pelas empresas petrolíferas e pelas Big Techs. Tudo indica que eles não querem saber da questão ambiental. Quando se lembram dela, tratam como oportunidade de negócios ou com uma atitude conformista do otimismo tecnológico. Contraditoriamente, no momento em que dou esta entrevista, há uma mudança na composição do Senado, da Câmara e de governadores nos EUA. Imediatamente, o valor das empresas ligadas à economia verde subiu. Teremos que aguardar para ver se o avanço do partido democrata significará uma maior atenção à urgência ambiental e aos riscos que a humanidade está correndo.
A China, por sua vez, caminha a passos muito lentos na transição energética. Eles terão que se empenhar numa alteração de rota e mudar a velocidade dessa rota. Sem isso, além do esforço dos demais países, estamos literalmente fritos enquanto humanidade.
A vitória da democracia no segundo turno das eleições brasileiras foi muito importante. Nós ambientalistas festejamos, mas na segunda-feira, logo após a eleição, voltamos a ser pesquisadores críticos. E, enquanto sociedade civil, temos que lembrar que o Brasil deve caminhar mais rápido e na direção correta, tendo em vista a construção de um novo modo de produção e consumo que não seja destrutivo, que não seja baseado na exploração do trabalho e na exploração da natureza. Basta lembrar que nos governos Lula e Dilma muitos agrotóxicos e muitas sementes transgênicas foram liberadas. O Brasil é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e isso é insustentável.
É preciso salientar que as taxas de desmatamento nos governos Temer-Bolsonaro subiram rapidamente e a agenda ambiental foi completamente destruída. Basta lembrar o fechamento do Conselho de Segurança Alimentar, o estrangulamento do Pronera (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), dentre tantas outras. Existem muitas evidências a este respeito. O retorno da família Bolsonaro à presidência seria um grande desastre ambiental. Governos negacionistas como o de Javier Milei, na Argentina, e de Bolsonaro, mas também do presidente da Colômbia, Equador, Peru, trazem problemas seríssimos para a natureza.
A dificuldade de encontrar consensos deriva em grande medida do avanço do neoliberalismo, da direita e da extrema direita. Há um conflito entre a agenda ambiental radical (que vai à raiz dos problemas) e a implementação de políticas neoliberais. Os países do norte estão claramente subfinanciando a transição energética e um dos pontos mais sensíveis na COP31 será a recusa dos países do norte em não pagar essa conta. Aparecerá também a questão dos oceanos e carros eletrificados por demanda da Turquia.
Ao mesmo tempo, a esquerda ainda “brinca” com a questão ambiental, pois acredita na falácia do desenvolvimento. Termino esta entrevista com as mesmas palavras que usei no início: estamos vivendo a mais importante encruzilhada histórica colocada para a humanidade, estamos diante do dilema: civilização ou barbárie, um mínimo de condições de vida na terra ou um planeta explosivo, com “micro-explosões diárias” e “mega-explosões”. Chegou a hora de desarmarmos a bomba relógio que está em nossas mãos e a universidade tem um papel decisivo nisso, ela pode sinalizar o futuro, pode nos ajudar a construir um outro modo de produção e consumo, ela pode produzir extensão com intenção, ela pode produzir ciência engajada e formar alunas e alunos sintonizados com as grandes questões socioambientais.
*** Henrique Tahan Novaes é docente da Unesp, no campus de Marília. Foi coordenador da pós-graduação em educação de 2022 a 2024. Autor dos livros Mundo do trabalho associado e embriões de educação para além do capital (Lutas Anticapital, 2018), O fetiche da tecnologia – a experiência das fábricas recuperadas (Expressão Popular, 2007) e Reatando um fio interrompido – a relação universidade movimentos sociais na América Latina (Expressão Popular, 2012), que foram também publicados em inglês, espanhol e italiano.
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A educação ambiental anticapitalista produção destrutiva, trabalho associado e agroecologia, autoria de Henrique Tahan Novaes
A educação ambiental anticapitalista, nova obra do educador Henrique Tahan Novaes, apresenta as ideias mais importantes sobre agroecologia, produção associada, ecossocialismo e pedagogia socialista no Brasil e no mundo, juntamente com práticas de movimentos sociais, enfatizando o trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST.
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