CINCO LIÇÕES SOBRE A QUASE DERROTA
Considerações sobre a tempestade brasileira.
São Paulo (SP), 25/10/2026 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala com eleitores após a vitória e reeleição nas Eleições 2026, na avenida Paulista. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Por Cian Barbosa, Jayder Roger, João Marcos Duarte,
André Castro, Douglas Barros, Henrique Mirenda e Natan Oliveira
Felizmente foi derrotado eleitoralmente o que há de pior na sociedade brasileira. Consideradas as circunstâncias de poucas semanas atrás, a virada eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva não é nada trivial. Há que se constatar o sprint dos 45 do segundo tempo, que levou milhões de brasileiros a darem ou reverem seu voto, e tornou possível ao menos um desfecho de sobrevida desejado. A derrota precipitou também a dispersão da família Bolsonaro. Flávio deixou o país, primeiro a pé, em direção à Argentina, e depois seguiu para os Estados Unidos — onde se autoproclamou presidente, um Juan Guaidó de segunda mão, peculiaridade da comédia brasileira que dispensa até a aparência de tragédia. O clã que parecia prolongar-se indefinidamente, vê-se agora desmembrado. Sentindo a derrota, o bolsonarismo se reorganiza e não deve ser, por isso, subestimado.
Vale ressaltar também uma exceção circunstancial: feita com a urgência de um segundo turno que parecia a aproximação acelerada do abismo, a participação massificada em um canal de WhatsApp, voltado para superar as restrições algorítmicas inscritas nas plataformas, teve papel importante. O “Exército do Lula” (que era, ainda que pelo Lula, fundamentalmente um exército do Janones), cumpriu função de propaganda, despontando como uma experiência com ensinamentos sobre o combate ao gargalo algorítmico e disputa do debate político nas redes. Mas não deveríamos subestimar nem superestimar esta experiência: ela demonstrou uma margem de ação coordenada via plataformas. De todo modo, ela não apenas segue a lógica imposta, demasiadamente centralizada, demandando o apelo ao hiperestímulo, à aceleração e à arquitetura prioritária. Essa experiência, enquanto exceção circunstancial, demonstra um modo de usar dentro dos limites condicionantes das plataformas que se aplicou em um contexto determinado — que ainda deve ser tomado como núcleo do problema. Assim como não devemos subestimar o bolsonarismo, não devemos tomar essa experiência como método de “superação” dos impasses e subjugações das Big Techs.
A virada, portanto, é digna de nota e vem para dar alívio às outras derrotas acachapantes que temos sofrido. Posta a exceção, é preciso também constatar que a regra da última década tem sido outra e é preciso olhar para a realidade. E, se é pela transformação da realidade que se luta, convém não tomar o resultado favorável e o alívio que ele proporciona como sinal de que a tendência de fundo tenha sido revertida. A última década tem contado outra história: a mais recente aparição dessa tendência (desde 2016) está na composição de um Parlamento em que a extrema direita e seus aliados dispõem de força expressiva — basta somar os 121 deputados e 19 senadores do PL aos contingentes que gravitam em torno do chamado “Centrão”, para ficar apenas nas casas legislativas, além da presença disseminada desse campo nos governos estaduais. Isso só do ponto de vista estritamente eleitoral. De nossa parte, tentamos condensar aquilo que se manifesta no Brasil e que, ao que parece, não cessa de vencer. É dessa contradição que precisamos partir. Adiante.
1. Somos todos influencers.
A digitalização realmente existente envolveu o globo como uma grande teia integrada, civil e militar, convergindo entretenimento e política, informalidade e serviços, propaganda e informação, tudo aqui e agora. Essa digitalização plataformizada, por debaixo dos panos e ao mesmo tempo literalmente em frente aos nossos olhos, reconfigurou a tessitura infraestrutural que daria parte das condições para a crise institucional e de soberania que estamos começando a conseguir compreender. Produziu também uma nova tendência de atomização social que, para lembrar o velho Durkheim, prenunciava uma generalizada anomia. As “bolhas digitais” atualizaram os nichos de mercado, mapeados e precificados com uma precisão balística sem precedentes. Surgiu o influencer como figura do líder, uma nova imagem do sujeito-empresa plataformizado, que virtualmente pode ser tanto o entregador do Ifood ou o motorista de Uber, quanto a nova estrela de novela, o milionário que anuncia apostas esportivas junto ao cassino digital da vez, ou um candidato com recorde de votos.
Assim, nos tornamos todos potencialmente influenciadores, ao mesmo tempo em que o espectador se verteu em usuário, assistindo espetáculos simultâneos, fragmentários e segmentados pela automação simultaneamente global e local da entrega de conteúdos por algorítmos, simultaneamente singular e global. Somos todos potenciais líderes e integrantes de alguma massa. Somos todos projeção e tela. A forma-influencer, malandramente, integrou-se à política, vertendo movimento social em branding e influenciador em liderança. O espetáculo, a câmara de ecos, o mundo invertido do digital… Fez-se assim, parafraseando um francês, não só a verdade, mas a própria realidade constituir-se desde uma estrutura ficcional dada, formalmente condicionada, coordenada, mapeada e consagrada como nova ordem distópica do dia: um topos (lugar) outro, que não apenas reflete mas também refrata nossa relação com a própria realidade, constituindo-a também desde aí.
A ascensão das novas direitas radicalizadas, com novas gramáticas e novos fascismos reinventados, organizou o ressentimento e o ódio em um cenário onde a esquerda institucionalizada se preocupava, não sem alguma razão, em conter as crises. Todavia, passava assim também à administrá-las, identificando-se com a própria situação, com a manutenção do que “está aí” — restava a alguém anunciar uma mudança de tudo que “está aí”, por mais cínico que fosse esse anúncio. Enquanto uma parte da esquerda convertia-se ao capitalismo verde, outra parte da esquerda, não hegemônica, anunciava o fim do mundo. Apocalíptica, não sem razão, entendia o tom do arranjo mas não encontrava seu andamento e compasso — curiosamente, na música, o tempo é também uma questão de espaço. E, perdidos no tempo e espaço, seguimos nos ecos de uma trilha sonora triste e também datada, enquanto ritmos diferentes passavam a ressoar em todos os (outros) lugares.
A digitalização plataformizada alcança todos esses lugares, e assim fornece um ponto de vista exclusivo e reificado da totalidade social para seus proprietários. Um ponto de vista que não é simplesmente mapa e território, mas um espaço onde ambos se confundem. Assim, não se trata apenas de um “território inimigo” — mas do território enquanto inimigo, já que as plataformas proprietárias não servem apenas para propaganda político-ideológica alinhada aos interesses de seus donos, elas são em si mesmas um programa político-ideológico. Além disso, ela produz um efeito que converge as massas em novas dinâmicas de subjetivação — se o influencer é a forma que expressa a posição de identificação das massas hoje, também são os próprios dispositivos: nos identificamos com “o nosso algoritmo”, somos reduzidos à temporalidade das telas, fragmenta-se nossa atenção e memória.
A digitalização generaliza a subjetivação ideológica, direcionada com a precisão militar a alvos individuais, o que atravessa, em maior ou menor grau, todo espectro político. A chamada “economia da atenção” é também um asset de guerra. As plataformas proprietárias tornam-se um novo poder: muito além do chamado “soft-power”, seu domínio não é apenas pela propaganda em obras da indústria cultural, mas é infraestrutural. Seu uso massificado fornece um campo informacional atualizado quase instantaneamente, 24h por dia, 7 dias por semana. Esse campo é também um serviço prioritário, que aplica-se tanto ao mercado quanto na terceirização da administração pública, chegando enfim aos campos de guerra. A digitalização é causa e consequência, contribuindo para a desintegração da forma social, ao passo em que fornece os meios para administrar esse processo.
2. A nova sensibilidade evangélica do país.
A façanha que vemos hoje se alastrar pelo país, deixando o horror de 2018 no chinelo, não seria possível sem o evangelicalismo. Talvez essa seja a maior especificidade da extrema direita brasileira com relação às outras ao redor do mundo e que faz dela um fenômeno invejável para seus pares. Assim sendo, o maior erro do outro lado do campo político foi pensar que seria possível encontrar um outro evangelho ou mostrar que o bolsonarismo era o que há de pior na política brasileira. O Evangelicalismo não foi cooptado por grandes líderes políticos (lobos em pele de cordeiro) ou por grandes lobistas da fé. É ele próprio que conforma a extrema direita brasileira, dando liga aos demais atores que entraram em cena. Não foram ludibriados. Por isso os crentes sabem o que fazem. É no interior do evangelicalismo que ganha forma a crítica moral segundo a qual o Brasil teria se degenerado até o último fio de cabelo, corrompido por uma administração feita a portas fechadas, e que exigiria, portanto, a renovação completa daquilo que está posto para que tudo se faça novo. A promessa de ruptura política encontra aí uma moral já constituída, capaz de apresentar a restauração da ordem como sua completa renovação. Não à toa, as principais figuras da extrema direita que emergiram das jornadas de 2013 em diante se apresentam publicamente como cristãs: é a partir desse repertório que dizem o que dizem e fazem o que fazem.
A Teologia da Libertação, que havia constituído uma das matrizes de mobilização na fundação do Partido dos Trabalhadores, encontrava-se em retração no final dos anos 1980, ao passo que o pentecostalismo avançava sobre o campesinato e as periferias urbanas, constituindo outras formas de organização da vida religiosa e política. A precariedade não produzira apenas desagregação, encontrava nessas igrejas formas próprias de elaboração: religião, trabalho, propriedade e pertencimento nacional começavam a se articular numa linguagem comum, capaz de conferir sentido à experiência popular e oferecer-lhe disciplina. Nas cidades, as igrejas evangélicas teciam redes de sociabilidade, comunidades e lideranças que, pouco a pouco, ultrapassavam o âmbito da fé para disputar os sentidos da vida coletiva e da própria nação. “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor” (Salmos 33:12): versículo tão reiterado nos púlpitos que dificilmente haverá alguém que tenha nascido ou frequentado uma igreja no país sem tê-lo ouvido inúmeras vezes. É dessa passagem da promessa religiosa à imaginação política que emerge o brado “é o Rei que governa a nação”, no qual a autoridade divina deixa de ser apenas objeto de devoção para se converter em princípio de ordenamento do país.
E, ao contrário do que esperavam os críticos que tomaram a passagem de uma matriz cristã a outra como prenúncio de uma ruptura com a ordem política, a conquista do país não se deu por uma marcha sobre Brasília — embora o 8 de Janeiro tenha ensaiado essa possibilidade. A resposta veio justamente por onde a esquerda apostou suas fichas ao longo das últimas décadas: a democracia. Mais uma das instituições que se aprendeu a “defender” quando seu fim é anunciado. E quem entende melhor de fim do que aqueles que fazem dele um objeto de estudo e uma certeza de fé? Vocacionados para um presente que os gabinetes batizaram de Antropoceno, a escatologia oferece uma interpretação menos secular e, para os seus adeptos, talvez mais conclusiva: o apocalipse não é uma hipótese, mas um horizonte.
É nesse sentido que o versículo escolhido como mote de campanha — “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” — ganha outro significado. A esquerda talvez esperasse que a verdade, uma vez revelada, desmascarasse a hipocrisia dos adversários; mas e se a verdade que liberta não for a revelação de um embuste, e sim o reconhecimento de que a estrada chegou ao fim? O equívoco estaria em supor que todos esperam da verdade a mesma coisa: para uns, ela deveria restaurar a normalidade; para outros, pode ser justamente a confirmação de que não há normalidade a restaurar.
3. A luta de classes que ignoramos
Grande parte das disputas políticas ocorridas no período anterior à chegada do PT à Presidência vinculavam-se às questões do trabalho: uma história que envolvia disputas sobre democracia, terra e organização do Estado. Esse período foi marcado pelo ascenso das assim chamadas políticas neoliberais, que vinham se consolidando em conjunto com o chamado “fim da história”: um imaginário segundo o qual as grandes “narrativas” e a própria ideia de “luta de classes” teriam chegado ao fim. O problema era que, enquanto se anunciava o esgotamento da luta de classes, as relações de trabalho continuavam organizando a vida material e os conflitos sociais.
Assim, a erosão dos direitos trabalhistas avançaria por diferentes vias: alterações na legislação, mudanças nas formas de contratação e reinterpretações judiciais das relações de emprego. O alcance e a aplicação das proteções trabalhistas seriam progressivamente redefinidos, modificando os limites da proteção ao trabalhador. Essa flexibilização continuou atravessada pelo antagonismo entre capital e trabalho, mesmo durante os governos petistas, embora parte da esquerda não o reconhecesse. Se, nos governos Lula e Dilma, houve crescimento do emprego formal e valorização do salário mínimo, a terceirização persistiu, enquanto novas formas de trabalho “autônomo” ganharam respaldo legal. Um dos exemplos expressivos dessa tendência foi a criação do Microempreendedor Individual (MEI), instituído em 2008 e operacionalizado a partir de 2009, cuja lógica também pode ser compreendida em consonância com o imaginário neoliberal.
A chamada reforma trabalhista em 2017 – ocorrida logo depois do golpe de 2015 –, aprovada diante de nossos olhos embasbacados, foi, portanto, o ponto convergente dessas mudanças: ela alterou profundamente a CLT e ampliou as possibilidades de terceirização. Sob o discurso da modernização e da liberdade de negociação, regras sobre trabalho intermitente, contribuição sindical e acesso à Justiça do Trabalho foram redefinidas, como se patrões e trabalhadores negociassem em condições de igualdade. A assimetria entre capital e trabalho ganhou novas formas de legitimação jurídica. Assim, o desmonte da proteção trabalhista não era uma ameaça distante: tratava-se de um processo que vinha se consolidando há décadas. A legislação passou a ampliar o espaço da negociação em detrimento das garantias legais e a institucionalizar modalidades contratuais que fragilizam a proteção coletiva e individual. Assim, aquilo que se apresentava como liberdade contratual na prática convertia-se em liberdade para aceitar condições cada vez mais desiguais e inseguras de trabalho.
E nesse impasse toda a esquerda progressista chafurdou: perdíamos a capacidade de refletir sobre a diferença entre a finalidade declarada de uma política e a lógica social em que ela passa a operar. Novamente: o exemplo mais importante é o MEI que ampliou a formalização jurídica dos trabalhadores e seu acesso à proteção previdenciária e, simultaneamente, integrou um imaginário que desloca para o indivíduo a responsabilidade por sua inserção econômica. O indivíduo passou a ser concebido como gestor de si mesmo, responsável pela própria reprodução econômica e pelos riscos de sua atividade.
Sob o fetiche dos dados – que podem ser torcidos até dizer o que se deseja ouvir –, passamos a avaliar uma política só pelos seus números, deixando de perguntar como as relações sociais e suas inscrições subjetivas organizam os horizontes coletivo e individual. Quando o trabalhador passou a ser concebido primeiro como colaborador e, depois, como empreendedor de si, suas expectativas, formas de identificação, percepções dos direitos e possibilidades de ação política foram redesenhadas sob a influência de um imaginário individualista e sobrevivencialista.
Sob esse horizonte imaginário, conflitos que expressam antagonismos de classe passam a ser interpretados como problemas individuais de desempenho e adaptação. Mesmo o sofrimento – material ou psíquico – passa a ser tratado de maneira exclusiva como responsabilidade individual. Na gramática da esquerda liberal que se consolidaria nesse período, a luta de classes perderia centralidade em favor da gestão democrática dos direitos e da tentativa de conferir um rosto humano ao capitalismo.
Quando as tempestades das múltiplas crises, cujo ponto de inflexão foi 2008, desabaram sobre os tristes trópicos, o imaginário individualista e sobrevivencialista encontrou sua verdade: a extrema-direita global. A responsabilização individual, a competição como regra universal e a percepção do outro como ameaça alimentaram um apelo autoritário e uma adesão política a um líder mítico, investido da promessa de restaurar a segurança em um mundo marcado pela instabilidade e pela incerteza. Todos sabem que ele não cumprirá tal promessa, mas ainda assim é melhor acreditar que algo mudará do que manter o quadro que está. Eis o nosso impasse.
4. O fantasma e o monstro (China vs. EUA)
No horizonte do colapso soviético, popularizou-se uma interpretação que diagnosticava o paradoxo histórico das revoluções socialistas: ao invés de superar a modernização capitalista, cumpriram em poucas décadas as etapas que as potências ocidentais percorreram ao longo de séculos. Sob a exaltação do herói proletário e do trabalho, as chamadas revoluções recuperadoras (catch-up revolutions) teriam convertido o atraso histórico em impulso para a constituição das condições de reprodução da forma-mercadoria.
A popularidade do PT ascendeu na esteira desse “fim do socialismo” que deu o tom dos anos 90. Conseguiu-se mobilizar o que restava da esquerda — que perdia seu horizonte revolucionário — sob a forma de um projeto político que varria a luta de classes para baixo do tapete. Esta fórmula, que outrora permitiu à esquerda brasileira juntar os cacos de sua ilusão utópica, parece ter, entretanto, se esgotado em definitivo — um desfecho previsível e que já dava sinais pelo menos desde 2013.
Sob a alcunha de “socialismo com características chinesas”, a China contemporânea leva o paradoxo das revoluções recuperadoras às últimas consequências: tornou-se uma das forças mais eficientes de produção e circulação de mercadorias, rivalizando com as próprias potências que outrora serviram de modelo. No Brasil, são os setores progressistas da burguesia nacional que hoje parecem olhar para a China com renovada admiração: o “agro esclarecido” sabe muito bem quem paga melhor pela soja e de onde vêm os tratores mais custo-efetivos do momento. A ironia é que o comércio entre países “vermelhos” se tornou especialmente vantajoso para a própria eficiência dos fluxos de dinheiro. No caso brasileiro, a demanda chinesa por commodities foi um dos motores externos do ciclo lulista: a bonança exportadora alimentou a conciliação de classes, o consumo popular e a expectativa de um capitalismo de face humana nos trópicos.
A produção e a circulação de mercadorias, assim como a continuidade da subordinação da vida ao trabalho abstrato, permanecem problemas a resolver, não conquistas a perpetuar. A eficiência de um sistema econômico não diz, por si, nada sobre sua capacidade de emancipação. É precisamente aqui que a disputa entre China e Estados Unidos, frequentemente traduzida no Brasil como um confronto entre esquerda e direita, revela sua insuficiência: a rivalidade entre potências pode reorganizar as condições de acumulação sem alterar a lógica social que faz da valorização do valor o princípio organizador da vida coletiva.
A burguesia nacional, por sua vez, parece cada vez menos capaz de formular um projeto que ultrapasse a defesa de seus interesses imediatos: entre a renda da terra, a exportação de produtos primários e a dependência tecnológica, sua inserção internacional se aproxima a de uma intermediária que extrai vantagens da circulação global da riqueza sem construir as condições de sua transformação interna.
Se as revoluções de 1917 e 1949 podem ser interpretadas como tentativas de superar o atraso histórico por meio da aceleração da modernização capitalista, a instabilidade que hoje atravessa as sociedades ocidentais permite formular uma hipótese inversa. A crise habitacional, o endividamento, a precarização do trabalho e a perda de perspectivas de futuro corroem a promessa de que cada geração viverá melhor que a anterior. Entre os jovens, essa experiência assume a forma de um futuro cancelado: não apenas a dificuldade de ascender socialmente, mas a percepção de que os próprios mecanismos que deveriam garantir a reprodução da vida se tornaram obstáculos à sua realização. Nesse terreno, a reaparição do interesse pelo socialismo não deve ser confundida com a emergência automática de uma alternativa emancipatória. Ela expressa, antes, a procura por uma saída para uma crise que as instituições existentes já não conseguem administrar convincentemente. É essa lição que o fim do ciclo lulista torna incontornável: sem confrontar o parasitismo da propriedade de muito por poucos não há saída (inclusive para o próprio dinamismo do mercado). É preciso quebrar o ciclo latifundiário e monopolista do agro brasileiro (mesmo em suas versões supostamente “esclarecidas”), cuja afluência só serve para transformar hectares de mata destruída em dinheiro para umas poucas famílias: um ciclo que se autoalimenta até não haver mais floresta. O fantasma que volta a rondar a Europa e o Brasil talvez anuncie, assim, a possibilidade de um novo ciclo de revoluções recuperadoras — mas desta vez na direção contrária: não orientadas a alcançar o desenvolvimento das potências capitalistas, mas a superar as contradições que esse próprio desenvolvimento universalizou.
5. A caminho de uma ruptura de época
O pacto lulista conciliava, assim, os ganhos dos muito ricos com melhorias materiais e educacionais para os mais pobres e vulneráveis, mas sua estabilidade dependia da continuidade da expansão econômica, sob bases financeirizadas e dependentes da exportação de produtos primários. Quando o ciclo das commodities perdeu força, revelou-se a fragilidade desse arranjo: parte do futuro prometido havia sido antecipada pelo crédito, expondo os limites de um modelo que ampliava o consumo sem transformar estruturalmente as bases da economia brasileira, que favorece, fundamentalmente, as grandes frações do capital (agronegócio, capital bancário-financeiro, grande burguesia industrial e grupos ligados à construção pesada e infraestrutura).
O segundo governo Dilma respondeu à pressão econômica com um ajuste que aprofundou a recessão. O desemprego voltou a crescer. O impeachment de Dilma permitiu a Temer converter a crise em programa de governo. A austeridade adquiriu duração constitucional com o teto de gastos, e a reforma trabalhista tornou a vida de quem trabalha mais dependente das oscilações do mercado. A crise, apresentada como sacrifício inevitável para a sociedade, preservou os ganhos do sistema financeiro. No primeiro semestre de 2018, os cinco maiores bancos tiveram lucro recorde na casa de dezenas de bilhões de reais. O governo Bolsonaro deu continuidade a essa orientação. A reforma da Previdência prolongou o tempo necessário à aposentadoria, e a autonomia do Banco Central tornou a política monetária ainda mais impermeável às mudanças eleitorais.
Nesse processo, para uma parte crescente da população, o trabalho deixou de organizar uma trajetória social ascendente e passou a se organizar sob a lógica da “viração” (que vai de serviços mediados por aplicativos até os mais diversos trabalhos informais). A jornada precisava ser montada diariamente, conforme aparecia uma corrida no aplicativo ou algum serviço temporário. Trabalhava-se quase o tempo inteiro, embora já não fosse possível prever quanto se receberia ao final do dia. O crédito que havia antecipado o consumo passou a prolongar a dívida. A promessa de ascensão sobreviveu como lembrança de um período encerrado, e o lulismo, que chegara ao governo como expressão da mudança, começou a representar a possibilidade de recuperar uma normalidade perdida.
Se, durante seu primeiro ciclo, a melhoria das condições de vida alimentava expectativas de um futuro mais próspero, a defesa das conquistas anteriores passava agora a ocupar o lugar da promessa de transformação. O lulismo retornaria ao governo, em 2023, sob condições históricas bastante distintas daquelas que haviam sustentado sua ascensão. A recomposição das políticas sociais, a valorização do salário mínimo e a recuperação do emprego representaram melhorias materiais importantes, sem que isso significasse, contudo, a superação das estruturas econômicas e sociais que haviam limitado o ciclo anterior. A temporalidade do progresso cedia, assim, espaço à tentativa de preservar ou restaurar condições de existência ameaçadas.
Essa transformação da experiência do tempo vinha acompanhada de uma reorganização do espaço. A economia de commodities precisava avançar sobre novas áreas, enquanto a própria terra se valorizava como ativo financeiro. Na Amazônia, a expansão das fronteiras econômicas articulou a grande propriedade a atividades organizadas ao redor da ocupação ilegal do solo. O desmatamento na Amazônia Legal se intensificou entre 2019 e 2022. No terceiro governo Lula, esse movimento foi parcialmente revertido, com a redução das taxas de desmatamento a um dos menores níveis da série histórica. A redução é materialmente decisiva, sobretudo para quem vive nos territórios atingidos. Porém, não se chegou nem perto de alterar a estrutura econômica que pressiona e devasta a floresta.
A corrida mundial pelos minerais críticos acrescenta outra dimensão a esse processo. O governo procura atrair investimentos para ampliar a extração, embora as etapas tecnologicamente mais complexas permaneçam concentradas fora do país. O Brasil se oferece novamente a posição de fornecedor da matéria retirada do território, por vezes sob o vocabulário de uma economia verde. Muda a mercadoria estratégica, mas a dependência permanece. Ao mesmo tempo, a catástrofe ecológica deixou de pertencer a um futuro distante. A contenção do desastre passou a integrar o funcionamento de uma economia que continua preparando desastres maiores.
Essa expansão das fronteiras de acumulação não transforma apenas a organização econômica do território, mas também as formas de exercício do poder político e de controle sobre as populações que nele vivem. Em meio a essa expansão, consolidaram-se formas locais de poder armado, sob influência de facções criminosas ou disputadas por elas. As rotas do narcotráfico passaram a aproveitar estruturas que também serviam ao garimpo. A expressão “ausência do Estado” explica pouco, pois agentes públicos participam desses mercados e negociam com seus operadores. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, cerca de quatro milhões de pessoas vivem em áreas submetidas ao controle ou à influência de grupos armados. Crescem os territórios diretamente controlados pelas milícias — formadas no interior das instituições policiais —, que fizeram da segurança um negócio e do controle territorial uma base eleitoral. O que aparece como arcaísmo resulta de formas bastante contemporâneas de acumulação, expropriação e gestão social.
Diante desses deslocamentos, a extrema direita cresceu. Mais significativo é que esse movimento político capitaneado pelo bolsonarismo conquistou uma adesão popular cada vez maior, tornando-se, em grande medida, um movimento de massa. Sua emergência e consolidação não podem ser explicadas por interpretações de teor elitista, que atribuem ao “irracionalismo” ou à “loucura” das pessoas a adesão à extrema direita, ainda que a manipulação política e a disseminação sistemática de fake news desempenhem um papel significativo nesse processo. Ao mesmo tempo, compreender esse fenômeno simplesmente como uma luta entre “autoritários” e “democráticos” também é insuficiente, na medida em que perde de vista a importância da legitimidade eleitoral para esse movimento. Afinal, foi com base nessa mesma democracia formal-burguesa (ainda que contando com um golpe, implícito e explícito, ao longo desse processo, e apoiada por manifestações antidemocráticas) que a extrema direita bolsonarista conseguiu se expandir. Eis o paradoxo vertiginoso da democracia brasileira.
A reeleição de Lula, em 25 de outubro, não elimina essa contradição; antes, torna-a ainda mais evidente: a mesma eleição que reconduziu Lula ao governo fortaleceu a representação parlamentar do bolsonarismo e de seus aliados. A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro não significou, portanto, a derrota política do movimento que o sustentou. A vitória de Lula expressa, assim, uma situação contraditória: foi capaz de mobilizar forças sociais suficientes para impedir o retorno da extrema direita ao Executivo, sem alterar substancialmente as condições que permitiram sua consolidação como movimento de massa.
A questão que se coloca, portanto, não se limita à defesa das instituições democráticas ou à recomposição de uma maioria parlamentar. Trata-se de saber em que medida seria possível reconstruir um horizonte de transformação social quando os mecanismos que sustentaram a integração das classes populares ao capitalismo brasileiro já não oferecem as mesmas perspectivas de ascensão. A reedição do antigo pacto conciliatório, além de enfrentar um cenário ainda mais desfavorável, dificilmente encontrará as mesmas condições econômicas e sociais de realização.
Diante da decomposição social própria do estágio atual do capitalismo, no qual se generaliza cada vez mais a “guerra de todos contra todos” (e, afinal, é disso mesmo que se trata), o avanço e a consolidação da extrema direita bolsonarista dizem respeito menos a uma simples regressão a períodos sombrios da história deste país do que a uma política em conformidade com o processo destrutivo do capitalismo contemporâneo, que descarta progressivamente populações consideradas dispensáveis à reprodução da máquina do capital em seu estágio atual. Em outras palavras, o avanço dessa extrema direita, paradoxalmente, aponta para uma ruptura de época que não representa a superação da ordem existente, mas uma transformação das formas políticas de sua reprodução e dominação, articulada a uma mudança na própria experiência social do tempo histórico, que assume traços cada vez mais apocalípticos. Suas forças políticas, valendo-se ainda mais da sabotagem, da extorsão, da corrupção e da perversão moral mais abjeta, associam antigas formas de dominação às novas exigências de acumulação capitalista e gestão social bárbara, dando uma forma brasileira à catástrofe social e ecológica já em curso.
A reeleição de Lula, impulsionada pelo extraordinário fôlego das mobilizações digitais e de rua das últimas semanas, impediu, por ora, que essa ruptura encontrasse sua expressão mais imediata no comando do Executivo. Mas não suprimiu as contradições que continuam a prepará-la. Enfrentá-las é, pois, o desafio de nosso tempo, para tornar possível uma outra ruptura de época.
*** Cian Barbosa é flamenguista e morador do Rio de Janeiro. Bacharel em sociologia (UFF), doutorando em filosofia (UNIFESP) e psicologia (UFRJ), pesquisa teoria do sujeito, crítica da cultura, violência, tecnologia, ideologia e digitalização; também é integrante da revista Zero à Esquerda, tradutor e ensaísta, além de professor e coordenador do Centro de Formação.
*** Jayder Roger é psicólogo, mestrando em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA. Membro do Seminário Interdisciplinar de Psicanálise (SIPSI) e Design na Revista Zelota.
*** João Marcos Duarte é fonoaudiólogo e doutorando em Linguística (UFPB/NYU).
*** André Castro nasceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM) e mestre em Ciências da Religião (UMESP), atua como editor e colunista na Revista Zelota. É autor de Eis aí, o povo brasileiro (Galáxia, 2026), A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.
*** Douglas Rodrigues Barros é psicanalista e participa do Fórum do Campo Lacaniano. É doutor em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor na pós graduação em filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. Escritor com três romances publicados é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).
*** Henrique Mirenda é doutorando em Saúde Coletiva (PPAS/IMS-UERJ), com pesquisa sobre saúde digital e automação do trabalho médico. Médico de Família e Comunidade, com experiência em preceptoria de residência médica e docência na graduação em Medicina.
*** Natan Oliveira é carioca, mestrando em Filosofia na Universidade de Brasília (UnB), onde realiza uma pesquisa sobre Hegel e a física newtoniana. É bacharel em Física pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Integra o NIEP-Marx/UFF e o GEPOC/UFF, coordena o Centro de Formação onde oferece cursos livres e também colabora com o podcast Ontocast. Tem experiência com divulgação científica e atuou como educador popular em cursinhos pré-universitários populares.
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Imperialismo e política colonial: a economia do imperialismo
de Evguiéni B. Pachukanis
Erudita e revolucionária, a nova obra do jurista Evguiéni B. Pachukanis resulta de um ciclo de palestras ministradas por ele em Moscou entre os anos de 1926 e 1927. A primeira parte do livro, intitulada Imperialismo e política colonial, aborda o imperialismo e partir da teoria de Lênin em divergência com o pensamento de outros teóricos como Rosa Luxemburgo e Fritz Sternberg.

A obra é acompanhada por um apêndice, “A política colonial e seus novíssimos apologistas”, um discurso no qual Pachukanis rebate o sistema de crenças social-democrata sobre o colonialismo, representado pelo pensamento de Jean Zyromski, Otto Jensen, Max Schippel e outros estudiosos. Com isso, demonstra um conhecimento profundo sobre as políticas adotadas por grandes potências coloniais da época, como a holandesa, alemã, inglesa e francesa, que trabalhavam em resposta ao crescente movimento proletário no mundo, liderado pela revolução de 1917.
Os dois textos reforçam as formulações de Lênin sobre o assunto e as complementam, indo além da abordagem econômica e tocando, ainda que de maneira inicial, nos desdobramentos raciais, ecológicos e culturais da política expansionista própria do imperialismo. Passados cem anos, a obra apresenta a atualidade das ideias de Pachukanis e seu diálogo com os estudos contemporâneos.

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