A fuga de Flávio Bolsonaro no espelho venezuelano

Crédito: Ricardo Arduengo/AFP

Por Moisés Alves Soares

1. A derrota e o caminho da Flórida

A espetacular vitória de Lula, por mais de 4 milhões de votos de diferença, não encerrou a controvérsia eleitoral e política. Como de praxe na gramática da extrema-direita, o candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, recusou-se a reconhecer o resultado do pleito, agarrando-se, num primeiro momento, à polêmica em torno da prorrogação do horário de votação. A controvérsia ganhou corpo com a atuação paquidérmica do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, tanto diante do boicote aos ônibus em Salvador – episódio que levou à determinação de prisão do secretário municipal de Mobilidade – quanto na apreciação dos pedidos de prorrogação formulados pelas chapas de Lula, em razão dos problemas no transporte público, e de Flávio Bolsonaro, diante das condições climáticas adversas no Sul e no Sudeste. Mesmo após a decisão do ministro Cristiano Zanin, Nunes Marques levou cerca de 45 minutos para comunicá-la aos tribunais regionais, tornando sua concretização quase inexequível. Estava criada uma “eine grosse konfusion” para recorrer à expressão frequentemente utilizada por Gilmar Mendes no STF.

O discurso derrotista, já anunciado na véspera por Eduardo Bolsonaro, concretizou-se na primeira manifestação de Flávio Bolsonaro: primeiro, com o pedido de anulação das eleições; depois, com a denúncia de cassação da chapa Lula-Alckmin. A iniciativa, contudo, foi perdendo sustentação até mesmo entre seus aliados. Republicanos, União Brasil e Podemos reconheceram a vitória de Lula; o próprio PL, presidido por Valdemar Costa Neto, aceitou o resultado proclamado pelo TSE, embora mantivesse críticas à campanha.1

Importante lembrar que, na Nova República, o questionamento da legitimidade eleitoral não nasceu com o bolsonarismo. Após a derrota de Aécio Neves, em 2014, o PSDB solicitou uma auditoria da eleição presidencial, que não encontrou evidências de fraude, mas ajudou a alimentar a besta. Em 2022, o inconformismo com a derrota de Jair Bolsonaro ultrapassou os limites da mera contestação jurídico-política e integrou uma crise institucional que desembocou em uma trama golpista, da qual os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 foram a ponta de lança. Por essa trama, o ex-presidente foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal em setembro de 2025.2

Em 28 de outubro de 2026, com as informações que tenho neste momento, consta que Flávio Bolsonaro já deixou o Brasil e desembarcou em Miami, nos Estados Unidos3. Sua saída ocorreu após o descumprimento de uma ordem judicial de entrega de passaportes, no âmbito de investigações bastante graves vinculadas à corrupção4. Uma autoridade norte-americana anunciou a emissão de vistos para ele e sua família, com o próprio Donald Trump declarando publicamente que aprovaria sua entrada no país. Embora tenham surgido informações sobre sua passagem pela Argentina e pelo Equador, a rota e, sobretudo, as circunstâncias de sua saída do Brasil ainda não estão inteiramente esclarecidas, permanecendo envoltas em denso “nevoeiro”, no qual os crimes que se tentou sepultar e esquecer insistem em retornar5. Os EUA como paragem não são um destino casual. Tampouco surpreende que o trânsfuga da vez tenha aparecido justamente na Flórida, uma vez que esse estado, particularmente Miami, possui uma longa história como refúgio e centro de articulação de setores contrarrevolucionários latino-americanos, especialmente desde a Revolução Cubana de 1959.

2. A Flórida e a contrarrevolução: da Doutrina Monroe à Donroe

A Flórida não se tornou um Eldorado do golpismo latino-americano por acaso. Fulgêncio Batista viveu no estado após deixar a presidência cubana em 1944, antes de retornar ao poder pelo golpe de 1952. Marcos Pérez Jiménez, deposto na Venezuela em 1958, encontrou abrigo em Miami, assim como Anastasio Somoza Debayle, depois da queda da ditadura nicaraguense em 1979. As trajetórias são distintas, mas revelam uma geografia política que ultrapassa o simples acolhimento de antigos governantes. Sobretudo após a Revolução Cubana de 1959, Miami consolidou-se como centro de articulação da contrarrevolução, abrigando organizações anticastristas e a estação JM/WAVE da CIA, de onde foram coordenadas operações clandestinas contra Cuba. Mais do que refúgio de trânsfugas, a Flórida tornou-se um dos pontos de irradiação da política contrarrevolucionária norte-americana para a região e dos interesses do colonialismo estadunidense.

Essa geografia da contrarrevolução não pode ser compreendida fora da luta pelo controle da América Latina como zona de influência. A Doutrina Monroe, proclamada em 1823 sob o argumento de impedir novas intervenções coloniais europeias, converteu-se progressivamente em instrumento da expansão norte-americana. Com o Corolário Roosevelt, de 1904, os Estados Unidos reivindicaram expressamente o direito de exercer funções de polícia internacional no continente. Ao longo do século XX, a defesa dessa zona de influência se materializou em intervenções militares, golpes de Estado e apoio a governos alinhados aos interesses de Washington. A derrubada de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, a participação direta dos Estados Unidos no apoio ao golpe brasileiro de 1964, inclusive por meio da Operação Brother Sam, e sua atuação na desestabilização do governo de Salvador Allende e na criação das condições políticas para o golpe chileno de 1973 são expressões históricas dessa política. A intervenção externa, contudo, jamais atuou sobre um terreno vazio: as classes dominantes locais não apenas aderiram aos golpes, mas participaram de sua organização e articularam seus próprios interesses à reprodução da dependência, como verdadeiros CEOs das novas colônias.

A atualização dessa tradição ganhou contornos particularmente explícitos com Donald Trump. A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 estabeleceu oficialmente um Trump Corollary to the Monroe Doctrine, posteriormente popularizado pelo próprio presidente como Doutrina Donroe. O documento reivindica a restauração da preeminência norte-americana no hemisfério, a contenção de potências concorrentes e o controle de posições e ativos estratégicos, além de anunciar o incentivo a governos, partidos e movimentos alinhados à política de Washington. A intervenção militar na Venezuela, em janeiro de 2026, com o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua transferência forçada para responder a acusações perante a Justiça norte-americana, tornou ainda mais evidente o conteúdo dessa orientação. As denúncias de ingerência norte-americana em sucessivos processos eleitorais latino-americanos, como na Argentina, em Honduras e na Colômbia, numa ofensiva para “pintar de azul” o mapa político da região, ajudam a compreender também a declaração dúbia de Trump sobre a eleição brasileira: ao mesmo tempo que afirmou gostar de Lula e manter uma boa relação com ele, classificou como “muito estranha” a prorrogação do horário de votação e insinuou a ocorrência de fraude. Sob uma retórica de segurança nacional, reaparece a antiga pretensão de determinar os destinos políticos e econômicos da América Latina, agora em um cenário de disputa sobretudo por petróleo e minerais críticos6.

É nesse ponto que a crítica de Evguiéni Pachukanis, em Imperialismo e política colonial, recuperando a análise de Lênin, permanece particularmente atual. O imperialismo não se reduz à agressividade de determinada política externa, mas expressa uma configuração histórica do capitalismo marcada pelo domínio dos monopólios, pelo capital financeiro e pela disputa por matérias-primas e esferas de influência. A crise da hegemonia norte-americana, diante do avanço de uma ordem internacional cada vez mais multipolar, recoloca essa disputa em novos termos. A dominação tampouco exige necessariamente a anexação territorial ou a supressão formal da soberania. Os mecanismos econômicos, políticos e jurídicos podem subordinar países formalmente independentes, sem que isso elimine a importância das lutas nacionais pela autodeterminação. Na América Latina, como demonstra Ruy Mauro Marini, os marcos da dependência não são somente externos: ela também se estrutura e se reproduz internamente, por meio dos interesses e da atuação das classes dominantes locais, articulados aos mecanismos de transferência de valor e superexploração da força de trabalho próprios do capitalismo dependente7.

3. O cardápio venezuelano e a pergunta brasileira

A Venezuela oferece um verdadeiro cardápio de tentativas de desestabilização política, que vão das manobras parlamentares e judiciais às tentativas de golpes de Estado, passando pelo reconhecimento de governos paralelos, sanções econômicas e, finalmente, pela intervenção militar estrangeira direta. Em Pachukanis em Caracas, artigo que escrevi em 2020 com Ricardo Prestes Pazello, examinamos a escalada dessa crise a partir do governo de Nicolás Maduro. Após sua apertada vitória eleitoral em 2013, a oposição conquistou ampla maioria na Assembleia Nacional em 2015, abrindo um período de enfrentamento entre os poderes. A tentativa de convocação de um referendo revogatório, prevista na Constituição venezuelana, conviveu com iniciativas mais radicais: a abertura de processo de impeachment contra Maduro, a surreal declaração parlamentar de abandono da Presidência, propostas para restringir os poderes do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e iniciativas para retirar do Executivo o controle sobre o setor petrolífero. Configurava-se, assim, aquilo que identificamos como uma tentativa de golpe parlamentar, embora nem todas essas iniciativas possuíssem a mesma natureza8.

O conflito institucional aprofundou-se em 2017. O Tribunal Supremo de Justiça, considerado chavista e ilegítimo pela oposição, declarou nulos os atos da Assembleia Nacional por descumprimento de suas decisões judiciais, especialmente a que suspendia a proclamação de três deputados oposicionistas. O Tribunal chegou a assumir competências legislativas, decisão posteriormente parcialmente revertida. A oposição, por sua vez, organizou um Tribunal Supremo de Justiça no exílio, com magistrados que passaram a realizar sessões e proferir decisões a partir dos Estados Unidos e da Colômbia, inclusive de Miami. A disputa já não se limitava à interpretação da Constituição, mas alcançava a própria definição de quais instituições poderiam exercer legitimamente o poder estatal. A convocação de uma Assembleia Constituinte por Maduro, também em 2017, agravou a duplicidade institucional. Depois do boicote de parte da oposição às eleições presidenciais de 2018 e da contestação internacional de seus resultados, essa estratégia atingiu seu ápice com a autoproclamação de Juan Guaidó como presidente interino, em janeiro de 2019. Sem controlar efetivamente o aparato estatal e sem hegemonia na sociedade civil, Guaidó recebeu reconhecimento dos Estados Unidos e de outros governos, enquanto o Grupo de Lima e a Organização dos Estados Americanos se transformavam em espaços de disputa pela legitimidade internacional da Presidência venezuelana. O reconhecimento diplomático foi acompanhado de sanções econômicas e medidas sobre ativos externos da PDVSA, procurando conferir eficácia material a um governo que não exercia o poder internamente.

O fracasso dessas iniciativas não encerrou o repertório de desestabilização. Em fevereiro de 2019, a tentativa de introduzir ajuda humanitária pelas fronteiras venezuelanas converteu-se em novo episódio de confronto político e diplomático. Em abril, Guaidó e Leopoldo López promoveram uma tentativa frustrada de levante civil-militar contra Maduro. No ano seguinte, a chamada Operação Gideon representou outra modalidade de ação: uma incursão armada organizada por dissidentes venezuelanos e ex-militares norte-americanos, vinculada à empresa privada Silvercorp USA, sediada na Flórida, que pretendia capturar Maduro e derrubar seu governo. A operação fracassou, e seus vínculos com representantes da oposição foram objeto de investigações9.

Em janeiro de 2026, a intervenção militar direta dos Estados Unidos, com a captura de Nicolás Maduro em território venezuelano e sua transferência forçada para a Justiça norte-americana, introduziu um novo patamar nessa história. A ingerência já não se limitava ao reconhecimento diplomático, à pressão econômica ou ao apoio a forças políticas internas: a própria potência estrangeira empregava diretamente seus meios militares para retirar o presidente do país e estabelecer um governo títere. A pretensão colonial chegou ao ponto de Trump sugerir, em 27 de outubro de 2026, a transformação da Venezuela no 51º estado norte-americano, substituindo a eleição presidencial pela escolha de um governador – uma direta e agressiva política colonial10.

Em A política colonial e seus novíssimos apologistas, Pachukanis já criticava o formalismo jurídico que pretendia definir uma colônia por sua posição administrativa dentro de determinado Estado, lembrando que a incorporação da Argélia à estrutura estatal francesa não eliminava seu caráter colonial11. Ao mesmo tempo, rejeitava a redução puramente econômica do colonialismo, que terminava por negar a importância da independência política e da autodeterminação dos povos. É justamente essa contradição que a Venezuela recoloca. Diante do fracasso das sucessivas tentativas de constituir um governo aliado aos interesses de Washington, por meio da oposição e de setores da burguesia local, a intervenção militar estrangeira direta passou a integrar o repertório de imposição colonial. Não se trata de uma novidade histórica. Na tradição intervencionista da Doutrina Monroe, que incluiu ocupações militares no Caribe e na América Central nas primeiras décadas do século XX, os Estados Unidos também invadiram o Panamá, em 1989, depuseram Manuel Noriega e o levaram para julgamento em território norte-americano, em uma operação que apresenta evidente semelhança histórica com a captura de Nicolás Maduro em 2026.

A Doutrina Donroe parece recuperar essa tradição: quando os mecanismos indiretos de dominação não conseguem assegurar governos alinhados aos interesses norte-americanos, a intervenção militar direta reaparece como instrumento de subordinação colonial. Afinal, como já advertia Pachukanis, o caráter colonial dessas relações não depende de sua formalização jurídica, mas tampouco dispensa a disputa pela soberania política e pelo controle das riquezas dos povos submetidos ao imperialismo.

4. O momento Guaidó ou María Corina Machado? O patriotismo dos trânsfugas

A partir da experiência venezuelana, é possível encontrar uma chave de leitura para compreender melhor o que se passa no Brasil, sobretudo pelo modus operandi e pelo cardápio de alternativas de intervenção. Por óbvio, não se trata de nenhum determinismo histórico, tampouco da ousadia de anunciar, por meio dessa aproximação, um “Pachukanis em Brasília”. Nesse sentido, nem todos os detalhes da fuga de Flávio Bolsonaro estão nítidos, tampouco se sabe o que fará, de fato, no exterior em curto e médio prazo. Tudo permanece envolto em densa névoa, como já referido, e dependente dos resultados das eleições para o congresso dos EUA, mas cabe arriscar algumas hipóteses. O fato de ter ido para os Estados Unidos se juntar a seu irmão, Eduardo Bolsonaro, e a outros tantos foragidos ligados à tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro é muito relevante. Interessante ressaltar que há uma mudança logística, pois parece que a Argentina, tal como a Flórida, também se tornou um hub da extrema-direita. No entanto, sua carta golpista, que passou por pelo menos quatro versões, oferece pistas importantes para compreender suas intenções. Primeiro, autoproclamou-se o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, para depois recuar à condição de “líder do Brasil”. As mudanças de apresentação, entretanto, não alteraram o conteúdo fundamental: a recusa em reconhecer a derrota eleitoral e a tentativa de construir uma liderança política a partir do exterior12.

A carta não se limita à denúncia vaga e infundada de fraude eleitoral. Flávio Bolsonaro apresenta como uma “impossibilidade matemática” o crescimento da votação de Lula entre os turnos, aponta supostas irregularidades na prorrogação do horário de votação e defende expressamente a cassação da chapa Lula-Alckmin — alegações que não encontram respaldo nos dados já apurados e divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Também acusa ministros do Supremo Tribunal Federal de perseguição política e retoma a intenção, já manifestada durante a campanha, de promover o impeachment desses magistrados. Ao mesmo tempo, dirige-se à comunidade internacional, convoca senadores, deputados e governadores que ajudou a eleger e anuncia que liderará a oposição a partir dos Estados Unidos, indicando, inclusive, Rogério Marinho como seu candidato à presidência do Senado. Parece querer, da mesma forma que lideranças oposicionistas venezuelanas, coordenar o espólio do bolsonarismo a partir de Miami.

A autoproclamação inicial, acompanhada da possibilidade de formação de um governo paralelo defendida por alguns de seus aliados, parecia buscar seu momento Guaidó. E não apenas por semelhança: Juan Guaidó é citado nominalmente na carta, ao lado de Edmundo González e María Corina Machado. Flávio Bolsonaro também procura se apresentar como uma liderança política no exílio, evocando Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí – pasmem! –, e sustenta que sua saída seria uma forma de continuar a luta pelo país. Importante ressaltar que Guaidó, autoproclamado presidente interino, fracassou em seu intento golpista na Venezuela, apesar do reconhecimento diplomático norte-americano e de parte dos países latino-americanos. Sem falar do destino de Edmundo González que seria seu futuro sombrio de líder esquecido na Europa.

A referência a María Corina Machado ganha outro sentido quando seu irmão Eduardo Bolsonaro chega a falar, em piada patriótica, em mandar os Marines ao Brasil caso Flávio Bolsonaro perdesse as eleições13. O sonho do agora autoproclamado “líder do Brasil”, e não mais “presidente eleito”, parece ser retornar ao país nos braços de Trump, à semelhança da líder golpista María Corina Machado, que, curiosamente, retornou à Venezuela no mesmo dia da eleição de Lula –  um roteiro burlesco difícil de imaginar. Por enquanto, porém, o presidente norte-americano autorizou sua entrada nos Estados Unidos, mas declarou, ao menos publicamente, que não pretendia se envolver na contestação eleitoral.

Isso, entretanto, não impede que Flávio Bolsonaro, caso consiga coordenar o espólio do bolsonarismo, recorra a outros expedientes de desestabilização: insistir na cassação da chapa Lula-Alckmin, com a mobilização de seus apoiadores para atos de rua; fomentar processos de impeachment contra o presidente da República ou ministros do Supremo Tribunal Federal; instigar sabotagens ou mesmo ações diretas; e continuar buscando a imposição de tarifas e sanções contra a economia brasileira. Não se trata apenas de possibilidades abstratas, uma vez que boa parte desse repertório já foi utilizado contra nosso país. Para não repisar todos os acontecimentos, basta lembrar que até mesmo ações de caráter terrorista, como a tentativa de atentado com explosivos nas proximidades do aeroporto de Brasília, foram levadas a cabo.

No fim das contas, é interessante observar como a esquerda foi acusada de tentar “venezuelizar” o Brasil, quando, na realidade, estamos diante de um mundo ao revés: quem reproduz os expedientes da direita venezuelana são justamente os grupos que integram o denominado bolsonarismo. Contudo, por mais farsesco que tudo isso possa parecer, é fundamental não subestimar essas iniciativas, pois, como advertiu o historiador Carlos Fico, “Todo golpe fracassado é ridicularizado”. O problema é que a história não nos permite saber antecipadamente quais tentativas fracassarão14


Notas:

  1. FERREIRA, Luiz Cláudio. PL, partido de Flávio Bolsonaro, reconhece vitória de Lula nas eleições. Agência Brasil, Brasília, 26 out. 2026. ↩︎
  2. TSE. Auditoria do PSDB não encontrou fraude nas eleições de 2014, 2021; RICHTER, André. STF condena Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão. Agência Brasil, 11 set. 2025. ↩︎
  3. REUTERS. Brazil’s Flavio Bolsonaro arrives in US after election defeat. 28 out. 2026. ↩︎
  4. Flávio Bolsonaro é investigado no STF por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse e por operações financeiras envolvendo o advogado Willer Tomaz, também investigado e, preventivamente, evadiu-se para Estados Unidos desde agosto de 2026, segundo a Polícia Federal. A ordem de entrega dos passaportes decorreu deste último inquérito. Cf. MARQUES, José. PF apontou risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes. Folha de S.Paulo, 27 out. 2026. ↩︎
  5. Em The Fog (1980), de John Carpenter, uma cidade celebra seu centenário enquanto os fantasmas de vítimas de um crime cometido por seus fundadores retornam envoltos em nevoeiro. O passado, construído sobre a violência e encoberto pela memória oficial, ressurge para assombrar aqueles que pretendiam sepultá-lo. ↩︎
  6. ESTADOS UNIDOS. National Security Strategy, 2025, p. 15-18. CEPIK, Marco. O corolário Trump e a América Latina. Revista Tempo do Mundo, 2019. EFE. La mano de Trump: el respaldo a la ultraderecha para ganar aliados en América Latina, 26 jun. 2026. ↩︎
  7. PACHUKANIS, Evguiéni B. Imperialismo e política colonial: a economia do imperialismo. São Paulo: Boitempo, 2026. MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Germinal: Marxismo e Educação em Debate, v. 9, n. 3, p. 325-356, 2017 [1973]. ↩︎
  8. PAZELLO, Ricardo Prestes; SOARES, Moisés Alves. Pachukanis em Caracas: o direito internacional entre a forma jurídica e a guerra (neo)colonial. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas, Brasília, v. 14, n. 1, p. 145-187, 2020. ↩︎
  9. SEQUERA, Vivian; COHEN, Luc. Venezuela’s top prosecutor requests extradition of U.S. veteran accused in plot. Reuters, 8 maio 2020 ↩︎
  10. REUTERS. Trump says US has captured Venezuela President Maduro. Reuters, 3 jan. 2026. EFE. Trump dice que Venezuela debería ser un estado de Estados Unidos y tener gobernador, no presidente. EFE, 27 out. 2026. ↩︎
  11. PACHUKANIS, Evguiéni B. A política colonial e seus novíssimos apologistas. In: PACHUKANIS, Evguiéni B. Imperialismo e política colonial: a economia do imperialismo. São Paulo: Boitempo, 2026, p. 138-141. ↩︎
  12. CASADO, Letícia; BECHARA, Victoria. Leia as versões da carta golpista de Flávio Bolsonaro. UOL, 28 out. 2026. ↩︎
  13. LIMA, Ana Gabriela Oliveira. Eduardo Bolsonaro sugere envio de fuzileiros ao Brasil. Folha de S.Paulo, 23 out. 2026. ↩︎
  14. NEGREIROS, Adriana. Chamar tentativa de golpe de “trapalhona” é equivocado, diz historiador. UOL, 31 mar. 2025. ↩︎

*** Moisés Alves Soares é Professor Adjunto de História do Direito da Universidade Federal de Jataí (UFJ). Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito (PPGD) da UFJ. Coordenador do Grupo de Pesquisa Teorias Críticas do Direito e Desigualdades Sociais (@criticasdodireitoufj). Foi membro da Secretaria Executiva do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS) e, atualmente, é coordenador do GT Direito e Marxismo.


🗓️ Assista a live de lançamento de Imperialismo e política colonial: a economia do imperialismo, de Evquiéni B. Pachukanis, com Moisés Alves Soares, Marina Machado Gouvêa e mediação de Gustavo Seferian. A conversa acontece na próxima terça-feira, 3/11, às 19h, ao vivo na TV Boitempo.


Imperialismo e política colonial: a economia do imperialismo
de Evguiéni B. Pachukanis

Erudita e revolucionária, a nova obra do jurista Evguiéni B. Pachukanis resulta de um ciclo de palestras ministradas por ele em Moscou entre os anos de 1926 e 1927. A primeira parte do livro, intitulada Imperialismo e política colonial, aborda o imperialismo e partir da teoria de Lênin em divergência com o pensamento de outros teóricos como Rosa Luxemburgo e Fritz Sternberg.



A obra é acompanhada por um apêndice, “A política colonial e seus novíssimos apologistas”, um discurso no qual Pachukanis rebate o sistema de crenças social-democrata sobre o colonialismo, representado pelo pensamento de Jean Zyromski, Otto Jensen, Max Schippel e outros estudiosos. Com isso, demonstra um conhecimento profundo sobre as políticas adotadas por grandes potências coloniais da época, como a holandesa, alemã, inglesa e francesa, que trabalhavam em resposta ao crescente movimento proletário no mundo, liderado pela revolução de 1917.


Os dois textos reforçam as formulações de Lênin sobre o assunto e as complementam, indo além da abordagem econômica e tocando, ainda que de maneira inicial, nos desdobramentos raciais, ecológicos e culturais da política expansionista própria do imperialismo. Passados cem anos, a obra apresenta a atualidade das ideias de Pachukanis e seu diálogo com os estudos contemporâneos.

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