A “avalanche” bolsonarista na eleição de 2026 e a força do Lulismo

Reprodução: Redes Sociais

Por Felipe Brito

Com uma virada histórica, Lula ganhou a eleição presidencial e o Lulismo atravessou, de forma épica, a “avalanche” bolsonarista que arrastou a eleição de 2026. As mobilizações e os engajamentos nas ruas e nas redes foram intensos e impulsionaram o feito! Lula obteve 64.256.232 votos no segundo turno (10.376.694 a mais do que no primeiro turno).

O alcance, a capilaridade e a renitência do bolsonarismo manifestaram-se, com contundência e ostensividade, no quadro eleitoral de 2026. 56.104.503 brasileiros e brasileiras votaram em Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial. No segundo turno, foram 59.826.041 votos. No Senado Federal, o PL, partido que abriga a maior parte do bolsonarismo, ampliou uma bancada que já é majoritária na casa: ao eleger 19 senadoras e senadores, angariou 28 cadeiras e, com isso, estabeleceu a maior bancada de um partido desde a Constituição Federal de 1988. Em 2022, elegeu 8 senadores, perfazendo um total de 15 e, assim, formou a maior bancada do Senado Federal. No tocante à Câmara de Deputados, elegeu 121 parlamentares, formando a maior bancada de deputados federais desde a Constituição Federal de 1988. Em 2022, o PL já havia formado a maior bancada de parlamentares na Câmara Federal, passando de 76 para 99 deputados. No tocante ao número de deputados estaduais/distritais, em 2022, o PL também ficou no topo da lista com a eleição de 129 parlamentares nos 26 estados e no Distrito Federal. Em 2026, manteve-se no topo da lista, ao eleger 212 parlamentares.

No domingo, dia 18 de outubro de 2026, bolsonaristas exibiram em um ato da campanha, na Avenida Paulista, um míssil inflável gigantesco com a seguinte mensagem: “Trump nuke Brazil” (“Trump, faça um ataque nuclear no Brasil”). Sabemos que intervenções armadas dos EUA no Brasil, associadas à prostração neocolonial, povoam o imaginário bolsonarista1. Não obstante, perpassando esses revestimentos “ideológicos” ou (pós)”ideológicos”, para aquém e para além deles, instaura-se e atua um processo de assimilação, incorporação do referencial da destrutividade/destruição. Reitero: em um ato da campanha eleitoral bolsonarista, na Avenida Paulista, foi ostentado um míssil inflável gigantesco conclamando um ataque nuclear no Brasil. Sendo uma conclamação enfática, militante, engajada ou uma conclamação inconsequente, escrachada, está posta uma familiaridade com o referencial da destrutividade/destruição. Se estamos falando de incorporação de destrutividade/destruição, estamos falando, também, de processos de autodestruição, de tomar para si e como sua, em alguma medida, a destrutividade, de alojar no escopo subjetivo a destrutividade, de assimilar, portanto, afetiva e intelectivamente, a destrutividade, em alguma medida.

Não estamos tratando, aqui, de um referencial meramente simbólico. De fato, concretamente, no plano internacional, pode ser verificada uma escalada objetiva destrutiva, com desintegração econômica, deterioração política e devastação ambiental (com efeitos e enfrentamentos diversos nos países e localidades). Um modo de produção acorrentado à finalidade (compulsiva) de acumulação monetária, atravessado, além do mais, por uma crise econômica de alcance estrutural (no qual o estouro da bolha imobiliária de 2008, nos EUA, constituiu episódio estrondoso, cujos efeitos ainda ressoam), tende a superacumular deterioração social e ambiental. E nessa superacumulação agregam-se os desdobramentos sociais e ambientais das disrupções econômicas, geopolíticas, militares, culturais empreendidas pelo trumpismo.

Aliás, a “terra arrasada” que a “motosserra” econômica, política e cultural da tecnologia de governança de Millei, na Argentina, perfaz um tenebroso exemplo de que as extremas-direitas não se direcionam a oferecer nenhuma promessa de ultrapassagem dos propulsores das desintegrações econômicas, deteriorações políticas e devastações ambientais. Ao contrário, tendem a atuar pró-ciclicamente, catalisando os propulsores e as resultantes destrutivos. Impulsionadas por metas, métodos e instrumentos disruptivos, “chutam o balde”, “chutam o pau da barraca” e, com isso, fornecem a milhões de pessoas algum tipo de representação, mimetização dessas “formas de ser” destrutivas (instaladas, de modo “sistêmico”, no capitalismo em vigência). Oferecem, enquanto tal, roteiros de vivências dos rastros “sistêmicos” de destruição e nos rastros “sistêmicos” de destruição.

Para ajudar na exposição, cabe traçar um painel empírico, a partir de um recorte urbano e periférico no Brasil, localizando o foco de análises na massa de trabalhadores “plataformizados” e “uberizados”. Esses trabalhadores precisam perseguir, no dia a dia, rendas não ou pós-salariais, obtidas em contextos nos quais os custos econômicos e subjetivos são externalizados (e jogados nos seus próprios ombros), perpassados por ausências de direitos trabalhistas, previdenciários, de respaldos sindicais, nos quais, ademais, as partilhas de vivências (no e pelo trabalho), quando acontecem, são rarefeitas. Não é hiperbólico considerar que essa massa de pessoas se encontra, de alguma forma, assujeitada a uma realidade objetivada “do cada um por si e todos contra todos”, e, assim, vivenciam, de alguma forma, a sociedade como “selvageria do cada um por si e todos contra todos”. É plausível considerar, ainda, que se amontoam nas montagens dessas vivências cotidianas efeitos decorrentes das segregações urbanas nas cidades brasileiras e da precarização das mobilidades urbanas; dos eventos climáticos extremos; das disputas/gestões armadas de territórios perpetradas pelo narcotráfico e/ou milícia; das truculências dos aparatos repressivos estatais; de desmazelos de algumas instituições privadas e públicas; de abandonos, negligências e/ou invasividades afetivas nos âmbitos familiares etc. Logo, para aqueles que, em alguma medida e de alguma forma, vivenciam a sociedade como “selvageria do cada um por si e todos contra todos”, o bolsonarismo oferece “manuais de sobrevivência” (com muitas aspas) para percorrer os solavancos do dia a dia, pautados por “entrincheiramentos” subjetivos; fornece roteiros de vivências da sociedade mediadas por esses “entrincheiramentos” e farrapos de conexões entre essas pessoas “entrincheiradas” (visto que, mesmo “entrincheiradas”, não abdicam, por completo, de demandas por conexões, socializações, reconhecimentos).

Com efeito, dentre uma teia multifatorial, complexa, para os propósitos do texto, é possível elencar quatro fatores que retumbaram na “avalanche” bolsonarista nas eleições de 2026, instrumentalizados com o cinismo típico da tecnologia de interpelação bolsonarista (que, por meio da autoproclamação de “antissistema”, abastece o alastramento daquela representação social difusa do “nada presta no Brasil” e de dispositivos hiperindividualistas de vivências sociais). Aqui, caberia um debate acerca do ativismo digital de um campo político nativo digital. Deixarei para outro texto, dada a centralidade do tema às tecnologias de interpelação e governança bolsonaristas (e da extrema-direita, em geral). Citando os quatro fatores: inflacionamento do preço de alimentos; endividamento dos consumidores; a questão da segurança pública; instrumentalização dos distúrbios do STF, no âmbito do primeiro turno, a partir da “chutação de balde” do Ministro André Mendonça.

Sabemos que a alimentação constitui uma dimensão radical da vida das pessoas. Com isso, o inflacionamento dos alimentos porta um reservatório disruptivo: provoca tensões, dificuldades, percalços nos agenciamentos cotidianos de vida das pessoas comuns, que tendem a acirrar uma sensação de insegurança e desamparo social. O governo Lula herdou do governo Bolsonaro um elevado inflacionamento dos alimentos, na casa de 54,2% (com o agravante da corrosão das políticas direcionadas ao aumento da renda do trabalho, como, por exemplo, a política de valorização continuada do salário mínimo). Herdou, ademais, o país no mapa da fome, com as famigeradas “filas dos ossos”, com os estoques reguladores de alimentos da Companhia Nacional de Abastecimento dilapidados. Para analisar a complexidade do manejo político-econômico para o enfrentamento da situação, é necessário considerar o pano de fundo sócio-histórico global de predomínio de fluxos econômicos com procedência financeiro-rentista-especulativa, desregulamentações financeiras abrangentes, dolarização das cadeias globais de valor, volatilidade cambial, em que commodities não são apenas mercadorias, mas também ativos financeiros impulsionadores de especulações em Bolsa de Valores, de fortes indícios de estagflação, atravessado, ainda, pelo belicismo trumpista e sionista. Levando em consideração os vetores supracitados, além do elevado sarrafo inflacionário de alimentos relegado pelo governo Bolsonaro (com corrosão da renda do trabalho), o governo Lula mobilizou um conjunto de medidas e conseguiu rebaixar o inflacionamento dos alimentos para a casa de 13,6%. Desacelerou, assim, a elevação dos preços e favoreceu deflações pontuais, como no caso do arroz.

Não obstante, como o próprio Presidente Lula reconheceu ao longo da campanha: “o custo de vida está caro”2. A campanha bolsonarista promoveu, com engenhosidade cínica, uma massificação de conteúdos para as redes sociais e televisão cujo cenário eram supermercados e carrinhos vazios. Além do inflacionamento de alimentos, entra nesse montante de encarecimento do custo de vida o endividamento (parte considerável decorrente das bets, aliás) – para ser mais exato, a associação entre encarecimento do crédito e endividamentos elevados em cheque especial, consignado, cartão de crédito, bets etc. O fenômeno do endividamento não é, exatamente, uma “jabuticaba” brasileira: é uma característica do capitalismo atual. Nos EUA, por exemplo, a dívida privada está na faixa de 143% do Produto Interno Bruto e a dívida pública entre 124% e 129% do PIB. O que pode ser catalogável como uma “jabuticaba” brasileira (ou algo tangente a isso) é a exorbitância da taxa básica de juros estipulada pelo Banco Central (chamada de taxa selic). Aqui, além das pressões e chantagens, capitaneadas pela Faria Lima, para impor uma “camisa de força” fiscal, um “cabresto” sobre o Banco Central e uma blindagem do escoadouro de fundo público via pagamento de juros da dívida pública, incide um fator complicado, que diz respeito ao manuseio da taxa selic para segurar dólares no país e evitar a disparada do câmbio. Mais especificamente, ainda, manuseio da taxa selic como ferramenta de gestão da rentabilidade do tal carry trade. Em resumo, o tal carry trade, aqui no país, consiste na captação de dinheiro a custo quase zerado (em países com taxas básicas de juros próximas a zero, como Japão, alguns países europeus e EUA) para aplicação/investimento em ativos financeiros de curtíssimo prazo, atraídos pela taxa básica de juros exorbitante do Banco Central. Se a tal “taxa de carry” do Brasil discrepar perante a de países periféricos ou semiperiféricos, como México e África do Sul, pode provocar uma revoada abrupta e volumosa de dólares do país, gatilho para lançar o dólar nas alturas e depreciar o real – combinação suscetível de atiçar turbulências sociais, dada a pressão inflacionária que exerce sobre alimentos e insumos. A propósito, a complexidade da questão do manejo da taxa Selic como ferramenta cambial pode, por exemplo, ser visualizada na eleição presidencial de 2022. A taxa básica de juros do Banco Central foi puxada para 2%, em 5 de agosto de 2020, e permaneceu assim até 17 de março de 2021. Na medida em que provocou escaladas cambial e inflacionária, influenciou o resultado eleitoral de 2022, conforme sublinhou o Ministro Fernando Haddad3.

Um outro fator que retumbou no quadro eleitoral foi a segurança pública – não apenas no escopo brasileiro: pesquisa do professor Murilo Medeiros (UnB) verificou que, desde 2023, 70% das eleições realizadas em países da América Latina (exceptuando-se Venezuela, Cuba e Nicarágua, não analisados) foram pautadas, precipuamente ou ostensivamente, pela questão da “segurança pública”, da “lei e ordem”4. Em 9 de março de 2026, publiquei um texto sobre o bolsonarismo e a “ênfase” na pauta da “segurança pública”. À época, as movimentações pré-eleitorais já estavam “bombando” e o bolsonarismo já se “lambuzava” no extravasamento securitário (mirando, com atenção especial, o pleito do Senado Federal, tratado como tão ou mais estratégico que a disputa da Presidência da República, pelas prerrogativas de empreender disrupções nas dinâmicas institucionais)5. No âmbito da campanha eleitoral, além da massificação de conteúdos cujo cenário eram supermercados e carrinhos vazios, a candidatura bolsonarista usou e abusou de imagens de roubos violentos nas cidades, narcotráfico armado, presídios, relacionando-as, diretamente, ao Presidente Lula. O bolsonarismo manteve uma “ênfase” (ruidosa) no trato da “segurança pública”, de algum modo interpretada por milhões de pessoas como uma espécie de “comprometimento”, “implicação”, “escuta” das manifestações afetivas de insegurança e medo, e dos correlatos clamores por “autoridade” e “ordem”. Na outra face dessa linha de interpretação, estaria uma aparência de “desimplicação”, “ausência de escuta”, “distanciamento” (também interpretados, não raro, como expressões de “privilégio”) do campo de esquerda.

Posicionando o foco em milhões de pessoas concentradas em territórios periféricos urbanos, dentro desse compartimento da “segurança pública” são depositadas experiências, afetações e representações oriundas de “normatividades” territoriais armadas perpetradas por milícias e facções narcotraficantes, que se implantam nos agenciamentos cotidianos de vidas. A radicalidade disso pode ser dimensionada, a título ilustrativo, pela interferência do acesso ao pãozinho de sal em áreas periféricas da região metropolitana do Rio de Janeiro, pelo controle armado da distribuição de farinha de trigo. Sim: pãozinho de sal6.

Tanto as “normatividades” territoriais armadas quanto as dos aparatos repressivos estatais municiam os “entrincheiramentos” (hiper)individualistas, fornecendo, ademais, contornos securitários (que conduzem, por exemplo, ao armamentismo). E, assim, recrudescem os protótipos de desconfiança (anti)social. O Lulismo passou a considerar com mais ênfase a questão da segurança pública, e isso transpareceu na campanha eleitoral. Mas, ainda, é uma seara muito desafiadora para o campo da esquerda, em geral.

Sobre a instrumentalização dos distúrbios do STF no primeiro turno, cabe salientar que a “chutação de balde” do Ministro do STF organicamente vinculado ao bolsonarismo, tirando o lawfare da cartucheira, no início de setembro, conseguiu capturar e conturbar a “economia da atenção” pública. No dia 25 de setembro de 2026, foi publicada a Medida Provisória 1.394/2026, que estabeleceu a proibição das Bets. Além da acentuada relevância de mérito, a iniciativa favoreceu a candidatura lulista a, pelo menos, se deslocar da posição defensiva que se encontrava no “ringue” eleitoral, provocada pelas supracitadas captura e conturbação da “economia da atenção” pública . Vale lembrar que, em 2 de setembro de 2026, foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal o fim da escala de trabalho 6×1, sem redução de salários. O próximo passo seria pautar a matéria no plenário. A referida “chutação de balde” favoreceu uma ambiência de esvaziamento da repercussão de um passo importante rumo a uma conquista social, apoiada por cerca de 78% da população, e de obstaculização da própria tramitação da matéria. A Proposta de Emenda à Constituição que extingue a escala de trabalho 6×1, sem redução salarial, PEC 221/2019, foi aprovada pelo Senado Federal, no andamento do segundo turno, em 14 de outubro de 2026, e impulsionou a cadência de mobilização da candidatura lulista e a (re)construção de pontes com muitas pessoas comuns, em várias áreas do país.

Cabe registrar, dando prosseguimento à elaboração do texto, que no dia posterior ao resultado do primeiro turno, irrompeu uma “euforia” galopante da Faria Lima: a Ibovespa disparou, batendo recorde histórico, e o dólar caiu abaixo de 5 reais. Na esteira dessa “euforia”, o acionista majoritário do BTG Pactual acumulou, no dia, 2,7 bilhões de dólares7. No dia posterior à virada histórica do Presidente Lula, ao contrário, o dólar escalou e a Ibovespa acionou o tal circuit braker.  Lá pelas duas últimas semanas do mês de agosto, desencadeou-se uma ciranda de subida do dólar e queda da Bolsa. Com vistas a exigir da candidatura lulista uma “camisa de força” fiscal e um “cabresto” sobre o Banco Central, a Faria Lima engendrara, à época, movimentos de “precificação” da eleição presidencial e, coetaneamente, acompanhara, amiúde, os desdobramentos da “chutação de balde” do Ministro do STF (que conturbou e capturou a “economia da atenção” pública, favorecendo uma candidatura com as características bolsonaristas). As militâncias da Faria Lima e dos “andares de cima” seguiram, com virulência, lastreadas na convergência de referenciais econômicos, políticos e culturais estabelecido com o bolsonarismo, modulada por dispositivos de espoliação/expropriação de fundo público e ativos públicos. Compondo as metas de imposição de uma “camisa de força” fiscal e de um “cabresto” sobre o Banco Central, destacam-se as pressões pelo achatamento do salário mínimo (via extinção da política de valorização continuada do lulismo) e desindexação dos benefícios da Previdência Social e Assistência Social (perante o próprio salário mínimo).

Com efeito, é importante assinalar que o bolsonarismo, catapultado por metas, métodos e instrumentos disruptivos, de conturbação e conturbação, vai se nutrindo e capilarizando. Entretanto, a “avalanche” bolsonarista na eleição de 2026 não se explica apenas pela acumulação de disrupções e invectivas. O espalhamento territorial por um país de proporções continentais também decorre da circunscrição do bolsonarismo nos marcos (sistêmicos) da “política convencional” praticada no Brasil. O bolsonarismo articula “chutação de balde” com mobilização dos recursos predominantes no mainstream político brasileiro – o que remete aos nexos (fisiológicos) com o chamado Centrão. O bolsonarismo parasitou canais de inserção territorial instaurados por políticos locais, não raro caudatários de lógicas clientelistas e milicianas de atuações, empoderados pela enxurrada de recursos provenientes de emendas impositivas. No Rio de Janeiro, analisar dinâmicas políticas de atuações territoriais na Baixada Fluminense, São Gonçalo e Zona Oeste ajudam na visualização dos nexos mencionados.

A propósito, em municípios menores do “interior” do país, com incidência majoritária do agro no PIB municipal, a vitória do candidato bolsonarista no primeiro turno foi, proporcionalmente, mais ampliada8. A capilarização do bolsonarismo também abarcou um espalhamento para municípios médios e menos populosos do “interior” do país, configurando um cinturão com alcance estimado em até 40% do território nacional, que vai do Norte do Rio Grande do Sul até a região Norte do país, passando pelo interior de São Paulo, Minas Gerais e por faixas expressivas da região Centro-Oeste9.

Tal cinturão expressa profundas transformações demográficas e territoriais no “interior” e a partir do “interior”, decorrentes do peso que a especialização primário-exportadora de commodities adquiriu na dinâmica econômica (pari passu com a desindustrialização que atingiu, em maior grau, as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre)10. A infiltração do bolsonarismo no heterogêneo universo do agro, que remete ao fenômeno designado por alguns pesquisadores como “agrobolsonarismo”11 (poderá ser tratado em textos subsequentes).

À guisa de (in)conclusão, o míssil inflável do ato bolsonarista da Avenida Paulista, conclamando Trump, em inglês, a bombardear o Brasil, apresenta, também, uma alegoria destacada das confluências e conexões entre as frações hegemônicas da lumpenburguesia brasileira e o bolsonarismo. A tecnologia bolsonarista de governança e interpelação aponta para a catalisação do atrelamento do país à primazia dos ganhos econômicos rentistas/financeiro-especulativos e à pilhagem de fundo e ativos públicos, recursos naturais e socioculturais, em um emaranhado de “governalidades” e “in/desgovernalidades” e embaralhamento de fronteiras entre “licitude” e “ilicitude”. Sintonizada com o caráter prevalescente desses setores dominantes, tal tecnologia atua no sentido da abdicação/boicote de qualquer esboço de (re)elaboração/atualização de um projeto nacional de desenvolvimento econômico (tratado, aqui, sem ingenuidade, no que for possível diante da estratosférica fronteira tecnológica): sobretudo, se esse projeto for pautado por objetivos de distribuição direta de renda/riqueza, de inclusão dos pobres no orçamento público e de ampliação da participação popular como vetor de governabilidade.

Na gramática bolsonarista, as políticas sociais públicas não são apenas objetos de esvaziamentos/desmantelamentos, mas também de deslegitimações categoriais.  “Retira com uma mão” o comprometimento e o referencial da vinculação das pessoas à sociedade mediada por direitos (que, enquanto tal, requer um repertório de políticas sociais públicas) e “põe com a outra” roteiros de vivências da sociedade mediadas por “entrincheiramentos” subjetivos (de caráter hiperindividualista), além de “farrapos” de conexões entre essas pessoas “entrincheiradas”. No âmbito da formação social brasileira, um arcabouço de Estado social só foi constitucionalizado em 1988 e, momentos depois, confrontado pela aplicação do neoliberalismo ao longo da década de 90. O passivo sócio-histórico é enorme pari passu a uma desconfiança (anti)social abrangente, inflamada e instrumentalizada pelo bolsonarismo. Porém, por mais “entrincheiramentos” (com as cargas defensivas que envolvem), as necessidades/demandas materiais e afetivas das pessoas comuns ainda urgem e clamam por reconhecimentos e respostas. Assim, a gramática das políticas sociais públicas não se tornou alheia. Ao contrário. A relevância do Lulismo, atravessando a “avalanche” bolsonarista, revela isso! Mas, são valências em disputas e, enquanto tal, reforça o desafio ao campo de esquerda da reconstrução de caminhos de conexões com as pessoas comuns, nas fileiras da uberização, nas “novas” periferias, nas profissões de fé evangélicas etc.

Nessa perspectiva, vale sublinhar um dos vários fatores cruciais (dentre vários) para a virada eleitoral histórica do Lulismo na eleição de 2026: a ampliação de votos nas periferias paulistanas. Contribuiu muito para essa conquista a “filosofia da práxis do pé no barro” do Ministro-chefe da Secretária-geral da Presidência da República Guilherme Boulos, da militância do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e movimentos populares correlatos, que envolve escuta ativa, elasticidade e disposição para construir vínculos presenciais. Logo, nessa ampliação de votos nas periferias paulistanas, além do repertório de políticas sociais públicas do Lulismo e da disposição empática extraordinária do Presidente Lula com as pessoas pauperizadas, ecoaram ruas, redes e vínculos – vínculos diretos e presenciais!


Notas:

  1. Ver, por exemplo: Flávio Bolsonaro diz que tem ‘inveja’ ao ver barcos abatidos pelos EUA sob acusação de tráfico: “Ouvi dizer que tem desses no RJ”. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/10/23/flavio-bolsonaro-diz-que-tem-inveja-ao-ver-barcos-de-drogas-abatidos-pelos-eua-ouvi-dizer-que-tem-desses-no-rj.ghtml. Acesso em: 25 de outubro de 2026. Ver, também: Lourenço, Cleber. Eduardo Bolsonaro fala em enviar tropas dos EUA ao Brasil se Flávio perder eleição. 2026. Disponível em: https://iclnoticias.com.br/eduardo-bolsonaro-tropas-brasil-flavio-perder/. Acesso em 25 de outubro de 2026. Ver, ainda: Toledo, José Roberto de & Blienky, Thais. Em inglês, Flávio Bolsonaro faz bota-fora de terras raras brasileiras. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/a-hora/2026/04/04/brasil-pode-ser-fornecedor-seguro-de-terras-raras-diz-flavio-bolsonaro.ghtm. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  2. Lula reconhece “custo de vida caro”, mas destaca “menor inflação acumulada em 4 anos”. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/09/16/lula-reconhece-custo-de-vida-caro-mas-destaca-menor-inflacao-acumulada-em-4-anos.htm. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  3. Branco, Ana Paula. Haddad: juros a 2% ajudaram a derrotar Bolsonaro. 2026. Disponível em:
    https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/02/selic-a-2-e-um-dos-fatores-que-explicam-a-derrota-de-bolsonaro-diz-haddad.shtml. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  4. Bê, Carole. Pesquisa aponta que 70% das eleições na América Latina foram vencidas por candidatos que focaram em segurança pública. 2026. Disponível em: https://agendadopoder.com.br/pesquisa-aponta-que-70-das-eleicoes-na-america-latina-foram-vencidas-por-candidatos-que-focaram-em-seguranca-publica/. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  5. Brito, Felipe. Notas sobre o bolsonarismo e a “ênfase” na “Segurança Pública”: impactos sociais e as eleições de 2026. 2026. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2026/03/09/notas-sobre-o-bolsonarismo-e-a-enfase-na-seguranca-publica-impactos-sociais-e-as-eleicoes-de-2026/. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  6. Madureira, Lucas & Faria, Klara. Tráfico impõe monopólio da farinha e faz preço do pão subir. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/03/27/trafico-impoe-monopolio-da-farinha-em-belford-roxo-denunciam-comerciantes.ghtml. Acesso em 25 de outubro de 2026. ↩︎
  7. Filho, Luís Mauro. Fortuna de André Esteves sobe US$ 2,7 bilhões e chega a US$ 15,8 bi após eleição no Brasil. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/negocios/fortuna-de-andre-esteves-sobe-us-27-bilhoes-e-chega-a-us-158-bi-apos-eleicao-no-brasil/. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  8. Fonseca, Bruno. Como o agro e o interior podem explicar diminuição de votos para Lula. 2026. Disponível em: https://apublica.org/2026/10/como-o-agro-e-o-interior-podem-explicar-diminuicao-de-votos-para-lula/. Acesso em: 25 de outubro de 2026. ↩︎
  9. Singer, André. A Terra é Redonda entrevista – André Singer. Youtube, 8 de janeiro de 2024. Disponível em: https://youtu.be/bqvPyqqARjw?si=GqoBWkKVHjoPJzk_. Acesso em 25 de outubro de 2026. ↩︎
  10. Ver Pochmann, Marcio. Deslocamento geoeconômico e populacional. 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/deslocamento-geoeconomico-e-populacional/. Acesso em: 20 de abril de 2026. ↩︎
  11. Ver, por exemplo, Pompeia, Caio. O agrobolsonarismo. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2022. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-agrobolsonarismo/. Acesso em: 25 de outubro de 2026. Ver, ademais, Forlini, Luana. Proprietários rurais e neofascismo: uma radiografia da ideologia do agrobolsonarismo. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, v. 33, n. 1, e2533103, 09.02.2026. DOI: https://doi.org/ 10.36920/esa33-1_03. ↩︎

*** Felipe Brito é docente do curso de Serviço Social da UFF (Universidade Federal Fluminense) no Campus de Rio das Ostras. Pela Boitempo, organizou, com Pedro Rocha de Oliveira, o livro Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social (2013). Autor do artigo “Territórios Transversais” (em conjunto com Pedro Rocha de Oliveira), que integra o livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.


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