Nem tudo o que se agita é vermelho

Fonte: Manifestation lycéenne du 6 octobre 2026 à Paris.

Por Slavoj Žižek

Comecemos com uma simples recapitulação dos fatos, por mais enviesada que ela possa ser. Os protestos na França iniciados em 18 de setembro de 2026 são impulsionados por uma ampla indignação de estudantes e trabalhadores diante do subfinanciamento crônico, da falta de pessoal e da precariedade da infraestrutura nas escolas públicas de ensino médio do país. Uma série de manifestações e bloqueios promovidos por estudantes dos lycées vem ocorrendo na França e, posteriormente e em menor escala, na Bélgica, na Itália e até mesmo na Albânia. Em 6 de outubro, os protestos converteram-se em uma mobilização nacional envolvendo estudantes, professores, pais e sindicatos. Os sindicatos estimaram em 450 mil o número de participantes em todo o país, ao passo que o governo francês calculou 250 mil. O movimento caracteriza-se por bloqueios de escolas de ensino médio, concentrações e passeatas. Entre os motivos apontados para participar dos protestos, os estudantes mencionaram a falta de professores, as salas superlotadas, as jornadas exaustivas, os prédios deteriorados e o estresse associado à plataforma de candidatura ao ensino superior Parcoursup, bem como as altas temperaturas nas salas de aula, que chegaram a 40 °C durante as ondas de calor que atingiram a Europa em 2026.

Ao longo de outubro, parcelas do movimento envolveram-se em atos de violência contra a polícia e contra alguns membros das equipes gestoras, em especial diretores de escola; o Ministério do Interior francês informou que milhares de pessoas foram presas. O governo francês acusou a extrema esquerda de insuflar os distúrbios em busca de ganhos políticos: teria sido a minoria radicalizada e criminosa dos manifestantes que deu início à violência. Os grupos e partidos envolvidos nos protestos, por sua vez, sustentaram que o movimento era espontâneo e acusaram o governo e os partidos de direita de recorrerem a um pensamento conspiratório. Em 19 de outubro, anunciou-se um toque de recolher para a Place de la République e as ruas em torno de Les Halles, em Paris, das 20h às 4h, ao passo que a cidade de Nice impôs a medida, com duração semelhante, apenas a menores de idade. Lille e outras três cidades do norte — Wattignies, Douai e Denain — impuseram toques de recolher de dois dias, a partir das 18h1. Na vizinha Itália, unidades do exército já estão posicionadas no centro de Milão.

As reações dos principais políticos são o aspecto mais triste de todo o caso. Marine Le Pen culpou imigrantes de extrema esquerda e fez apelos para que a lei e a ordem fossem restabelecidas por todos os meios necessários; Mélenchon apresentou uma série de propostas duvidosas, sem nenhuma ideia clara de como implementá-las; e a declaração pública de Macron foi um sinal evidente de sua completa desorientação — um clintoniano “Sinto a sua dor” dirigido aos manifestantes, um apelo à liberdade, mas dentro dos limites da lei e da ordem, tudo isso temperado com uma fuga da França (uma conveniente viagem ao exterior justamente quando sua presença no país seria crucial). Entre as completas estupidezes, mencionemos apenas a reiterada exigência de Marine Le Pen de que a idade de aposentadoria seja reduzida — eis o comentário de Paul Krugman:

“Não é preciso ser conservador para perceber que a aposentadoria precoce na França é insustentável, sobretudo considerando que a expectativa de vida dos franceses aos 65 anos é de cerca de 87 anos, dois anos a mais do que nos EUA. Assim, a pressão fiscal causada em grande parte pelo generosíssimo sistema público de previdência francês levou a cortes em outros gastos, notadamente em educação. A França está, na prática, transferindo grandes subsídios aos franceses mais velhos à custa de todos os demais. Manifestações estudantis massivas em escala nacional não deveriam surpreender ninguém.” 2

Demos, portanto, um passo atrás e observemos os protestos de uma perspectiva mais ampla: eles devem ser situados na série de protestos passados que fracassaram, cada um à sua maneira. Exemplares, nesse sentido, foram a lendária revolta estudantil de 1968 e as grandes revoltas dos gilets jaunes (coletes amarelos) em 2018. Os protestos de 1968 concentraram a luta contra (aquilo que era percebido como) os três pilares do capitalismo: a fábrica, a escola e a família. Como resultado, cada um desses domínios foi submetido a uma transformação pós-industrial: o trabalho fabril é cada vez mais terceirizado ou, no mundo desenvolvido, reorganizado segundo o modelo pós-fordista de trabalho em equipe, não hierárquico e interativo; a educação permanente, flexível e privatizada substitui cada vez mais a educação pública universal; múltiplas formas de arranjos sexuais flexíveis substituem a família tradicional.3 A esquerda perdeu em sua própria vitória: o inimigo direto não foi derrotado, mas substituído por uma nova forma de dominação capitalista ainda mais brutal. Desse modo, o capitalismo usurpou a retórica esquerdista da autogestão operária, convertendo-a de palavra de ordem anticapitalista em palavra de ordem capitalista. Nessa lógica, o socialismo é que seria conservador, hierárquico e administrativo.

Os protestos anticapitalistas dos anos 1960 complementaram a crítica tradicional da exploração socioeconômica com uma nova crítica cultural: a alienação da vida cotidiana, a mercantilização do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massas na qual usamos máscaras e sofremos opressões sexuais e de outra natureza. O novo capitalismo apropriou-se triunfalmente dessa retórica anti-hierárquica de 1968, apresentando-se como uma bem-sucedida revolta libertária contra as organizações sociais opressivas do capitalismo corporativo e do socialismo “realmente existente”. O resultado final foi a crescente restrição da esquerda às questões de política cultural — a cultura do cancelamento e a política identitária substituíram em grande medida a luta de classes e as visões de uma nova ordem econômica e política.

Os protestos dos coletes amarelos (gilets jaunes) na França sinalizaram o fim desse pacto pós-1968 e o retorno da política cultural a questões econômicas particulares. Começaram como um movimento de base, surgido de um amplo descontentamento com uma nova ecotaxa sobre a gasolina e o diesel, vista como um golpe contra aqueles que vivem e trabalham fora das áreas metropolitanas, onde o transporte público é mínimo. O movimento ampliou-se até abarcar uma panóplia de reivindicações, incluindo o Frexit (a saída da França da UE), a redução de impostos, aposentadorias mais altas e a melhoria do poder de compra do francês comum. Os coletes amarelos oferecem um caso exemplar de explosão da cólera popular em toda a sua inconsistência: menos impostos e mais dinheiro para a educação e a saúde, gasolina mais barata e luta ecológica… Embora o novo imposto sobre combustíveis fosse obviamente uma desculpa, ou melhor, um pretexto — e não aquilo de que os protestos “realmente tratavam” —, é significativo notar que o estopim dos protestos foi uma medida destinada a combater o aquecimento global. Não surpreende que Trump tenha apoiado entusiasticamente os coletes amarelos (chegando até a alucinar gritos de alguns manifestantes: “Queremos Trump!”) — ele observou que uma das reivindicações era que a França se retirasse do Acordo de Paris.

A questão subjacente é a seguinte: quando a forma predominante de representação política se esgota, pode nosso engajamento político ganhar nova vida por meio de um despertar direto do povo? Sim, mas a dura lição da história é que o ponto difícil vem depois, quando o entusiasmo popular precisa ser transformado em uma organização política efetiva, com um programa preciso. No que diz respeito ao caráter “caótico”, sem lideranças e descentralizado dos protestos dos coletes amarelos, pode-se afirmar que nisso residia precisamente sua força: eles expuseram o hiato entre a experiência ordinária e a representação política. Em vez de um agente claramente definido, que dirige reivindicações ao poder estatal e, com isso, se oferece como parceiro de diálogo, temos uma pressão popular polimorfa, e o que leva os detentores do poder ao pânico é justamente o fato de que essa pressão não pode ser localizada em um adversário claramente identificável, permanecendo uma versão daquilo que Toni Negri chamou de multidão. Se essa pressão se exprime em reivindicações concretas, tais reivindicações não são aquilo de que o protesto realmente trata.

Em algum momento, contudo, as demandas histéricas precisam traduzir-se em um programa político (ou desaparecem) — as reivindicações dos manifestantes são a expressão de uma insatisfação mais profunda com a própria ordem capitalista liberal-democrática, na qual as demandas só podem ser atendidas por meio do processo de representação política parlamentar. Em outras palavras, os protestos contêm uma demanda mais profunda por uma lógica diferente de organização político-econômica, e é aqui que se faz necessária uma nova liderança capaz de operacionalizar essa demanda mais profunda. Não tenho medo de extrair aqui uma conclusão que, para alguns, será aterradora: precisamos de verdadeiros líderes para tomar decisões duras quando elas não puderem ser evitadas — que grupo de soldados sacrificar em um campo de batalha, que paciente deixar morrer quando não há recursos suficientes etc. —, ou, como diz um velho médico na série de TV New Amsterdam: “Líderes fazem escolhas que lhes tiram o sono. Se você dorme bem, não é um deles.” Paradoxalmente, o excesso que não pode ser captado pelos mecanismos da representação político-eleitoral só pode encontrar expressão adequada em um líder ou em um órgão dirigente capaz de impor um projeto social e econômico de longo prazo, sem estar constrangido pelo estreito intervalo entre duas eleições… Isso soa como uma militarização universal? Sim — o comunismo vindouro será um comunismo de guerra, ou não será.

Os coletes amarelos na França articularam claramente uma experiência impossível de traduzir ou transpor para os termos da política da representação institucional, razão pela qual, no momento em que Macron convidou seus representantes para um diálogo e os desafiou a formular suas queixas em um programa político claro, a especificidade de sua experiência evaporou-se. A solução não está em que, de algum modo, a sociedade civil auto-organizada e mobilizada (Podemos, coletes amarelos…) assuma diretamente o poder e substitua o Estado: o reinado direto da multidão é uma ilusão; via de regra, ele precisa ser sustentado por um forte aparato estatal. É preciso reunir coragem e realizar aqui uma inversão hegeliana: se nenhuma representação política é capaz de captar adequadamente aquilo a que se refere (a verdadeira vontade do povo, aquilo de que o povo realmente precisa e o que realmente quer), então esse fracasso permanente indica que o problema reside nesse mesmo ponto de referência (aquilo de que o povo realmente precisa e o que realmente quer).

Lembremos o discurso de posse de Trump em 2017: “A cerimônia de hoje tem um significado muito especial, pois hoje não estamos apenas transferindo o poder de um governo para outro, ou de um partido para outro: estamos transferindo o poder de Washington, D.C., e devolvendo-o a vocês, o povo.” Até então, as elites governavam, mas: “Tudo isso muda, a partir daqui e de agora, porque este momento é o momento de vocês — ele pertence a vocês. Pertence a todos os que estão reunidos aqui hoje e a todos os que estão assistindo, por toda a América. Este é o dia de vocês.”4 Não devemos tomar essas palavras como mera demagogia barata, mas como um indício do que há de errado na própria ideia de um poder direto do povo.

Talvez o que estejamos testemunhando hoje, com a política da “pós-verdade”, seja o fim de toda a tradição de uma vontade popular verdadeira e autêntica que seria, então, manipulada e deturpada, mas por cuja representação adequada deveríamos lutar. A maneira de derrotar o populismo trumpista não é afirmar que ele não representa realmente o povo, que se deveria permitir que a verdadeira vontade do povo se expressasse fora desse populismo. O próprio fato de que a vontade do povo possa ser “manipulada” de maneira tão completa sinaliza seu caráter fantasmático. Mais uma vez, de modo hegeliano, a crítica da representação deve ser invertida em crítica daquilo que a representação supostamente representa.

A opressão estatal direta tende a unificar a oposição e a promover formas organizadas de resistência, ao passo que, nas sociedades “pós-modernas”, mesmo a insatisfação extrema assume a forma de revoltas caóticas que logo perdem o fôlego, incapazes de alcançar o estágio “leninista” de uma força organizada com um programa claro. Os protestos dos coletes amarelos encarnaram a estranha inversão que caracteriza a situação global de hoje. O velho antagonismo entre as “pessoas comuns” e as elites capitalistas financeiras está de volta com força total, com as “pessoas comuns” explodindo em protestos contra as elites, acusadas de serem cegas a seu sofrimento e a suas reivindicações; o que há de novo, porém, é que a direita populista se mostrou muito mais hábil do que a esquerda em canalizar essas explosões em sua direção. Alain Badiou tinha, portanto, toda a razão ao dizer, a propósito dos coletes amarelos: “Tout ce qui bouge n’est pas rouge” — nem tudo o que se mexe (que provoca agitação) é vermelho. A direita populista de hoje prolonga a tradição de protestos populares que eram predominantemente de esquerda. Sim, tout ce qui bouge n’est pas rouge, mas, mesmo quando é o populismo de direita que bouge [se mexe], a esquerda deveria aprender a explorar impiedosamente, para promover sua própria causa, a fissura aberta por esses distúrbios no edifício da hegemonia ideológica existente.

Diferentemente dos coletes amarelos, os protestos de 2026 em curso têm um tom marcadamente esquerdista, razão pela qual, desta vez, Le Pen e Trump se opõem rigorosamente a eles, culpando a extrema esquerda e os estrangeiros; contudo, parafraseando Badiou, eles acabam provando apenas que tout ce qui se présente comme rouge n’est pas rouge [nem tudo o que se apresenta como vermelho é vermelho]. Por que não o seriam, se as reivindicações são fortemente anticapitalistas e somente a esquerda as apoia? Para compreendê-lo, é preciso examinar mais de perto a política de Macron nos últimos anos.

Após as eleições europeias de 2024, Macron foi pego em flagrante suspendendo a democracia, embora não tenha violado nenhuma lei, mas apenas utilizado com destreza as peculiaridades da Constituição francesa imposta por De Gaulle como ato fundador do sistema eleitoral da Quinta República. Essa Constituição estipula que o presidente nomeia o primeiro-ministro e o governo, os quais podem atuar mesmo sem a confirmação da Assembleia Nacional. Já Sartre, por esse motivo, considerava que a Constituição da Quinta República não era nada democrática (chegou mesmo a chamá-la de “golpe permanente”).5 A ideia era que o povo francês fosse obrigado a fazer uma escolha ao votar, deixando para trás aquela confusa barafunda partidária da Terceira e da Quarta Repúblicas — e, caso não houvesse uma escolha clara, o presidente deveria afirmar diretamente sua autoridade para manter a ordem e a estabilidade.

As eleições europeias de 2024 deixaram claro que os eleitores franceses não haviam feito uma escolha clara: não deram a Macron a oportunidade de forjar uma escolha clara trabalhando para desmantelar a Nova Frente Popular liderada por Mélenchon e, ao mesmo tempo, atraindo o que restava dos Republicanos/gaullistas.6 Macron foi amplamente criticado por isso, mas todos os partidos apoiaram, na prática, sua condução da situação… não surpreende que isso tenha acontecido na França, cuja vida política está repleta de contradições semelhantes. Lembremos as grandes manifestações de maio de 1968, que quase derrubaram o governo (ou assim pareceu): o que raramente se notou é que esses protestos ocorreram no próprio auge do Estado de bem-estar social francês — nunca o padrão de vida fora tão alto quanto em meados da década de 1960.Em termos gerais, a França não é uma exceção nesse ponto: há argumentos a favor de uma ditadura esclarecida — a França apenas teve a sorte de que sua Constituição permite a suspensão parcial da democracia parlamentar. Basta imaginar o que acontecerá na Alemanha se não for possível formar um governo sem a Alternativa para a Alemanha. Tomemos Ruanda, um dos casos de sucesso africanos, com Paul Kagame como seu ditador esclarecido de facto, que impôs a paz entre hutus e tutsis e trouxe relativa paz e prosperidade. Se ele fosse derrubado, as tensões étnicas voltariam a eclodir em eleições livres. A democracia ocidental sem algumas limitações é cada vez menos universalmente aplicável, mesmo no próprio Ocidente.

Assim, com todas as minhas reservas em relação à política de Macron, penso que sua reação à vitória da direita aproximou-se de um ato autêntico. Menos de uma hora após o anúncio dos resultados, Macron declarou a dissolução da Assembleia Nacional e a convocação de novas eleições legislativas. O anúncio pegou quase todos desprevenidos — nem mesmo o próprio Macron “poderia prever sua decisão, tendo insistido, ainda no mês passado, que a eleição europeia tinha consequências políticas apenas para a Europa, e não para a França”7. A jogada de Macron era arriscada, mas valia muito a pena: se Le Pen vencesse e decidisse quem seria o próximo primeiro-ministro da França, Macron teria permanecido presidente e conservado a capacidade de, eventualmente, mobilizar uma nova maioria contra o governo.

No entanto, com as novas eleições de julho de 2024, algo totalmente diferente aconteceu: Le Pen não apenas deixou de obter a maioria absoluta, como seu Rassemblement National terminou em terceiro lugar, bem atrás do bloco de esquerda e do bloco centrista de Macron. O problema, evidentemente, era: o que fazer agora? Após a derrota de Le Pen, o tom predominante dos comentários foi bem expresso por uma manchete da CNN: “A aposta de Macron manteve a extrema direita fora do poder, mas mergulhou a França no caos”. A ideia era que Macron e Mélenchon (a figura-chave da aliança de esquerda) estão tão distantes politicamente que nenhum compromisso parecia possível para levar a uma grande coalizão viável; haveria, portanto, uma instabilidade prolongada que certamente abalaria a economia e provavelmente criaria as condições para uma vitória esmagadora do Rassemblement National de Le Pen nas eleições seguintes. Sinais agourentos já despontavam — muitos judeus declararam publicamente que votariam em Le Pen, já que Mélenchon é “sublimemente antissemita” (sim, o termo foi usado)…

O que podemos constatar, no entanto, é que, para surpresa de alguns, a França não mergulhou no caos: ao menos por ora, parecia que a aposta de Macron havia dado certo, e uma aparência de vida normal seguiu seu curso sem grandes perturbações — basta lembrar os triunfais Jogos Olímpicos de Paris. Embora essa situação de limbo, com um governo não eleito, não pudesse se arrastar indefinidamente, ela era infinitamente preferível a uma Assembleia Nacional totalmente bloqueada, que levaria a uma agitação política prolongada, empurrando o país para o caos social e econômico. Contudo, é como se, com os protestos em curso, a França estivesse pagando o preço pelos compromissos que sustentaram a aparência de normalidade nos últimos anos. Em suma, é como se o caos contra o qual todos vinham alertando havia anos tivesse finalmente chegado. Macron jogou sua última cartada e suas opções estão agora esgotadas — não vejo espaço para outro ato que possibilite um novo começo. A crise pode se alastrar por toda a Europa, e não devemos sequer excluir a possibilidade de que o estado de emergência se estenda a muitos países europeus.

A raiz política da crise francesa é a divisão tripartite do espaço político, que torna impossível uma coalizão política estável. O antigo centro está desaparecendo, tornando-se marginal, e a escolha entre Le Pen e Mélenchon merece a resposta dada por Stálin em 1928, quando lhe perguntaram qual desvio era pior, o de direita ou o de esquerda: “Ambos são piores!” Se Le Pen for eleita presidente, a França se tornará um país de caos e de tensões sociais, pois Le Pen não será capaz de subjugar os inimigos; se Mélenchon vencer, haverá, no mínimo, caos econômico. Tal como vejo a situação, o problema é que a esquerda, dividida internamente, não tem uma verdadeira resposta para a crise, nenhum programa realista e consistente para enfrentar as perspectivas apocalípticas.

Talvez as tensões se tornem tão agudas que as eleições normais sejam suspensas. Assim, não vejo uma saída direta — espero estar errado, mas temo que não esteja. Não surpreende que a crise tenha explodido na França, onde toda medida dura proposta pelo governo é imediatamente interpretada como um novo artifício de opressão ou exploração e recebida com protestos. Nunca a Europa esteve tão próxima de sua autodissolução quanto agora. É bastante provável que a escolha se dê apenas entre diferentes versões de estado de emergência e que a exausta maioria silenciosa aceite silenciosamente alguma nova forma de governo autoritário.

A implicação mais triste é que ambos os polos na França, Le Pen e Mélenchon, se opõem não apenas à unidade europeia, hoje mais necessária do que nunca, mas também à continuidade do apoio à Ucrânia em sua luta contra a agressão russa. A lógica é clara: ajudar a Ucrânia a sobreviver é, tanto para Le Pen quanto para Mélenchon, uma forma de gastar o dinheiro de que precisamos para amparar nossos próprios pobres… As palavras importam aqui: há pouco tempo, Trump chamou Zelensky de “ditador” — seguindo seu amigo Putin, a quem Trump jamais chamou de ditador. Se os manifestantes vencerem, essa renomeação se tornará nossa realidade.

Permitam-me, então, concluir com uma objeção óbvia a mim mesmo: o que tem a leitura pessimista dos protestos em curso a ver com uma visão comunista? Minha resposta: tudo, porque, se a esquerda não se livrar das ilusões que descrevi neste texto, ela se tornará, merecidamente, irrelevante.

** Tradução de Maria Clara Cavalcanti.


Notas:

  1. Ver mais em: https://en.wikipedia.org/wiki/2026_French_student_protests. ↩︎
  2. Ver mais em: https://paulkrugman.substack.com/p/whats-the-matter-with-france. ↩︎
  3. Ver Daniel Cohen, Trois leçons sur la société post-industrielle. Paris: Éditions du Seuil, 2006. ↩︎
  4. Ve mais em: 2017. “Donald Trump inauguration speech transcript”. Politico. Disponível em: https://www.politico.com/story/2017/01/full-text-donald-trump-inauguration-speech-transcript-233907. ↩︎
  5. [N.T.] A expressão “golpe de Estado permanente” consagrou-se como título do panfleto de François Mitterrand contra as instituições da Quinta República, Le Coup d’État permanent (1964). ↩︎
  6. Agradeço a Kenneth Murphy por esse esclarecimento acerca do quadro jurídico que permitiu a Macron agir da maneira como agiu. ↩︎
  7. “France’s Snap Parliamentary Elections: What Was Macron Thinking?”. Foreign Policy. Disponível em: https://foreignpolicy.com/2024/06/12/france-elections-macron-le-pen-national-rally/. ↩︎

*** Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014), O absoluto frágil (2015), O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016) e Pandemia: covid-19 e a reinvenção do comunismo (2020).


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O ano em que sonhamos perigosamente, autoria de Slavoj Zizek

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