“A trilogia do trabalho”, de Ricardo Antunes

Imagem de divulgação.

Orelha de “A trilogia do trabalho”, por Alfredo Saad Filho


O capitalismo desvaloriza o trabalho aonde quer que o encontre: na distribuição, comprimindo salários, benefícios e direitos; na produção, ditando ritmos, controlando processos, demandando subordinação e impondo indignidades, em boa parte desnecessárias, e mais por disciplina do que por produtividade. E também na teoria, minimizando a importância do trabalho vivo, negando a sua centralidade na reprodução social e menosprezando a sua relevância no próprio modo de produção: assim se desvaloriza o ser humano e se desmoraliza o único agente que pode desafiar a hegemonia do capital.

O processo de degradação prática e teórica do trabalho é constante e contínuo na história do capitalismo. A análise científica do processo de trabalho é parte do movimento de recuperação da sua importância; afinal, como diz Karl Marx, “uma nação que deixasse de trabalhar, não digo por um ano, mas mesmo por algumas semanas, pereceria”. A visão de Marx põe o trabalho no centro da reprodução das sociedades humanas. Essa abordagem é diametralmente oposta à visão dominante nas ciências sociais hoje em dia, que rebaixa o trabalho e, ao mesmo tempo, supõe que capital e trabalho podem substituir mutuamente de maneira completamente plástica.

Ricardo Antunes recupera a perspectivamarxista e a aplica com brilho ímpar em seu exame do trabalho no capitalismo de hoje. Esta obra dá continuidade a uma série de volumes do autor, mas ela tem importância singular e especial. Nela trata-se com detalhes inéditos dos dilemas históricos do capitalismo – sobretudo na América Latina, o primeiro continente a ser espoliado pelo colonialismo. A análise histórica é acompanhada de um estudo cuidadoso, sem paralelos na literatura, do processo de recomposição técnica e política da classe trabalhadora no neoliberalismo contemporâneo. O balanço final, tão cauteloso quanto ousado, retoma a centralidade da política e, em particular, as formas de resistência que vêm emergindo do ventre da reprodução do capital.

São muitos os desafios enfrentados por Antunes. A retomada da teoria de Marx impõe uma revisão detalhada das contribuições recentes na literatura, que são muitas e profundamente desiguais; mais difícil ainda é continuar abrindo caminhos – o que é o caso do autor – para aplicar de forma criativa e original os conceitos marxistas à realidade do trabalho contemporâneo. Esse é o desafio maior, enfrentado com vigor neste livro indispensável para os cientistas sociais interessados na realidade do trabalho contemporâneo, no Brasil e no exterior.


*** Alfredo Saad Filho é Graduado em Economia pela Universidade de Brasília e pela Universidade de Londres, na Escola de Estudos Orientais e Africanos, sua pesquisa e seus editoriais abrangem críticas ao Consenso de Washington.

*** Ricardo Antunes é professor titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp). É considerado um dos principais nomes da Sociologia do Trabalho no Brasil. Pela Boitempo, publicou Uberização, trabalho digital e indústria 4.0, Curso livre Engels, Capitalismo pandêmico, Icebergs à deriva, Além da fábrica, O caracol e sua concha, Riqueza e miséria do trabalho no Brasil volumes, Infoproletários, István Mészáros e os desafios do tempo histórico, O continente do labor, Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II, Riqueza e miséria do trabalho no Brasil, Curso livre Marx-Engels, O privilégio da servidão, Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV, Os sentidos do trabalho e O novo (e precário) mundo do trabalho. Coordena a coleção Mundo do trabalho.


A trilogia do trabalho intermitência, uberização e desantropomorfização na era da IA (de)generativa, autoria de Ricardo Antunes

A trilogia do trabalho, nova obra do sociólogo Ricardo Antunes, apresenta ao leitor os dilemas e mudanças no mundo do trabalho contemporâneo, especialmente a partir da explosão do trabalho digital, que envolve milhares de motoristas, entregadores, cuidadores e outros profissionais. Mediados por plataformas e sob controle algorítmico, estas novas modalidades vêm se convertendo mais em regra do que em exceção e aceleram a precarização estrutural do trabalho.


Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho, autoria de Ricardo Antunes

“O trabalho que estrutura o capital desestrutura a humanidade. Em contrapartida, o trabalho que desestrutura o capital pode efetivamente reorganizar e emancipar a humanidade.” É com essas palavras que o autor Ricardo Antunes sintetiza Os sentidos do trabalho, lançado originalmente em 1999. Referência nos estudos de sociologia do trabalho, o livro ganha edição comemorativa de 25 anos, com novos textos e nova capa.


Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0, autoria de Ricardo Antunes

Uma coletânea crítica sobre a transformação do trabalho na era digital, explorando os impactos da uberização e da Indústria 4.0. Analisa a precarização laboral e as lutas de resistência, destacando o desafio de proteger direitos trabalhistas em tempos de algoritmos e plataformas digitais.



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