O Brasil em mais uma eleição do fim do mundo
Este texto foi originalmente publicado na Revista Verso em 21/10/2026.
Foto: Agência Brasil
Por Maikel da Silveira
Em 2022, às vésperas da penúltima eleição presidencial, a Boitempo promoveu uma live com a socióloga Silvia Viana e o filósofo Paulo Arantes, intitulado “Eleições do fim do mundo”. Nele, Viana começava explicando que a ideia do título buscava traduzir o “susto” experimentado por parte da esquerda progressista diante do resultado do primeiro turno das eleições de 2022. Quatro anos depois, a esquerda brasileira parece encarar, mais uma vez, a possibilidade do “fim do mundo”. É como se, de repente, estivéssemos passando da democracia representativa à democracia apocalíptica. Numa corrida eleitoral que, até o dia 4 de outubro, vinha sendo descrita por muitos comentaristas como a mais desinteressante da história, incapaz de engajar os eleitores de um lado ou de outro, a vitória do candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, condenado e preso por uma tentativa de golpe de Estado na reta final de seu mandato, deixou muitos eleitores progressistas em estado de choque. Na semana que antecedeu a votação, a maioria das pesquisas apontava uma vitória do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que por margem estreita. Às vésperas da eleição, falava-se, inclusive, na chance de liquidar a fatura no primeiro turno. O que, por um momento, no início da apuração, pareceu que ia de fato acontecer, só que, para desespero da esquerda, parecia que a coisa ia se decidir em favor de Flávio Bolsonaro.
O fato é que numa eleição com recorde de abstenção, a extrema-direita – ainda que muito mais silenciosamente do que nas eleições anteriores, nas quais os apoiadores de Jair Bolsonaro dominavam as ruas em manifestações semanais, repletas de apoiadores vestindo camisas da Seleção Brasileira – conseguiu, ao que tudo indica, manter o engajamento de seus apoiadores. Ou, pelo menos, foi essa uma das impressões deixadas pelo resultado, diante de uma abstenção que parece ter afetado especialmente parte do eleitorado mais pobre, tradicionalmente mais próximo do petismo. Numa eleição apertada, em que dois candidatos concentravam mais de 90% dos votos, essa diferença na capacidade de levar seus eleitores às urnas, somada à concentração de votos em Flávio Bolsonaro na reta final da campanha, talvez ajude a explicar a vantagem conquistada pelo candidato nas urnas.
Num primeiro momento, a esquerda progressista foi tomada pela perplexidade. Para muitos, era impossível conceber como uma figura icônica como a de Lula, com todos os recursos que a máquina pública costuma colocar à disposição dos candidatos à reeleição numa eleição presidencial, tinha ficado atrás do filho pouco carismático do “mito” Jair Bolsonaro. Para muitos eleitores de Lula – e, desconfio, também para uma parte importante dos artífices da campanha do Partido dos Trabalhadores (PT) – o contraste entre os governos de Bolsonaro (eleito em 2018) e Lula (eleito em 2022) era evidente demais. Com Lula, afinal, a economia tinha melhorado, a inflação e as taxas de desemprego tinham caído, programas sociais tinham sido retomados e outros ainda tinham acabado de ser criados, o imposto de renda para os mais pobres tinha sido reduzido. Era como se a campanha apostasse todas as fichas no mote “it’s the economy, stupid”, como se os resultados econômicos do governo fossem, por si mesmos, suficientes para assegurar sua vitória. Mas não deu certo.
A pergunta que muitos passaram a se fazer então foi: por quê? E, em um nível mais profundo, por que não deu certo, sobretudo, contra Flávio Bolsonaro, visto por muitos como o mais “suspeito” dentre os filhos de Jair Bolsonaro – aquele mais mencionado em escândalos de corrupção; aquele cujas relações com o crime organizado – a milícia carioca, sobretudo – eram mais próximas; aquele cuja amizade com o banqueiro Daniel Vorcaro – talvez a figura mais nefasta que já apareceu na cena política brasileira nos últimos anos, protagonista de um dos maiores escândalos político-financeiros da história brasileira – era aparentemente das mais íntimas.
Muitas hipóteses surgiram para tentar responder a essas perguntas. Muita ênfase foi dada à interferência dos Estados Unidos nas eleições, ao interesse explícito de Donald Trump na vitória de Flávio Bolsonaro, interpretado por muitos como parte de uma estratégia mais ampla para reforçar a hegemonia dos Estados Unidos sobre o continente sul-americano. O interesse das big techs americanas foi outro aspecto destacado, principalmente depois que vieram à tona evidências que a Meta — empresa de Mark Zuckerberg, dona do aplicativo de troca de mensagens mais popular no Brasil, o WhatsApp, e de duas das redes sociais de enorme alcance, Instagram e Facebook – estava favorecendo a disseminação dos conteúdos de Flávio Bolsonaro e dificultando a vida dos apoiadores de Lula. Essa última hipótese, aliás, aliava-se a outra já não tão nova, a de que a extrema-direita teria dominado as redes sociais e sabia utilizá-las com maestria para manipular a população recorrendo ao pânico moral e às fake news. Novidade, no entanto, era a maneira como a extrema-direita encontrava, nesta eleição, apoio no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), liderado pelo ministro Kássio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro. A judicialização da campanha nestas eleições foi um recurso importante para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Contribuiu para isso, sem dúvida, a crise institucional que tomou conta do Supremo, diante de escândalos que ligavam muitos ministros ao já mencionado banqueiro Daniel Vorcaro. Neste segundo turno, aliás, o nome do presidente do TSE apareceu em mensagens do banqueiro, extraídas de aparelho apreendido pela Polícia Federal e reveladas pela imprensa, que suscitaram suspeitas sobre eventuais favores oferecidos ao magistrado. Outras investigações jornalísticas relacionaram Vorcaro a possíveis redes internacionais de prostituição.
O problema, como veremos, não é que essas explicações sejam necessariamente falsas. Há evidências de interferência estrangeira, de circulação sistemática de desinformação e de práticas questionáveis por parte das plataformas digitais. Mas há uma distância considerável entre demonstrar a existência desses mecanismos e atribuir a eles a capacidade de explicar, por si mesmos, a escolha de milhões de eleitores. É justamente nessa distância que talvez resida uma das principais dificuldades da esquerda progressista para compreender o bolsonarismo.
É justamente a essa perplexidade — e à pressa com que tentamos encontrar explicações para ela — que quero voltar agora, retomando aquela conversa de 2022. O susto do primeiro turno de 2022, para Silvia Viana, foi vivido, segundo ela, como um pesadelo. Deu origem a uma avalanche de interpretações, que chegaram sobretudo via redes sociais e grupos de WhatsApp. Em meio à enxurrada de tweets e textões, Viana se deu conta de que havia, naquela reação, algo de repetitivo, que remetia ao horror vivido quatro anos antes, em 2018, quando Jair Bolsonaro fora eleito presidente. Viana observava que, diante do susto eleitoral, o vocabulário progressista voltava a recorrer quase automaticamente às mesmas palavras — “civilização”, “democracia”, “progresso”, “fascismo” — que haviam organizado a reação quatro anos antes. O problema, para ela, não era propriamente terminológico, mas político: saber que grau de eficácia essas palavras ainda conservavam1.
Viana comentava, em seguida, na mesma “live do fim do mundo”, um episódio em que discutia a eleição de 2018, na época, com uma amiga, numa padaria. De repente, contava, uma mulher se aproximou, começou a interagir e, ao perceber o tema da conversa, desatou a chorar diante da perspectiva de ver o golpe se repetir. Disse isso se referindo não ao golpe mais recente, que resultara no impeachment de Dilma Rousseff, mas ao golpe militar de 1964. Ela dizia não só que tinha medo disso se repetir, mas também que temia que agora fosse ainda pior, porque os perpetradores seriam escolhidos via eleição. A cena levou Viana a insistir numa diferença decisiva: a extrema-direita não chegaria ao poder apesar das eleições, mas por meio delas; ser escolhida era parte fundamental de sua legitimação. Por isso, a pergunta crucial não seria simplesmente como impedir sua propaganda, mas por que uma parcela tão expressiva da população escolhia e reescolhia esse projeto. A resposta automática — ignorância, fake news, negacionismo, falta de educação — terminava, segundo ela, por anular a própria pergunta, na medida em que convertia essa escolha em fruto de mera manipulação.2
Para Viana, a crítica à hipocrisia do discurso bolsonarista, na época, não fazia sentido, ou melhor, não era eficaz. Isso porque esse “jogo de cena”, esse uso indiscriminado da calúnia pura e simples, das fake news, das teorias da conspiração, dos boatos mais infundados e mais absurdos para chamar a atenção, para atacar, mobilizar, para engajar o eleitorado, não era algo feito por debaixo dos panos, às escondidas: tudo era feito muito às claras, de forma explícita, obscena mesmo. Para a socióloga, tratava-se de uma estratégia consciente, que não passava pela necessidade de persuasão, de convencimento. Nesse contexto, determinar se as pessoas acreditam realmente ou não no conteúdo que estão consumindo era praticamente irrelevante. O ponto, portanto, não estaria em medir o quanto as pessoas efetivamente acreditam nesses conteúdos; para Viana, a indústria de fake news tinha menos a ver com a capacidade de mentir bem e mais com a capacidade de mobilizar e engajar: produzir, circular e compartilhar teriam se tornado formas de participação pelas quais uma massa experimentaria a si mesma como sujeito de uma escolha e de um destino comuns. Por trás das fake news existiria, portanto, uma verdade mais profunda, por assim dizer.3
Para tentar dar conta dessa “verdade” expressa pelo bolsonarismo, Viana remetia à época da pandemia da Covid-19, comparando uma declaração polêmica de Bolsonaro que ficou famosa na época – a de que o vírus não passava de uma gripezinha – com a cantilena do “fique em casa se puder” que dominou o discurso progressista em tempos de isolamento social. Para a pensadora, mais do que simplesmente negar a gravidade do vírus, Bolsonaro oferecia uma gramática da força para que seus admiradores pudessem lidar com ela: diante de uma doença perigosa, sobreviver dependeria da capacidade de cada um para encará-la. Isso não significa, evidentemente, que Bolsonaro não estivesse minimizando a gravidade da pandemia ou que suas declarações não tivessem consequências sanitárias. Significa apenas que o discurso negacionista podia produzir, ao mesmo tempo, uma forma de identificação com aqueles que, por sua posição social, não tinham a possibilidade material de se proteger. Essa gramática, portanto, encontrava ressonância especialmente entre aqueles que continuaram nas ruas, fazendo entregas, trabalhando mais por menos e precisando, de fato, “ser fortes” o suficiente para encarar a morte de frente dia após dia.4
Para Silvia Viana, esse conforto psicológico era algo que o mote do “fique em casa” não podia oferecer, pois a imagem que ele transmitia era a do privilégio, uma vez que essa opção não existia para a maioria das pessoas. Para ela, a verdade que aparecia nesse se puder era a seguinte: o trabalho produtivo não podia parar. E alguns trabalhadores, precisamente os mais precarizados, não poderiam se dar ao luxo de ficar em casa.
Para Viana, tanto o “todo mundo vai morrer”, de Bolsonaro, quanto o “fique em casa se puder”, da esquerda progressista, tinham um mesmo fundo comum, o da incontornabilidade do trabalho, mesmo diante do colapso. A mensagem da esquerda progressista, entretanto, projetaria uma imagem de injustiça ao indicar que quem pudesse ficar em casa teria mais chances de sobreviver. O bolsonarismo teria conseguido, assim, oferecer uma imagem perversa de justiça para uma experiência real de desigualdade: se alguns não podiam se proteger, então ninguém deveria poder; diante de um mundo concebido como inevitavelmente hostil, caberia aos fortes sobreviver. A formulação era bárbara, mas, insistia Viana, continha uma ideia de justiça cuja inteligibilidade política não deveria ser simplesmente descartada.5
Da volta de Lula ao planalto para cá, cabe a pergunta: será que a esquerda progressista, até então também representada pela esquerda governista, aprendeu a lidar com isso? A repetição dos “automatismos” apontados por Viana em 2022 me levam a crer que não: os progressistas seguem com dificuldade para encarar certas verdades.
Ao comentar a fala de Silvia Viana na mesma live, em 2022, o filósofo Paulo Arantes concordava com o diagnóstico: “o Bolsonaro tem esse apoio porque ele diz a verdade”, afirmava, corroborando a hipótese da socióloga. Mais precisamente, para ele o bolsonarismo enunciava pelo menos duas grandes verdades: uma que dizia respeito ao estágio atual do capitalismo, que a seu ver, se assemelhava cada vez mais à “barbárie”; e outra, ligada à primeira, que dizia respeito a uma proposta explícita – embora assustadora para a parcela progressista do eleitorado – de como se poderia lidar com isso (proposta que incluía, além de muitos sacrifícios, algumas promessas). Embora dissesse recusar aproximações simples do bolsonarismo com o fascismo, ou, pelo menos, o recurso ao fascismo como tentativa de nomear o horror bolsonarista, Paulo Arantes não abria mão, na live, de uma analogia entre o fenômeno brasileiro e alguns elementos comportamentais e conjunturais do nazismo. Explorando essa analogia, o filósofo aproximava a promessa bolsonarista a uma política de pilhagem: num mundo dividido entre superiores e inferiores, o projeto ofereceria aos seus aderentes não a superação dessa ordem, mas a possibilidade de participar de seus lucros e de sua violência. Não seria preciso, evidentemente, que todos tivessem acesso efetivo aos espólios dessa pilhagem. Bastaria que lhes fosse oferecida a expectativa de que, num mundo governado pela competição entre fortes e fracos, também eles pudessem, um dia, se ver numa posição relativamente vantajosa, ou seja, entre os fortes. A promessa não era a de acabar com a desigualdade, mas a de permitir que cada um tivesse o direito de tentar escapar dela por seus próprios méritos. Era nesse sentido — e não como simples repetição histórica — que ele admitia alguma pertinência na analogia com o fascismo.6
Para Paulo Arantes, o fascismo seria a verdade do liberalismo econômico. Daí sua formulação mais dura: o bolsonarismo diria a verdade sobre um capitalismo que já se apresenta como barbárie e, em vez de prometer superá-la, convida cada um a encontrar nela seu lugar ao sol. Trabalho até a exaustão, sobrevivência, empreendedorismo, fundamentalismo religioso, crime organizado e pilhagem apareceriam, portanto, não como desvios de uma ordem normal, mas como elementos constitutivos de uma mesma ordem social em decomposição7. Essa era, para Paulo Arantes, a tendência de uma “pós-sociedade” como a do Brasil. Para ele, “nós não somos mais uma sociedade, nós somos um monstrengo social a ser decifrado” (Arantes, 2022).
O resultado deste primeiro turno das eleições presidenciais me parece sugerir que a esquerda progressista não deu conta de decifrar esse monstrengo (nem sequer de lidar com ele, ainda que sem decifrá-lo): nem o gigantismo simbólico — ainda que envelhecido — de Luiz Inácio Lula da Silva foi capaz de mantê-lo sob controle desta vez.
Sim, porque o governo Lula 3 assumiu cada vez mais, ao longo dos últimos quatro anos, a feição de um governo de redução de danos, mais do que de reconstrução, apoiando-se fortemente em medidas paliativas e, no plano político-institucional, num anteparo que se mostrou decisivo para a própria sobrevivência do governo: o Supremo Tribunal Federal (STF). Afinal, foi o Supremo, em conjunto com a Justiça Eleitoral, que desempenhou um papel central na garantia do respeito ao resultado das eleições de 2022 e na contenção das investidas golpistas que se seguiram. Foi também a Suprema Corte que determinou prisões, conduziu os processos e condenou participantes dos ataques de 8 de janeiro de 2023, chegando, mais tarde, à condenação e à prisão do próprio Jair Bolsonaro e de integrantes de seu governo por sua participação na trama golpista. Não me parece exagero afirmar, portanto, que uma parte importante da estabilidade política do Lula 3 dependeu da atuação de diversas instituições, mas especialmente do Supremo.
O problema é que esse anteparo institucional parece agora cada vez mais desmoralizado e enfraquecido diante das denúncias de envolvimento de ministros com as maracutaias, festas e orgias promovidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Alexandre de Moraes, o Xandão, que por algum tempo chegou a ser adotado e incensado por uma parte significativa da esquerda progressista, que passou a enxergar nele uma espécie de grande salvador da democracia brasileira, parece pode estar com seus dias contados no Tribunal, diante da vitória sem precedentes da extrema-direita na eleição para o Senado. Seu impeachment, ao que tudo indica, é uma possibilidade concreta, independentemente do resultado do segundo turno.
Mas não foi apenas na “defesa das instituições democráticas” que a política de redução de danos do governo Lula 3 se mostrou insuficiente. A insistência num caminho que, desde Dilma Rousseff, pelo menos, já dava sinais de esgotamento — e, sobretudo, de perda de apelo popular — pode ser lida como outro sintoma desse descompasso entre o governo e as aspirações de parte significativa da população.
O problema talvez possa ser percebido na própria dificuldade do governo Lula 3 em produzir políticas capazes de adquirir a força material e simbólica das grandes marcas dos primeiros governos petistas, como o “Fome Zero”, o “Bolsa Família” ou mesmo a política de aumentos regulares do salário mínimo. Desde os primeiros cem dias de mandato, quando uma análise da Folha de S.Paulo já observava que o governo “reciclava programas do passado”, boa parte da política social do PT neste ciclo consistiu em restaurar, ampliar ou rebatizar iniciativas anteriores: Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, PAC, Farmácia Popular, Mais Médicos, política de valorização do salário mínimo.
Houve novidades importantes, evidentemente — Pé-de-Meia, Desenrola, Crédito do Trabalhador, Agora Tem Especialistas, Reforma Casa Brasil, além da ampliação da isenção do Imposto de Renda —, mas é significativo que quase todas tenham assumido a forma de intervenções pontuais sobre os sintomas de uma vida material cada vez mais difícil: evitar que o jovem abandone a escola porque precisa trabalhar, renegociar a dívida da família, facilitar o acesso ao crédito, tentar diminuir a fila dos especialistas no SUS , aliviar o imposto sobre o salário, financiar a reforma de uma casa. São políticas importantes, algumas bastante populares, capazes, inclusive, de produzir mudanças materiais significativas na vida de milhões de pessoas. O problema, me parece, é que dificilmente elas compõem, juntas, um horizonte reconhecível de transformação social. São respostas a dificuldades concretas, mas que não parecem capazes de se articular numa perspectiva mais ampla de mudança das condições que produzem essas mesmas dificuldades. O futuro para o qual elas apontam parece incapaz de inspirar otimismo, expectativa real de melhora de vida. Mais do que remeter ao passado, essas medidas parecem insuficientes para a população projetar um futuro que vá além da sobrevivência, do dia de amanhã, da urgência imediata da fome, do endividamento, da conta que não fecha no final do mês.
Mais significativo do que a reciclagem de antigos programas talvez seja o fato de que algumas das bandeiras de maior apelo popular na reta final do governo tenham vindo, no limite, de fora.
O fim da escala 6×1 (aprovado no dia 14/10 no parlamento), um dos maiores movimentos reivindicatórios de trabalhadores brasileiros nos últimos anos, não nasceu de um diagnóstico elaborado por um ministério, mas da experiência concreta de trabalhadores que começaram a dizer, por conta própria, que não aguentavam mais viver para trabalhar. A pauta ganhou as redes, transformou-se em movimento, chegou ao Congresso e somente então foi incorporada pelo governo.
Não deixa de ser curioso, no entanto, que o debate em torno da escala 6×1 seja precisamente a pauta trabalhista que mais emplacou nos últimos anos. Curioso porque ela aponta para uma parcela da população que, mesmo de carteira assinada, não gozou plenamente da cidadania regulada com a qual o trabalhismo brasileiro sempre acenou, desde Vargas. Talvez seja mais preciso dizer que a luta liderada por Rick Azevedo foi, mais do que uma luta trabalhista, mas uma luta antiescravista mesmo, porque é precisamente nesse sentido que aponta o slogan “Vida além do trabalho”, que ele ajudou a popularizar.
A proibição das bets, anunciada algo às pressas, na reta final da campanha do primeiro turno, percorreu caminho diferente, mas respondeu igualmente a uma rejeição que já alcançava 78% da população. Nos dois casos, o governo parece ter reconhecido uma demanda popular depois que ela já tinha ganhado vida própria.
No caso das bets, no entanto, vale a pena a gente se perguntar em que medida o surto das apostas não seria também ele um sintoma de uma crise mais profunda no mundo do trabalho, uma tentativa desesperada de escapar do mero circuito da sobrevivência, de delirar com um futuro melhor. E, convenhamos, como julgar? Num contexto em que farialimers, empresários, pastores, juízes e políticos também “apostaram”, cada um à sua maneira, nos esquemas de Daniel Vorcaro, por que acreditar que se pode depositar no povo empobrecido, precarizado e, não raro, pra lá de ressentido, uma “ética protestante” que passa longe das elites. Num mundo dividido entre malandros e otários, como julgar quem sonha, um dia, ser malandro?
A impressão que fica desta eleição é que, diante da tragédia social e econômica que foi o governo Jair Bolsonaro, com suas filas de ossos, com a catástrofe da pandemia, com a explosão da inflação, e diante do retorno glorioso de Lula ao poder, o petismo viveu a ilusão de que ter Lula bastaria. Teve melhora, sim, teve política pública, teve alguma redistribuição e teve, sem dúvida, muita redução de danos.
O que parece não ter havido foi uma interpretação suficientemente potente das novas formas assumidas pela subjetividade popular num contexto de transformações profundas no mundo do trabalho. É que o sujeito que emerge de inúmeras camadas de precarização, do trabalho e da vida, já não é exatamente aquele que o primeiro lulismo aprendeu a reconhecer — e, em alguma medida, a representar. É um sujeito muito mais dividido, que pode estar, ao mesmo tempo, empregado e endividado; pode ter aumentado sua renda e continuar sentindo que empobreceu; pode consumir e não ter tempo; pode receber Bolsa Família e ter medo de sair de casa; pode ter acesso ao SUS e esperar meses por um especialista; pode ter carteira assinada e ainda assim descobrir que seis dias de sua semana pertencem ao patrão.
Não se trata mais apenas — se é que algum dia se tratou — de incluir pelo emprego, pelo salário e pelo consumo. O problema é mais geral, é também de tempo, dívida, insegurança, exaustão, moradia, qualidade dos serviços públicos e, sobretudo, talvez, de uma sensação persistente de que, por mais que se trabalhe, o dinheiro nunca chega ao fim do mês. O governo Lula 3 até identificou corretamente alguns desses desafios e tentou lhes dar respostas. O problema, desconfio, não foi propriamente sua incapacidade de reconhecer as demandas populares, mas a dificuldade de compreender como elas se articulavam numa experiência mais ampla da vida social e, sobretudo, de transformá-las em matéria de organização política. O governo conseguiu, em muitos casos, responder a necessidades concretas, mas teve muito mais dificuldade para reunir essas respostas num projeto reconhecível de transformação social, capaz de produzir um novo horizonte de expectativas.
É nesse sentido que a insistência em recuperar as grandes marcas do primeiro lulismo possivelmente revele algo mais profundo do que simples falta de criatividade administrativa. A primeira era Lula foi capaz de organizar seu projeto numa narrativa relativamente fácil de assimilar para a população, sobretudo a mais pobre: inclusão, emprego, aumento do salário, acesso ao consumo, ascensão social. Hoje, no entanto, isso já não parece mais suficiente. A vida popular que emerge depois de uma década de crise, austeridade, pandemia, uberização, endividamento e decomposição dos serviços públicos, já não cabe inteiramente nessa narrativa. Talvez o fracasso do Lula 3 não tenha sido simplesmente o de não entregar. Foi também — e talvez principalmente — o de continuar oferecendo respostas a perguntas que a população já estava começando a formular de outra forma.
Talvez seja preciso, então, inverter novamente a pergunta. Em vez de perguntar por que o povo não compreendeu aquilo que a esquerda tinha a lhe dizer, perguntar por que a esquerda compreendeu tão pouco aquilo que o povo vinha dizendo.
Joelson Ferreira, liderança da Teia dos Povos, formulou isso de maneira muito mais simples, ainda no primeiro ano do terceiro governo Lula, quando o entrevistei para um artigo que estava escrevendo para a coletânea Tempo Fechado: capitalismo e colapso climático (Boitempo, 2025): “O grande problema é que a esquerda se afastou do trabalho de base, da relação com o povo”, argumentou. “Uma das grandes economias que rola hoje é a economia periférica. Você vai nos bairros, você vê o florescimento de tudo, tá todo mundo se virando, todo mundo procurando um jeito de sobreviver”.
O que Joelson chama de economia periférica não é simplesmente uma economia da escassez, nem um conjunto de expedientes individuais de sobrevivência. É também uma trama de relações econômicas e sociais que envolve trabalho informal, pequenos negócios, redes de ajuda mútua, circulação de mercadorias, crédito, cuidado e cooperação. Formas de organização que nem sempre são reconhecidas como políticas, mas nas quais boa parte da vida popular é efetivamente produzida e reproduzida.
Talvez esteja nesse povo que “se vira” uma das chaves para tentar decifrar o monstrengo. Porque se virar não significa apenas ter um trabalho: muitas vezes, significa somar dois, três, quatro trabalhos, atravessando as fronteiras entre a carteira assinada, o bico, a informalidade e o trabalho por conta própria. Significa trabalhar muito além das oito horas diárias e, quando termina o expediente, continuar trabalhando pra fazer a conta fechar. Mas significa também algo que existe para além do trabalho propriamente dito: cuidar, trocar, pedir ajuda, oferecer ajuda, construir redes de proteção e pertencimento, improvisar formas de reproduzir a vida quando o salário, o crédito ou a assistência pública já não são suficientes. É uma forma de existência na qual o trabalho parece não acabar nunca e, mesmo assim, quase nunca basta. Não é vida pra ninguém. A vida além do trabalho, em muitos casos, pode significar mais trabalho: jornadas de 12 ou 14 horas fazendo entregas ou dirigindo um carro de aplicativo; venda produtos de toda sorte pela internet; dívida no cartão; abertura de um MEI, pedido de dinheiro emprestado; envolve pegar duas conduções igualmente desconfortáveis para se deslocar nos centros urbanos e ainda pagar caro por isso; frequentar uma igreja que oferece uma cesta básica, uma comunidade e alguma explicação para o sofrimento; apostar vinte reais numa bet, sonhar em ficar rico e acordar ainda mais pobre e endividado; morrer de medo de ser assaltado e perder o celular comprado em 24 prestações. Enfim, fazer tudo isso e, ainda assim, acordar cedo no dia seguinte para começar tudo de novo, sem conseguir vislumbrar um futuro que vá muito além do dia seguinte ou, com sorte, do fim do mês.
Por mais incrível que pareça para uma parcela significativa da esquerda progressista que se desespera diante da perspectiva do fim da democracia, é nesse contexto que muitas pessoas no Brasil estão produzindo formas de sobrevivência, valores, afetos, ressentimentos, mas, também, redes de solidariedade e concepções de justiça. No limite, talvez dê pra dizer que para muitas dessas pessoas essa democracia que está aí, no fundo, não faz muita diferença na vida delas. Principalmente na medida em que não lhes oferece uma perspectiva de um futuro, porque os confina ao campo do que é mais imediato.
A crítica de Joelson Ferreira lá em 2023, vale dizer, não tinha a ver com “disputa de narrativas”. O que ele apontava era que a esquerda, no governo, tinha se afastado demais dos lugares em que a vida cotidiana da população estava sendo, de fato, material e simbolicamente organizada. Ao falar das igrejas neopentecostais, por exemplo, ele chamava atenção para o fato de que elas não chegam apenas com “a palavra”, mas também com acolhimento, comida, roupa, pertencimento e, logo depois, um papel a cumprir — dá pra virar obreiro, assumir uma tarefa, ter uma utilidade, ocupar um lugar. Talvez o problema seja que, enquanto esse mundo se formava, uma parte importante da esquerda continuou procurando o povo no lugar em que o tinha deixado. E, quando já não o encontrou ali, concluiu, muito rápido, que alguém o tinha enganado.
Fake news, manipulação, fascismo, fundamentalismo, ressentimento… tudo isso serve pra nomear fenômenos reais. O automatismo, pra falar com Silvia Viana, começa quando elas deixam de servir para formular a pergunta e passam a funcionar como respostas prontas.
É nesse sentido que, talvez, o problema do populismo – que volta e meia ressurge, em contextos de disputa eleitoral – continue sendo, persistentemente, colocado de ponta-cabeça. A pergunta não é apenas como um líder consegue produzir discursivamente um povo que não existia antes dele, tampouco como se manipula uma massa desorganizada por meio de afetos, mentiras e identificações. Essa é uma questão que eu já tinha tentado formular, em outros termos, num ensaio de 2019 sobre os limites da teoria do populismo de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. A ideia de que o povo se constitui como sujeito político por meio de operações discursivas de articulação e representação ajuda a explicar como demandas heterogêneas podem adquirir uma identidade comum. Mas corre-se o risco de atribuir a essas operações uma capacidade quase mágica de produzir organização política, quando, na verdade, sua eficácia depende de condições materiais e de formas de sociabilidade preexistentes. Significantes vazios não operam no vácuo. É que antes de ser interpelado pelo líder, esse povo já trabalha, circula, compra, vende, deve, reza, cuida, mata, morre, deseja, organiza festas, igrejas, negócios, famílias, cooperativas, facções criminosas e redes de solidariedade. Já produz, portanto, formas de vida e interpretações sobre o mundo. É possível que o limite do progressismo, hoje, esteja na dificuldade que ele tem para encontrar, organizar e oferecer a esse povo perspectivas de futuro e formas de sociabilidade efetivamente mais atraentes que essas todas.
Decifrar o monstrengo, nesse sentido, talvez exija mais do que encontrar um nome adequado para a sua monstruosidade. Paulo Arantes, ao olhar para ele, vê um tecido social em decomposição. Mas é importante que saibamos reconhecer também, dentro do monstrengo, outro tipo de composição. Algumas dessas composições podem apontar para saídas emancipatórias; outras, para formas profundamente reacionárias; mas a maioria delas, possivelmente, tem um caráter ambíguo, contraditório, difícil de classificar. Mas é nesse plano, fragmentado, confuso e muitas vezes violento, que a política começa, muito antes de virar eleição. Talvez a crise da esquerda governista seja, por isso, uma crise de sua relação com as classes populares. O resultado do primeiro turno de 2026 não seria, dessa perspectiva, apenas uma derrota eleitoral, mas apontaria talvez para o limite de um projeto de inclusão cidadã por meio do trabalho e do consumo. O limite mesmo de uma certa ideia de progressismo orientado por uma ética do trabalho.
Talvez seja justamente aí que resida uma das maiores dificuldades da esquerda progressista (ou, mais precisamente, governista) hoje. Reconhecer que a vida popular produz suas próprias formas de organização não significa celebrá-las indiscriminadamente. O mesmo mundo em que florescem redes de solidariedade, cooperativas, associações comunitárias e experiências de autonomia também produz igrejas que exploram a fé, negócios predatórios ou ilícitos, organizações criminosas e formas de sociabilidade profundamente autoritárias. E muitas dessas experiências convivem, de maneira contraditória, nos mesmos territórios, às vezes nas mesmas famílias, não raro dentro de um mesmo indivíduo. O desafio não é encontrar, escondido sob os escombros da sociedade do trabalho, um povo autêntico, virtuoso, à espera de ser representado. É compreender como essas formas de vida estão sendo produzidas, que necessidades procuram satisfazer, que ideias de justiça carregam consigo e que possibilidades políticas oferecem.
Talvez seja por isso que o problema da esquerda não se resolva simplesmente encontrando um novo discurso, uma liderança mais carismática ou uma maneira mais eficiente de disputar as redes sociais. Tampouco bastaria recuperar as grandes marcas do primeiro lulismo, como se fosse possível reconstruir, a partir delas, o mundo social que lhes deu sentido. É preciso, acredito, voltar à várzea da organização política, como sugeri no ensaio de 2019: ao trabalho cotidiano, pouco glorioso, de construir e sustentar formas coletivas de existência que tornem a vida um pouco menos dependente da competição, do endividamento, da exaustão e da sorte. Não se trata de abandonar a disputa pelo Estado ou a defesa das instituições democráticas, mas de reconhecer que sua legitimidade dificilmente se sustenta apenas nelas mesmas. O que está em jogo, talvez, seja a possibilidade mesma de voltar a oferecer uma experiência concreta de futuro a quem parece condenado a viver apenas pelo dia seguinte. Porque, se a democracia não for também capaz de produzir essa experiência, não deveria nos surpreender tanto que, a cada eleição, uma parte do país pareça cada vez mais disposta a apostar no fim do mundo.
*** Maikel da Silveira é jornalista, filósofo, psicanalista, pesquisador associado do Instituto Alameda e trabalha como editor na Editora Machado. É também um dos autores da coletânea Tempo Fechado: capitalismo e colapso climático (Boitempo, 2025) e do Atlas da política experimental (Glaac, 2026).
Notas
- “Tudo o que veio para mim em WhatsApp, nessas conversas, foram aquelas mesmíssimas palavras-chave de quatro anos atrás. ‘Civilização’, ‘democracia’, ‘progresso’ etc., etc. E eu entendo que elas foram um instrumento muito importante, até para fazer com que nos levantássemos rápido; ou seja, servem, sim, como um certo alívio psicológico; mas o próprio fato de servirem como um alívio psicológico indica que elas já não passam mais de puros automatismos (…). A palavra fascismo, por exemplo, que a gente pode pensar e debater (…) em termos terminológicos, é uma coisa que não temos cansado de fazer há quatro anos. É fascismo? Não é fascismo? Não é isso que interessa agora. Eu acho que é um termo pouco explicativo, mas o nosso problema, agora, é a eficácia do termo fascismo, a eficácia política disso”. ↩︎
- “Ela tem toda a razão. Essa pequena diferença faz toda a diferença. Não entendemos como é crucial para eles serem escolhidos. Como, portanto, as eleições são uma parte importantíssima da tática deles. Isso faz parte da legitimação disso que eles pretendem como um novo regime (…). Mas é claro que não somos idiotas e sabemos que essas pessoas escolhem. Nós formulamos a pergunta certa, a pergunta crucial, e é essa pergunta que a gente tem que se fazer todo dia: por quê? Como é possível que no mínimo 30% da população desse país escolha isso e reescolha? Acontece que temos uma resposta, outro automatismo, para essa pergunta. E é um automatismo que desmonta a própria pergunta. E aí é a chuva do meu WhatsApp, é o que eu escutei em todos os lugares, todo mundo elaborando, com pequenas diferenças: as pessoas são ignorantes (…), é a fake news, as pessoas são negacionistas, as pessoas não têm educação, em suma: as pessoas são manipuladas. Essa resposta desmonta a pergunta. Porque o que você está dizendo é, de fato, as pessoas não escolheram: elas foram levadas a escolher. É óbvio que a gente vive no meio de uma enxurrada de notícias falsas – e não só de notícias falsas, de todo tipo de maluquice, de inversão, de invenção de polêmica [que] tira a coisa do contexto e vira uma gororoba. É claro. Agora, você dizer que há uma intenção consciente de manipular não é o mesmo que você dizer que as pessoas são manipuladas”. ↩︎
- “A conquista dessa indústria de produção e circulação de fake news não é a crença. O que se conquista é a mobilização, é o engajamento (…) o estágio recente da palavra engajamento, é justamente o seu uso nas redes como aquilo que mobiliza as pessoas (…), que faz elas participarem. Então, produzir e compartilhar, mais do que uma questão de crença, é uma questão de participação. No caso deles, é questão de mobilização de uma massa que passa a se entender como coesa e que passa a entender que faz parte do próprio destino, da própria escolha (…). Essa é uma tática (…) que não é escondida”. ↩︎
- “Ele estava falando assim: eu sou um esportista, então, se eventualmente eu pegar Covid, não vai acontecer nada comigo. Para mim, não vai passar de uma gripezinha. O que é importante a gente perceber. Ele não está dizendo que a doença é fraca. O que ele está dizendo é alguma coisa muito mais importante: ele é forte. E quanto pior a doença, maior a minha força. Então você tem o deslocamento de um eixo discursivo que não é exatamente uma minimização, não é negacionismo. Ele está dizendo outra coisa. E, mais importante, essa coisa reverbera entre as pessoas. Para quem faz todo sentido a ideia de que temos que ser fortes contra essa doença. Quem de fato precisou ser forte contra essa doença? Quem precisou usar desse discurso de virilidade? Não aceitar essa doença, é coisa de veado… isso é outra coisa, é outra coisa. Não é dizer que não acredita que a doença mata: é dizer que você tem que encarar essa doença. Quem precisou encarar? Quem precisou ser forte? Quem viu os pais morrerem? Quem precisou estar na rua? Quem precisou trabalhar mais por menos? Nós sabemos quem. A questão é que o Bolsonaro ofereceu para essas pessoas, mais do que uma chave explicativa, uma espécie de apoio psicológico”. ↩︎
- “O que o bolsonarismo conseguiu oferecer foi uma imagem perversa, medonha, pavorosa, mas de um tipo de justiça que a gente precisa entender. Precisamos entender o que essas pessoas querem dizer por liberdade, precisamos entender o que essas pessoas querem dizer por justiça. E o que elas querem dizer por justiça é um horror, mas faz sentido. Por que alguns ficam em casa e outros não? O certo é todo mundo na merda, que todo mundo corra o mesmo risco e que os fortes sobrevivam. É horrível, é pavoroso, é bárbaro, mas por trás disso tem uma ideia de justiça. E é com isso que nós precisamos lidar”. ↩︎
- “É um processo de pilhagem, é um processo de saqueio, é um processo de subordinação total dos inferiores pelos superiores e eu os convido a participar desse processo. Então, eu digo a verdade e prometo-lhes – e claro que Hitler, nesse sentido, poderia estar mentindo, como qualquer gangster – eu lhes prometo a participação nos lucros (…). Ora, se nós voltarmos ao nosso ponto de partida, ou seja, o bolsonarismo, o coração do bolsonarismo, o significado do bolsonarismo, o que ele está prometendo? Exatamente a mesma coisa. E, nesse sentido, bom, eu dou uma colher de chá para aqueles que falam em fascismo”. ↩︎
- “Quando o bolsonarismo diz isso, ele está repetindo essas duas palavras-chave indicativas do fim de linha que nós chegamos, que é isto: a vida é um horror, este horror é da natureza das coisas e quem for forte o suficiente para, dele participando, conseguir vantagens relativas à sua posição hierárquica no sistema, será recompensado por seus próprios méritos, por ter tido a coragem de encarar essa verdade, da qual não está excluída a sua autodestruição (…). Nós estamos caminhando para uma república cristã fundamentalista de extrema-direita. E essa república […] está associada, em regime de condomínio, ao assim chamado crime organizado. Na verdade, é um racketeering, é uma extorsão, é um butim, é uma pilhagem. Isso será facilitado pelo aparelhamento institucional renovado que vou lhes oferecer, uma vez reeleito. Esforcem-se, tenham coragem, enfrentem a morte, vão à luta, trabalhem até morte – ou trabalhem até a sobrevivência – que vocês serão recompensados, ou pela mera sobrevivência enquanto tal, pois se trata de um sacrifício – e esse sistema econômico é sacrificial –, ou então pela participação na pilhagem. Nós vamos todos pilhar, das periferias até a Amazônia. Todos seremos garimpeiros ilegais, madeireiros ilegais, agronegócio propriamente dito, e por aí vamos. Uma sociedade de empreendedores, de cunho religioso, de extrema-direita em parceria com o crime organizado, é isto: é a verdade”. ↩︎
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