Para uma crítica do fascismo

Permanências e atualizações

“Carabinieri” (1957), do pintor fascista Pippo Rizzo. Fonte: WikiCommons

Por Denise Narli da Silveira

O fascismo não desapareceu com a derrota dos regimes que marcaram tragicamente o século XX. Embora suas manifestações históricas mais conhecidas estejam associadas à Itália de Mussolini e à Alemanha nazista, determinadas estruturas políticas, culturais e simbólicas que favoreceram sua emergência permanecem ativas. Reconhecer essas permanências não significa identificar qualquer manifestação autoritária com o fascismo, mas compreender como mecanismos de dominação podem adquirir novas formas, linguagens e tecnologias, inclusive no interior de sociedades formalmente democráticas.

Em O fascismo eterno, Umberto Eco (2018) adverte que o fascismo não constitui uma doutrina inteiramente coerente. Sua força reside justamente na capacidade de reunir elementos contraditórios, mobilizando afetos, ressentimentos e representações coletivas. O culto à tradição, a recusa do pensamento crítico, o medo da diferença, a obsessão por conspirações e a construção permanente de inimigos integram aquilo que o escritor italiano denominou Ur-Fascismo. Essas características não precisam aparecer simultaneamente para que se reconheçam tendências preocupantes de reorganização autoritária da vida política.

O problema, portanto, não consiste apenas em perguntar se o fascismo pode retornar, mas em investigar de que maneira suas disposições sobrevivem e se atualizam. Sua permanência não depende necessariamente da reprodução de uniformes, símbolos ou instituições do passado. Ela pode manifestar-se na naturalização da violência, na desqualificação da pluralidade, na fabricação de ameaças e na mobilização política de sentimentos de medo e pertencimento.

É nesse horizonte que o pensamento de Hannah Arendt, Walter Benjamin e Giorgio Agamben oferece instrumentos decisivos para ampliar o diagnóstico de Eco. Embora partam de problemas distintos, suas reflexões permitem compreender como a propaganda, a estetização da política e a normalização de mecanismos excepcionais podem contribuir para a erosão da experiência democrática.

Em Origens do totalitarismo, Hannah Arendt (2012) investiga as condições históricas que possibilitaram a emergência dos movimentos totalitários, destacando a importância do imperialismo, do racismo, da desagregação dos vínculos sociais e da transformação dos indivíduos em massas politicamente isoladas. A solidão, nesse contexto, não representa apenas uma experiência subjetiva, mas uma condição política que compromete a capacidade de compartilhar o mundo com outros.

A propaganda totalitária explora essa desagregação ao oferecer explicações aparentemente coerentes para uma realidade marcada por contradições. A complexidade dos acontecimentos é substituída por narrativas fechadas, nas quais todos os conflitos encontram uma causa única e todos os adversários podem ser reunidos sob a figura de um inimigo comum. A verdade factual perde importância diante da eficácia de uma interpretação que promete restaurar a ordem e devolver às massas uma identidade supostamente perdida.

Essa reflexão adquire atualidade diante da circulação sistemática de desinformação e da formação de comunidades políticas organizadas em torno da hostilidade. As plataformas digitais não produziram, por si mesmas, o autoritarismo, mas ampliaram as possibilidades de circulação de discursos que exploram ressentimentos, reforçam antagonismos e enfraquecem a confiança nas instituições. Quando o adversário deixa de ser reconhecido como participante legítimo do espaço público e passa a ser tratado como inimigo a eliminar, a própria experiência democrática encontra-se ameaçada.

Walter Benjamin permite compreender outra dimensão desse processo. Em seu ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, publicado originalmente na década de 1930, o filósofo identifica na estetização da política uma operação característica do fascismo. A mobilização das massas não se traduz necessariamente em transformação das relações sociais. Ao contrário, pode oferecer às multidões a expressão de sua identidade política enquanto preserva as estruturas de propriedade e dominação.

A política transforma-se, assim, em espetáculo. A exaltação da liderança, a coreografia das multidões, a monumentalização da força e a produção de imagens de unidade nacional convertem a participação coletiva em experiência de aclamação. A técnica, que poderia ampliar as possibilidades de emancipação, passa a organizar a percepção sensível segundo os interesses do poder.

Na contemporaneidade, essa dinâmica encontra novas condições de reprodução. A circulação incessante de imagens, a personalização das lideranças e a transformação dos conflitos políticos em acontecimentos midiáticos favorecem formas de identificação que dispensam a reflexão. A visibilidade torna-se critério de legitimidade, enquanto a repetição de slogans e imagens tende a substituir a argumentação pública.

A crítica benjaminiana, entretanto, não se limita à denúncia da manipulação estética. Ao contrapor a politização da arte à estetização da política, Benjamin aponta para a possibilidade de transformar os meios de produção cultural em instrumentos de crítica e emancipação. Sua reflexão sobre a história também recusa a crença de que o progresso técnico corresponda necessariamente ao progresso humano. A experiência histórica dos oprimidos revela que a barbárie não constitui uma simples interrupção da civilização, mas pode desenvolver-se no interior de suas próprias realizações.

Interromper essa continuidade é uma exigência política. A imagem benjaminiana do freio de emergência permite pensar a resistência não como espera passiva por um futuro melhor, mas como intervenção capaz de suspender processos históricos que naturalizam a violência e a destruição.

Giorgio Agamben aprofunda esse problema ao investigar as relações entre soberania, direito e estado de exceção. Em Estado de exceção (2004), demonstra como medidas justificadas por situações extraordinárias podem converter-se em técnicas recorrentes de governo. O perigo emerge quando a suspensão de garantias jurídicas deixa de representar uma resposta limitada a circunstâncias excepcionais e passa a integrar o funcionamento ordinário das instituições.

Essa perspectiva não autoriza a equiparação indiscriminada entre democracias contemporâneas e regimes fascistas. Permite, contudo, examinar criticamente a expansão de práticas securitárias, a concentração de poderes e a utilização de situações de emergência para restringir direitos. A permanência de dispositivos excepcionais constitui um problema político precisamente porque pode enfraquecer os limites jurídicos impostos ao exercício do poder.

Em O reino e a glória (2011), Agamben também investiga a importância da aclamação na legitimação das estruturas de governo. A produção pública do consenso, a celebração das autoridades e os rituais de reconhecimento constituem dimensões simbólicas do exercício do poder. Essa genealogia oferece uma perspectiva fecunda para interpretar as formas contemporâneas de exposição e legitimação política.

Nas plataformas digitais, a aclamação assume novas configurações. Curtidas, compartilhamentos e manifestações instantâneas de adesão podem converter-se em indicadores de força política, enquanto a circulação algorítmica de conteúdos intensifica disputas pela atenção. Não se trata de reduzir a comunicação digital a um mecanismo de dominação, mas de reconhecer que seus dispositivos podem favorecer formas de mobilização baseadas mais na reação afetiva do que na deliberação.

O diagnóstico de Umberto Eco encontra aqui sua dimensão mais inquietante. O fascismo não precisa reaparecer com a mesma aparência para reativar disposições autoritárias. A recusa da diferença, a transformação do dissenso em traição e a necessidade permanente de produzir inimigos podem instalar-se progressivamente na linguagem cotidiana, tornando aceitáveis práticas anteriormente reconhecidas como incompatíveis com a democracia.

No Brasil, a experiência recente do bolsonarismo tornou particularmente visíveis algumas dessas dinâmicas. A retórica do inimigo interno, os ataques reiterados à credibilidade do sistema eleitoral, a circulação de teorias conspiratórias e a mobilização de valores nacionalistas e moralistas evidenciam a importância de investigar as aproximações entre movimentos contemporâneos de extrema-direita e características identificadas por Eco. A análise exige atenção às particularidades históricas brasileiras, sem apagar as diferenças entre esses movimentos e os regimes fascistas do século XX.

O desafio consiste em compreender como sociedades democráticas podem produzir, tolerar ou normalizar práticas que corroem suas próprias condições de existência. A democracia não se reduz à realização periódica de eleições. Ela pressupõe a pluralidade, a preservação dos direitos, a possibilidade do dissenso e a existência de um mundo comum no qual os conflitos possam ser politicamente elaborados.

Por isso, a crítica do fascismo não pode restringir-se à memória de suas manifestações históricas. É necessário reconhecer suas atualizações nos discursos, nos afetos, nas imagens e nos dispositivos que organizam a experiência coletiva. A defesa da democracia exige também enfrentar as condições materiais de desigualdade, exclusão e insegurança que podem ser instrumentalizadas por projetos autoritários.

As contribuições de Arendt, Benjamin, Agamben e Eco convergem, nesse ponto, para uma tarefa crítica: recuperar as condições da experiência política compartilhada. Reconstruir o mundo comum, interromper a estetização da violência, questionar a naturalização da exceção e identificar os sinais de reorganização do fascismo são operações distintas, mas complementares.

Resistir não significa apenas denunciar o autoritarismo depois que ele se consolida. Significa disputar a linguagem, as imagens, a memória e as possibilidades de imaginar outras formas de vida coletiva. Se o fascismo se alimenta da fabricação de inimigos e da destruição da pluralidade, a resistência começa pela restituição da política como espaço de ação, pensamento e convivência entre diferentes.

A questão decisiva, portanto, não é apenas impedir o retorno do passado, mas interromper, no presente, as condições que tornam possível sua repetição. Pensar criticamente o fascismo é recusar que a violência se converta em normalidade e que a história dos vencedores seja confundida com o único futuro possível.


Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. São Paulo: Boitempo, 2004.

AGAMBEN, Giorgio. O reino e a glória: uma genealogia teológica da economia e do governo. Tradução de Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2011.

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. Tradução de Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 2012.

ECO, Umberto. O fascismo eterno. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2018.


*** Denise Narli da Silveira é professora e pesquisadora. Doutoranda em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), desenvolve uma investigação sobre as implicações políticas da arte no pensamento de Walter Benjamin e Giorgio Agamben, com foco no conceito de gesto poético.


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