O pesado clima das urnas
Alagamento em Brasília. Fonte: Agência Brasil
Por Emanuel Alencar
Mesmo que o presidente Lula consiga uma surpreendente e inédita virada na segunda rodada presidencial, temos um fato inconteste que já marcou a corrida eleitoral deste mordaz 2026: a acachapante derrota das candidaturas ambientalistas. A ministra Marina Silva, que vinha bem nas pesquisas, acabou fora do Senado por São Paulo. Carlos Minc, expoente da luta verde no Rio, ficou sem mandato. Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama no atual governo federal, viu sua votação para a Câmara dos Deputados derreter a reboque do conservadorismo paulista. São apenas alguns exemplos. Uma dissonância cognitiva — termo da moda — nos assola, enquanto o planeta aquece e os alertas superam todos os limites aceitáveis. Numa alegoria, é como se emulássemos o comportamento da pessoa que sabe que o cigarro faz mal à saúde, mas continua fumando dois maços por dia.
A extrema direita que nega a crise climática avança — o domínio no Congresso é avassalador — ao mesmo tempo em que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lança um relatório dizendo que, “até o fim da década”, o mundo poderá atingir um aquecimento global de 1,5 °C, ultrapassando-o nas décadas seguintes. Para ficarmos em apenas alguns exemplos, esse “novo normal” indica o colapso da floresta amazônica, a morte de recifes de coral, o esfacelamento dos mantos de gelo da Groenlândia e do Oeste Antártico e o derretimento do permafrost, o solo congelado e riquíssimo em carbono do hemisfério Norte.
Sedutor, o discurso “antissistêmico” bolsonarista tem ressonância global. É nutrido e alimenta uma poderosa rede. A negação climática não é mero efeito colateral: está no centro do modus operandi da extrema direita. Trump já chamou a crise dos extremos climáticos de “a maior farsa já imposta ao mundo”. Para o tresloucado Javier Milei, chefe do governo argentino, “todas essas políticas que culpam o ser humano pela mudança climática são falsas e buscam arrecadar fundos para financiar socialistas que não gostam de trabalhar”. Em uma de suas primeiras grandes ações de governo, a administração do superdireitista chileno José Antonio Kast revogou 43 decretos ambientais herdados da gestão anterior de Gabriel Boric.
Flávio Bolsonaro, porta-voz brasileiro dos extremistas, não tem vergonha em negar o aquecimento global na TV Globo. O faz porque tem amparo: os movimentos negacionistas são bem estruturados mundo afora. Uma reportagem do jornalista Joe Fassler, publicada no final de outubro de 2024 no portal “DeSmog” com o título de “The Friendly New Face of Dark Money” (“A Nova Face Amigável do Dinheiro Oculto”), revelou que, desde 2020, as divisões de fundos de doadores de empresas como Fidelity, Schwab e Vanguard canalizaram mais de US$ 171 milhões em doações anônimas para organizações sem fins lucrativos focadas no negacionismo climático.
O colapso do planeta — que afetará primeiro a população mais pobre e vulnerável — implica posturas firmes, que vão na contramão do fortalecimento da indústria dos hidrocarbonetos. A discussão está embotada. Mesmo partidos de esquerda e progressistas no Brasil parecem ter abandonado a pauta. Quem teima em alertar tem colhido dissabores nas urnas. É como se a questão climática, tão central e urgente, estivesse dissociada do debate sobre transportes não poluentes e baratos, do saneamento básico, da habitação, da inclusão social.
Vivemos no trágico vórtex da “Tragédia dos Comuns”, conceito consolidado pelo ecologista americano Garrett Hardin, em um ensaio publicado na prestigiada revista “Science”, há exatos 60 anos. A base do raciocínio é simples: indivíduos agindo racionalmente em interesse próprio acabam destruindo o recurso coletivo de que todos dependem. “A Terra não precisa de nós. Nós é que precisamos dela para continuar existindo”, já alertou nosso Ailton Krenak. Que a pauta climática e ambiental volte a ganhar o debate público. O punhado de grãos de areia na parte superior da ampulheta está a cada dia menor.
*** Carioca criado na Tijuca, Emanuel Alencar é jornalista formado pela UFF, mestre em Engenharia Ambiental pela UERJ e gestor ambiental. Ao longo de duas décadas, passou por redações como O Globo, O Dia e O Fluminense, integrou a equipe do Museu do Amanhã e atuou na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. É fundador do movimento Respira, Rio!, que luta por transformações socioambientais concretas na cidade. Autor dos livros “Baía de Guanabara — Descaso e Resistência” e “Histórias do Mangue da Guanabara”, Emanuel acredita que cuidar do meio ambiente é cuidar das pessoas — especialmente das mais vulneráveis.
PARA SE APROFUNDAR NO TEMA
Terra viva: Minha vida em uma biodiversidade de movimentos, autoria de Vandana Shiva
Autora de importantes obras que discutem os ataques ao meio ambiente por grandes empresas e o efeito desastroso de um mau uso do solo, a doutora em física quântica e ativista ambiental Vandana Shiva faz nesse livro uma volta a suas raízes, revendo uma trajetória que acabaria por definir os movimentos em que se engajou. Assim, ela aborda fases como a infância rural vivida na Índia, sua criação na fazenda dos pais em meio às florestas, a educação libertária que recebeu deles, passando pela mudança de vida e de perspectiva que teve ao entrar na faculdade e viver em grandes centros urbanos na Índia e no exterior. Tudo isso culminando na descoberta dos movimentos de luta em defesa da natureza e dos povos nativos e de sua influência na política ambiental mundial.
A educação ambiental anticapitalista: produção destrutiva, trabalho associado e agroecologia, autoria de Henrique Tahan Novaes
A educação ambiental anticapitalista, nova obra do educador Henrique Tahan Novaes, apresenta as ideias mais importantes sobre agroecologia, produção associada, ecossocialismo e pedagogia socialista no Brasil e no mundo, juntamente com práticas de movimentos sociais, enfatizando o trabalho do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST.
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A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política
Muryatan Santana Barbosa
Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.

Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.
Com uma forte trajetória intelectual que trafega entre a pesquisa acadêmica e o debate político, Muryatan oferece em A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, uma contribuição original às discussões contemporâneas sobre colonialismo, emancipação e teoria política.

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