A impotência do “eu já sabia!”
Por Douglas Barros
Conta uma das versões do antigo mito que Cassandra, uma pitonisa do templo de Apolo, encantou o deus. Violentamente apaixonado, Apolo estava disposto a lhe conceder tudo. Já a moça, mesmo não se interessando pelos seus encantos, fez com que ele jurasse pelo rio Estige que lhe concederia o dom da profecia caso ela cedesse aos seus agrados. Após as juras, porém, Apolo compreendeu que ela não cederia ao seu prazer. Nesse momento, impedido de voltar atrás na promessa, o deus lhe deu algo a mais: ela teria o dom da profecia – como ele havia jurado –; no entanto, ninguém acreditaria em suas visões. Foi assim que (como narra Ovídio nas Heroides, carta 16) quando Páris preparava sua expedição a Esparta, Cassandra o advertiu sobre as chamas que ele estava prestes a buscar e a consequente tragédia que se abateria sobre seu povo. Advertência que seria ignorada como tantas outras. Cassandra sabia e, no entanto, de nada adiantava.
A maldição de Cassandra pode ser interpretada de múltiplas formas: a solidão a que a descrença em suas palavras a condena é uma delas. Talvez, porém, uma das formas mais interessantes de refletir sobre seu alcance esteja no fato de que essa maldição fez com que a comunidade rompesse os laços com Cassandra. Talvez seja essa a lição mais importante para nós, Cassandras modernas: assim como Cassandra, continuamos pertencendo à comunidade cujo destino fomos capazes de prever, mas nosso saber já não nos permite estabelecer com ela uma relação efetiva. Isolados e desacreditados, restamos impotentes diante de uma constatação desoladora: “eu já sabia”.
Percebemos que o conhecimento do destino comum não garante a capacidade de intervir nele. Pelo contrário, muitas vezes somos tidos como aqueles que sempre quebram “a moral da tropa” e que, sobretudo, precisam se calar. A verdade é que esse “agora” já se arrasta há várias décadas, durante as quais criticar passou a depender mais da “correlação de forças”, e não da consistência de um argumento. O resultado desse processo é que o silenciamento da crítica deu ainda mais forças ao inimigo. O problema não foi o de considerar as condições políticas, mas transformá-las em justificativa permanente para impedir a crítica
Observando o ocaso em que agora estamos – após mais de vinte anos em que o PT se tornou o centro da política nacional –, não é difícil perceber que a avaliação estratégica das condições de luta deixou de ser orientada pela crítica e passou a funcionar como justificativa permanente para adiá-la. As Cassandras foram silenciadas em nome da necessidade de preservar forças, mas esse próprio silenciamento parece ter sido um dos fatores que fortaleceram o inimigo de classe.
Por outro lado, nós, as Cassandras, não fizemos muito além de nos lamentar. E, sob esse aspecto, não devemos nos furtar à autocrítica: há um gozo na maldição, sobretudo se estivermos confortavelmente instalados em nossos departamentos. É até reconfortante saber que Troia será arruinada da janela de um palácio ou… de um departamento. Sobretudo se, moralmente superiores, essa posição nos der a sensação de estarmos do lado certo com a crítica correta.
O resultado veio com a emergência do real na política. Quer dizer, sabíamos que a política não deixa espaço vazio e que a aposta na gestão seria insuficiente, mas não sabíamos como intervir na realidade efetiva, pois o alcance de nossas ideias havia sido minado. Movimentos sociais e sindicatos foram sendo capturados pela gestão estatal, ao passo que se perdia cada vez mais a capacidade de refletir sobre a diferença entre a finalidade declarada de uma política e a lógica social em que ela passa a operar. Sobretudo quando o imaginário social se condensou sob o imperativo da competição universal.
A política passou, então, a ser ocupada pelos adversários, que não apenas reforçaram esse imaginário, mas também exploraram os limites da posição institucional à qual a própria esquerda se confinou. Nós, as Cassandras, acompanhamos atônitos, desde 2013, o movimento de ascensão aparentemente irrefreável da extrema-direita. Confinados nas torres – que não eram de marfim –, lançávamos impropérios que anunciavam o colapso iminente da esquerda enquanto perspectiva de transformação social.
Condenados à irrelevância, separados decisivamente – e, em muitos casos, de maneira engajada – da realidade social da maioria, alimentávamos a luta de nós com nós mesmos. Assistíamos impotentes o abandono da gramática política pela gramática da gestão do capital e intuíamos que o ocaso dessas expectativas organizadas a partir de um capitalismo de crise iria chegar ao fim.
Esse fim foi dilatado no tempo: faz treze anos que ele chegou. E, claro, por outro lado, é preciso levar em consideração que a esquerda da ordem fez de tudo para silenciar as tão evidentes profecias. Entretanto, como Cassandras, sabemos que o “eu já sabia” é miserável em seu esplendor. Se somos Cassandras modernas, também sabemos que o único deus que nos condenou foi o capital, cujo culto à gestão, promovido pela esquerda institucional, lhe prestou tremendos favores.
Dizem que quando Cassandra chegou em Micenas, como prisioneira e concubina de Agamêmnon, após a queda de Troia, teria previsto que ambos seriam assassinados por Clitemnestra – a esposa de Agamêmnon. Prevendo seu fim, mesmo sabendo que morrerá, Cassandra afirma que não há escapatória e que fugir já lhe seria pouco proveitoso. O coro lamenta que ela conheça a própria morte e, ainda assim, não possa escapar dela. Estamos todos, neste momento, engajados em evitar o mal maior, (e contrariando a Cassandra do mito, esta que vos fala não quer entrar no palácio). Que merda!
*** Douglas Rodrigues Barros é psicanalista e participa do Fórum do Campo Lacaniano. É doutor em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor na pós graduação em filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. Escritor com três romances publicados é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).
ASSINE O ARMAS DA CRÍTICA

A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política
Muryatan Santana Barbosa
Neste ensaio conciso, que combina profundidade filosófica, pesquisa acadêmica e intervenção crítica, Muryatan Barbosa apresenta aos leitores uma teoria política da descolonização — o que ele chama de “descolonização autodeterminada” — como alternativa às abordagens pós-coloniais, decoloniais e contracoloniais que atualmente dominam os debates contemporâneos. Para o autor, a autodeterminação dos países do Sul global só é possível com a construção de macronações autônomas no médio e longo prazo.

Abordando a descolonização como um fenômeno global e de longa duração, o livro examina as experiências americanas e afro-asiáticas. Dividido em duas partes — uma teórica e outra histórica e empírica —, a obra investiga os desafios políticos e conceituais impostos por esse processo, ao mesmo tempo em que busca atualizar e renovar o pensamento anticolonial e anti-imperialista.
Com uma forte trajetória intelectual que trafega entre a pesquisa acadêmica e o debate político, Muryatan oferece em A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, uma contribuição original às discussões contemporâneas sobre colonialismo, emancipação e teoria política.

ASSINE ATÉ 16 DE OUTUBRO E RECEBA EM CASA
📕📱 Livro A descolonização que está por vir: ensaio de teoria política, de Muryatan Santana Barbosa, em formato impresso e e-book
🎁 Livreto O Futebol como Arte, de Raí Oliveira.
🎁 Adesivo e marcador de páginas exclusivos
📰 Materiais multimídia para expandir a leitura
🛒 30% de desconto em todos os livros da Boitempo em nosso site
Descubra mais sobre Blog da Boitempo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário